Cartilha Maternal

Chapter 1

Chapter 13,757 wordsPublic domain (Wikisource)

center|190px|Retrato do autor

{|style="margin:0 auto" | |- | Les mères et les institucteurs, voilà ceux qui jettent dans le monde presque toutes les semences du bien et du mal. (Fils).

As sementes do bem e do mal, quem as lança no mundo quasi todas, são as mães e os mestres.

|- |}

Este systema funda-se na lingua viva. Não apresenta os seis ou oito abecedarios do costume, senão um, do typo mais frequente, e não todo mas por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se intendam, que se expliquem; de modo que, em vez do principiante apurar a paciencia numa repetição banal, se familiarisa com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras intelligiveis.

Assim ficamos livres do syllabario, em cuja interminavel serie de combinações mecanicas não ha penetrar uma idéa!

Esses longos exercicios de pura intuição visual constituem uma violencia, uma amputação moral contraria á natureza. Seis mezes, um anno e mais de vozes sem sentido basta para imprimir num espirito nascente o sello do idiotismo.

Porque razão observamos nós a cada passo nos filhos da indigencia meramente abandonados á escola da vida uma irradiação moral, uma viveza rara nos martyres do ensino primario?

Ás mães, que do coração professam a religião da adoravel innocencia e até por instincto sabem que em cerebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e violencia póde deixar vestigios indeleveis, offerecemos neste systema profundamente prático o meio de evitar a seus filhos o flagello da cartilha tradicional.

Consistindo a leitura na combinação das letras, basta ir aprendendo as letras que se podem ir combinando; o mais é confusão; e não podendo haver combinação sem vogal, comecemos pelas vogaes (deixando de fóra o ypsilon para não surprender logo no principio o alumno com duas letras que se leem do mesmo modo, tendo diverso nome e fórma). Chamemos essas letras pelos seus nomes, á, é, í, ó, ú, que depois iremos determinando os seus diversos valores.

Estas letras aprendem-se facilmente: representando a quinta parte do abecedario quanto ao numero, estão fóra de representar a vigesima, quanto aos embaraços; porque são homogeneas, todas se pronunciam com a bôca aberta, e filiam-se naturalmente na voz e na memoria. É por isso tambem que apresentamos todas cinco duma vez.

Ora a verdadeira palavra do homem é a palavra escrita, porque só ella é immortal. Mas emquanto o ensino da palavra fallada é o encanto de mães e filhos, o ensino da palavra escrita é o tormento de mestres e discipulos. Extranha diversidade em coisas tão irmãs!

Deus na sua providencia não o podia determinar assim. Ha-de haver meio facillimo, grato, universalmente accessivel, de espalhar essa arte, ou antes faculdade, sem a qual o homem não passa de um selvagem.

Esse meio ou esse methodo não póde ser essencialmente differente do methodo encantador pelo qual as mães nos ensinam a fallar, que é fallando, ensinando-nos palavras vivas, que entreteem o espirito, e não letras e syllabas mortas, como fazem os mestres. Pois apressemo-nos tambem nós a ensinar palavras; e acharemos a mesma amenidade.

Com aquellas cinco letras já se podem formar quatro palavras muito usuaes, e que por uma feliz coincidencia se pronunciam todas do mesmo modo, isto é, carregando na inicial.

Lede-as, e nunca soletreis; que mal sabeis como a soletração confunde o principiante (quando lhe não deprava o raciocinio com sommas falsas). Lede-as acompanhando fielmente com o ponteiro a letra que estais pronunciando; e vereis a facilidade, o gosto e a admiração com que a criança vos segue e vos imita, reconhecendo em sua consciencia a palavra retratada no papel.

Convem deixar estabelecida nesta lição, a proposito da ultima palavra ia, a regra que o a no fim vale â (a fechado, igual ao que tantas vezes no dia pronunciamos separadamente: a casa, a mesa, etc.), regra que podemos figurar da fórma seguinte:

Mas em portuguez as vogaes são quasi tantas como todas as consoantes juntas. Por isso antes de passar a lêr, podeis lisongear o alumno mostrando-lhe em qualquer livro ou pagina de boa letra o muito que elle já sabe. E nesta mesma distracção o acabais de confirmar nesses cinco elementos que são a alma da escrita e da leitura.

Iniciámos no mecanismo da escrita o principiante com grande e justa maravilha sua. Elle percebeu, sentiu mais ou menos lucidamente o engenho do homem, que estudando os sons de que as palavras se compõem, inventou para cada som um signal, e depois, conforme a palavra consta de taes ou taes sons, assim na escrita põe taes ou taes signaes!

Mas aqui vem a proposito admirar como esta arte fundada numa base tão singela tenha sido o martyrio de tantos innocentes e passe ainda na opinião das multidões por uma sciencia ardua!

É verdade que tal correspondencia não é perfeita; mas essa imperfeição pouco embaraça os filhos do paiz sendo bem dirigidos. A criança, acostumada a ler palavras, não lê por exemplo tódo nem môdo; lê tôdo e módo, como tem dito e ouvido dizer. Assim tambem acha o valor das consoantes caprichosas.

Vamos agora combinar com as vogaes uma das consoantes mais perfeitas que é o v; porém não lhe haveis de chamar ú-consoante, que é uma falsidade, e vai desmentir todas as combinações. Chamai-lhe, como se usa modernamente, vê, ou ainda melhor, e por ora, chamai-lhe o que elle vale, simplesmente v... pronunciando sem despegar o beiço inferior dos dentes de cima, sem vogal, sem voz, o simples sopro aspero e sonoro.

Ensinai a proferil-o; e depois não tendes mais que ir apontando na palavra successivamente as letras que ides lendo, demorando-vos na pronuncia de cada uma o tempo que quizerdes, porque essa consoante é tão prolongavel como as vogaes.

{|style="margin:0 auto" | |- |style="font-size:175%; vertical-align:top" |          v

vá     vai

vi     vi     viu

vi       vi a

vi     vi

va

vi va |}

Cada um tem as suas traças de facilitar o ensino, e ajudar o principiante nas difficuldades. Nós temos achado util cobrir e descobrir alternativamente o v nas palavras vai, via, etc, fazendo ler ora ai, ora vai e assim o mais, a fim de certificar o principiante do papel que o v representa na escrita.

Deste ou doutro modo estamos que vos não enfastiou a lição passada, onde pela primeira vez combinámos vogaes e consoantes. Mas que differença haverá entre vogal e consoante, e porque iriamos nós ao fim do abecedario buscar o v para esse primeiro exercicio?

Quando dizemos á, soltamos essa voz da garganta; mas se dissermos má, soltamos essa voz, despegando os labios; e se dissermos mal, despegamos os labios ao soltal-a e no fim damos com a lingua no ceu da bôca.

Donde se vê que as palavras se compõem de vozes e tambem duns modos de começar ou acabar a voz.

As vozes pertencem á garganta, e representam-se nas vogaes; os modos pertencem aos orgãos mudos, como labios, dentes, lingua etc., e representam-se nas outras letras.

Vai uma grande differença da voz, ao modo de começar ou acabar a voz; vai portanto uma grande differença de vogal a consoante.

Mas esses modos, uns consistem num toque ou despego rapido, num simples movimento, numa funcção instantanea que se póde repetir, mas que se não póde prolongar, como succede nas seguintes palavras:

{|style="margin:0 auto" | |- |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |bocado |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |golilha |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |maninho |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |preto |- |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |(bqd, |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |gl lh, |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |mn nh, |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |pr t). |}

Outros consistem numa disposição em que a gente póde insistir o tempo que quizer, como nas seguintes palavras:

{|style="margin:0 auto" | |- |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |favo |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |siso |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |chá jarro |- |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |f...v... |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |ç...z... |style="padding-right:1em; padding-left:1em; text-align:center; vertical-align:top" |x...j...rr... |}

Ora quando a voz é modificada com aquelles modos instantaneos, de sua natureza improlongaveis, a voz e o modo constituem para o principiante uma somma difficil de reduzir aos seus elementos, e portanto confusa: pelo contrario quando o modo é prolongavel, o principiante demora-se na voz ou no modo o tempo que lhe apraz sem falsear a syllaba, sem desfigurar a palavra; e o papel que a consoante representa na escrita é evidente e distincto. por exemplo, contando os pontos por momentos, podemos levar cinco momentos a pronunciar, v.....á, ouvindo-se afinal perfeitamente vá. O mesmo não acontece em dá, cá, pá, lá, etc.

Logo, por onde haviamos nós de começar, pelas consoantes contínuas ou pelas consoantes instantaneas? É claro que pelas consoantes contínuas, prolongaveis, que deixam ao principiante apreciar melhor os elementos da syllaba.

Ora, dessas consoantes a menos equivoca, ou antes, a inequivoca, a unica que não tem equivalentes, a mais perfeita em summa, é o v: começámos pelo v.

Mas em que consiste o v, como se pronuncia o v?

Nós, mesmo com a bôca fechada, podemos fazer uma especie de gemido, respirando pelo nariz; mas se, em logar de respirar pelo nariz, fazendo esse gemido, respiramos por entre o labio inferior unido aos dentes de cima, pronunciamos v...

Este som depende do folego emittido com certa força; sem essa força, emittindo o simples folego e conservando a mesma posição de labio e dentes, em logar de v... pronunciamos f...

Ora havendo tanta analogia entre estes dois elementos, sendo o f um v abafado, soprado, silencioso, passemos do v ao f.

{|style="margin:0 auto" | |- |style="font-size:175%; vertical-align:top" |            f

fui

fi       fi va

fi       fi va

fa |}

Os modos de começar e acabar a voz chamam-se ordinariamente inflexões e articulações, por serem como uns eixos, umas juntas da voz que lhe dão contorno e melodia. A palavra lampada, por exemplo, é muito airosa; mas tirando-lhe a parte que nella tomam a lingua, os beiços e os dentes reduz-se a um vozeio de mudo, monotono e desengraçado: ãââ.

Donde se vê que a voz é como a perola que realça no engaste; e que as inflexões, intermeando e recortando a voz, apezar da sua obscuridade não são menos preciosas na palavra que as proprias vozes. Só a voz se canta, só a voz se alteia e expande, segundo o folego e garganta de cada um, a ponto de encher um templo, de retumbar no valle do alto da montanha; pelo contrario as inflexões a poucos passos de distancia somem-se: todavia uma lingua só de vozes seria uma lingua barbara.

Ora nós já sabemos que as inflexões na escrita se representam pelas consoantes; mas em logar de haver tantas consoantes como inflexões, correspondendo a cada inflexão a sua consoante, não succede assim.

Vejamos as inflexões contínuas de quantos modos se escrevem:

{|style="margin:0 auto" | |- |style="padding-right:0.5em" |f... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(fé  afflição  phoca) |style="padding-left:0.5em" |f  ff  ph |- |style="padding-right:0.5em" |v... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(vai) |style="padding-left:0.5em" |v |- |style="padding-right:0.5em" |ç... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(suisso  ceo  aço  maximo) |style="padding-left:0.5em" |s  ss  c  ç  x |- |style="padding-right:0.5em" |z... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(aza  uso  existe) |style="padding-left:0.5em" |z  s  x |- |style="padding-right:0.5em" |x... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(eixo  chega  ais  faz) |style="padding-left:0.5em" |x  ch  s  z |- |style="padding-right:0.5em" |j... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(ja  geme  osga) |style="padding-left:0.5em" |j  g  s |- |style="padding-right:0.5em" |rr... |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(rua  erro  rhetorica) |style="padding-left:0.5em" |r  rr  rh |}

Achareis, para representar as sete inflexões continuas, vinte e duas formas que, descontando repetições, se reduzem a dezeseis; mas, destas dezeseis, sete teem diversos valores, a saber:

{|cellspacing=0 cellpadding=0 style="line-height:1em; margin:0 auto" | |- |style="padding-right:0.5em" |s |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, end-top.svg File:Brace segment, left, mid.svg File:Brace segment, left, end-bot.svg |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |c seu z uso x triste j tisna |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |x |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, end-top.svg File:Brace segment, left, mid.svg File:Brace segment, left, end-bot.svg |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |ch eixo z existe ç proximo kç sexo |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |c |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-left:0.5em" |ç ceo k cai ... acto |}

{|cellspacing=0 cellpadding=0 style="line-height:1em; margin:0 auto" | |- |style="padding-right:0.5em" |g |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |gelo agua |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |ch |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |x chefe k chimica |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |z |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |z zelo x fiz |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |r |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-left:0.5em" |era raio |}

Ora destas formas de valor incerto nenhuma convinha para os primeiros exercicios. Das outras, uma tem valor certo e exclusivo, que é v: as mais não teem valor exclusivo mas teem valor certo, que são f, ff, ph, ç, ss, j, rr, rh; mas embora tenham valor certo, as compostas não seria bom methodo antecipar ás simples; ç é uma letra anomala; ff comprehende-se em f. Isto tudo supposto restam v f j.

Começámos pela mais perfeita, v, que maiuscula ou minuscula conserva a mesma forma, nunca se annulla dobrando-se debalde ou escrevendo-se por amor da etymologia, tem sempre o mesmo valor e só ella tem esse valor, presta-se com as vogaes a muitas combinações familiares, e representa uma inflexão gemida, isto é, duplamente apreciavel ao ouvido do principiante pela continuidade e pela intensidade.

Do v passámos ao f, pela analogia da pronuncia. Passamos agora ao j.

Os antigos punham o valor da letra no primeiro elemento do nome que lhe davam; razoavel systema de designações principalmente para as consoantes instantaneas, que mal se podem proferir em separado sem lhes exagerar o valor. Jota e xiz são os nomes que temos n'esse genero (preferiveis a éfe éle, etc. onde a inflexão vem encravada em duas vozes dum modo obscuro); mas taes nomes constituem excepção, e impõem a necessidade de fazer distincção entre o nome e o valor, o que o alumno embora perceba facilmente, não deixa por isso de se embaraçar na prática, porque lhe occorrem as duas cousas, nome e valor. Aquellas designações antigas fundadas numa base até certo ponto filosofica, eram nomes geralmente compostos, verdadeiros nomes, com toda a melodia da lingua, sem aquella simplicidade d'algumas denominações nossas como bê, dê; por isso peores de conciliar com a soletração. Ao d, por exemplo, chamavam daleth, ao a aleph, ao l lamed. Em quantos annos chegaria o desgraçado alumno a soletrar (claro está, inconscientemente, de memoria, á força de repetições sem conto) daleth aleph lamed, dal?!

Em cinco e seis annos como ainda hoje a infancia israelita; com manifesto prejuizo da sua educação logica.

Mas seria mais irracional essa soletração que por exemplo a nossa cê á, ká? Não! ao menos alli, dada a chave do enigma, descoberto o segredo, achavam-se as parcellas da somma, os elementos da syllaba á frente dos tres nomes das letras. Em cê á, ká, é impossivel perceber donde veio k, a inflexão guttural que soa na syllaba ká.

Todavia ensina-se assim a ler! Não ensinemos nós a ler assim. Chamemos ao jota j...

{|style="margin:0 auto" | |- |style="font-size:175%; vertical-align:top" |            j

ja

ja

vi ja     vi ja |}

A leitura, nestas palavras de vogaes e consoantes contínuas, é tão clara, funda-se em elementos tão distinctos, estão os seus passos por assim dizer tão bem marcados, a syllaba constitue sempre uma somma tão evidente, que o principiante, compenetrado da base do systema orthografico e talvez até exagerando a simplicidade da arte, deve-se a estas horas achar disposto a receber as outras consoantes, combinando-as com o mesmo conhecimento de causa.

A experiencia abona esta supposição. É notavel a facilidade e consciencia com que o alumno, em tão poucas lições, começa a ler as syllabas compostas de elementos confusos e quasi inseparaveis.

Mas que ordem havemos de seguir na combinação dos novos elementos? Assim como na lição passada buscámos as formas pelas inflexões, vejamos de quantas formas se escrevem as doze inflexões instantaneas da nossa lingua (que foi nossa intenção mnemonisar nas palavras bocado golilha maninho preto; bkd, gl lh, mn nh, pr t):

{|cellspacing=0 cellpadding=0 style="line-height:1em; margin:0 auto" | |- |style="padding-right:0.5em" |b |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(boa  abbade) |style="padding-left:0.5em" |b  bb |- |style="padding-right:0.5em" |k |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(kilo  qual  chimica) |style="padding-left:0.5em" |k  q  ch  c |- |style="padding-right:0.5em" |d |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(addido  adhesão) |style="padding-left:0.5em" |d  dd  dh |- |style="padding-right:0.5em" |g |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(aggregado) |style="padding-left:0.5em" |g  gg |- |style="padding-right:0.5em" |l |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(libello) |style="padding-left:0.5em" |l  ll |- |style="padding-right:0.5em" |lh |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(ilha) |style="padding-left:0.5em" |lh |- |style="padding-right:0.5em" |m |style="padding:0; vertical-align:top" | {|style="" | |- |style="padding-right:0.5em" |(meu m |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-left:0.5em; vertical-align:top" |~  ambos m  meu ...  commenda) |}

|style="padding-left:0.5em" |m |- |style="padding-right:0.5em" |n |style="padding:0; vertical-align:top" | {|style="" | |- |style="padding-right:0.5em" |(não n |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em" |File:Brace segment, left, half-top.svg File:Brace segment, left, half-bot.svg |style="padding-left:0.5em; vertical-align:top" |~  anda n  não ...  annel) |}

|style="padding-left:0.5em" |n |- |style="padding-right:0.5em" |nh |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(unha) |style="padding-left:0.5em" |nh |- |style="padding-right:0.5em" |p |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(appropriado) |style="padding-left:0.5em" |p  pp |- |style="padding-right:0.5em" |r |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(ar) |style="padding-left:0.5em" |r |- |style="padding-right:0.5em" |t |style="padding-right:0.5em; padding-left:0.5em; vertical-align:top" |(attonito  theoria) |style="padding-left:0.5em" |t  tt  th |}

Contando achareis, para representar as doze inflexões instantaneas da nossa lingua, vinte e duas formas (não escogitando muito, pois por exemplo, gu para representar g guttural bem se podia considerar uma nova forma). Destas formas já conheciamos por incertas c, ch, g, r; e conhecemos agora como taes m, n: ora primeiro se hão de apresentar as certas. As formas lh, nh, dh, th são compostas; e primeiro se hão de apresentar as simples. Tiradas incertas e compostas, restam certas mas dobres, isto é, que ás vezes se dobram inutilmente b, d, l, p, t; certas e simples, isto é, que nunca se dobram k, q.

Por aqui haviamos de começar, se com o q não se annullasse muitas vezes o u, o que é absurdo; e se tivessemos palavra usual onde apresentar o k sem dependencia de letra desconhecida; mas só temos kilo, onde entra l que, portanto, ha de vir antes.

Mas b, d, p é o mesmo caracter invertido; approximemol-as: d, t, são irmãs na pronuncia.

Disto resulta que podemos ter por boa ordem a seguinte: t, d, b, p, l, k, etc.

Vamos ao t. Explicai, se quizerdes, a sua pronuncia ou simplesmente lêde-o na syllaba: o alumno vos seguirá.

{|style="margin:0 auto" | |- |style="font-size:175%; vertical-align:top" |          t

tu     teu

tu     ti

ta     ta

ta     ti

ti ta |}

Quando agrupámos as inflexões contínuas de duas em duas (f...v..., c...z..., x...j...), quizemos indicar o parentesco de cada par; isto é, que a primeira se pronuncía como a segunda, na mesma disposição de orgãos, com a differença que na primeira ha só folego e na segunda ha essa meia voz a que chamámos gemido.

O j é um x mais forte, um x gemido, vozeado.

Mas ahi bem se explica a differença. Agora as inflexões t e d são mais do que parentas, são irmãs. Por isso do t passamos naturalmente ao d.

{|style="margin:0 auto" | |- |style="font-size:175%; vertical-align:top" |          d

di

dó     doi

dá     deu     da

da     de

da     du da

da     di ta

di     deu

a da

fi da     fi da |}

O leitor havia de notar na lição passada a palavra duvída com accento. Nós temos aos signaes prosodicos uma especie de aversão, chegando os nossos mais esmerados escritores a não accentuarem muitas vezes até as palavras equívocas. Mas esse é o facto. Em theoria ninguem sustenta esse exagero. Donde se segue que podemos, e devemos, por exemplo, escrever sempre duvída ou dúvida, e nunca simplesmente duvida.