Christo não volta (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)
Part 2
N'esse mesmo anno foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por toda a parte o rastro de gloria que ella abrira ao passar por entre a admiração britannica.
Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle.
Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do _Matrimonio segretto_, com as duas maiores notabilidades cantantes da epocha,--a Sontag e a Damoreau-Cinti.
A vida do nosso _touriste_ foi, durante o tempo que seguiu a Malibran, uma serie de viagens,--as mesmas que ella fazia,--de ceias, de _pic-nics_, de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os falsos sorrisos desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem, foi um inferno de ciume.
Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de quem lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu desarrasoado; mas diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra onde ha theatros.
Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se perdidamente amado, e perdidamente namorado.
Duplo erro!
O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico, as ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas architectada sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a _gloria_.
Mas--desapontamento horrivel!--o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou.
Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre violinista Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis.
Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice de um conviva.
Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e não o havia offendido.
Desistiu.
Amuou, corou, empallideceu, começou a tornar-se ridiculo.
Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e apresentou-lhe a Lablanche, que estava á mesa.
Coruscou no cerebro de X a ideia da vingança. Começou a galantear a Lablanche, a ponto de que em 1832 percorreram todos a Italia: Malibran, Lablanche, Beriot e X.
Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao mesmo passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na epocha em que o corpo se involve na ampla capa de D. Juan?
Um beneficio recebeu porém d'esse divagar pelos prazeres ruidosos. Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o unico meio de conhecer a unica coisa que desconhecia,--a familia. Entrou no lar pela porta do casamento quando pela janella sahia a extravagancia ainda desgrenhada das ceias e de charuto na bocca.
A proposito de charuto, meu amigo: de-me tempo de fumar um.
VI
Continuemos a fallar do pai da nossa gentil desconhecida.
Acabei o charuto: podemos conversar por um pouco.
O amor completou a regeneração que a experiencia do mundo principiara.
Casou.
No coração da esposa encontrou thesouros de raras virtudes. Alvoreceu-lhe em torno uma aurora de tão doce luz, que pela sua mesma suavidade desbancava as scintillações crystallinas das ceias, e os clarões que illuminavam em scena a figura da Malibran.
Toda a gente o presumia ainda rico: a verdade era que a realidade não correspondia á opinião publica.
Havia gastado como um principe russo. A capa de D. Juan não tem bolso, de modo que emquanto as mãos tangem o bandolim da aventura vai o dinheiro cahindo no chão.
Casado, encarou com mais gravidade no seu futuro, e achou que não podia aguentar-se nas pompas de Lisboa.
O casamento tem quasi sempre isso de bom: desperta a consciencia adormecida pela crápula.
Pediu informações aos feitores, e as informações confirmaram a suspeita.
Chamou á puridade a esposa e disse-lhe:
--Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidencia, mas devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se suppõe. Gastei muito, quasi esbanjei na sociedade o patrimonio da familia. Quero porém que tu vivas feliz, e para attingir a tua felicidade apenas encontro abertos dois caminhos: ou o trabalho honesto ou a tranquilla solidão. Se desejas viver no extrangeiro, poderei obter uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu paiz, temos que recolher-nos á provincia, e viver na doce tranquillidade que o mundo da capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua vontade será lei.
A resposta foi esta:
--Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a tem; tel-a-hemos lá. A vida no extrangeiro seria a prolongação da tua mocidade; ora eu tenho direitos incontestaveis ao teu coração. Quero-o, pois. E onde melhor o possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada a porta, seremos nós os unicos habitantes do nosso mundosinho de felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem sabes como me sinto alegre! Quanto mais te distanciares do passado, menos ciumes terei d'elle. Vamos lá.
Foram.
O solar, construcção coeva dos primeiros tempos da monarchia, era mais acervo de ruinas que palacio de nobres. As pedras haviam-se desconjunctado, e a hera marinhava pelas fendas até ensombrar as janellas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos carceres. As salas, denegridas pelo tempo, eram d'uma vastidão que punha medo. A mobilia, tão deteriorada como o edificio, tinha o aspecto funebre de phantasmas que á meia noite se fossem sentar encostados ás lousas do cemiterio. Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos intervallos como ossadas de gigantes carbonisadas em forja de cyclopes. Por entre a escuridão e o silencio da casa algum pipillar d'andorinhas, que penduraram o ninho entre as ruinas. Tambem ás vezes no cemiterio, no meio da concava sombra dos chorões, assim chilriam uns passarinhos que fogem quando presentem gente, porque estão habituados ao socego das campas.
As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma coruja fôra piar a uma das janellas do solar. A pobre senhora estremeceu e chorou.
Acudiu o marido a abraçal-a meigamente.
--Tinha sido melhor, disse elle, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite...
--São os nossos unicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é completamente sepulcro, a ellas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas me bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que tivesse medo. Não te inquietes...
--Não, anjo, não. É preciso sahirmos d'aqui...
--Para o extrangeiro não, não?
--Socega, filha. Pois que estes montes te amedrontam menos que estas paredes, e que te resignas ao sacrificio, ficaremos. Limitar-nos-hemos a mudar de casa. Amanhã tractarei de ajustar a edificação d'um predio que tenha em conchego o que aqui perdemos em vastidão. Bem vês que mais nos aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a todo o instante. E depois, como sabes, o berço das creanças costuma ser pequenino, e tu vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso filho. Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o berço... Queres?
--Se quero!
VII
Construida a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas janellas com os murmurios e os olôres de fóra.
Ficara deserto o solar na eminencia em que assentava. Negrejava como o cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruinas do passado, os escombros do feudalismo que dormiam o seu somno de seculos; o _cottage_ do laranjal era alegre como a liberdade estensiva a nobres e plebeus:--aos nobres, porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos plebeus, porque já não eram servos de gleba.
As corujas invadiram as ruinas em competencia com as trepadeiras que bracejaram desaffogadamente, e as pavidas visões da esposa de X ficaram lá sepultadas para nunca mais a perturbarem emquanto costurava o enxovalsinho da creança que ia nascer.
O fidalgo pasmava do poder regenerador da familia, que lhe tinha raspado da alma a ultima lepra da extravagancia. Não via mais mundo do que aquelle. Andava a toda a hora a olhar para o berço vasio, ancioso de vêr sobre o travesseiro o relevo d'uma cabeça pequenina. Não faltava já o lençol de rendas nem a coberta de damasco: o que faltava era a creança. Pozessem alli dentro uma alma, e a felicidade ficaria completa.
Chegou finalmente o dia de se realisar o venturoso sonho. Desdobrou-se a cobertasinha adamascada, acamaram-se as rendas para não maguar o corpinho delicado, e ali dormiu a creança o primeiro somno velada pelo pai que nem ousava beijal-a para não a maguar.
Aos cinco annos a creança tinha já um portesinho senhoril que era de namorar os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabellos annelados e auri-luzentes; o pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto.
E chilreava, e esvoaçava, como se tivesse a casa por gaiola.
Á medida que a pequerrucha ia crescendo, crescia com ella o amor paternal. Sorriam de a vêr sorrir, e choravam de a vêr chorar.
O grande receio era de que morresse.
Esta é a loucura de todos os pais.
Querem roubar á tyrannia da morte uma vida que lhes não pertence. Esquecem-se de si mesmos para se absorverem n'uma existencia que não lhes é essencial, mas complementar.
Não a eduquem á revelia, deixando-a entregue aos instinctos bons e maus que nascem com ella. Visto que o filho é o complemento dos pais, completem-se pelo filho. Adaptem-n'o, quanto possivel, á sua maneira de pensar e sentir; façam d'elle a coda da santa melodia chamada familia. Não se riam de que a creança faça aquillo que elles nunca fizeram. Não lhe applaudam o bater com o pésinho no chão, o desfolhar as flores que lhe são defezas, o mexer nos objectos que devem respeitar. Bater com o pé no chão é a principio um movimento mechanico, nervoso. Com o decorrer do tempo corresponde ao movimento uma ideia má e um mau sentimento. Então esse acto já não é mechanico simplesmente; é a manifestação da raiva, do desespero, do odio. A esta perniciosa educação é preferivel a morte. As plantas novas tomam o geito que lhes dão. Deixem crescel-as sem enleial-as, que ellas assombrarão todo o pomar.
Ora o amor é cego, e não vê nada para fóra de si.
Foi isto o que aconteceu.
A creança cresceu com a mulher. Os pais, para que outro amor lh'a não roubassem, deram de mão a todas as visitas de gente moça. As unicas relações que se conservaram foram as do voltarete: eram duas. O capitão-mór tinha cincoenta e cinco annos; tinha além d'isto rheumatismo e oculos azues. O outro parceiro era um morgado de quarenta annos, que estivera em Pariz com o pai da menina e _servira de capa_ a varias escaladas. Tinha casado e parecia um homem morto. O casamento tem tanto de bom como de mau: é como os carceres. A uns presos aproveita a reclusão; outros sahem da cadeia mais desmoralisados.
Os primeiros estavam representados em X; os segundos no morgado.
Bem casados e mal casados, diz o mundo.
O amigo do fidalgo tinha _verve_ e bigode: duas tentações.
Ainda sabia dar o laço da gravata: um mau symptoma.
Fumava charuto: um perigo.
Contava das suas viagens, dizia que tal cantora, que conhecera, tinha os olhos bonitos e as unhas feias; que o nariz da Malibran não era tão correcto como o pescoço: uma desgraça.
N'uma palavra: era entendedor.
A menina da casa, emquanto elles jogavam, estava por ali.
E o peior que podia acontecer n'aquella casa era o entendedor estar lá.
Por mais que elle quizesse dominar o seu temperamento, ser bom e digno, leal e cavalheiro, o coração, que estava comprimido nas reixas conjugaes, aproveitou a occasião e poz a cabeça fóra da grade a pedir esmola d'amor.
A inexperiente menina ouviu-o, sem saber o que fazia.
Tinham-n'a ensinado a não fugir d'aquelles dois homens: não fugiu.
VIII
Mau é brincar com fogo: o incendio irrompe.
O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que tinha os dentes alvissimos, os olhos formosos, os cabellos soberbos.
A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente pela amena eloquencia do unico homem estranho que fallava n'aquella casa.
Era elle o unico orador dos serões intimos; a unica voz que sobrepujava o fremito das cartas na mesa do voltarete.
Depois a menina lisongeava-se de que um homem, que tinha corrido o mundo, e conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a conceituasse intelligente e gentil.
Estava-se preparando n'aquelle seroar despreoccupado a ruina de Troya.
O apartamento é um mau systema de educação. A borboleta, que não conhece o perigo da chamma, arroja-se á luz.
Era melhor tel-a avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse possivel.
Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as confidencias.
A menina ouviu e acreditou.
Começou-se a dizer por fóra que a menina era amada pelo morgado.
Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado.
Decorreu tempo, e a menina deixou de sahir a passeio; ao mesmo tempo o morgado deixou de ser assiduo.
A menina fez-se triste; o morgado andava preoccupado.
Luctavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha commum.
Foi n'essa epocha que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos que se ventilavam nos tribunaes.
Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o escandalo.
O morgado prometteu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar depois de recolhidas grossas quantias, cujo embolço dependia da solução do pleito, a seu vêr bem encaminhado, para se passarem ambos a Hespanha.
Houve porém uma camponeza que os viu estarem-se despedindo em logar afastado. Contou-o á noite á lareira. A revelação da camponesa espalhou-se. Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do morgado.
Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incendio, e mandou um portador com uma carta á mãe da menina.
Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente.
Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando á janella do seu quarto.
O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou.
O mensageiro, que trazia recommendação, não fez caso.
Sahiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lagrimas nos olhos e na voz que lhe entregasse a carta e fosse dizer á morgada que a havia depositado nas mãos de sua mãe.
--Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se tivesse uma filha, seria mais clemente.
O mensageiro era pae: entregou-lhe a carta.
A menina leu-a, e cuidou morrer d'afflicção e vergonha.
Dizia a morgada que as senhoras da terra,--as quaes eram amantes de varios morgados casados,--já não levantariam o olhar, se a encontrassem nos caminhos, para a amante de seu marido.
Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus Christo não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias peccadoras se arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta.
De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda os vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres adulteras erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em que ellas estão.
A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o bilhetinho que já tivemos occasião de lêr.
Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho.
Onde ia a pobresinha?
Procurar o morgado ao Porto.
Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas das serras, rompendo a escuridão, arquejante, timida do menor ruido, resoluta da coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze horas da noite, cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras.
N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais que se passou.
Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.
A gentil desconhecida, como a principio eu lhe chamava, tornou em si depois de empregados muitos esforços para reanimal-a. Meu tio padre, chamado por mim precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de recolher a menina em sua casa, e de negociar a sua entrada no convento de *, onde se enclausurará depois que seja mãe.
O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas no _Primeiro de Janeiro_, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu pressa em partir, e em me convidar á entrevista que acceitei.
Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta tremenda lição.
Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva?
Viva para si mesma, e morta para o mundo.
Que desgraça!
Ah! Christo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria amerciado de tantas miserias humanas!
FIM.