Chapter 1
Meus jovens compatriotas. — No cativante ofício que me dirigistes convidando-me a realizar esta conferência sobre Castro Alves, trai-se a feição preeminente do vosso culto pelo poeta.
“Insigne e extraordinário condoreiro da Bahia”, dissestes; e transfigurastes, na fórmula gloriosa de uma consagração, um título não raro irônico, ou derivado dos escrúpulos assombradiços da crítica literária ante o misticismo anômalo do cantor. Por isso mesmo deliberei acompanhar-vos neste rumo; não já por ajustar-me ao vosso nobilíssimo entusiasmo, senão também por facilitar, simplificando-a, a tarefa que me cometestes. Mas observei para logo que a facilidade prefigurada, como efeito do restringimento da tese, era ilusória.
O sonhador, contemplado na fisionomia particular que lhe imprimiu o seu lirismo revolucionário de propagandista fervente das ideias e sentimentos de seu tempo, apareceu-me maior do que abrangido na universalidade dos motivos determinantes das emoções estéticas.
À restrição da sua figura literária correspondeu um alargamento na história.
O fantasista imaginoso transmudou-se.
Revendo-o, vi o aparecimento, quase inesperado, de uma fase nova na evolução da nossa sociedade.
Mas, para isto, fechei os meus olhos modernos e evitei a traiçoeira ilusão da personalidade, que está no projetar-se o nosso critério atual sobre as tendências, por vezes tão outras, das gentes que passaram.
Fui, deste modo, muito ao arrepio das ideias correntes, fortalecidas ainda há pouco por Guilherme Ferrero, na sua tentativa de deslocar para o estudo da humanidade o princípio das causas atuais, que o gênio de Lyell instituiu para explicar-se o desenvolvimento evolutivo da terra. E não me arrependo de o ter feito. Tenho que é impossível conjugar-se a simplicidade das leis físicas com o intrincadíssimo dos fatos morais, submetendo-se à mesma norma de pesquisas o maior e mais simples dos inorganismos e o maior e mais complexo dos organismos. Isto pode determinar curiosas surpresas: por exemplo, a reabilitação de Tibério… Nada mais, porém, além deste triunfo literário; tão flagrantemente ilógico é o transplante de um método inspirado em causas que se eternizam na passividade da matéria, para o perpetuum mobile do sentimento, ou do espírito, sempre a mudar, ou a renascer, sempre mais novo à medida que avulta em séculos, e sempre a transformar-se, ao ponto de se inverterem os impulsos mais enérgicos que presidiram os seus diferentes estádios.
Não preciso mostrar-vo-lo. À parte o quadro do nosso regímen industrial, ou artístico, bastaria referir-me às mudanças profundas da própria ordem moral, que Th. Buckle supôs tão imutável no meio do desenvolvimento das inteligências. E recordar-vos, percorrendo a escala dos móveis de nossos atos, quão díspares eles são, hoje, do que foram: desde as manifestações mais gloriosas das nossas energias às mais tocantes da nossa bondade; — desde o nosso heroísmo, que era ontem a forma mais fácil da coragem a desprender-se da larva da atividade militar, e agora se aparelha a lutas menos ruidosas e mais sérias, até a nossa piedade, que nasceu do íntimo sentimento da nossa fraqueza e vai-se transformando no aspecto mais encantador da nossa força.
Não me delongarei, porém. Tenho um fim neste exórdio imperfeito: prevenir-vos que entre o avaliar os homens e as cousas do passado, como objetos artísticos, através do nosso temperamento, e o vê-los, tanto quanto possível, forros das nossas tendências diversas, prefiro o último caso. Entre o considerá-los, como um geólogo, aplicando as suas regrinhas estratigráficas, indiferentemente, a uma velhíssima camada siluriana e a um estrato recente, prefiro - já que está em moda a canhestra filosofia do adaptarem-se as normas das ciências inferiores às superiores - considerá-los como o astrônomo, respeitando todas as conseqüências da distância e dos meios interpostos. Assim, quando observamos o sol, sabemos que ele não está no ponto em que o vemos: deslocam-no-lo muitas circunstâncias intermédias. O próprio raio vertical de uma estrela no zênite, que as elimina, é falso: chega-nos no desvio em que se compõe a velocidade do grande observatório telúrico com a da luz. Destarte, a própria visão material nos é errônea. Envolve-nos uma ilusão tangível. E todo o trabalho das observações mais simples está em eliminarem-se as aparências enganadoras da realidade, por maneira que, ao fim de longos cálculos, possamos ver o que os nossos olhos não mostraram.
Acontece o mesmo contemplando-se o passado. A nossa visão interior alongando-se no tempo, como a exterior ao desatar-se no espaço, é sempre falsa quando se atém só ao que divisa e não atende aos erros oriundos menos do objeto observado que da nossa posição e do meio que nos circula.
Ora, o grande poeta, motivo essencial desta assembleia, apesar da diminuta distância que no-lo separa, mais do que nenhum outro retrata, na sua nomeada variável, o contraste dos dous critérios históricos rapidamente bosquejados.
De fato, o seu renome é excepcional e curiosíssimo: todos nós o admiramos até aos vinte e poucos anos; depois o esquecemos. Esquecemo-lo, ou repudiamo-lo. É uma glória que intermite no ritmo das gerações sucessivas. Tem este traço expressivo: adormenta-se, ou restringe-se, no breve curso da nossa vida individual, e prolonga-se sem fim, restaurada de ano a ano, sempre maior, nascendo, ressurgindo e avultando, no nascer, no ressurgir e no avultar na própria sociedade. É como a luz, perpetuamente moça. Não dura a vida de um homem, e é eterna. Exige almas ardentes e a intrepidez varonil da quadra triunfal, em que andamos pela vida na garbosa atitude de quem oferece o molde de sua própria estátua, como obscuros e antecipados grandes homens, vivendo no futuro, para onde nos leva o arrebatamento de todas as esperanças. Não a comporta a alma esmorecida dos velhos, ou o juízo retilíneo do homem feito. Quando não a sentimos mais, imaginamos que ela se extinguiu, como se a noite fosse o apagamento do sol; e não fôramos nós que mergulhássemos, como a terra, na nossa própria sombra, inscientes dos resplandores que na mesma hora estão caindo sobre as outras zonas e sobre as novas gentes. Desta maneira ela vai passando, feita a herança sagrada das juventudes que se acabam; e, perenemente imóvel no oriente da vida nacional, a refulgir nos mesmos cérebros juvenis, nos mesmos olhos recém-abertos à existência, nos mesmos sonhos ardentes dos homens de uma mesma idade, é, de fato, imortal, porque diante dela se verifica uma espécie de imobilidade no tempo…
São compreensíveis os contrastes. De um lado, na quadra em que toda a irreflexão desponta do muito refletirmos o que nos cerca - está uma larga expansibilidade de sentimento, e, de par com ela, uma simpatia avassaladora, que corrigem em grande parte os desvios da nossa inexperiência, ampliando-nos a vida, ao ponto de podermos compreender, sem que careçamos discuti-las, as sínteses maravilhosas dos sonhadores. De outro, a nossa inteligência, mais e mais sobrecarregada das impressões que nos rodeiam de perto e chumbando-nos cada vez mais à base objetiva das cousas. Turva-se-nos, então, a limpidez espiritual para espelharmos as figuras anômalas desses predestinados, que não podem ser como nós somos, na imensa complexidade que os transforma, por vezes, em índices abreviados de uma época. O nosso culto decai. Distinguimos-lhes defeitos que não notáramos. Vemo-los diminuídos, e temos a ilusão de que eles vão passando e desaparecendo… o vulgaríssimo engano de quem, num trem de ferro, sente-se parado e vê fugirem, disparadas, desaparecendo, as grandes árvores que se aprumam, enraizadas e imóveis, à margem do caminho. Porque não é o poeta que se apequena e passa; é a nossa vida que se desencanta. Estonteia-nos nessa quadra a pior das nossas ilusões: a ilusão de que somos melhores, mais lúcidos, mais práticos, mais sábios. Os quadros da existência já não nos dominam. Dominamo-los nós. Submetemo-los a uma crítica permanente e cerrada, com as máximas exigências daquilo que chamamos, garbosamente, a nossa personalidade. Sentimo-nos emancipados. Principiamos a construir a ficção de um nome. E não percebemos que algumas vezes, nessa pletora da individualidade, se nos reduz o tipo social, até desaparecer encouchado e comprimido no âmbito estreitíssimo do nosso euzinho, que imaginamos enorme. E lá nos vamos, impando os nossos triunfos e as nossas convicções muito firmes, muito enrilhadas, muito duras, envaidando-se de calçarem os pobres coturnos rasos de uma meia ciência pretensiosa.
Então esse Castro Alves, o “condoreiro”, que nos arrebatou aos maiores lances da nossa fantasia, surge-nos monstruoso, paradoxal, quimérico…
É que nos andamos tão jungidos às tendências adquiridas, que não logramos mais sequer balancear os efeitos das simples diferenças de datas para vermos a imagem do poeta corrigindo o nosso descortino das causas perturbadoras que no-la desviam. E, desdobrando o nosso critério atual sobre um tempo de que nos separam os quarenta anos mais intensos de nossa história, sobressalteiam-nos, por força, grandes desapontamentos.
É compreensível. A sua fantasia exagerada contrasta demais com o mundo em que vivemos. Na esteira infernal, que o Navio Negreiro abriu sobre o abismo, com a singradura fantástica,
…abrindo as velas, Ao quente arfar das virações marinhas,
navegam hoje os pacíficos transatlânticos, onde se apinham os emigrantes tranquilos, que reclamamos para as lavouras do Oeste. O recife imenso de pedra, “que rasga o peito do mar”, está em boa hora submetido aos cálculos e aos desenhos rigorosos de alguns provectos engenheiros a projetarem os melhoramentos do porto de Pernambuco…
E a própria cachoeira de Paulo Afonso
…a cachoeira! o abismo! A briga colossal dos elementos! (…) Aguentando o ranger (espanto! assombro!) O rio inteiro, que lhe cai ao ombro!
…a cachoeira de Paulo Afonso em breve terá a sua potência formidável aritmeticamente reduzida a não sei quantos milhares de cavalos vapor; e se transformará em luz para aclarar as cidades; em movimento, abreviando as distâncias, avizinhando os povos e acordando o deserto com os silvos das locomotivas; em fluxo vital para os territórios renascidos, transfundindo-se na inervação vibrátil dos telégrafos; em força inteligente, fazendo descansar um pouco mais o braço proletário; e fazendo-nos sentir o espetáculo de uma mecânica ideal, de efeitos a se estenderem pelos mais íntimos recessos da sociedade, no másculo lirismo da humanização de uma cega energia da natureza…
Vede, por aí, como se contrabatem os estímulos modernos e aquele misticismo maravilhoso.
Além disto, o aparecimento de Castro Alves, certo oportuno, como o de todo grande homem, é, em grande parte, inexplicável. Ele não teve precursores na sua maneira predominante. Os grandes pensamentos, sociais ou políticos, que agitou não lhe advieram, como em geral sucede, de longas ou bem acentuadas correntes nos agrupamentos que o rodeavam. Pertenciam, plenamente generalizados, à sua época. Nasciam do patrimônio comum das conquistas morais da humanidade. A sua grandeza está nisto: ele os viu antes e melhor do que os seus contemporâneos. Compreende-se que o estranhassem. Sem dúvida, devera ser anômalo, e, ao parecer, desorado, o vidente que surgia, de improviso, num estonteamento de miragens, e a proclamar uma nascença ainda remota, ou a descrever a era nova, que poucos adivinhavam, numa linguagem onde, naturalmente, os mais belos lances de seu lirismo incomparável teriam de golpear-se do abstruso e do impressionismo transcendental das profecias…
A este propósito lembram-me alguns conceitos que se exaram numa das conferências de Renan. Li-os cheio de espanto. O adorável pensador pareceu-me, ao primeiro lance, desviado do seu inalterável senso não comum, do seu ceticismo suavíssimo e da sua ironia tranqüila. A seu parecer, dizia sem rodeios aos que o escutavam, uma raça dá os seus melhores frutos quando desperta de uma dilatada sonolência. As mais belas revelações intelectuais têm sempre um enorme lastro de inconsciência, ou, como acentuava, de vastos reservatórios de ignorância.
E ia por diante na aventurosa tese tão chocante, ou contravinda, às mais vulgares noções da continuidade do progresso, afirmando temer pela humanidade no dia em que a luz atravessasse todas as suas camadas. Por que - inquiria - de onde viriam, então, os sentimentos instintivos, o heroísmo, que é tão essencialmente hereditário, o amor nobre das cousas, que nada tem com os nossos juízos, e todos esses pensamentos inconscientes de si próprios, que estão em nós sem nós e formam a melhor parte do apanágio de uma nacionalidade inteira? Por derradeiro — rematava —, de onde viria o gênio, que é quase sempre o resultado de um longo sono anterior das raças?
É, como vedes, paradoxal e inaceitável.
Entretanto, defrontados o nosso poeta e a sociedade de seu tempo, e vendo-o aparecer quando ela, de feito, se afigura despertar de um demorado sono, afeiçoamo-nos, irresistivelmente, à metafísica imaginosa do notável pensador.
É o que nos demonstrará, de maneira evidente, um breve lance de vistas sobre o passado.
Com efeito, não sei de nenhuma raça que, como a nossa, despertasse nestes tempos, depois de um mais profundo sono, aparelhando-se, à carreira, para alcançar a marcha progressista de outros povos.
Baste considerar-se que somos o único fato de uma nacionalidade feita por uma teoria política.
Fora longo desviar-me patenteando os elementos originários da afirmativa. Não há prodígios de síntese que nos digam, em poucas palavras, o contraposto da nossa formação étnica, ainda incompleta e em pleno caldeamento de três fatores diversos, e a unidade política estendida em vastíssimas terras, numa inversão flagrante da ordem lógica dos fatos, fazendo que a evolução social passasse adiante da evolução biológica.
Aparecemos quando se cerrava o período medievo, lançando-se os fundamentos reconstruintes de outras sociedades; naquela ocasião tínhamos três cores e falávamos três línguas, definíamos três estádios evolutivos. Destarte, sem o mesmo tirocínio secular, prendemo-nos à rota de outras gentes mais experimentadas; e sofremos para logo as conseqüências da temeridade. Sem uma idade antiga, nem média, fomos compartir as primícias da idade moderna; o efeito foi que as nossas idades antiga, média e moderna confundiram-se, interserindo-se dentro das mesmas datas. Há um livro que é simples historiúncula desse drama obscuro. A luta de 1897, nos sertões baianos, a despeito de sua data recente, foi um refluxo do passado; o choque da nossa pré-história e da nossa modernidade; uma sociedade a abrir-se nas linhas de menor resistência, e mostrando, em plena luz, as suas camadas profundas irrompendo devastadoramente, a exemplo das massas candentes de diábase que irrompem e se derramam por vezes sobre os terrenos modernos, extinguindo a vida e incinerando os primores da flora exuberante.
E foi em nossos dias… Calcule-se como estariam ainda mais desquitados entre si, em 1822, os três grandes agrupamentos…
No entanto, fizemos uma Constituição política; isto é, fizemos o que é sempre uma resultante histórica de componentes seculares, acumuladas no evoluir das idéias e dos costumes; o que é um passo para o futuro, garantido pela força conservadora do passado; o que é essencialmente tradicional; e o que menos se faz do que se descobre no conciliar de novas aspirações e novas necessidades com os esforços, nunca perdidos, das gerações que nos precedem. Tanto importa dizer que fizemos uma teoria com materiais estranhos, a ressaltar do esforço artístico, ou subjetivo, de uma minoria de eruditos. E assim nascemos sob o hibridismo da monarquia constitucional representativa — quase abstratamente, ou patenteando, pelo menos, o maior exemplo de política experimental tateante que se conhece.
No entanto, realizamos duas conquistas capazes por si sós de constituírem o programa de uma nacionalidade. Fizemos a Abolição e a República. Mas, ainda neste lance, o historiador futuro não encontrará pontos determinantes que lhe bastem ao diagrama de uma evolução.
Realmente, o ideal democrático, bem que o favorecesse a falta de tradições dinásticas, jazeu largo tempo com o único e longínquo ponto de partida da Inconfidência mineira, alimentando-se da lembrança dolorosa do heroísmo inútil de meia dúzia de poetas e de um soldado. Em 1822 sopeou-o, assim como à ideia abolicionista, apesar da lucidez genial de José Bonifácio, o pensamento preponderante da autonomia política; e no decênio que vai até 1831, nos tumultos que o sulcaram, nota-se mais o antagonismo nativista que o entrebater das correntes republicana e monárquica contrapostas.
Como quer que fosse, o liberalismo triunfante no 7 de Abril perdeu as honras da vitória. Entre ele e os reacionários absolutistas, vencidos e desnorteados pela renúncia do primeiro Imperador, interpôs-se um partido que não lutara e chamava-se, curiosamente, liberal-monarquista. Fortalecia-o o caráter neutral entre adversários ainda combalidos do recontro; e harmonizando as conquistas dos triunfadores da véspera com as tendências conservadoras dos vencidos, pôde repelir-lhes por igual os objetivos extremados, anulando, do mesmo passo, com a república prematura o absolutismo revivente. E institui-se a Regência. Não a condenemos. Ela foi o único regulador capaz de uniformizar tantas energias revoltas de tendências disparatadas. A figura de Diogo Feijó, que a domina, sobranceia todo o nosso passado. Tem linhas esculturais, que ainda não se reproduziram em nossos homens públicos. Que outros admirem os marechais dominadores de rebeldias dentro do círculo de aço dos batalhões fiéis; eu prefiro admirar aquele padre estupendo que com as mãos inermes quebrava as espadas dos regimentos sublevados. Ninguém mais do que ele nobilitou a lei, restaurou a autoridade e dignificou o governo. Mas, embatendo na sua alma antiga, quebrou-se, totalmente, a vaga de uma revolução. E ele fez o remanso largo do segundo Império…
Na realidade, daí por diante, num período de trinta anos, é escusado perquirir-se o curso da corrente republicana, ou da abolicionista, nos abalos sociais que houve: no extremo sul, a luta separatista desenrolou-se durante dez anos, toda ela local, diante da impassibilidade do resto do país; no extremo norte, as selvatiquezas da “cabanagem” nada mais foram que um sintoma da heterogeneidade étnica há pouco referida. Um outro refluxo do passado. Ao “cabano” sucederiam, no correr dos tempos: o “balaio” no Maranhão; o “cangaceiro” em Pernambuco; o “chimango” no Ceará; nomes diversos de uma diátese social única, que chegaria até hoje projetando nas claridades da República o perfil apavorante do “jagunço”.
Nos demais tumultos, o exame torna-se até contraproducente: nos de 42, em S. Paulo e Minas, e nos de 48, em Pernambuco, os rebeldes, timbrosos em conclamar a adesão ao trono, arremetem com as tropas imperiais saudando a realeza.
Assim fomos, até que se infiltrasse de todo em nosso organismo político o marasmo monárquico, desenhando-se a época “sem fisionomia, sem emoções e sem crenças” a que se referiu Salles Torres-Homem, na qual esteve tão adormecido o sentimento nacional que não despertou o próprio brio apisoado quando a civilização nos atirou o insolente ultimatum do bill de Aberdeen e nos rodeou de um verdadeiro cordão sanitário, mandando que os cruzeiros ingleses rondassem as nossas costas, numa azáfama inquieta de patrulhas à roda de um ajuntamento ilícito.
Por fim, se conciliaram as únicas tendências políticas definidas, que agiram em tão largo período, resumindo-se nas divergências desvaliosas dos dous partidos constitucionais - ocupando todo o horizonte político o Marquês do Paraná, simbolizando a plenitude do Império…
Mas o grande estadista separou duas épocas. A própria data, 1859, da sua saída do Governo é expressiva. É a média entre 1831 e 1888-1889. O império e a oligarquia escravocrata, em que ele se esteara, imprudentemente, iriam gastar, apeando-se de seu fastígio, o mesmo número de anos que haviam despendido para adquiri-lo.
Porque em 1860 houve o primeiro estalo naquela estrutura artificial. O ideal democrático apareceu, de golpe rejuvenescido, depois de um curso subterrâneo e misterioso. Nas eleições daquele ano o partido liberal levantou três nomes, que se completavam na variabilidade de seus destinos: Francisco Otaviano, um mulato ateniense, romântico e idealista, cantava a volta triunfal das utopias; Teófilo Otoni, impulsivo e rude, seria o detonador das expansões populares adormidas; e, maior do que ambos, Saldanha Marinho destinava-se a um longo itinerário. Eram os batedores da era nova que chegava. O ideal irradiava. Nas Câmaras, um novo partido, com o nome sugestivo de “progressista”, entalhava a ortodoxia monárquica, a despeito do caráter sacratíssimo que lhe dava a santíssima trindade conservadora de Eusébio de Queirós, Itaboraí e Uruguai. Na imprensa, a Actualidade, de Pedro Luís, Flávio Farnese e desse Lafaiete Rodrigues Pereira, que ainda refulge no cimo de uma velhice majestosa, agitava um ultraliberalismo visando corolários extremos. No próprio Senado, Nabuco - um nome que é um patrimônio nacional - aproveitava a cerimônia inaugural da estátua de D. Pedro I para afirmar que ela traduzia antes a paga de serviços prestados do que a glorificação de um reinado. E na ordem estética, até então ocupada pela grandeza castiça e impecável de Gonçalves Dias, ou pela musa espartilhada de Maciel Monteiro, passaram, abalando-a, num longo ruído de terremoto longínquo, os alexandrinos da Mentira de bronze… Por fim, nas praças, o espírito público desatava-se em rebeldias desde muito deslembradas, a propósito dos mínimos incidentes.
Foi o que sucedeu em 1863, por ocasião dos tumultos originados pelos salvados da barca Prince of Wales, e subsecutivas represálias da fragata inglesa Forth.
Amotinou-se a multidão no Rio. Tomou-lhe a frente Teófilo Otoni. Um protesto violento arrebentou junto do trono: e o Ministério daquele Marquês de Olinda, que era, de fato, uma espécie de vice-imperador, o “ministério dos velhos”, num triste apagamento de sombras, as últimas sombras do passado, extinguiu-se, sulcado pela palavra de fogo de um tribuno…
Ora, por aquele mesmo tempo, no mesmo ano, uma voz mais alta, mais nova e mais dominadora se alevantou ao norte. E tinha um ritmo, como o têm todas as forças criadoras da natureza. As energias sociais emergentes, nos vários aspectos que iam da idéia republicana ao sentimento abolicionista, desvendavam-se, afinal, como soem sempre aparecer as grandes aspirações sociais: imaginosas e vastas, a nascerem do vago e do impreciso das utopias - que recordam na ordem espiritual o vago e o amorfo das nebulosas de onde nascem os mundos - vibrando nas rimas soberanas de um poeta. A revivescência do espírito nacional completava-se, consoante a norma lobrigada pela intuição do filósofo: depois de um longo, de um profundo sono. Aparecia o homem que mais que todos lhe imprimiria o impulso inicial das emoções estéticas, sempre indispensáveis aos grandes acometimentos. Porque naquela palavra nova, por um milagre de síntese que a nossa afetividade às vezes efetua, suplantando as maiores generalizações científicas, conchavaram-se, de súbito, as grandes esperanças do futuro e os graves compromissos do passado. Refundiram-se os elos partidos e esparsos das nossas tradições: o cantor do Livro e a América seria o mesmo idealista das Vozes d'África, que eram a própria voz de uma raça inteira condenada, ressurgindo e ressoando nestes tempos, depois de três longos séculos silenciosos…
Não nos retardemos em palavras dilatórias armadas a mostrarem que nenhum dos nossos poetas foi, tanto quanto Castro Alves, ainda mais oportuno, nascendo com o renascimento da sua terra. Os sucessos sumariados dizem-no-lo por si mesmos. Está nesta circunstância a sua maior grandeza.