Chapter 12
A mais engraçada festa das creanças de que me lembro, foi em Inglaterra, na casa de campo dos meus amigos Birds, no paiz de Cornwall. Era uma mascarada reproduzindo em miniatura a côrte de el-rei Arthur e dos cavaleiros da Tavola Redonda. E o que tornava interessante a ressurreição d'este mundo heroico e gentil, popularizado por Tennyson, é que nós estavamos alli justamente na região de Cornwall, onde viviam, entre saráus e batalhas, Arthur, a sua rainha Guinevra e os doze valentes da Tavola. A pouca distancia do parque dos Birds, n'uma collina coberta de carvalheiras, a tradição colloca os paços de Arthur e a maravilhosa e sombria cidade de Caerleon. O rio em que pescavam trutas era o velho Usk. Nas suas frescas margens erguera-se outr'ora o mosteiro, onde o irmão de Percival, uma noite, da janella da sua cella, viu passar n'uma nuvem côr de rosa, entre aromas de junquilhos, o vaso do Santo Graal cheio de sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. E das varandas da sala de jantar, podiam avistar-se em dias claros, lá ao longe, na costa, e entre as rochas, as ruinas d'esse castello de Tintagil, que apparece em todas as balladas do rei Arthur, negro e triste junto ao mar de Cornwall.
A côrte começou a reunir-se cedo, á hora do lunch, no grande salão branco, sobre o jardim. Era o filho dos Birds quem esplendidamente recebia, vestido de rei Arthur. O primeiro personagem da lenda que chegou, acompanhado pela sua governante, foi o feiticeiro Merlino, um adoravel bébé, gordo e embezerrado com a corôa de hera, uns cabellos louros e umas enormes barbas propheticas enchendo-lhe a bochecha côr de rosa. Depois, seguidos das mamãs, vieram entrando todos os outros figurões da romantica chronica, cavalleiros de cinco annos armados e emplumados, mongesinhos nedios, bispos quasi de mama com os seus baculos nos braços, bardos rabugentos, mesteirais vestidos de seda, e fadas mais lindas que as fadas. As tres rainhas mysticas do Walhalla chegaram por ultimo, gravesinhas, todas tres pela mão, cobertas de véos negros, escoltadas por um grande lacaio empoado.
Pouco a pouco o salão ficou animado como o velho Caerleon n'uma manhã de torneio. O pequeno Bird, de Rei Arthur, com seu manto bordado d'ouro, os cabellos frisados sahindo em anneis de sob a corôa carregada de pedras, passeava magestoso, entre os seus irmãos de armas. Uma senhora, encantada, quiz dar-lhe um beijo. Elle repeliu-a asperamente, como teria feito o casto Rei Arthur. Mais orgulhoso do que elle, só o bravo Lancelote do Lago, a quem tinham pintado um buço, e que revestido de armas negras, com uma longa pluma escarlate ondeando-lhe desde o elmo até ás esporas d'ouro, não tirava a mão da espada. E o que parecia ensoberbece-lo mais era a sua faxa de gaze branca, passada sobre a couraça, e feita em rigida obediencia á epopéa, d'um véo da rainha Guinevra. Essa era a grande belleza do saráu, a rainha Guinevra, uma irlandezasinha com as duas tranças negras e os olhos verdes como os prados d'Erin. Séria e fria, envolta na pesada capa de setim azul, conservava-se no meio de um sofá, immovel, com um sorriso que lhe punha uma covinha no queixo, indifferente aos madrigaes, insensivel ás proezas dos cavalleiros, e sempre de olhos baixos, ou por ella os bardos firam as harpas, ou por ella se batam os vassalos junto ao mar de Cornwall.
Um escudeiro annunciou o lunch, tocando uma buzina de prata, tal qual como no Caerleon. E pelo corredor, aos pares, toda a côrte seguiu á sala de jantar o rei Arthur, que levava pela mão, com uma graça solemne, a linda rainha Guinevra. Depois, mas não sem alguma confusão, em que necessariamente as mamãs tiveram de ser energicas com os cavalleiros, ficou completa a Tavola Redonda, ornada de baixellas e flôres. E nada faltava do que mandam as poeticas chronicas.
Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos Genios, lá se achava o velho feiticeiro Merlino, a quem a governante, para elle comer com limpeza a sua sopa, tirára as barbas propheticas. Não havia um javali assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto _roast-beef_. Mas o rei Arthur levantava o seu copo d'agua, misturada de uma gota de Bordeus, com a nobreza com que o outro, ha tantos centos de annos e n'aquella mesma collina, erguia a taça de hydromel em dias de victoria. De resto a sala, com o seu tecto de carvalho lavrado, tinha o severo apparato d'outras éras e através da janella lá estavam, como nos versos da _Morte d'Arthur_, as ruinas do Castello de Tintagil, negro e triste junto do mar de Cornwall.
A Côrte mostrava tanto apetite como á volta de uma batida aos lobos nos bosques, que avisinham o Usk. Até as fadas devoravam. Sir Galahad, esse que possuia a força de mil, porque o seu coração era virgem, já por duas vezes reclamára _pudding_ de batatas, batendo furiosamente com o garfo sobre o seu murrião de prata, posto ao lado da mesa entre os crystaes.
Fôra preciso, por causa da sua magnifica tunica de setim verde, atar um guardanapo ao pescoço do cavalleiro Bors, essa radiante flôr de bravura christã. No meio de toda a alegria o forte Percival, incommodado com a sua armadura, permanecia manso e corado com o ar de estar pensando (como o outro Percival) em se recolher ao mosteiro de Wik. Depois, de repente e inexplicavelmente, rolou abaixo da cadeira, entornando todo o molho nos joelhos do intrigante Modred, o mais violento cavalleiro da Tavola.
Modred despropositou e arrepelou os cabellos d'ouro de Percival. A tia do heróe acudiu assustada, e então, como o famoso Lancelote do Lago se estava tornando turbulento, foi arrancado da Tavola Redonda ignominiosamente, nos braços d'um escudeiro, aos berros.
Depois do lunch, a côrte de el-rei Arthur voltou ao saráu a regozijar-se com danças. Saráu delicioso! Havia dois monges extraordinarios, de bureis brancos, tão pequenos e tão tropegos que as senhoras tinham de os segurar pelos braços nas quadrilhas e que queriam constantemente dançar, mais joviaes que os cavalleiros, promptos a atirar-se sempre aos bracinhos das camponezas toucadas de flôres.
O puro Sir Galahad, já sem broquel e sem murrião, galopava doidamente com uma ligeira fada, chegada n'essa manhã da Bretanha, das florestas de Broceliande. Um bardo, com a corôa de folhas de carvalho enterrada até aos olhos, chorava por ter perdido a sua harpa. Havia tambem um principe do Mar do Norte, um castellão de Erin e o bravo cavalleiro Bors, que se tinham refugiado a um canto, por detraz d'um sophá, onde sentados no chão continuavam na sua divertida merenda com bolos, dando gritos, quando as senhoras queriam pôr cobro áquella gula tão impropria de paladinos christãos.
No corredor o pae Bird teve de suster um rechonchudo abbade, que arregaçava as vestes sacerdotaes e ia, furioso, sovar o intrigante cavalleiro Modred. E não foi possivel realizar a parte mais picante da lenda, fazendo com que Lancelote do Lago cortejasse Guinevra. O bravo Lancelote (bem differente do outro) parecia de coração duro e sem gosto pelo sorrir das damas. Terminou mesmo por ter uma hedionda perrice, e cahiu nos joelhos da mamã, com duas grossas lagrimas nas pestanas e a sua bella penna escarlate cahida no chão, como n'uma tarde de derrota.
Cedo os bébés começaram a estar cançados. Eu mesmo, no meio da festa, tive de levar ao collo o veneravel bispo de Blackburn com a sua mitra e com o seu rico baculo. Os seus doces olhinhos azues fechavam-se de somno. Deitei-o no sophá, junto da mais pequenina das rainhas do Walhalla, que já alli dormia sob o véo negro, com os cabellos d'ouro soltos e o lyrio do Paraiso entre as mãosinhas cruzadas...
E o santo bispo candidamente adormeceu ao lado da mystica rainha.
XII
Uma partida feita ao «Times»
É ao mesmo tempo lamentavel e piccaresco o caso succedido ao _Times_. Este nobre in-folio diario, que inspira orgulho a todo o inglez sinceramente patriota, e que aos olhos respeitosos do estrangeiro apparece como uma das mais fortes columnas da sociedade ingleza, como a propria consciencia da Inglaterra posta em lettra redonda; este augusto periodico que nunca, desde a sua fundação, citou o nome d'um collega, nem jámais se abaixou a uma controversia, pelas mesmas razões de inflexivel etiqueta que vedariam a Luis XIV argumentar com Colbert; esta austera gazeta que preferiria despedaçar as suas magnificas machinas a consentir que ellas imprimissem um _bon-mot_, uma pilheria, uma linda bagatella ou uma jovial anecdota; este papel tão pudico que evita o nome de Zola, como uma indecencia--o _Times_, emfim, o venerando _Times_, foi ultimamente victima de uma d'essas _partidas_, como nós dizemos, _facecias em acção_, como dizem os Americanos, que são ao mesmo tempo nefandas e patuscas, que nos abrazam a face de indignação e nos arrancam aos labios um sorriso, que nos fazem vituperar publicamente o farçante e saborear secretamente a farça, como se vissemos um rabo de papel pregado ao manto d'el-rei, ou sobre os cabellos em caracoes da imagem do Senhor dos Passos--um chapéu alto.
Todas as pessoas que teem folheado esses vastos lençóes de materia impressa que constituem um numero do _Times_, sabem que a quinta pagina é ordinariamente destinada á publicação dos discursos pronunciados por homens eminentes da politica, da litteratura, da sciencia, da arte, em _meetings_, comicios, banquetes, inaugurações, _conversazioni_, em todos esses ajuntamentos de _ladies and gentlemen_ onde a Inglaterra dá vazão ao seu tumultuoso fluxo labial!... O _Times_ é famoso por estas reproducções. Não são resumos, nem extractos: são as arengas, palavra a palavra, especialmente tachygraphadas para o _Times_ por um pessoal experimentado, com as interrupções correctamente transladadas, os murmurios religiosamente marcados, sem que lhes falte um _meus senhores!_, sem que ficasse perdido um _oh!_ ou um _ah!_ e revistas, esmiuçadas, zeladas como se tivessem cahido dos labios de Socrates ou de Christo prégando outro Evangelho.
Este simples serviço custa por anno ao _Times_ milhares de libras--mas dá-lhe a vantagem de ser elle a acta official do verbo publico da Inglaterra. Todos os jornaes da Europa assim o reconhecem: quando se discute um discurso do Sr. Gladstone, uma conferencia do professor Huxley ou uma predica do arcebispo de Canterbury, tem-se presente, como texto sagrado, o texto do _Times_. Um orador póde negar a incorrecção de um adjectivo, a violencia de uma apostrophe, quando a apostrophe ou o adjectivo tenham apparecido nos resumos rapidos de outro jornal: nunca, quando hajam apparecido nas columnas infalliveis do _Times_. Sabe-se a despeza, o desvelo, a minuciosidade, empregada para obter a exactidão--e essa exactidão nunca é contestada.
Quando o Sr. Gladstone, na campanha eleitoral da Escocia, soltou essa famosa invectiva contra o imperio dos Hapsburgos,--o protesto cortez do embaixador d'Austria era fundado em citações do _Times_. Um orador que, querendo deixar um monumento solido da sua arte, publique os seus discursos em volumes--collige-os do texto seguro do _Times_. O _Times_ tem aqui o valor d'uma reproducção photographica. Insisto n'isto, para tornar mais vivo o horror da facecia.
Ha semanas Sir William Harcourt, o ministro do interior, fez um discurso em Manchester, discurso consideravel, muito annunciado, muito esperado, tocando todas as questões que inquietam agora a Inglaterra, a anarchia da Irlanda, o tratado de commercio com a França, a intervenção no Egypto, a criação do Governo Municipal de Londres, outras coisas graves ainda.
Esta arenga, tachygraphada pelo pessoal do _Times_ em Manchester, telegraphada para os escriptorios do _Times_ em Londres, foi composta, lida pelos revisores, revista pelo secretario de Sir William Harcourt, verificada, comprovada, relida ainda, e, emfim definitivamente installada na sua pagina... E aqui se colloca a facecia.
Mas é necessario primeiro, para maior indignação e maior goso, conhecer Sir William Harcourt. De todos os membros do ministerio Gladstone, Sir William é o mais austero. Já a sua apparencia intimida: grosso, membrudo, de hombros compactos, com a face imperiosa, pallida, rapada, Sir William tem as linhas solemnes e marmoreas do busto de um Cesar.
E dentro d'esta fórma romana habita um espirito rigido de doutrinario: liberal (em comparação com o marquez de Salisbury, que é quadradamente feudal), Sir William representa no Governo a tradicção, a formula _whig_. É o contrapeso conservador d'este ministerio radical: está alli como um bloco de granito constitucional para impedir que os outros ministros, Chamberlain, Sir Charles Dilke, os discipulos de Stuart Mill, se adiantem muito pela grande estrada da Revolução: e tem por isso essa ampla solemnidade de maneiras, essa cadencia pomposa de expressão, de quem se honra em guardar as coisas supremas--a corôa, a egreja, a aristocracia territorial, os privilegios, a integridade do imperio... É um solemne. Mesmo abotoado n'um paletot, parece embrulhado n'uma toga. É moroso, massudo, incapaz de sorrir, tem essa especie de magestade official que faz lembrar ao mesmo tempo Guizot e um elephante.
E quando a gente o contempla no parlamento, grave, rispido, vestido de negro--não o póde conceber nas attitudes triviaes da vida, fumando um cigarro n'um sophá, com uma perna por cima da outra, muito menos de joelhos, com uma linda mão de mulher entre as suas, murmurando coisas ternas e tontas...
E é isto que torna atroz e deliciosa a facecia... O discurso solemne d'este solemne estadista estava, pois, paginado, pronto para passar ás machinas, quando aproveitando um momento em que a policia interior dos escriptorios do _Times_ casualmente afrouxára de vigilancia, _alguem_, um monstro, um scelerado, subtilmente, pé ante pé, foi ao discurso, arrancou-lhe dez ou doze linhas, e substitue-as por outras, compostas de ante-mão, perfida e habilmente compostas! E que linhas! meu Deus! como posso eu, conservando-me casto, explical-as aos leitores da _Gazeta de Noticias_?
Essas linhas intercaladas no severo discurso do severo ministro eram (tremo de dizel-o) eram linhas eroticas! Era um grito convulsivo de desordenada lubricidade; era o ruido d'uma besta agitada por todas as furias de Venus; era como esse rouco e secco bramar dos veados, nos bosques, sob a calma do estio; era a balbuciação ebria dos Faunos da fabula, do deus Priappo, dos Satyros caprinos que vagueavam pelos pendores sagrados do monte Olympo, ululando, trincando a brancura dos lyrios, violando o coração das rosas, arremessando-se com pulos ferozes de bodes ao entreverem, entre as ramagens dos olmos, as claras nymphas das aguas... Era tudo isto, e era ainda mais.
E, para requinte de facecia, isto não destoava, não chocava, apparecendo bruscamente e sem ligação, como um monturo immundo entre roseas flôres de rhetorica. Não: tinha sido _encaixado_ com uma habilidade diabolica. Sir William Harcourt estava accusando os conservadores de affectarem uma patriotica melancolia em presença dos suppostos perigos, que sob o regimen liberal correm os grandes principios da ordem monarchica, a integridade mesma da Inglaterra. E aqui perguntava-lhes, naturalmente n'um natural movimento de oratoria: «Porque são esses gemidos? Porque é essa exageração de tristeza publica? Decerto a questão da Irlanda e a do Egypto são graves: mas o governo de Sua Magestade sabe que as soluções proveitosas e gloriosas não tardarão... Nós estamos tranquillos. Eu, por mim, sinto-me na disposição de quem, depois de cumprir um dever official, tem para o recompensar o sorriso sereno e approvador da consciencia, etc., etc.»
E justamente aqui as linhas perversas entravam naturalmente traçadas, desenvolvendo mais esta affirmação de contentamento intimo, mostrando a exuberancia de espirito d'um ministro galhofeiro, que, em presença do glorioso estado da cousa publica, admitte que o regosijo da nação tome a fórma excentrica mas justificavel, de uma tremenda bambochata, de um regabofe de estalar tudo... Sir William prosseguia (comprehendem bem que eu dou só expressões aproximativas e atenuadas; traduzir á lettra o que appareceu publicado no _Times_ seria arruinar para sempre os creditos da _Gazeta de Noticias_) Sir William prosseguia: «Eu, por mim, estou contente. Acho-me até capaz de uma bella folia! Porque não nos daremos com effeito a uma rica patuscada, com vinhaça e mulherinhas? Oh, as mulherinhas! Senhoras que me escutaes, arremessae chapéus e vestidos, e toca a pandegar e a bater um rico batuque!... _Evohé!_ Viva o deboche! Olé, _champanhe_! Abracemo-nos, deliremos!...» Isto é só para dar ideia: o que se lia no _Times_ tinha outra crueza d'expressão, outro arranque d'orgia!...
Imaginem o effeito ao outro dia, quando milhares de numeros do _Times_, contendo esta abominação, penetraram n'esses recatados interiores inglezes, onde (segundo aqui dizem) habita o typo superior da familia christã. O _Times_, o mais caro dos jornaes, é a folha querida da aristocracia, da alta burguezia, da grande finança. Não se comprehende um _gentleman_ inglez, do padrão classico, sem ter logo pela manhã percorrido conscienciosamente o seu _Times_: é como o coração mesmo da Inglaterra, que elle sente um momento entre as mãos e onde verifica cada dia, com orgulho, um accrescimo de força, uma pulsação maior de vitalidade. Ordinariamente é ao almoço que se lê o _Times_: e n'essa manhã, vendo-se na quarta pagina, em lettras grossas, O DISCURSO DE SIR WILLIAM HARCOURT EM MANCHESTER, corria-se naturalmente a elle com curiosidade, já pelo interesse nacional, já pela sympathia que inspira Sir William, o seu nome historico, a solida pureza dos seus principios, a sua alta posição...
Imaginem-se então as scenas! Aqui é uma velha e devota duqueza, cheia de enthusiasmo pelas questões sociaes, que se aconchega na sua rica poltrona de tapeçaria, para melhor saborear a nobre oratoria de Sir William--e que de repente estaca, encara o _Times_, limpa as lunetas, imaginando ter lido mal, torna a percorrer o periodo, passa a mão tremula pela face, procura anciosamente o seu frasco de saes, volta ainda a verificar se a não enleia uma allucinação, e, arremessando emfim para longe a gazeta immunda, sae da sala a passos offendidos, pensando comsigo que são esses os resultado de um seculo de democracia, de materialismo e de libertinagem!
Além é um casal de noivos, que, aninhados no mesmo sophá ao pé do fogão, com os braços entrelaçados, precorrem o _Times_, menos para saber da questão no Egypto, do que para ler o _compte-rendu_ de outros casamentos elegantes ou as noticias de Paris, onde tencionam ir findar a sua lua de mel; mas encontram o discurso de Sir William, dão-lhe um olhar distrahido, quando de repente lhes salta d'entre as linhas o jorro immundo das apostrophes eroticas!
N'outra casa é uma fresca e loura creaturinha de desoito primaveras, puro lyrio domestico, que faz a leitura do _Times_ a um velho tio general, tolhido de gotta, reliquia veneranda das guerras peninsulares; o velho escuta, pouco attento á politica do dia que detesta, mas muito ao encanto d'aquella voz d'oiro ao seu lado; de repente, porém, o pobre anjo gagueja, pára, faz-se da côr d'uma rosa, treme, a sua vergonha é tal que lhe saltam as lagrimas dos olhos, e foge, deixando o immundo _Times_ nas mãos do general assombrado:--ou então, caso peior, a doce rapariga, na sua candura de flôr d'estufa, não comprehende, imagina que _aquillo é politica_, continua a ler com a sua voz d'oiro,--e o veneravel tio ouve de repente sahir dos labios de botão de rosa, feitos só para murmurar o que ha de mais casto na musica de Weber, um enxurro torpe de babugens lubricas.
É medonho! E uma feição curiosa do incidente é que este negro attentado só foi descoberto nos escriptorios do _Times_ ás onze horas da manhã: isto é, quando o jornal já estava distribuido em Londres, levado pelos trens de madrugada para toda a provincia, e pela mala de Dover para toda a Europa! A administração do _Times_ telegraphou logo a todos os seus agentes no mundo, para suspender a distribuição _e comprar por todo o preço_ os torpes numeros já espalhados.
Só estes telegrammas custaram perto de _dois contos de reis_. Mas o melhor é que apenas se soube a historia da catastrophe, e que o _Times_ comprava por todo o preço o numero maldito--esse numero tornou-se logo um valor, um papel de credito, base de especulação, com cotações no mercado, eguaes, se não superiores, aos fundos de muita nação civilisada. Eu sei d'um restaurante que toma regularmente quatro numeros do _Times_--e que vendeu os seus exemplares immundos a duas libras cada um.
Realizaram-se, porém, ganhos maiores. O _Times_ não regateia, paga. E até hoje diz-se que em comprar essa fatal edição tem gasto já perto de _quarenta contos_.
O autor da facecia ainda se não descobriu. É sem duvida, um monstro, e seriamente merece a tremenda sentença com que decerto os tribunaes inglezes o demoliriam, se elle apparecesse. Mas, por outro lado, considerando que quarenta contos são apenas um somma minima para a fortuna do _Times_, e que esta gazeta austera leva o seu pedantismo e a sua empolada _pruderie_ a sustar, como obscena, a menção sequer dos livros de Zola e de outros realistas,--eu não posso deixar de pensar, com laivos de regosijo, que a Providencia tem armas obliquas e terriveis!
Nunca, decerto, desde a invenção da imprensa, aconteceu um jornal publicar, na sua melhor pagina, em letras salientes, doze linhas immundas de desbragada obscenidade; e ser o _Times_, o primeiro que o fez, o _Times_, o mais pesado, mais moroso, mais solemne, mais pedagogico, mais reverente de todos os jornaes que têm existido desde a invenção da imprensa--é, digam o que disserem, divertido.
E, terminando, peço ás almas caritativas e justas uma bôa risada á custa do _Times_.
INDICE
Pag. Afghanistan e Irlanda............. 1 Ácerca de livros.................. 15 O inverno em Londres.............. 33 O Natal........................... 45 Litteratura de Natal.............. 55 Israelismo........................ 63 A Irlanda e a Liga Agraria........ 77 Lord Beaconsfield................. 95 Os inglezes no Egypto............. 125 O Brasil e Portugal............... 207 A festa das creanças.............. 223 Uma partida feita ao _Times_...... 231
End of Project Gutenberg's Cartas de Inglaterra, by José Maria Eça de Queirós