Chapter 10
O duque de Connaugth, um dos filhos de S. M. a Rainha, faz parte da expedição, e o duque de Teck, seu cunhado, não sendo militar, partiu, diz-se, como simples empregado do correio. Os officiaes dos regimentos de guardas, essa pura nata da aristocracia e flôr da finança, tiveram a ventura de vêr os seus luxuosos regimentos, de ornamentação monarchica, expedidos para o Egypto; sómente este natural prazer foi em parte estragado pela severidade do ministerio da guerra, que, como se tratava de uma campanha e não de um torneio, não consentiu que esses gentis-homens fôssem seguidos por equipagens, creados de librés, tendas de luxo e caixas de vinho de Champagne.
Um d'estes officiaes exprimiu alto a sua indignação, porque o estado-maior só lhe consente tres cavallos de sella, dous creados de quarto e cinco malas de bagagem!
Por outro lado, ao comprido do Nilo toda a população fellah se declarou por Arabi; como por elle se declararam as classes lettradas, as mesquitas, os _ulemas_, os _coptas_, os proprios principes parentes do Khediva. Os _mudirs_, governadores de provincias, pagam-lhe a elle os impostos. Os _scheiks_ do deserto mandam-lhe a sua cavallaria.
E este ardor é tanto maior, quanto Arabi-pachá foi de ha muito prophetisado; já a sua inesperada entrada no governo se considerou um advento divino; e este rebelde (como outros rebeldes que tão gloriosamente fizeram o seu caminho na terra e no ceu) é Messias!
Uma antiga prophecia mussulmana annuncia que no seculo decimo terceiro da Hegira nascerá á beira de um grande rio um homem de raça vil, por nome Ahmet, que se revoltará, e restaurará o esplendor do Islam; ora, os arabes estão no século XIII da Hegira, e Arabi, cujo nome é Ahmet, cuja origem é _fellahina_, tendo nascido n'uma aldêa á margem do Nilo, revoltou-se contra o seu califa. Assim, elle reune o duplo prestigio de um Spartacus e de um Christo.
Concentrada a questão entre uma poderosa nação invasora e um patriota que defende o seu solo--a Europa tomou logo a sua tradicional attitude: isto é, murmurou algumas palavras de branda admoestação, e depois recuou para longe, a observar como um braço forte sabe usar da sua força, a estudar como se consuma a espoliação de um fraco.
Nos ultimos quinze annos a Prussia roubou a Dinamarca, e depois foi pela Allemanha saqueando reinos e grãos ducados; em seguida, desmembrou a França; mais tarde a Russia espatifou a Turquia; ha dous annos, subitamente, a Republica Franceza cahiu sobre Tunis, e empolgou esse desventurado estado barbaresco. Em cada um d'estes casos a Europa comportou-se como um coro das operas d'antiga escola, quando membrudo barytono, ahi pelo quarto acto, erguia o ferro sobre o tenor gentil e magrizela: o côro adeanta-se, modula uma larga phrase, agita os braços em cadencia, faz o commentario amargo da acção, brada talvez: _suspendei_! Depois, afastando-se em grande compostura, deixa á bocca da scena o tyranno barbudo sondando tranquillamente com a ponta da lamina o interior do galã...
Não fallemos mais na Europa. Não ha, nunca houve _Europa_, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Ha hoje apenas um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um accordo tacito, permittem que cada um por seu turno se adeante--e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas do Direito Internacional, allumiadas por Ortolan e outros lumes, rouba-se de carabina alta, e rompem a cada momento brados de povos assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta d'estes avisos em lettras gordas: _Beware of pick-pockets!_ Cautela com os salteadores.
A pequena propriedade politica tende a acabar. Toda a terra vae em breve reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietarios... Hontem, era Tunis--porque a França necessita proteger a fronteira da Argelia. Hoje, é o Egypto--porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da India. Amanhã, será a Hollanda--porque a Allemanha não póde viver sem colonias. Depois, a Servia--por motivos que a seu tempo a Austria dirá. Mais tarde, a Rumania--porque a Russia é forte. Depois a Belgica--porque sim. Depois...
Este assumpto é lugubre. Voltemos ao valle do Nilo!
VI
Situação dos exercitos.--O Nilo, a secca, os areaes.--Os perigos de um «Jehad».--O septicismo mussulmano.--O mundo ingleza-se.--Filaucias de John Bull.
Postos estão frente a frente Os dois valorosos campos...
Esta melancolica chacara que, se bem me recordo, chora as desgraças de Alcacer-Kibir--serve para pintar graphicamente a situação estrategica de inglezes e egypcios, desde que se abriu a campanha.
Para comprehenderem bem, imaginem um grande A. O triangulo interno da lettra é o Delta--essa terra amada dos deuses, tão rica, que ella, só por si, outr'ora alimentou o imperio romano; ao alto da lettra, na ponta, está o Cairo--de sorte que um poeta persa poude dizer gentilmente que o Delta é um leque verde fechando sobre um botão de diamante, que se chama o Cairo. Á base da perna direita do A fica Alexandria, e ahi permanece uma parte do exercito inglez, defendido pelas fortificações de Ramleh--e tendo deante de si, a tiro de peça, o grande campo entrincheirado de Arabi-pachá, que se chama Kraf-Daonar, contendo 18 mil egypcios, enormes parques de artilharia, e fechando a marcha pelo Delta. A outra parte do exercito inglez, commandada pelo proprio general em chefe Sir Garnet Wolseley, dirigiu-se por mar á base da perna esquerda do A, que é, pouco mais ou menos, Ismailia, e d'ahi subiu por essa linha até Kassassine, onde parou e se fortificou; achando-se igualmente a pouca distancia, outro enorme campo entrincheirado, onde Arabi tem quinze mil homens, que se chama Tel-el-Kebir. E estes quatro campos, postos frente a frente, e observando-se, constituem até hoje a guerra do Egypto.
Para chegar, pois, ao Cairo, seu objectivo militar e politico, Sir Garnet precisa tomar as posições egypcias de Kraf-Daonar, se quizer ir pelo Delta--e as de Tel-el-Kebir, se tentar avançar pelo deserto.
Até hoje os quatro campos limitam-se a trocar entre si, em certas escaramuças, algumas languidas balas. Os jornaes de Londres, naturalmente, noticiam estes tiroteios de vanguarda com um tremendo apparato de lettras de palmo, mappas lithographados e largos rufos de prosa--fazendo maior alarido do que se tivesse sido pelejada de novo a batalha de Waterloo; mas isto é simplesmente para promover a venda do numero.
Os egypcios, entrincheirados, em seus campos contam com poderosos alliados: do lado do Delta confiam no Nilo, o velho e bondoso Nilo, que não poderá deixar de ser fiel áquelles que ha seculos nutre, e que, dentro em pouco, inundando as terras do Delta; e ajudado pelos engenheiros d'Arabi, que certamente obstruirão os canaes, terá convertido n'um immenso estendal de lamas inatravessaveis esse caminho do Cairo, o mais favoravel para os inglezes, pois seria como marchar n'uma rica e infindavel granja, entre pomares, jardins, frescuras e celleiros cheios... Do lado do deserto, os egypcios contam com o sol, com a secca e com a areia. Póde-se imaginar o que soffrerão essas tropas do frio Norte, marchando em areaes abrasados n'uma reverberação de luz que estonteia, sob um calor tão torrido, que o _metal dos estribos cresta os botins_, e tendo para beber só agua barrenta, que é necessario ferver primeiro! Já as insolações, as dysenterias, a nostalgia, dizimam os regimentos--e como o commissariado inglez, sempre mau, encontra aqui difficuldades de transporte, as tropas de S. M. a Rainha Victoria _já tem soffrido fome_! Ah! custa caro o caminho das Indias!
Além d'estes alliados que elle possue na natureza, Arabi espera ainda nas tribus beduinas, e n'essas hordas errantes d'arabes a cavallo que estão chegando do lado de Tripoli a combater o _cão estrangeiro_, e que, se diz, constituem um reforço de trinta mil homens...
Por seu lado, os inglezes contam apenas comsigo. E isto não é pouco. Como diz a sua celebre canção de guerra--_elles têm os navios, têm o dinheiro, e têm os homens_. Têm tambem essas magnificas tropas indias, que riem do sol, da secca, e das areias d'Africa. E isto levou Sir Garnet a declarar que a campanha estaria finda no dia 15 de setembro. É verdade que nós estamos a 7 de setembro, e elle, entrincheirado em Kassassine, tendo deante de si a barreira formidavel de Tel-el-Kebir, ainda está pedindo reforços. Mas isto prova só que esse raio de guerra, tendo habitos differentes dos de Cesar, _chegou, viu, e reflectiu_. Demos-lhe mais um mez; demos-lhe tres largamente; o certo será que ao fim d'este anno, Arabi, os seus campos, o seu exercito, a sua bella aspiração a uma nacionalidade egypcia, tudo isso se terá esvaido--como se esvae uma nuvem n'esse secco céo africano.
Os inglezes poderão soffrer revezes, perder milhares d'homens, gastar milhões de libras; mas, tendo uma vez compromettida a honra da sua bandeira, com um fim d'engrandecimento imperial, não embainharão a espada antes de ter installado na cidadella do velho Cairo, ao som do _God save the Queen_, um governador inglez.
Evidentemente o snr. Gladstone falla apenas de _restabelecer a ordem e restaurar o Khediva_. Meras locuções diplomaticas. O _Times_, que é o verbo d'Inglaterra, esse falla, sem rebuço, em _protectorado_. E ha muitos inglezes, ainda menos reservados que o _Times_, que dizem redonda e seccamente--_conquista_.
Mesmo quando o snr. Gladstone, que é a seu modo um democrata dentro dos limites do Evangelho, e o seu illustre collega Lord Granville, que é um jurista e um diplomata, quizessem, em respeito ao liberalismo, á Europa, ao direito internacional e a outras cousas vagas, deixar o Egypto reorganisar-se a si mesmo--sahindo elles de lá com as mãos vasias, depois de terem supprimido Arabi e o seu turbulento partido--a Inglaterra inteira, em massa, protestaria contra este philosophico desinteresse...
Ha alguem ahi assaz ingenuo para suppôr que John Bull, essa torre de senso pratico, consentiria em que se lhe dizime o exercito, em que se lhe gaste o dinheiro como elle gasta a agua das fontes, em que se lhe augmente o _income-tax_--só para que o Khediva, esse amavel moço, continue a fumar o _narghilé_ do poder sob as sombras dos jardins de Choubra? John Bull não ficará satisfeito senão com este resultado macisso e duradouro--um _Egypto inglez_, tendo dentro do seu territorio, como um corredor de casa particular, o canal de Suez, caminho das Indias. Um ministerio que, depois de ter enterrado nos areaes da Africa milhões de libras e milhares de vidas, não lhe der isto--receberá no mesmo instante, na parte posterior da sua individualidade, o bico da bota de John.
Mas se Arabi, derrotado, conseguir levar o Scherife de Méca a proclamar contra a Inglaterra um _jehad_--que é uma guerra santa, uma crusada, um levantamento em massa do mundo mussulmano?
Bons espiritos, em Inglaterra, dizem ser este um grande perigo--pois que só na India ha cincoenta milhões de mahometanos. Eu não creio, porém, que haja aqui motivo para John Bull empallidecer. E lamento-o! Porque é d'um bello pittoresco essa idéa d'um _jehad_ com o seu ceremonial--o Scherife de Méca desenrolando o estandarte verde de Mahomet, os doutores do Islam assignando todos o _fetva_ fatal, e logo, de cada canto da Asia e d'Africa, a torrente dos crentes precipitando-se em nome de Allah! Bello motivo d'ode--a que não corresponde nenhuma realidade...
Em primeiro logar, nunca se fez! O crescente tem sido muitas vezes humilhado pela cruz, o Islam tem recebido na face a mão da Europa christã, o Califa tem fallado repetidamente em proclamar um _jehad_--e todavia o estandarte do Propheta continuou enrolado nos sacrarios de Méca. E a minha opinião é que se elle fôsse um dia desenrolado--haveria apenas um pedaço de panno verde mais, fluctuando ao vento do ceu.
E querem que lhes diga porque? Porque penso que os mussulmanos estão a esta hora tão scepticos como nós outros, os christãos. Nas areias do deserto, como nas nossas praças allumiadas a gaz--já não será facil encontrar mil homens de boa vontade, que peguem em armas em nome do seu Deus.
De certo todo o bom mussulmano, a certas horas do dia, se orienta para o lado de Méca e se prostra nas reverencias rituaes: pura questão de educação, de boas maneiras, de habito, como nós outros tiramos o chapéu ao passar por um calvario de aldeia. Ou então, superstição vaga, vago terror nervoso, como o de certos philosophos e positivistas das minhas relações, que sempre, ao saltar da cama, fazem o signal da cruz.
Dentro do Alcorão vê-se já o caso melancolico de uma lei divina ir cahindo em desuso. O Sultão recebe a jantar os embaixadores, e bebe com elles _champagne_: a policia do Cairo prende os santos _derviches_ vagabundos, e já não é respeitado o jejum do Ramazan.
Como o nosso Evangelho, a palavra de Mahomet vae-se tornando objecto de poesia, de commentario, de controversia. Ha Renans no Islam; e o verbo divino, uma vez analysado, deixa de inspirar a fé que leva á morte.
O mundo mussulmano está no seu seculo decimo-terceiro, na sua plena meia edade, e certamente ha muito beduino sob a tenda, tão crente, tão penetrado de Mahomet, como aquelles corações simples, que, ainda ha pouco no deserto dos nossos claustros, choravam ao ler a paixão de Jesus; mas não creio que mesmo esses patriarchas deixassem os seus oasis, os seus rebanhos, os seus harens, para virem gratuitamente, sem outro pret a não ser o sorriso das houris nos jardins do Paraizo, supportar o fogo dos canhões Krupp. E emquanto ás classes cultas de Constantinopla, do Cairo, de Smyrna, de Tunis, essas acreditam tanto na promessa das houris, como nós outros, aqui em Regent-Street, nas palmas verdes da Bemaventurança e no côro dos Serafins...
Por todo o universo a religião desapparece das almas; e apenas lá fica essa vaga religiosidade, feita em parte do abalo que deu ao nosso coração uma tão longa sujeição ao sobrenatural, em parte do confuso terror que impera n'este grande universo que nos cerca, tão simples e tão mal comprehendido. N'este estado negativo, de passividade na duvida, não se gera facilmente um impulso d'acção forte. Um _jehad_ no Islam é tão impraticavel--como uma cruzada no Christianismo. Pedro Ermita hoje iria acabar na policia correcional, por perturbador da ordem publica e das relações internacionaes; e os fanaticos que, ainda hoje, ás portas das mesquitas do Cairo, bradam contra o _touriste_ estrangeiro as injurias aconselhadas pela boa doutrina, são immediatamente levados para a enxovia, por _fazerem alarido nas ruas_!
Mahomet, nas suas mesquitas, Christo, nas nossas capellas, vão singularmente envelhecendo; o nosso Messias vae-se cobrindo pouco a pouco do pó que levanta o forte arado da razão, lavrando um mundo novo; e o propheta do Islam, tendo perdido a força da sua unidade, subdividido em mil prophetas menores que presidem a mil seitas differentes, mal póde resistir á lenta avançada da civilisação occidental. E com Christo e Mahomet, que eram os principios militantes e vivos das suas religiões, desapparece o que n'essas religiões havia de vivo e de militante. Resta Deus, resta Allah. Sublimes abstracções, incapazes de inspirar amor ou heroismo.
O que mais faz amar a Divindade é a quantidade de humanidade que ella encerra. Clovis batia-se por Jesus, que tinha um peito de homem como o d'elle, e n'esse peito humano cinco chagas abertas; Soliman morreria feliz por Mahomet, que era como elle um guerreiro, e como elle amava a belleza.
Mas quem se vae bater por Deus, por Allah, essas entidades tão vastas que enchem todo o ceu, e tão pequenas que não bastam a satisfazer o nosso coração, que nos são subalternas, porque são feitas á nossa imagem, e são no fundo a nossa propria alma alargada até ao infinito com todas as suas fraquezas?!
De resto, é possivel que eu esteja aqui attribuindo a fortes corações de Meca e do deserto os scepticismos litterarios de _Pall-Mall_ e do _Boulevard de la Madeleine_. Que sabemos nós do que se passa dentro do Islam? Tão pouco como os lettrados da mesquita d'El-Azhar sabem o que por cá vae dentro do nosso confuso catholicismo.
Mas, mesmo que se effectuasse um _jehad_, seria apenas motivo para a Inglaterra gastar mais alguns milhões e sacrificar mais alguns regimentos. Nem o Alcorão, nem o famoso estandarte verde, nem o proprio Mahomet, que voltasse á terra a desfraldal-o, impediriam que John Bull se estabeleça no Egypto...
Já lá está, nunca mais de lá sahirá!
Estão em toda a parte, esses inglezes! O seculo XIX vae findando, e tudo em torno de nós parece monotono e sombrio--porque o mundo se vae tornando inglez. Por mais desconhecida e inedita nos mappas que seja a aldeola onde se penetre, por mais perdido que se ache n'um obscuro recanto do Universo o regato ao longo do qual se caminhe--encontra-se sempre um inglez, um vestigio de vida ingleza!
Sempre um inglez! Inteiramente inglez, tal qual como sahiu da Inglaterra, impermeavel ás civilisações alheias, atravessando religiões, habitos, artes culinarias differentes, sem que se modifique n'um só ponto, n'uma só prega, n'uma só linha o seu prototypo britannico. Hirtos, escarpados, talhados a pique, como as suas costas do mar, ahi vão querendo encontrar por toda a parte o que deixaram em Regent-Street, e esperando Pale-Ale e _roast-beef_ no deserto da Petrea; vestindo no alto dos montes sobrecasaca preta ao domingo, em respeito á egreja protestante, e escandalisados que os indigenas não façam o mesmo; recebendo nos confins do mundo o seu _Times_ ou o seu _Standard_, e formando a sua opinião, não pelo que vêm ou ouvem ao redor de si, mas pelo artigo escripto em Londres; impellindo sempre os passos para a frente, mas com a alma voltada sempre para traz, para o _home_; abominando tudo o que não é inglez, e pensando que as outras raças só podem ser felizes possuindo as instituições, os habitos, as maneiras que os fazem a elles felizes na sua ilha do Norte!
Estranha gente, para quem é fóra de duvida que ninguem póde ser moral sem ler a Biblia, ser forte sem jogar o _cricket_, e ser _gentleman_ sem ser inglez!
E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se _desinglezam_. Ha raças fluidas, como a franceza, a allemã, que, sem perderem os seus caracteres intrinsecos, tomam ao menos exteriormente a forma da civilisação que momentaneamente as contêm. O francez no interior da Africa adora sem repugnancia o _manipanço_, e na China usa rabicho. O inglez cahe sobre as idéas e as maneiras dos outros, como uma massa de granito na agua: e alli fica pesando, com a sua Biblia, os seus _clubs_, os seus _sports_, os seus prejuizos, a sua etiqueta, o seu egoismo--tornando-se na circulação da vida alheia um encommodativo tropeço.
É por isso que, nos paizes onde vive ha seculos, é elle ainda o _estrangeiro_.
Em toda a parte onde domine e impere, todo o seu esforço consiste em reduzir as civilisações estranhas ao typo da sua civilisação anglo-saxonia. O mal não é grande quando elles operam sobre a Zululandia e sobre a Cafraria, n'essas vastidões da Terra Negra, onde o selvagem e a sua cubata mal se distinguem das hervas e das rochas, e são meros accessorios da paizagem: ahi encontram apenas uma materia bruta, onde nenhuma anterior fórma de belleza original se estraga, quando elles a refundem para a fazer á sua imagem. Vestir o desventurado rei negro Cetewayo, como elles agora fizeram, de coronel de infanteria, obrigar os chefes dos Basutos a saber de cór os nomes da familia real ingleza, são talvez actos de feroz despotismo, mas não deterioram nenhuma primitiva originalidade de linha ou de idéa. Para Cetewayo, que andava nú, uma fardeta, mesmo de infantaria, não faz senão vestil-o; e é indifferente que dentro do craneo dos Basutos haja só formulas de invocação ao _manipanço_, ou tambem nomes de principes da casa d'Hanover.
Mas quando elles trabalham sobre antigas civilisações como a da India, onde existem artes, costumes, litteraturas, instituições, em que uma grande raça pôz toda a originalidade do seu genio--então a politica anglo-saxonia repete pouco mais ou menos o attentado sacrilego de quem desmantellasse um templo buddhico, bello como um sonho de Buddha, para lhe dar na sua reconstrução as linhas hediondas do _Stock Exchange_ de Londres; ou ainda de quem se fôsse ao marmore divino da Venus de Milo, e tentasse, á força bruta de martello e cinzel, dar-lhe o feitio, as suissas e a sobrecasaca de lord Palmerston! A expansão do inglez para o Oriente, seu objectivo imperial, seria toleravel, mesmo aos nervos de um artista--se elle se contentasse em levar para lá os seus tecidos, as suas machinas, os seus telegraphos, os seus railways, deixando depois que essas raças usassem esse colossal material de civilisação em se desenvolverem no sentido do seu genio e do seu temperamento. Que por todos os modos se forneça á santa cidade de Hydrabad gazometros e illuminação--mas, por Deus! que se não mettam á força bicos de gaz dentro dos seus templos, se isso offende os seus ritos e repugna ao seu gosto! Que a India, por exemplo, seja coberta de caminhos de ferro, fornecidos pelos industriaes de Northumberland e pagos pelo indio--excellente! Mas ao menos que as aldêas onde elles passam, essas aldêas que os mesmos inglezes descrevem como pequenos paraizos de paz, de trabalhos simples, de costumes doces, de frugalidade, de frescura, de belleza moral, não sejam tornadas tão tristes como as tristes parochias de Yorkshire, introduzindo-se logo lá o _policeman_, o deposito de cerveja, a capella protestante de tijolo, o livreiro de Biblias, o vendedor de _gin_, a fumaraça de uma fabrica, a prostituição e a _workhouse_!...
Mas deixemos isto. É facil maldizer da Inglaterra. Basta abrir os livros dos seus grandes homens, desde Thackeray, o artista, que com um tão frio rancor lhe fez a satyra sangrenta, até Carlisle, o philosopho, que passou a existencia a fulminal-a com uma tumultuosa colera de propheta...
Da Inglaterra póde-se dizer que--ao contrario da generosa França--as suas virtudes só a ella aproveitam e os seus vicios contaminam o mundo.
É á Inglaterra que se deve o egoismo crescente que nos vae petrificando o coração--esse egoismo tão particularmente inglez, que faz com que em Hyde-Park, no seu centro de luxo, trezentas pessoas, em torno de um lago, vejam uma pobre criança afogar-se, sem que nenhuma se encommode a tirar o charuto da bocca para lhe estender uma taboa! É á Inglaterra que devemos esta crescente hypocrisia que invade o mundo, e que faz com que em Londres, nos cartazes que annunciam as peças de Sardou ou Dumas, se ajunte esta estupenda declaração: _adaptada ás justas exigencias da moralidade ingleza_;--emquanto que, na rua, por baixo d'esses mesmos cartazes, rola, sem cessar, a mais vil torrente que o mundo viu de bebados e de prostitutas!
Mas deixemos as maculas da Inglaterra: a lista é longa;--quero só alludir a um outro abominavel defeito que ella sempre teve, e que agora desenvolveu em proporções intoleraveis:--a sua espantosa filaucia, a sua ruidosa basofia, o seu tremendo ar _mata-sete_!