Chapter 4
Carlota contava-lhe miudamente os successos que a levaram ao convento; o patrocinio que encontrara em sua tia, as esperanças que esta lhe dava de docilisar a pertinacia do pae; o contentamento que ella sentia em esperar no remanso d'aquelle santo asylo o esposo querido; a liberdade que estava gosando alli de pensar no seu anjo, alli, onde ninguem tentava desvanecer-lh'o do coração; em resumo, Carlota dizia-lhe que estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que só saíria do mosteiro para ser esposa do predilecto da sua alma. Não ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa uncção, os enternecidos deliquios da saudade, os azedumes e dulcidão d'esse agrodoce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o balsamo da esperança allivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que devia ser uma carta de Carlota Angela: a alma inteira, no que a alma n'uma virgem tem de communicativo ao coração estranho, se estranho póde dizer-se o coração amigo que se sente e escuta dentro do nosso.
Francisco Salter era formado d'este barro humano, contra o qual se tem vociferado e estampado muita satyra.
A mais suave maledicencia, querendo poupar a natureza humana ás querelas e libellos da philosophia rixosa, diz que o homem é um mysterio.
A theologia christã, para desencarregar o supremo artifice do desaire da sua obra, diz que o homem é um ente degenerado da sua primitiva puridade.
Em boa paz com theologos e philosophos, a mim se me afigura que o homem é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pygmeu.
Mendonça tinha uma unica macula na sua excellente natureza: era a imperfeição, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de animo frio e vista clara, vae ver commigo.
A carta de Carlota Angela tranquillisou-o; não disse tudo--alegrou-o, deu-lhe um ar radioso de confiança e certeza na dedicação, que momentos antes lhe incutia o receio da mudança.
O homem é assim.
Parece que o amor sem a desconfiança, a esperança sem a duvida, lhe dá um socego de espirito que não quadra á sua natureza irrequieta. O pungir de constante espinho é-lhe um necessario estimulo de vida. Se elle sáe do coração, é forçoso que fira o orgão de outras paixões. Se o amor prevalece á ambição de gloria ou de riquezas, satisfaça-se o amor, e a outra paixão resultará com toda a impetuosidade do arco retezado... Não se tirem já contra Francisco Salter conclusões que o vago d'aquellas premissas não auctorisa.
A carta não baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a ancia da incerteza, affrontamento das conjecturas que elle formava ácerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da arrojada ameaça do Candal.
Se a levariam fóra do reino:
Se a casariam violentamente com outro:
Se a encerrariam n'um convento, incommunicavel:
Se a despersuadiriam com razões das que vencem o vulgar das mulheres, quando o amante as não anima com a sua presença:
Se Carlota seria uma mulher vulgar, susceptivel de succumbir ás contrariedades.
Tudo isto eram hypotheses atormentadoras; mas a carta respondia a todas. Carlota estava a salvo da perseguição; sósinha com o seu amor, que ninguem lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro. Este convencimento aplacou a vertigem de Mendonça.
A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessaria. O espaçar-se o casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessario aos seus deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o principe regente o honorificava.
E, depois, dizia n'elle o ente pensante:
«Não será bem decoroso para mim voltar do Brazil com uma posição tão acrescida em honras, que ninguem possa notar desigualdade entre mim e a filha do opulento commerciante?
«Como homem brioso, não deverei eu querer que a propria Carlota me considere um homem disputado por herdeiras iguaes, ou ainda superiores a ella?
«Os paes de Carlota, quando eu voltar habilitado para entrar no valimento dos mais poderosos, e igualar-me a elles, não terão pejo, vendo-me entrar em sua casa a castigal-os com pedir-lhes, segunda vez, a filha, sem dote?»
Assim fallava o orgulho do espirito; o coração, porém, patrocinando o anjo puro, a quem similhantes conjecturas injuriavam, tinha arrebatamentos de tão sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura á consciencia incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu victorioso, e o projecto de pedir a baixa readquiriu novos estimulos.
E os sonhos de gloria?
E os respeitos do mundo, que não eram, como hoje, restrictos ao dinheiro?
E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava tão sem nuvens?
E uma longa vida a viver só das commoções de um amor satisfeito?
E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro, ou se não póde, sem desdouro, proferir o nome do pae, que inverga, não a farda do general, mas o habito dos monges negros?
Replicava assim o orgulho reagente; e o amor supplicante exorava de novo; a imagem melancolica de Carlota Angela espelhava-se no coração do moço; resurgia ovante em toda a sua nobreza e isenção a amorosa alma, e a tenção de não partir reaccendia-se mais calida e inabalavel.
Assim, pois, chegou Mendonça a submetter o seu requerimento ao despacho do ministro.
Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se não julgasse o capitão da real brigada de marinha compromettido na maçonaria, onde se pactuara que a desobediencia implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de José Anastacio de Figueiredo, em Mafra, á sombra das telhas reaes.
O ministro chamou o requerente a uma audiencia secreta, e disse-lhe que não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens regias; que seria mal visto de sua alteza o subdito que tão mal correspondesse ao regio conceito: que seria degenerado portuguez o que, no solemne momento de pôr peito em defeza da patria e á remuneração de patrioticos feitos, se furtasse aos trabalhos e ás glorias: que seria irrisorio não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um incidente de terceira ordem na vida de um homem intelligente, e fadado para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria em castigo, se elle requerente persistisse na disparatada baixa, cuja concessão lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querença de sua alteza, que tencionava nomeal-o major da armada, logo que servisse tres mezes no Brazil.
O remate da allocução era a douradura da pilula. Major da armada! a aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realisavam na velhice! Voltar, depois de alguns mezes, a Portugal, major da armada, condecorado, ennobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao ministerio!
Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois annos, amada para sempre, votada aos sacrificios, aos desprezos, ás injurias, a tudo, para lhe merecer a elle a renuncia de glorias que retardavam um enlace tão suspirado!
Mendonça, na vespera da saida para o Rio de Janeiro, escreveu esta carta:
«Vê, minha Carlota, que eu choro. A afflicção não me deixa outro desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de leguas. Eu parto ámanhã para o Brazil, obrigado pela minha condição de servo agaloado. Deram-me o commando de um navio, e mandam-me cumprir serviços de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha gloria unica não fosses tu, esposa da minha alma. Quiz dar a minha baixa, requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quiz dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a corveta _Amazona_ esperava-me quasi aprestada para se fazer á vela.
«Mas eu não parto, Carlota. Comtigo fico, anjo. O meu coração ahi fica, ahi está pulsando no teu. As lagrimas de saudade que choras, choram-as tambem os meus olhos. Entre nós, n'esta longa distancia que nos separa, prende-nos a mesma cadeia de dores, de afflicções, de terriveis presentimentos. Quando te doer no coração o presagio da minha morte, sentil-o-hei tambem eu lá, e chamarei por ti no silencio da minha alma, n'este grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os ligamentos da vida.
«Por que choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela angustia; suppliquemos a essa filha de Deus, senão remedio, ao menos conforto ás nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem: «a vossa união ha de realisar-se passados seis mezes, ou ainda um anno», teriamos justo motivo para nos rebellarmos contra o destino, contra a Providencia que nos aproximou tão dignos um do outro?
«Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distancias são impossiveis entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuario de fervente amor, a mesma acção de graças a Deus, que não quer o infortunio dos que o confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lagrimas ha de a esperança enxugal-as. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos ás risonhas imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar uma separação de alguns mezes, quando nos separamos tão confiados, como se acabassemos de receber a benção no altar, como se, no derradeiro abraço, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.
«Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu sinto agora! que delicias nos aguardam para o dia immorredouro da nossa felicidade!
«Animo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem, para que o auxilio da razão não esmoreça. Animei-te; mas as lagrimas não me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora se me cerra em indizivel tortura o coração. Largo a penna, desafógo em gemidos este aperto de alma, similhante ao impossivel de comparar-se. Não me venço. Já creio que te perdi. Accuso-me de ingrato por que não deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo, para mendigar comtigo uma esmola em paiz estrangeiro. Eu sou vil, sou indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para que tu me perdôes tamanho crime.
«Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida! Impossivel, Carlota, impossivel deixar de seguir o meu destino! Agora mesmo sou chamado á secretaria para receber as ultimas ordens. Este calix irremediavel ha de ser tragado, ou a deshonra, a perseguição, e o perder-te... Que horrivel palavra!
«Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um crucifixo. Eu não o tenho aqui, mas invoco o testimunho de Deus, porque o meu coração, quando tu proferires estas palavras, ha de ouvir-t'as, e recolhel-as. Jura que só sairás do claustro para ser minha esposa; e, se a morte me colher longe de ti, acabarás ahi teus dias, e nenhum ente sobre a terra roubará á minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo, esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da bemaventurança.
«Juraste, Carlota? Agora crê que o meu espirito te pediria contas d'esse juramento, se a perfidia denegrisse a tua alma immaculada.
«Perfida!... tu!... Perdôa-me, anjo do céo, pelas lagrimas que choro, pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas!
«Adeus.....................»
VII
Fiel é Deus, que não soffre termos mais peso do que aquelle com que podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros allivios, e nesta fé se acabam os quebrantos.
Fr. Antonio das Chagas. (_Cartas._)
Carlota Angela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz; foram, porém, d'ahi levantal-a os braços de D. Rufina, que, acudindo ao soluçar dos gemidos, a encontrara esvaida.
Depois que a lançou á cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma noviça que vinha entrando:
--Quando assim se amam duas creaturas, a vontade de Deus está n'esse amor: tudo que os homens fizerem contra elle é um sacrilegio, é um attentado contra os designios do Altissimo.
A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu tambem a carta, e foi sentar-se á cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da sua amiga.
Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava com spasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.
--Chora, chora, Carlotinha--disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e acariciando-a com beijos.
--Se eu podesse chorar...--balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras de frio entre os braços de Dorothea.
--E, se elle morresse, não soffrerias mais, menina?!
Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela suffocação:
--Se elle morresse... quem?... pois sabes...
--Sei; li a carta, e tua tia tambem a leu, e chorou. Eu não acho razão bastante para succumbires assim.
--Eu não succumbo... se succumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas, Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...
--Arrepende-te, alma de pouca fé!--disse a tia, mostrando a sua nobre fronte de cabellos brancos, coberta com o magestoso véo negro, por entre os cortinados do leito--Que fallas ahi em morrer, creança! Vida, muita vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que te ensina esta carta, mulher sem animo. Vamos lel-a de novo: sou eu que a leio, e veremos se o coração de uma velha sabe melhor que a moça entender o coração de um mancebo.
D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem ellas a menor phrase esperançosa.
A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido indomavel que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes, a leitora. Era então que as consoladoras annotações de Rufina, e o assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquencia, capaz de maravilhar as freiras, que suppozeram sempre estranha á linguagem das paixões a austera religiosa.
Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensivel resultado das suas consolações, appellou para o influxo sobrehumano da religião.
--Venham cá ambas,--disse ella--vamos todas tres pedir de joelhos ao Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.
--Sim, sim!--exclamou Carlota Angela, saltando do leito, e seguindo-a com passos vacillantes.
Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difficil estremar entre as tres qual era d'ellas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era a devoção de todas.
--Agora respiremos!--disse, terminada a reza, a freira--Has de vel-o, has de ser sua esposa, minha Carlota.
Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta a crença em agouros, em presagios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte:
--Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?
--Deus, filha, não falla a creaturas tão peccadoras e indignas como tua tia; mas consente que se possa contar com os effeitos da sua divina misericordia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justiça, consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará, será teu marido, e tereis larga remuneração dos soffrimentos que offerecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos felizes d'este mundo.
Estas palavras soaram tocantes e solemnes como o prophetisar da que a communidade reverenciava assistida de graça superior. Carlota sentia alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a falla. As lagrimas, represadas no coração, rebentaram em torrentes: e o sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a lividez cadaverica do rosto.
Estava desopprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos incredulos com suas devoções, e austeras impertinencias; fora uma mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que tirara da cruz, onde expirara o amantissimo redemptor dos homens, remedio de vida, e esperança para a chaga de um coração de dezesete annos, ferido de desespêro e morte.
Assim, pois, na cella da rigida religiosa se desafogavam e consolavam affectos dos que, fóra d'alli, no mundo tolerante e vicioso, são julgados rebellião contra a vontade paternal, escandalo para filhas submissas, e peccadora cegueira do coração humano!
Quam inventiva não é a caridade! quam largas bracejam as vergonteas d'esse tronco evangelico, regado pelas lagrimas d'aquella a quem Jesus perdoara por ter amado muito!
A desvelada noviça não deixava sósinha Carlota, um instante. Ella e Rufina revezavam-se ao pé da pensativa menina, que parecia querer fugir-lhes, já não para se carpir, mas para orar; que, na oração sentia Carlota outro espirito em si, o murmurio de outros labios supplicantes, a fervorosa crença de Mendonça inflammar-lhe a fé.
A serenidade viera com a confiança no futuro: do sobresalto, da afflicção, pouco e pouco socegada, ficara a melancolia suave da paciencia, essa que só Deus concede aos que á sua misericordia recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram.
D. Rosalia visitava a filha miudas vezes, o pae raras; e de breve demora, porque o silencio de Carlota, que elle julgava desaffeição, desanimava-o de a ver, e incommodava-o a sós com ella.
Dizia a mãe, nos primeiros tempos, que não havia tirar-lhe o sim para o casamento; mas que ainda era cêdo para descorçoar. Dois mezes depois, mostrou-se mais docil a pertinacia, e já elle dizia que, na volta de Mendonça, tudo se faria pelo melhor: é que o ajudante do intendente geral da policia, por occasião de lhe pedir mais seis mil cruzados, explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para crear novos embaraços ao regresso de Salter, logo que a commissão, a que fora, estivesse cumprida.
Decorreram quatro mezes. Os navios vindos do Rio, já com a nova da chegada do _Amazonas_, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma visita da policia, e entregaram a correspondencia. Entre as cartas havia uma de grande volume, subscriptada a D. Carlota Angela de Meirelles, residente no mosteiro de S. Bento da Avè Maria, no Porto.
O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e lançou-as ao brazeiro, aquecendo e esfregando as mãos á lavareda. O malvado queimara alli o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da mais dorida saudade que ainda apertou coração de homem! O impio não se amiserara de tantos signaes de lagrimas em que a tinta se apagara! Que raptos de alegria, e suspiradas consolações aquella carta, que voejava no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão bellas o perverso queimou com a chamma d'aquelle papel!
Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio, esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga dor renascia em cada correio; redobrava a afflicção a cada esperança frustrada.
Conspiravam em consolal-a Rufina e a noviça, esta com razões mais carinhosas que persuasivas, aquella confirmando o vaticinio da felicidade promettida. Os allivios da primeira eram sempre proficuos e desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que tambem eram desabafo.
Decorreram tres mezes de afflictivas esperanças, sempre enganadoras para todas. Nem uma carta, nem duas linhas escriptas no leito da morte!
Carlota Angela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe trazia o coração em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente á bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a ella. Dorothea segredava á freira os seus receios, e esta pedia-lhe muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal desconfiança.
Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco Salter.
Carlota receiava que as suas amigas julgassem possivel ter elle morrido; assentimento tal seria para ella uma especie de evidencia, porque tão pouco basta para certificar suspeitas entranhadas n'um espirito que a desgraça fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto, cuidando que a matariam.
N'este conflicto, correu no Porto a noticia da morte de Francisco Salter de Mendonça. Ninguem sabia dizer por onde a noticia viera; os amigos, porém, do honesto e talentoso official de marinha contavam-se que elle morrera no Rio de Janeiro, quando a gloria o vinha buscar por uma carreira esperançosa de grandes destinos.
A noticia chegou ao convento. Souberam-a todas, excepto Carlota Angela.
Rufina caíu doente, e Dorothea denunciava-se á infeliz menina, evitando-a, quando mais anciosa de compaixão e carinho se sentia impellida para ella.
As freiras olhavam a pobresinha com mais piedade que nunca; animavam-a como se quizessem ter parte em seu coração para a salvarem pela amizade, quando houvessem de revelar-lhe a mortal noticia. Carlota estranhava os melancolicos olhares, os beijos e caricias de todas, a condolencia terna com que, as mais afastadas da sua convivencia, a vinham espairecer ao seu quarto.
Norberto de Meirelles procurara sua filha, n'esses dias em que a noticia vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pae de Carlota. Esta preparava-se para ir á grade, quando a anciada tia lhe disse:
--Vou-te aconselhar a desobediencia, minha sobrinha, e Deus me perdôe por sua immensa bondade. Não vás á grade. Eu tomo sobre mim a responsabilidade de mais um peccado.
E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha não podia fallar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguem iria em logar d'ella.
--E por que é isso, minha tia?!--perguntou a sobrinha admirada.
--Porque sim, minha filha. Receio que elle te venha fallar...--continuou balbuciante--em cousas desagradaveis.
E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota, vestiu-se, e foi á grade encostada a Dorothea.
--Então a pequena que tem?--perguntou Norberto.
--Está doente.
--Já lhe chegou a noticia! Que tenha paciencia. Deus tudo faz pelo melhor...
--Tambem digo o mesmo--atalhou Rufina.--E o mano agora que lhe quer? Consolal-a?
--Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do homem que morreu.
--Isso ha de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.
--Isso lá é bom p'rá mana; eu cá digo as cousas como sei.
--Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo se lhe dirá com prudencia e caridade.
--Pois ella ainda não sabe que morreu o homem?!
--Não, mano; se a noticia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não acho necessario dar-se-lhe uma nova que a póde matar.
--Qual matar, nem meio matar!--replicou o brutal arrozeiro, tregeitando com os beiços carnudos um gesto de incredulidade--Pobre de quem morre, diz o dictado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas namoradas, são como as viuvas: choramigam oito dias, e ficam frescas como se não fosse nada com ellas.
--Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e de mãe, se isso assim é. Estou bem convencida que ella fará um diverso juizo do soffrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire, pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a noticia á desgraçada Carlota. O mais difficultoso é curar depois a ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santissima que não será.