Chapter 12
--Sou. Emancipou-me o infortunio. Se me cortarem todos os meios da fuga, resta-me o recurso do suicidio; apparecerei morta no pateo do convento.
Soror Rufina ficou tranzida. Carlota contemplou-a com pezar n'aquelle quietismo terrivel. Estava a pobre senhora com a face apoiada sobre os joelhos, e as mãos erguidas. A filha de Norberto quiz divertil-a da lethargia; mas a gélida face da freira parecia de pedra, apenas as lagrimas borbulhavam incessantes nas mãos da sobrinha.
Ao lado, porém, da consternada anciã estava a imagem de Francisco Salter. Carlota queria consolar, promettendo o impossivel; mas o coração recusava-se á mentira.
A freira benedictina promettera fugir n'aquelle dia. Se não soubera esconder a traição, tambem não seria capaz de revogal-a, ou differil-a para mais tarde.
XVIII
_Venite ad me omnes qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos._
Jesus Christo.
Soror Rufina comprehendeu mal a exaltação de Carlota. No conceito da ingenua religiosa, sua sobrinha, posto que tentada pelo espirito das trevas a dar um passo de desesperada, um passo do altar para o abysmo, do limbo de esperanças celestiaes para o inferno das eternas dores, não chegaria a deixar-se vencer, caíria contrita aos pés da cruz antes de infamar-se e infamar o mosteiro com a fuga.
Carlota, por sua parte, não desmentiu a conjectura da freira, por isso que, por espaço de dois dias, esteve reclusa na sua cella, orando e chorando, quasi sempre sósinha, porque tanto a Cecilia como a Rufina pedia que a deixassem desafogar a sua angustia a sós com a imagem do Senhor, sua consolação extrema e unica.
Não podemos, porém, asseverar que as lagrimas e orações fossem o constante exercicio da freira benedictina. Duas ou tres cartas, que Francisco Salter de Mendonça recebeu, foram de certo escriptas em intervallos pouco edificantes d'esses dois dias, se devemos, do que aconteceu ao terceiro dia, avaliar o conteúdo d'ellas.
Ás tres horas da madrugada d'esse terceiro dia, que era o setimo do mez de setembro de 1811, Francisco Salter de Mendonça estava já desde a meia noite, encostado ao muro da cêrca do mosteiro, n'aquelle angulo que confina com a ultima casa da rua do Loureiro, hoje bem conhecida pela «Estalagem do Cantinho». Não averiguamos como elle conseguiu do locatario d'essa casa, que devia ser um sujeito de maus costumes, licença para engatinhar através do telhado, até alcançar o muro na parte onde é facil o salto para a cêrca.
Ao dar das tres horas no campanario do mosteiro, branquejou rente com o angulo do muro, que fórma a especie de fortim de ameias sobranceira á Porta de Carros, um vulto que desceu ao pomar, e ahi se sumiu por alguns minutos á vista do anciado Francisco Salter.
Era Carlota Angela, a professa benedictina, que fugira do thalamo do divino esposo, e a cada passo que dava comprimia no peito o coração que o phantasma do seu crime apavorava. Os minutos que se demorou no pomar, cerrado, por cuja copa o clarão da lua, já desmaiado pelos alvores matutinos, se coava, traçando sombras movediças, foram uma demora causada por uma syncope.
Francisco Salter, suspeitando isto mesmo, ou receiando o arrependimento, saltou o muro, deixando içada a escada de corda por onde Carlota devia subir, e foi direito ao pomar. A freira soltou um grito de terror quando viu ao pé de si um vulto. Salter proferiu o nome d'ella com amorosa angustia.
Mendonça tremia.
Não ha coragem de homem que vença a commoção d'estes lances. O silencio religioso que reinava alli; os trajos da religiosa, ainda os mesmos com que horas antes assistira á sua ultima oração em communidade, excepto a touca e o escapulario; esse intimo abalo com que a Providencia se denuncia nos corações mais endurecidos pela negação da falsa consciencia do irreligioso; e, sobretudo, a lucta de todos esses sentimentos com a paixão imperiosa, e o plano irrevogavel d'esses dois infelizes, fora, talvez, a causa do quebranto, e quasi desfalecimento de espirito em que ficou Mendonça ao apertar nos braços, pela primeira vez, Carlota Angela.
--Não posso!--exclamou ella--não posso dar um passo... Começo a sentir o castigo do céo... Receio morrer aqui.
--Não morrerás, Carlota...--acudiu Mendonça, apertando-a ao seio com vehemente ternura misturada de supersticioso sobresalto--Deus só castiga o crime das que abjuram os votos que faz o coração. Vem, Carlota, mais alguns passos, pouco nos falta já; d'aqui a momentos verás fugir esse terror, que me está opprimindo tambem a mim. Vem, amiga da minha alma...
--Não posso, Francisco... não posso...--tornou ella, soluçando, pendurando-se-lhe dos hombros com afflictivo modo, e olhando em redor com a vista assombrada de visões medonhas--Vae tu, que eu torno para o meu supplicio... Vae, meu amigo, que não póde haver felicidade sem Deus. Não queiras ser cumplice do meu crime, porque o has de expiar commigo. O melhor, na minha desgraça, é morrer, Francisco; morrer martyr, morrer digna de pedir ao Senhor por ti...
Francisco Salter balbuciava apenas monosyllabos. As palavras da freira calaram-lhe na alma um spasmo atribulado. Carlota sentia-o tremer como ella, ou mais ainda: o seu terror augmentava, com o silencio de Mendonça, com aquella especie de assentimento que elle dava aos presagios d'ella.
Por um momento se afigurou ao amante da religiosa que a desgraça era inevitavel. Calara-se o coração. Era o espirito religioso que sobrepujava o animo robusto do capitão de marinha. Tinham-o, talvez, debilitado os infortunios. Fizera-o, talvez, supersticioso a desgraça, se não quereis que possa chamar-se influxo providencial este mêdo. Por que não dizemos antes que a desgraça o fizera crente? Por que não estaria entre ambos o anjo do Senhor, o anjo Custodio que pedira ao Altissimo um raio da sua divina graça com que alumiar, a dois corações que se despenhavam, a profundeza do abysmo?
Carlota parecia banhada d'esse raio celestial, quando se lançou aos pés de Mendonça de mãos erguidas, orando, póde dizer-se, orando assim:
--Não me leves d'aqui, meu amigo. Não me queiras fóra do amparo divino que me deu esperanças de te encontrar no céo. Guardemos para lá os nossos amores felizes, amores bemaventurados por uma eternidade. Temos merecido tanto com os nossos martyrios, Francisco... deviamos de ser tão caros á piedade de Deus... não sejamos agora indignos da sua misericordia, e crueis para comnosco... A minha vida será curta no convento, e fóra do convento. Deixa-me morrer aqui; serás menos infeliz. Eu não me importa a deshonra do mundo: a infamação não poderia matar-me; mas, lá fóra, espera-me uma dor maior que todas, a do remorso, a da contrição impossivel sem a emenda.
Carlota proseguiu soluçando no seio do amante palavras inarticuladas, ás quaes responderam por fim as lagrimas copiosas de Mendonça, as primeiras que elle chorava doces e suavissimas, quaes se o Senhor lh'as désse como prelibação aprazivel das alegrias que sua alma teria em galardão do sacrificio.
Era já quasi dia claro, quando a freira benedictina, encostada ao braço de Mendonça, foi sentar-se no degrau da porta por onde uma hora antes saíra com a resolução de não mais entrar. Ahi, d'esse abraço derradeiro que se deram silenciosos, arquejantes, convulsivos, não saberemos dizer qual fosse a infinita angustia.
É certo que Francisco Salter, ao desapertal-a dos braços estremecidos em que ella proferia n'um gemido o ultimo adeus, cruzou os braços e disse:
--Vae, Carlota, que eu não posso disputar-te a Deus. Vae, filha da minha alma, que eu alimentei com lagrimas, que eu mereci a preço dos tormentos que nenhum homem supportou, para finalmente te ceder a um phantasma que me diz que não pódes ser minha. Recorda-te... olha para mim, Carlota, e assombra-te da grandeza da minha angustia e da minha paciencia. O homem que tanto padeceu para merecer-te, vae, sem ti, procurar a morte do corpo onde Deus quer que ella o espere depois da morte da alma, do assassinio lento de um coração que se teria salvado se ha tres annos te arrancasse aos braços de teu pae. Fui demasiadamente honrado para este mundo e para esta sociedade. Não quiz respirar este ar corrompido em que vivem os felizes... devia morrer. Por fim, devias ser tu a que me apontasses o teu remorso como estorvo a pertenceres-me. Fica, minha amiga, com a tranquillidade do teu espirito. Por ti soffri muito; mas não era o teu soffrimento o premio que eu vinha pedir-te agora. Quiz dar-te a felicidade, e cuidei que t'a dava. Quiz levar-te commigo aos pés do representante do Eterno na terra, para lhe supplicarmos que houvesse de Deus perdão para ti, que não poderas ser o que a desgraça te aconselhara que fosses. Diz-te o coração que o teu crime não póde ter reparação: é Deus que t'o segreda, Carlota, e eu não ouso argumentar contra as inspirações que te baixam do céo. Vae, pois, esposa de Christo, vae para o teu santuario, e chora-me ahi, chora-me emquanto eu viver; depois, ora por mim, porque a minha alma só as tuas orações podem purifical-a, e erguel-a á presença do divino Juiz. Adeus, Carlota.
A freira, do limiar da porta estendera ainda os braços para Mendonça, exclamando:
--Vem cá, Francisco, vem cá... escuta-me, por piedade!
--Carlota! Carlota!--disse uma voz, que os fizera estremecer a ambos.
Era soror Rufina, que surgira no angulo do muro, entre as ameias que cercam o terraço por onde a freira conseguira evadir-se.
Francisco Salter de Mendonça, admiravel de dignidade, retrocedeu, aproximou-se de Rufina, baixou ligeiramente a cabeça, e tomando Carlota pela mão, disse:
--Deus sabe que ella é cada vez mais digna d'elle. Assista com piedade ás agonias d'este anjo. Sua sobrinha, senhora, veio aqui buscar coragem para a morte, e ensinar-me a morrer com honra. A vida honrada já ella m'a tinha ensinado: faltava-me a morte, que devia ser de desesperança impia, se esta santa me ensinasse o segredo de expirar abençoando a desgraça.
Foram as ultimas palavras de Salter, palavras que a joven freira já não ouvira, porque os braços de sua tia lhe estavam sendo amparo na perda dos sentidos.
XIX
As religiões no meio do seculo, são como as ilhas no meio do mar, que ás vezes por invasões do mesmo mar se vão comendo, e soçobrando, e padecem suas injurias da visinhança deste poderoso adversario. Mas se nas ilhas ha tempestades, que será no coração dos mares? Oh! alegrem-se as ilhas, e multipliquem-se! que ainda com a communicação tão visinha dos mares, estão muito mais firmes e seguras que elles.
P. Manoel Bernardes. (_Floresta._)
Decorreram alguns mezes, tres seriam, depois do terrivel combate d'aquellas duas grandes almas comsigo mesmas.
Os succedimentos d'este lapso de tempo chegaram ao meu conhecimento contados de diversas maneiras.
Dizem informações do mosteiro, que a religiosa Carlota Angela, recobrando o vigor que o susto religioso lhe quebrantara, tentou de novo evadir-se, n'um impeto de delirio, pela porta de serventia dos carros que abre para o largo de S. Bento: tentação diabolica de que a energumena pôde salvar-se por intercessão do patriarcha, o qual n'esse momento lhe empeceu a fuga com o baculo, que a cegou com sua vivida refulgencia. Isto, pelos modos, não está bem averiguado, nem canonicamente se encampa, como milagre, á crendice dos leitores.
Outras informações mais racionaes dizem que Francisco Salter de Mendonça fora, no decurso d'esses tres mezes, com pontualidade quotidiana ao mosteiro, onde passava horas e horas na grade, com Carlota Angela, e com sua tia, algumas vezes.
A tradição, porém, mais corrente, e sustentada por pessoas coevas de grande auctoridade, é que Francisco Salter não voltara ao convento depois d'aquella fuga mallograda, senão anno e meio mais tarde, já vestido com o habito da ordem benedictina.
Foi-me, portanto, necessario pedir informações a um conventual de frei Francisco da Soledade, que assim se chamou na religião o capitão de marinha. Queria eu que me contasse qual foi o viver d'esse desventurado no mosteiro; que assombrosas pelejas se deram n'aquelle seio, antes que o habito o amortalhasse; quantas vezes a luz da graça divina alumiou o coração blasphemo do noviço; quantas vezes a mão glacial da morte lhe esfriou na fronte os estos afogueados da desesperação.
Colleccionei das vagas lembranças do egresso que fora seu companheiro de noviciado em Tibães, as seguintes miudezas, que apenas satisfizeram a minha curiosidade:
Francisco Salter apparecera na manhã do dia seguinte áquella noite do anterior capitulo, no mosteiro de S. Bento da Victoria pedindo ao dom abbade que o admittisse a noviciado. Mendonça era alli conhecido como sobrinho do afamado monge, que ajuntava ao lustre do nascimento e ao das lettras a santidade sufficiente para que o mundo lhe perdoasse uma velleidade de moço, da qual velleidade procedera Francisco Salter.
O abbade acolhera-o de bom animo, suspeitando, porém, passageiro desgosto de coração. Teve-o em sua casa alguns dias, esperando o conselho do tempo, até que, senhor das mágoas do mancebo, acreditou na firmeza da resolução e na efficacia do balsamo.
Decorrido um mez de prova, Francisco foi fazer noviciado para a casa de Tibães, e ahi é que o meu informador o tratou com intimidade mediana, porque o noviço vivia tão taciturno e triste, que os seus companheiros, por pena, o não importunavam com frivolos allivios.
Sem embargo da pouca convivencia, notou o egresso que as noites do noviço deviam de ser atribuladas, porque nunca de manhã lhe vira os olhos sem raios de sangue, e como que ainda crystallinos dos residuos de lagrimas regeladas pelo frio das manhãs.
Observara elle mais que, nas obrigações do côro, Francisco era pontual, mas os seus labios, nem sequer murmuravam as orações do breviario. E, posto que para os companheiros houvesse censuras do mestre por motivos identicos, Francisco nunca fora reprehendido, nem ainda procurado na cella, se alguma vez faltava ao côro. D'isto inferiam os demais noviços que o seu companheiro trouxera do Porto especiaes recommendações do dom abbade.
Acrescenta que Francisco, ás horas em que os noviços passeiavam na cêrca, não saía do seu cubiculo, ou ia sentar-se no claustro lendo a _Imitação de Christo_, livro que nunca lhe esquecia; ou lia um por um os singelos epitaphios das lagens que formam o pavimento do claustro.
Notava-se que durante um anno o mysterioso noviço apenas recebera uma carta do dom abbade, em que lhe era dada a nova de que todos os seus papeis estavam legalisados canonicamente para poder professar, concluido que fosse o tempo do noviciado.
N'este pouco se resume o que pude alcançar do egresso indifferente ou desmemoriado.
Quem nos dirá, pois, as angustias do amante de Carlota Angela? O coração.
Consultemos o coração aquelles que o tivermos.
Revivamos algum tormento da alma, se o tivemos na vida, e teremos inducções remotas do que seria aquelle demorado paroxismo, aquelle lento suicidar-se em presença de homens que não lhe entendiam as lagrimas, nem saberiam nem poderiam enxugar-lh'as, se as entendessem.
A imagem de Carlota devia de estar sempre entre elle e o Christo. A luz da graça divina devia de ser muitas vezes deslumbrada pelo reflexo da labareda que o abrasava no intimo.
A phrase blasphema prenderia muitas vezes á consolação do Kempis. As mãos convulsas deviam travar do habito para rasgal-o sobre o seio onde batia o coração amante, do bravo, do homem de amor e batalhas, do que a sociedade fizera atheu, antes que a desgraça fizesse religioso.
E, se assim não acontecia, abençoada seja a religião de Jesus, que tanto póde! Abençoadas sejam as angustias, que levam pela mão o filho da desventura ao pé de uma cruz, e o hasteam n'ella como holocausto, que se consola por saber que ha um Deus compassivo a vel-o em suas torturas.
É o que necessitam os grandes infelizes, e esse olhar misericordioso do Senhor, que reanima e salva do inferno dos homens aquelle que os homens desampararam mutilado em todos os affectos, espedaçado em todas as cordas do coração, que não coube na terra, repellido da communhão dos innocentes prazeres d'esta vida, condemnado a expiar no flagicio da sua dor immerecida as culpas que os grandes perversos não expiam, á vista de suas victimas.
Se, pois, Francisco Salter caía de joelhos, paciente e consolado, aos pés do crucificado, abençoada seja a religião de Jesus, que tanto póde!
Desde o dia em que frei Francisco da Soledade professou, a freira benedictina recebeu regularmente novas d'elle, escriptas de Tibães, onde o frade prolongou a sua residencia.
Faziam-lhe saudades os sitios onde tanto chorou.
Aviventara com a sua angustia as arvores seculares, os penhascos, e as cruzes que lhe ouviram os gemidos.
Essas existencias insensiveis viviam-lhe na alma, e custava-lhe o desprender-se d'ellas.
O coração affeiçôa-se aos logares onde soffreu ou gosou, quando o goso não é crime, nem o soffrimento a desesperação da alma corrompida. As alegrias do impio, e as tristezas do perverso, essas não deixam traços indeleveis de suavissima saudade ou branda mágoa no coração.
Frei Francisco sabia que morrera para o mundo, e o ermo de S. Martinho de Tibães era-lhe um sepulchro grato, uma lousa amiga sua, já polida dos prantos d'elle. Impetos ainda de coração mal domado o impelliam para Carlota. Mas quem era n'este mundo a professa benedictina? Era um cadaver como elle, uma existencia passada, uma vaga imagem que esvoaçava entre a cruz e o monge, e parava um momento para lhe verter nas mãos erguidas uma lagrima.
Que importavam as visões da noite, esse fitar de olhos lagrimosos na lua, e nas estrellas, nas nuvens encapelladas, e no clarão do relampago?
Que valia ao pobre coração do frade estrebuxar ainda nas agonias do amor, no paroxismo horrivel d'esse suicidio de tantas vidas?
Que conforto lhe seria baixar do céo os olhos sobre si, e ver-se amortalhado?
Não recorramos ao milagre para explicarmos a tranquillidade do espirito que de repente abjura o mundo, e se lança desesperado ás misericordias divinas.
Terrivel deve de ser o preço da tranquillidade, quando não é a morte que a traz. A morte, sim: essa será sempre a bem-vinda dos desgraçados, porque Deus lhe fez de gêlo a mão que ella põe no seio abrasado do afflicto.
As cartas de Carlota Angela eram um adeus repetido ao seu amigo, um convite festival para a eternidade. Nem uma só reminiscencia do passado escurecia a linguagem lucida da prophetisa que descrevia as alegrias do céo. Era tudo porvir, tudo paragens do vôo que ella ia desferir da margem da sepultura para além. Dos seus soffrimentos nada lhe dizia: os da alma abençoava-os, os do corpo chamava-lhes o doce pungimento dos espinhos da sua corôa gloriosa.
Soror Rufina, amiga do monge benedictino, escrevia-lhe menos enlevada em extasis. Fallando-lhe da sobrinha, contava-lhe os rapidos progressos de uma tisica irremediavel, e da paciencia christã com que ella via aproximar-se o termo de suas dores. A ultima carta que lhe escreveu, revelava-lhe o desejo que sua sobrinha mostrara de ver o seu amigo, o seu esposo celestial, uma vez, uma só vez antes de morrer.
Frei Francisco mediu as suas forças, e pediu a Deus que lhe aniquilasse as que elle sentia para encarar Carlota, se eram peccaminosas.
Seis mezes depois de professo, o monge foi ao Porto, e recolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Victoria. D'ahi consultou soror Rufina sobre a sua ida ao convento, porque entrara n'elle o presagio de que a infeliz succumbiria ao vel-o desfigurado, encanecido, e triste como o espectro de uma felicidade morta, que os vermes roazes da desventura tornaram pavorosa.
Rufina sondou sua sobrinha, e Carlota, antes de responder, sentiu uma convulsão estranha, que lhe fez espirrar do seio borbotões de sangue. Passada a crise, que julgaram derradeira, Carlota disse anciosamente que aceitava a visita do seu irmão, e quanto mais depressa, mais grata lhe seria.
Cuidavam as amigas da moribunda que similhante impressão lhe seria salutar.
Os medicos, com a sua costumada innocencia, conjecturavam que a presença do monge faria uma grande revolução nos elementos desorganisados da vida de Carlota, e agouravam a possibilidade de uma cura por meios todos moraes.
N'esta esperança, que fazia sorrir a freira, frei Francisco foi avisado para encontrar Carlota n'uma grade.
Espectaculo indescriptivel!
Frei Francisco entrara na grade onde dezoito mezes antes concertara a fuga de Carlota. Alli se trocaram, em phrases cortadas de suspiros, queixumes contra o destino; porém, as esperanças deslumbrantes acudiam logo com as promessas de uma vida cheia de prazeres, prazeres embora criminosos no tribunal dos homens, porém perdoaveis, talvez, aos olhos de Deus. D'alli saíra Francisco Salter de Mendonça, o capitão de marinha, com o coração fremente de aspirações, e até de soberba por ter calcado, ao cabo de tantas desventuras, a inexoravel desgraça.
Oh! quão mudado agora! Como elle se estava examinando diante do seu passado! O que se passaria n'aquella alma, e n'aquella fronte inclinada para as mãos cruzadas sobre o seio! Porque não deu o Senhor duas lagrimas áquelle infeliz!
Carlota Angela appareceu, encostada ao braço de sua tia. O monge erguera-se, e voltado para ellas baixara a cabeça, e não mais erguera do chão os olhos. Encostando uma das mãos á banqueta da grade, sentia-se o tremor d'este movel sob a pressão convulsa. Apenas a madre Rufina proferira alguns monosyllabos, Carlota fitara os olhos lucidos de um brilho sinistro no habito do monge, e, voltando-os, silenciosa, para sua tia, parecia perguntar-lhe se era aquelle Francisco Salter.
--Francisco!--balbuciou ella.
O frade estremeceu a esta voz, e encarou a freira.
--Francisco!--repetiu ella com a voz quasi desfallecida--és tu?
--Não vol-o disse, minha irmã, que me não conhecerieis?--disse o benedictino com um violento sorriso.
--Conheço, conheço...--tornou ella, sentando-se, ou caíndo na cadeira aonde a tia se esforçara em sental-a.--Era assim que eu o via nos meus delirios, irmão da minha alma. Cá o sentia no coração morrendo assim... Faltava-me ouvir este som de finados que me está cortando os ultimos fios... É por mim, ou por ti, Francisco?... por ambos...
De feito, soava um dobre a finados na torre do mosteiro. Expirara momentos antes uma religiosa d'aquella casa, a quem Carlota pedira que intercedesse ao Senhor por ella, a fim de que a chamasse a si antes que se apagassem os cirios do funeral da agonisante. Esta fizera um gesto affirmativo, e expirara com os olhos fitos na freira.
Carlota proferira aquellas palavras, e pedira uma gotta de agua. Emquanto soror Rufina descera á portaria a buscal-a, a freira introduziu a custo o braço pela grade e disse:
--Francisco! dá-me a tua mão.
O monge tomou a mão de Carlota, e, ao apertal-a, sentiu a frialdade humida da mão de um cadaver. A posição da religiosa era violenta, com o peito encostado aos ferros, e a tosse suffocava-a. Frei Francisco fez esforço para afastar o braço, mas debalde. Aquella mão apertava como a do naufrago em trances de morte. Um frouxo de tosse salpicou de sangue o braço do monge, e em seguida, já quando Rufina entrava na grade com o copo, a mão de Carlota decaíu com o braço ao longo da grade, a fronte pendeu para as costas da cadeira, o outro braço já se não ergueu para tomar o copo da agua que lhe roçava os labios humidos de sangue.
--Minha filha!--exclamou a atribulada freira. Carlota descerrou as palpebras, relanceou a vista quasi apagada para o monge, e fechou-as de novo, murmurando:
--Ouviu-me Deus!
Rufina soltou um ai vibrante, e caiu de joelhos aos pés da sobrinha.
Frei Francisco ajoelhou tambem, e disse com terrivel serenidade:
--Oremos por ella. Meu Deus! recebei a martyr em vosso seio!
CONCLUSÃO
Cinco annos depois, vivia ainda no mosteiro de S. Martinho de Tibães frei Francisco da Soledade.
Os leitores de mais rija e invulneravel organisação admiram-se de que tal homem podesse viver tanto.