Christo não volta (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)

Part 1

Chapter 13,802 wordsPublic domain

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CHRISTO NÃO VOLTA

(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)

NARRATIVA

POR

ALBERTO PIMENTEL

Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo?

CAMILLO CASTELLO-BRANCO.

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON 96, Largo dos Clerigos, 98 PORTO

EUGENIO CHARDRON 4, Largo de S. Francisco, 4-A BRAGA

1873.

PREÇO, 200 réis.

CHRISTO NÃO VOLTA

CHRISTO NÃO VOLTA

(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)

NARRATIVA

POR

ALBERTO PIMENTEL

Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo?

CAMILLO CASTELLO-BRANCO.

LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON

96, Largo dos Clerigos, 98

PORTO

EUGENIO CHARDRON

4, Largo de S. Francisco, 4-A

BRAGA

1873.

PORTO: TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA

Rua de Santa Thereza, n.º 4 a 6.

Cartas enviadas ao «Primeiro de Janeiro»

I

Castello de Paiva, junho de 1873.

MEU AMIGO.

Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planicies e montanhas que a uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nivel da corrente, outras erguendo-se ameaçadoras e aridas para o ceo, não me dispenso de contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei eu, se bem que mal possa ser chronista, porque estou ainda na commoção da surpreza.

Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castello de Paiva. Effectivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o que seria incomparavelmente mais rapido, porque me julguei obrigado, a bem de meus proprios interesses, a acompanhar o barco carregado por minha conta. Larguei do caes da Ribeira, cerca da meia noite, para aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o dia. Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os marinheiros e arraes almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de ramas de pinheiro, que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional bilha de barro vermelho.

Ahi me prophetisou o arraes que o termo da viagem seria moroso, porque não havia vento e o barco ia muito carregado.

Resignei-me.

Armou-se um tolde com a vela, accendi o meu cachimbo, bebi tambem, e comecei a lêr os jornaes que trazia no bolso, disposto a viver sobre agua o tempo que fosse preciso.

Oh! enfadonha coisa este ante-diluviano processo de locomoção! Digo ante-diluviano em rasão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande submersão da terra.

Li os jornaes de fio a pavio, como se diz não sei se em bom portuguez, reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os annuncios com uma soffreguidão de cannibal. Enguli e digiri todos os _barateiros_ e todos os _precisa-se_. Comprehendi então o que ha de profundamente triste em _precisar_; eu tambem precisava de chegar a casa o mais breve possivel e todavia a terra firme estava para mim como a agua para Tantalo. Vi-a; e tudo se ficava em vêl-a.

Foi-me anoitecendo ainda a grande distancia de casa. Custou-me a transigir com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me importava a mim o luar, a ardentia das aguas, as vaporações embalsamadas da natureza? Não sou poeta; já tive um pouco d'isso, é verdade, mas o que mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer á minha mesa, e calçar as minhas botas.

Finalmente não havia remedio senão conformar-me ás circumstancias; o homem nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e ha de ser perpetuamente o meu similhante.

Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Victoreiras. O arraes deu voz de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco á sirga e logo saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu bacalhau. Puxei do meu taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e outra fatia de queijo.

Depois que gregos e troyanos se banquetearam com o frugal repasto, tractou-se de acamar e dormir.

Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, tarauteando pelos narizes, em hymnos a Morpheu. Eu é que não nasci pagão; fui remisso em render culto á tetrica divindade mythologica. Mexi-me, remexi-me, rebuli-me e por mais d'uma vez accendi o meu rolinho de viagem para dar batalha a pulgas, persevejos e demais bicharia, que passava dos marinheiros para mim e de mim para os marinheiros.

Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito surdo como o de quem cahia contra o solo. Chamei afflictivamente os marinheiros, que despertaram roncando interrogações.

--Que foi? Que é? perguntaram elles.

--Ahi fóra cahiu gente!

--Quem havia de cahir, senhor!

--Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois.

--Um grito!

--Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza.

Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles accenderam o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas fragas á procura d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir alvarmente e a dizer que eu era dado a medo de bruxas. De repente pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei silencio. Os marinheiros trocaram entre si um olhar ironico, que para logo se volveu credulo, porque distinctamente ouviram um gemido.

--É alma perdida! disse um com voz tremula.

--É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se nos orientamos.

Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais debilmente. Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens, arrancando da mão d'um a lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um vulto estendido no chão. Baixei o lampeão e reconheci um corpo de mulher. Os marinheiros estavam attonitos e como que receiosos d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o corpo. E--surpreza extraordinaria!--vi uma bonita mulher, se bem que mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. Estaria viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como cadaver. Os marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a transportal-a ao barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os ferimentos e nem tempo tivemos--eu pelo menos--para pensar no extraordinario do acontecimento. Hoje é que eu, ainda que mal, reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja absurdo.

II

A formosa desconhecida continuava a estar immovel e fria, apesar dos cuidados que lhe prodigalisamos e que, attentas as nossas circumstancias, não podiam ser completos.

Sabe que eu não sou piegas nem romantico,--o que significa o mesmo, porque o romantecismo é a pieguice do espirito--mas confesso-lhe francamente que me horrorisaram a solidão, a escuridade, a massa negra das aguas e a massa negra das serras, o desamparo do homem entre a agua que é fria e a rocha que é dura, entre ambas que são mudas e surdas,--finalmente, o desagasalho, a impossibilidade de encontrar soccorro!

Como o Douro me pareceu differente d'aquelle extenso e caudaloso rio nosso conhecido, meu e seu, quasi sempre placido, povoado de barcos, animado de cantares, marginado de casinhas e campanarios que de longe a longe se penduram das fragas, n'uma palavra, accidentado de tons variados e por mais d'uma vez festivos!

Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saude. Vem a gente a lêr no barco, a fumar, a conversar os marinheiros, a incital-os a que cantem ao desafio, a comer a sua canja e a beber a sua pinga!

Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Victoreiras, e se vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquella enorme avalanche negra, informe, nem siquer lembra que os fraguedos, que se encastellaram um dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e precipitar-se alguma hora, por outra evolução imprevista. Contenta-se a gente com ouvir da bocca dos marinheiros uma tradição do sitio.

--Alli, dizem elles, é que os homens trahidos trazem as mulheres a despenhar-se.

Elles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente facilmente acredita que haja homens que se dêem ainda o incommodo de jornadear por algumas horas para despenhar as mulheres adulteras, que já estão despenhadas, e que haja mulheres, que depois de conhecerem o vicio, tenham a virtude de se deixar morrer!

A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição d'espirito e corpo, tem alguma coisa de idyllio, d'Arcadia, de creendice, coisas impossiveis de encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma especie de Pantana, onde o carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos aos beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e cinco garfos! Onde é hoje que se póde encontrar a realidade d'este ideal de Pantana, a não ser n'uma viagem pelo Douro? Quem é hoje que come com a mão, desde que o Monteverde publicou o _Manual encyclopedico_, e nos exames do lyceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer, a comer com as mandibulas?

Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, ceo e agua são escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, immovel, quando o nosso espirito pergunta a si mesmo, para resolver um mysterio, se aquella mulher, formosa e inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva!

E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber o halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que comprehenda a nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os puros cadeirinhas do rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam por ella. Perdão, pelo que elles puxam é por nós, pelo barco, e por elles mesmos. Podiam ter nascido bois, e nasceram homens. Tambem os cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e nasceram gallegos. Que a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, comprehende-se, porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio calcado pelo archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado.

O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de riba-Doiro e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,--e perdoe-se-me a vaidade de a estudar em mim mesmo--que logo me esqueci da urgencia de abreviar a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os meus generos, e concentrei todas as minhas attenções n'aquella mulher que não conhecia, que vagueava a deshoras por uma serra, com risco de rolar ao Douro, sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma grande dôr.

Permitta-me--entre parenthesis--que chame á _dôr_ moral uma ideia e não um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e se _lembra_ a gente do soffrimento da vespera, é que continua a _sentir_ o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao Porto, acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma cadeira de philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal Albuquerque d'oculos verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser philosopho, mais pelo que ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao Barros.

A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao joelho.

Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem filha, nem--ó prodigio!--tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a abnegação das situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido de soccorro, a necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva!

Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao conchegar-lhe a roupa, senti que tinha no bolso papeis.

Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma.

III

Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe tenha enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das Victoreiras, não posso resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto para lhe communicar que por carta recebida agora do correio do Porto fui ameaçado de não sei que medonhos perigos no caso de proseguir na veridica historia da morta ou viva.

Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em proveito da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, é uma tremenda lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de Castello de Paiva? Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região ignorada? Eu não sei. O que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem me cheirou a certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em realidade impunementemente.

Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de escandalos. Isto assim não póde ser,--que triumphe sempre o forte e soffra sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e, quando muito, publical-os desfigurados. Mas--erro imperdoavel!--o escandalo é muitas vezes a lição e algumas vezes póde ser a cura. É preciso que se espalhe, que se discuta, que se commente, com vagar, como eu estou fazendo, para que a precipitação não cegue o entendimento.

Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em Castello de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia d'elle, porque fui a unica testimunha occular. A principio julguei dever guardar segredo. Ao cabo, porém, de muitas noites de insomnia, resolvi dar-lhe publicidade. Sabido apenas por mim, não aproveitaria a ninguem; divulgado, algum proveito poderá levar á sociedade.

Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira, hypocrisia, infamia!

A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a mulher, como os governos costumam exhibir o rotulo _melhoramentos materiaes_ quando tentam vexar os povos com novos tributos.

Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não nasceu para _senhora_ nem para _escrava_; a mulher é companheira. Como esta palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e dores, risos e lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em emancipacão é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe queremos restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos fatuamente a importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a é aviltar nossos filhos até á condição de filhos d'escrava e julgarmo-nos nós mesmos nas circumstancias de nossos filhos.

Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é sociedade conjugal.

Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são viciosos, estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.

Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja honra se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que deshonrando-a a ella nos deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher a guitarra com que nos recreamos durante uma serenata e que ao romper do dia, ebrios de mau vinho e mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem a recolherá depois de a vêr no monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a guitarra era mimosa, quando suspirava ao luar; tinha uma voz doce e melodiosa que despertava vagos pensamentos na alma; podia ainda murmurar cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos delicadas. Mas nós, que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a julgavamos intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a guitarra, que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar uma corda, que precedeu o estalar de todas as outras.

Pois a corda que estalou chamava-se--honra; depois d'ella estalaram todas as outras, que se podem chamar--pundonor, brio, fé. A mulher, quando chega a este destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não se peja de haver cahido; não tem brio, porque não pensa em rehabilitar-se; não tem fé, porque já não acredita na propria rehabilitação nem na rehabilitação das outras.

Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja do adello.

Ou morre ou se vende.

Não, philosophos da philosophia de Mahomet, que sustentaes o _crê ou morres_, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas esposas, de nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e coração, de quebrar aos vossos pés essas duas laminas d'aço cortante que limitam o vosso perfido dilemma. E como o havemos de fazer? Desvendando a mulher, avisando-a, apontando-lhe o exemplo.

Meu amigo,--perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe haver annunciado a recepção d'uma carta ameaçadora, e previna os seus leitores de que eu d'aqui em diante entrarei directamente no assumpto.

IV

Quer que lhe explique o meu demorado silencio?

Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de letra desconhecida.

Abro e leio:

«Ill.mo snr:

«Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são nullas. Perdoe-me o havel-o comprehendido mal, tomando-o como pusillanime. Lance tudo á conta do meu desespero de me vêr justamente accusado em muitos relanços das suas cartas, e falsamente incriminado n'outros. Foi uma infamia, que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu arrependimento redimirá. Peço-lhe porém--se alguma confiança lhe mereço ainda depois de perdoado--que me ouça, antes de continuar as suas cartas, para que, melhor informado, possa conhecer as particularidades da veridica narrativa. Um inconveniente obsta porém á minha ida a Castello de Paiva: é o ser uma terra muito pequena e açular eu a curiosidade do publico ocioso com a minha presença ahi, depois da publicação das suas cartas.

«N'esta conjunctura não será grosseira impertinencia pedir-lhe um sacrificio por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha causa? Pois bem, ao magistrado que me tem de julgar perante a opinião publica, e que deve escutar com igual benevolencia reu e queixoso, exoro, supplico vivamente que se digne marcar sitio onde me possa dar audiencia para ouvir da minha justiça.

«Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso, lembrar-lhe-ia que prevenisse a authoridade da hora e local da entrevista.»

Respondi immediatamente:

«Ill.mo snr:

«Tenho de ir a Penafiel depois d'amanhã. Portanto, se não quer ser visto, espere-me ás onze horas da noite na capella de S. Roque.

«Não receio ciladas. Deixemos a authoridade em paz.»

Fui.

Effectivamente pude orientar-me melhor nos episodios que precederam o caso das Victoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse absolutamente o meu primeiro juizo.

Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos factos.

Da parte _d'elle_ não houve a minima culpa no incidente d'aquella noite. Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder á loucura d'um momento, que deu logar a esse acto de desespero da formosa desconhecida.

Elle, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo confronto dos depoimentos d'ambos.

O que é certo é que o vi chorar...

Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade que refrigera com lagrimas as dôres intimas.

Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o dr. Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos.

Isto até aqui, meu amigo, foi para si.

D'aqui em diante vae proseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que ficara, como se não se houvera dado este episodio que acabo de referir, e que todavia me permittirá ser mais explicito.

Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso papeis.

Só alli podia estar a chave do que para mim era enygma.

Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitlido lêr essa correspondencia?

E logo a contrapôr-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ella comsigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no caminho, para esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva?

Resolvi lêr os papeis.

Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho.

Á primeira vista, fiquei perplexo.

Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo, um bilhete.

Esse devia ser o esclarecimento desejado.

Era, em verdade.

Dizia simplesmente isto:

«Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida á justa punição de meu pai e apenas confiada na protecção do pai de meu filho, que deve nascer se a morte não surprehender a mãe n'esta ousada resolução.

«Tu, que me lêres, perdoa-me.

«Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és mulher, e estás descida a iguaes abysmos, vê no espelho da minha desgraça a profundeza do teu erro.»

Tinha-se feito a luz.

Aquella mulher era filha d'um homem respeitabilissimo que ha muitos annos se soterrara n'umas serras do Douro depois de haver percorrido o mundo, semeando dinheiro e anecdotas, batendo os melhores cavallos, baloiçando-se nos melhores tilburys, jogando, bebendo, reptando, apostando nas corridas, atirando aos pombos, pompeando nas aguas de Spa, debruçando-se n'um camarote da Grande Opera, merecendo referencias a Julio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o romance e até o theatro.

Ha quem diga que o nosso conhecido _Antony_, transportado do lar deshonrado para a scena igualmente deshonrada, fôra apenas uma copia desenhada pelo _crayon_ ultra-romantico de Alexandre Dumas n'uma hora mais ultra-romantica que o proprio _crayon_.

V

Finalmente, ao recolher d'uma das viagens ao extrangeiro, casou com uma senhora da primeira sociedade lisbonense. Quasi o surprehendeu o ser amado.

Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos _vaudevilles_. O casamento era para elle apenas uma comedia que vira em França e na qual homem e mulher se davam excellencia e cumprimentavam ao jantar. Pensava pouco mais ou menos em observar o regimen matrimonial da comedia, mas completamente se enganou, porque, sentindo-se amado, começou de encontrar no amor thesouros que lhe eram desconhecidos desde a mocidade. Atravessara o mundo, sem atravessar a familia: não conhecia o amor, porque só na familia o ha. A alegria das festas, fóra do lar, irradia como a espuma do _champagne_ á luz de candelabros, mas entorna-se e dissipa-se como ella.

Suppunha elle haver-se apaixonado uma vez, aos vinte annos. A 2 de abril de 1829, fazendo a primeira viagem a Pariz, ouvira cantar a Malibran, que era então a rainha da opera, n'um concerto matutino dado na rua Taitbout, em favor dos orphãos adoptados pela «Sociedade de moral christã.» Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação á cantora, que o recebeu ao _dessert_.

N'essa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdemona no theatro dos Buffos. O theatro trasbordava de espectadores; a receita do espectaculo subiu ao algarismo de 18,000 francos.

Não obstante ser immensa a multidão, a cantora pareceu enxergal-o e distinguil-o com um sorriso,--d'estes sorrisos que as mulheres de theatro espalham como bilhetes de beneficio...

Isto acabou de enlouquecel-o. Todo o theatro tinha visto: a Malibran sorrira-lhe!