Carlota Angela

Chapter 6

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Eram bellas as noites, era de magia o céo estrellado, as luas-cheias no mar parece que recolhem de mais perto, n'aquella vasta solidão, as confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de leguas, a contemplativa amada veja n'ella os olhos do que a pranteia.

Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espectaculo, só donoso de extasis, e dulcissimo de espirituaes colloquios para amantes felizes.

E escreveu assim:

«O desgraçado não supporta as alegrias dos homens, nem as da natureza. Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de nuvens torvas o céo, rebôem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o ultimo mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira táboa do naufragado as fauces do dragão que abre um abysmo em cada resfôlego.

«O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmurios, nem a solidão arroubamentos para esse que a natureza repelliu de si, como leproso, chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança.

«Eu subi ha pouco á tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no Candal, ao pé de Carlota. Não pude fital-a. Os meus olhos caíram sobre o dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgencia da lua. Alli estive fascinado, n'aquelle ponto negro. Similhava-se-me a um tumulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de mulher que eu lançasse áquelle abysmo...

«E fugi, meu Deus, fugi, porque me não déstes um raio de esperança.

«Ó Carlota, Carlota, matar-te-hia eu?!»

Este fragmento de uma pagina, transcripto ao acaso, sirva para avaliar que afflictivo tranzito lhe foram os cincoenta dias de viagem.

No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo ás commoções da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu fogão. Eram estas as ultimas linhas da carta:

* * * * *

«Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso d'aqui já pedir-te o meu perdão. A memoria de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e villanias desapparecem com o miseravel corpo que os vermes desfazem. Fica a alma no seio de Deus, ou fóra do céo. Se Deus acolher a minha, de lá te chamarei; se me repellir este espirito, purificado no fogo da saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a unica pessoa que eu offendi n'este mundo. A offensa, minha amiga, está expiada. Tenho soffrido penas sobrenaturaes. Achei doçura e suavidade no supplicio, emquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que expelli em lagrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este flagello é de mais... esta quéda na sepultura, aberta no caminho de palmas que eu de lá vira, é um acto da Providencia que assimilha um escarneo. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo do céo! Amor... não t'o mereço: seria duplicada infamia pedil-o agora. Adeus.»

Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que fazia regulares viagens entre Portugal e o Brazil.

O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas accusando-o, outras absolvendo-o.

O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do sangue; depois, á maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio, a pallidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que revia suores frios.

Aquietada a angustia, depois de enfurecidos impetos, Salter quiz escrever, arrojou a penna, e levou as mãos á fronte, como a segurar uma ideia consoladora.

--Vou a Portugal!--murmurou elle--fujo, deserto, perco-me, mas vou a Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me!

Este projecto foi-lhe um desafôgo n'aquelle dia. Nenhum estorvo se lhe avultava insuperavel. O governador chamara-o para lhe communicar as ordens que recebera do governo e entregar-lhe officios do almirantado. Dava-se pressa do reino ao capitão da real brigada em executar os trabalhos commettidos, visto que Portugal ia ser compellido a reunir-se com Napoleão na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa subserviencia com que, alguns mezes depois, a côrte portugueza rompeu com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxilio na vilipendiosa e impolitica fuga.

Não invejamos a gloria do historiador portuguez d'esse tempo, pelas nauseas e vergonhas que lhe ha de custar a narração exacta do envilecimento a que descera a terra do marquez de Pombal. Se não fosse o receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com ideias, escrevia agora aqui uns threnos plangentes sobre a patria de D. João I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro mêdo, e vem a ser o de me ver a braços com difficuldades na resposta aos que me perguntarem se a patria de D. Fernando I e Affonso VI valia mais em dignidade, primor, e independencia que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas que desentoam aphonicamente da indole d'esta escriptura, mais que todas sujeita a fazer-se ridicula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma conspicua pitada, para julgar depois os reis e os povos.

O que se quer é saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça.

Nenhuma das hypotheses.

No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Angela foi visitado por um individuo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar uma herança no Rio de Janeiro.

Mendonça acolheu-o com alegria, suppondo-o portador de carta de Carlota. Disse o portuense que viera alli dar-lhe uma nova, talvez desagradavel ao principio, mas estimavel, quando a reflexão desvanecesse os effeitos da má noticia.

--Que é?--atalhou Mendonça--Estou preparado para o que for.

--Eu conheço Norberto de Meirelles, sou negociante como elle, e sei todos os passos da sua vida. Soube que v. s.ª lhe pedira a filha em casamento; soube que lh'a prometteu, para evitar que ella saísse judicialmente; e tambem soube que elle roeu a corda, como costuma em muitos outros contractos, quando o doutor Sampayo lhe participou de Lisboa que v. s.ª era mandado para aqui. É isto verdade, ou não?

--É, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com socego: D. Carlota vive?

--Vive, e vive feliz, pois não vive!

--Feliz!... diz o senhor...

--Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. s.ª espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas d'agora são como as ventoinhas. Palavriado, e mais palavriado; novellas e mais novellas; crendices e papagaices; e de tino e juizo nem para mandar cantar um cego.

--Eu não entendo essa mistura de anexins com que o senhor está retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a possivel clareza?

--Lá vou, snr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se previna, se ainda me não adivinhou... A filha do tal snr. Norberto confirma o dictado de que de ruim arvore, nunca bom fructo.

--Quer dizer que...--interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso mancebo.

--O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de cá vir com similhante...

--Com similhante commissão?!--concluiu Mendonça, erguendo-se em attitude ameaçadora.

--Commissão!--gaguejou o interlocutor com sensiveis signaes de surprendido.

--Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.

--V. s.ª está fóra de si!--tornou o atrapalhado homem, lançando a mão ao chapéo e á bengala--Eu não vim aqui offendel-o, e v. s.ª recebe-me de um modo que eu não mereço... N'esse caso retiro-me.

Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéo, e obrigou-o com branda coacção a sentar-se.

--Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve passar-me por esta escandecencia propria de um rapaz ardente, com o coração ainda intacto d'essas punhaladas que, muito repetidas, chegam a matar a sensibilidade. Estou de animo frio para escutal-o. Queira v. s.ª continuar.

--Eu...--disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobresalto--eu... se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...

--Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o senhor me disser o engano.

--Pois não adivinhou ainda? O senhor é esperto, segundo ouvi dizer, e já ha muito que devia entender que a tal menina não o amava.

--Entendi agora--disse serenamente Mendonça com habil artificio.--Mas, como prova v. s.ª isso?

--Como provo?

--Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Angela, quanto reputo v. s.ª um calumniador emquanto me não provar essa espantosa novidade.

--As provas, n'este caso...

--São difficeis, bem o sei; mas o senhor ha de poder dizer-me: Carlota não o ama, porque deu esta ou aquella prova de o não amar.

--A prova acho eu que é bastante dizer-lhe que ella, a esta hora, está casada com outro.

--Essa é realmente a suprema das provas possiveis; mas, se lhe não custa, conte-me os promenores d'esse casamento. Quem se diz tão intimamente informado da vida de Norberto de Meirelles deve elucidar melhor as cousas. Quem é o noivo de Carlota?

--O noivo...--tartamudeou o homem, enfiando de novo.

--É do Porto?

--Sim, senhor, é do Porto.

--Como se chama?

--Chama-se... esquece-me agora... v. s.ª de certo não conhece, ainda que eu lh'o diga... é um rapaz do commercio, que mora....

--Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordação do nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na rua de?...

--Na rua... de... ora que cabeça esta!... O senhor atrapalhou-me de tal modo que me fez perder...

--Até a memoria das ruas! é original essa perda! Diga-me mais, entretanto que lhe não lembra: Onde estava Carlota, quando o senhor saíu do Porto?

--Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no convento...

--No convento de...

--No convento, sim, no convento de...

--Tambem perdeu a memoria dos conventos! Descanse, senhor portuense, tome fôlego, e tranquillise-se, porque receio d'aqui a pouco, que nem do Porto se lembre. Fallemos de outro assumpto. Como está Norberto de Meirelles?

--Está bom, não ha mal que lhe chegue...

--Aquelle homem é rijo, sendo tão magro!

--Isso é verdade!

--E sempre tão pallido!

--Parece um defunto.

--Vejo que o senhor até perdeu a memoria do seu amigo Norberto! Conhece-lhe os intimos segredos domesticos; mas não se recorda que elle é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D. Rosalia continúa a cantar com aquella angelica voz que nós lhe conhecemos?

O noticiador estava tolhido de mêdo. A esta ultima pergunta fez uma cara de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e mandara-o sentar. Á segunda vez, a offerta da cadeira era pouco urbana: Mendonça pozera-lhe a mão no hombro direito, carregando com força bastante para aterrar o ensoado hospede, que se julgara em perigo. Este susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter correu a lingueta da chave.

--O senhor treme como todos os miseraveis alugados para uma acção infame. Não trema--disse Mendonça--que eu não lhe faço mal. Se o não fiz saltar por aquella janella, quando proferiu com menos respeito o nome de D. Carlota Angela, agora de certo o acompanharei até á porta da rua.

Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que officio tem o senhor? Vive d'estas emprezas?

Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a noticia d'esse casamento?

--V. s.ª... eu... obrigado pela necessidade...

--Diga; desengasgue-se d'esse nó de vergonha que tem na garganta. O senhor está entalado! Ora vamos: dizia o senhor--forçado pela necessidade...

--Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui...

--Esse homem é Joaquim Antonio de Sampayo.

--O mesmo é verdade, é esse...

--Designadamente para o fim de me avisar que a snr.ª D. Carlota casava?

--Sim, senhor.

--E não o ensaiou para representar melhor o seu papel?... O senhor executou miseravelmente a commissão do seu mandatario, e precisa de uma leve correcção, para que ninguem mais se fie na sua destreza. O senhor tem aqui papel e tinteiro. Escreva ahi, com clareza e verdade, o programma que lhe deu o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo.

--V. s.ª quer-me perder!... eu sou empregado na intendencia...

--E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por tão pouco. O senhor é um homem necessario ao Estado, e hoje mais que nunca ao ajudante da intendencia, porque é depositario de um segredo que o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? deixe-me ver o visto do seu passaporte.

O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço tremulo a Mendonça, que proseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e outro furtivo ao hospede:

--Escreva lá: _Declaro eu Luiz José Godinho..._

A penna não escreve?!

O pallido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes com o bico da penna, fora o tremor do pulso.

O silencio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando ha a optar entre dois perigos certos.

Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde animo do homem, não se arreceiava do impetuoso salto que elle deu fóra da cadeira, lançando mão da grossa bengala.

--Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque!--exclamou o transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao ventre de Mendonça.

O que susteve o official de marinha firme no seu posto, foi mais o espanto que a bravura.

--Então?--bradou o amanuense da policia, livido e tartamudo como se fosse elle o ameaçado--Abre-me a porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o de um lado ao outro!

Francisco Salter afastara-se; Godinho correra á porta, vendo desapparecer o adversario; rodara a chave com feliz exito; galgava o corredor que o devia levar á escada; mas na extremidade d'esse corredor havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de Mendonça, recuou o braço armado para impellir uma estocada porém a ponta de um faim a duas pollegadas do peito, restaurou-lhe o juizo prudencial, que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a berros de possesso, tres vezes, sem tomar fôlego.

--Cala-te, miseravel, que ninguem te mata!--disse Mendonça.

A força accumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que estrebuxa quasi esganado.

--Vae escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.

--Aqui de el-rei que me matam!

--Então salta d'aquella janella abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te recompense a fractura das pernas!

--Aqui de el-rei que me matam!

Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo faltou-lhe o equilibrio, e resvalou de costas até ao patamar. Ahi, quiz erguer-se; mas os musculos intercostaes desobedeceram á velocidade do espirito. O primeiro amanuense da intendencia soffrera desagradavel reforma na disposição das costellas: sem embargo, Azais notaria ahi uma nova compensação: as cordas vocaes augmentaram de rigidez; os aqui de el-reis eram cada vez mais estridentes.

Os visinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era hospede.

Hospede do capitão-general!

Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a inergia caridosa dos circumstantes. Qual d'elles mais carinhoso e diligente em saber a offensa para depôr contra o offensor, porfiavam em conduzil-o nos braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costellas, rebeldes ao arquejar doloroso do diaphragma, que puxava por ellas:

--Sejam muito boas testimunhas que o snr. Francisco Salter de Mendonça me quiz matar, em sua propria casa!

Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo, á porta de Mendonça, e defronte das janellas, contando aos que passavam a tentativa de assassinio perpetrada pelo official de marinha.

Luiz José Godinho trouxera da intendencia carta de apresentação ao conde dos Arcos, e outras confidenciaes, sobre negocios do Estado. O governador hospedara-o com distincção, julgando-o digno da hospedagem pela confiança que apparentava merecer a Manique, e conhecimento, que tinha, da causa mysteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.

Uma hora depois d'este successo, cujas consequencias não surprenderam o imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado á presença do governador, e interrogado ácerca dos motivos que lhe dera Luiz José Godinho para tamanha ferocidade, em sua propria casa, que deve ser asylo sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado pelo ar supercilioso do interrogatorio, respondeu que fosse inquirido em sua presença o offendido, que era essa a praxe da lei.

O governador espinhou-se, e mandou recolher á cadeia o official, para ser entregue aos juizes do crime.

Francisco Salter de Mendonça não grangeara amigos nem protectores no Rio de Janeiro. O seu viver fora intimo e só, fóra do serviço. Entretinha-o, na soledade, a amargura.

A justiça ouviu com sobrecenho a defeza do joven official, e achou a justificação inferior ao delicto. Godinho negava ter confessado o embuste para que viera commissionado pelo ajudante do intendente geral da policia. Os magistrados, porém, convictos de que o offendido era pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros, negaram ao preso, em ultimo recurso, o direito de se defender de um estoque.

Mendonça escreveu para o reino; mas Godinho voltara, são e correcto das costellas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou foi o bacharel Sampayo.

A situação do amante de Carlota Angela era extremamente infeliz.

Ao cabo de quatro mezes de carcere, sem novas do reino, nem absolvição da culpa, perdera o animo e a esperança.

Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diario, porque a dor, ao encadeiar-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as cordas onde soava o gemido.

Depois veio a furia, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra os homens e contra Deus, a tentação do suicidio, combatida pela imagem de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova d'ella.

Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não sabia consolal-o.

Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da sua prisão, e implorava aos juizes a liberdade do preso; alcançando apenas para si repellões desprezadores e, muitas vezes vergoadas de chibata sobre as lagrimas.

O escravo offerecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito equivalente ao valor da cousa, não consentiria a sua saida, e Mendonça, desprovido de meios para a sua subsistencia, não podia garantir com dinheiro a volta do escravo...

Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietario do negro, receioso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mez, chamou a si o escravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço mensal do seu unico amigo, e continuou a ver, perto de si, aquelles olhos reluzentes de lagrimas, lagrimas que lhe faziam bem ao coração, porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido de um cão.

Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.

Trabalhava na difficil execução d'essa traça, quando a escuna _Guerra-voador_ chegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o principe regente saíra de Portugal para estabelecer a côrte n'aquelle porto.

Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao carcere.

Francisco Salter apertou a mão do negro e disse:

--Seremos ambos livres, meu amigo.

X

Não ha coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de amar quem tem coração.

Fr. Antonio das Chagas. (_Obras espirituaes._)

Vêde agora se ainda persistis em vossa pretenção, porque, se este modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no estado em que até agora vivestes.

(_Ceremonial da congregação dos monges negros._)

E Carlota Angela?

Não dorme ainda o suspirado somno da morte sob a lagem humilde do claustro. Vive a vida que faz compaixão, e, nas pessoas que amam, excita o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor.

Creram-a moribunda em frequentes accessos: Rufina, Dorothea, e todas as religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face cadaverica, muitas vezes. Se, por instantes, tibio clarão de vida lhe retingia o rosto, é que a labareda da febre ahi vinha emprestar-lhe uma reanimação convulsa, á qual succedia o esvaîmento, com o suor frio do traspasse.

As orações eram contínuas. A communidade ia do quarto de Carlota para o côro, e do côro tornava ao quarto em ancias e esperanças que o fervor da oração lhe dera.

De uma vez, encontraram-a tranquilla, risonha e desopprimida. Uma a uma, Carlota chamou-as á beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando uma palavra inintelligivel.

Ás que choravam pedia que a não lastimassem, porque ella estava consolada com a esperança de descansar. Ás mais idosas, e veneraveis por sua santa vida, supplicava que a protegessem com os seus merecimentos, pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas d'esta vida.

Perguntava pela mãe, mas, se lhe fallavam do pae, se lhe diziam que elle vinha todos os dias saber d'ella, Carlota franzia a testa, e dava sustos de crescimento febril.

Soror Rufina esperava que ella lhe fallasse de Francisco Salter; Dorothea, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras allusivas; Carlota, porém, nunca permittiu á primeira, com o seu silencio, proferir tal nome; e á segunda, debulhando-se em lagrimas, fazia com a mão um signal de não poder ouvil-a.

Uma tarde, as duas meninas passeiavam no pomar: era a primeira vez que a filha de Norberto de Meirelles saía do seu quarto.

--Quando professas tu, menina?--disse Carlota.

--D'aqui a tres mezes.

--Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove mezes; mas ainda temos tres mezes de companheiras de noviciado.

--Pois queres professar, Carlota?!

--Quero, Dorothea, quero; se me não valesse essa esperança, estava morta. Já agora, o que me resta n'este mundo é o bem de me julgar perto de outro: d'aqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha, pedindo ao Senhor que... dê o céo...

Carlota, entalada por subitos soluços, não proseguiu.

--Diz, minha amiga... tu não me dizes tudo--acudiu Dorothea, abraçando-a com estremecido amor--ias fallar n'elle?... por que foges de me dizer que ainda o amas no céo?!

--Fugia de t'o dizer, Dorothea, porque o teu coração não póde avaliar que amor era este que perdôa a um ingrato, e daria a vida para o restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei e perdi. Mais desgraçada que eu ha uma só pessoa: é a mulher que o adorava; e mais desgraçado que ella e que eu, é elle, o infeliz, a quem tão pouco tempo o Senhor deixou gosar a mulher que o mereceu mais digna do que eu fui, e não teria, talvez, um pae que a aviltasse aos olhos d'elle.

--Como o teu coração é bom, Carlota!

--Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Dorothea, que já não é coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do céo; recordo quanto amei, quanto soffri, e tudo aceito, e o mais que soffrer, com o contentamento de uma penitente.