Chapter 11
--É impossivel; minha sobrinha não dá accordo de si, nem dará tão cêdo. V. s.ª devia presumir isto mesmo, antes que lh'o dissessem.
--Por que, minha senhora?!
--Porque minha pobre sobrinha o julgava morto, todas nós as amigas da infeliz o julgavamos como ella: eu mesmo agradeço a Deus as forças que me dispensa para poder vir a esta grade rogar de mãos erguidas ao snr. Mendonça que não diga á desgraçada uma palavra que a póde matar; não lhe lance em rosto a falta de palavra, que seria affrontal-a e dar-lhe o ultimo empurrão para a sepultura.
--E disse eu já que vinha lançar em rosto a Carlota alguma falta? Não venho, minha senhora, não. Eu vim a querer enxugar-lhe as lagrimas que a minha apparição lhe fez chorar.
--Carlota por ora não póde chorar, snr. Mendonça. Para tamanha dor não ha tal desafôgo por emquanto, e Deus sabe se alguma vez o haverá... Eu não conto já com a vida de minha sobrinha. Vamos ser n'este convento testimunhas de uma agonia muito atribulada. Deus lh'a dê curta, ou me leve a mim primeiro, por misericordia. Duas horas antes, snr. Mendonça, têl-a-hia talvez matado de alegria com a sua presença. Assim, matou-a, ha de matal-a de pena, de desespero, de dores infernaes, que não hão de obedecer aos confortos da religião.
--Que são confortos da religião?!--interrompeu Mendonça, carregando o sobre-olho com a turvação da blasphemia.
--Aterra-me essa pergunta, snr. Mendonça!
--Não se aterre, minha senhora: responda-me antes a uma pergunta: o Deus que ha de consolar Carlota é o mesmo que viu impassivel até este momento a minha desgraça e a d'ella?
--Altos juizos do Senhor! Por quem é não lhe falle essa linguagem á pobre Carlota! Ajude-a a supportar o peso da sua dor, com os olhos postos no céo. A impiedade não serve de nada, snr. Mendonça. A respiração da blasphemia traz para o interior do coração o fogo do desespero. Se a vir succumbida, dê-lhe animo para a paciencia, venha aqui todos os dias, dê-lhe a felicidade que a religião dos infelizes não condemna; amigo, seja o irmão extremoso da minha pobre sobrinha. Prometta-me isto, que eu vou prevenil-a pouco e pouco, até que ella possa encaral-o com firmeza e confiança. Se a accusar de inconstante, snr. Mendonça, olhe que a calumnia cruelmente. Ha de saber da bôca de Carlota que dois annos de martyrio ella tem amargurado n'este convento.
--Sei, senhora.
--Que desenganos, que torturas, que repetidas luctas com a desesperação, e que ferventes supplicas ella fazia a Deus para que a levasse, desde que lhe deram como certa a sua morte!
--Tudo sei, minha senhora. Já vê que a não posso condemnar. Eu venho pedir-lhe consolações, venho aprender a paciencia, venho pedir-lhe coragem para não tentar contra a minha vida.
--Peça, peça, e verá que a minha santa sobrinha lhe ensina a consolação do soffrimento, o bálsamo divino da paciencia, e o segredo de achar a alegria na vida que tão desgraçada lhe parece. Hoje não, snr. Mendonça; Carlota a esta hora precisa de que a animem, se é que Deus não quer que este golpe seja o ultimo no debil fio da sua existencia. Eu vou para junto d'ella, parece-me que a estou ouvindo pronunciar o seu nome, e eu corro a dizer-lhe que encontrei no snr. Mendonça o irmão, o amigo carinhoso da nossa Carlota. Deixa-me dizer-lhe isto, snr. Mendonça?
--Diga, diga, que é preciso salvarmol-a, ainda mesmo que ella me não torne a ver.
--Por que não ha de ella tornar a vel-o?! Então quer que a infeliz morra atormentada? Tenha compaixão de nós, snr. Mendonça! Outra freira d'esta casa talvez lhe pedisse que não voltasse aqui mais. Eu, pelo contrario, lhe rogo que venha todos os dias, que seja testimunha de todas as lagrimas salvadoras que ella chorar, que lhe prometta uma affeição pura sem manchar a santidade das obrigações religiosas de Carlota. Pois a amizade immaculada não é o reflexo do amor divino? O Altissimo não condemna o coração de minha sobrinha, cheio de um amor que ha de entrar com a alma na bemaventurança. Eu tenho presenciado n'esta casa affeições de muitos annos, de longas vidas dedicadas ao amor do coração, sem comtudo macularem a religiosidade dos deveres. Todo o mundo tem obrigação de respeitar o amor de minha sobrinha ao homem que ella chorou dois annos, chorava ainda no instante em que lhe appareceu. Venha, snr. Mendonça, venha aqui todos os dias, e verá como o tempo amacia os espinhos que o mortificam. Ha de chegar a esquecer-se das dores que soffre n'este momento, e a sentir as lagrimas de uma amizade santa e pura.
O dialogo foi cortado por uma pressurosa chamada a soror Rufina. Carlota recuperando os sentidos, chamava Francisco Salter de Mendonça, e forcejava por evadir-se dos braços que a sustinham. Algumas religiosas estavam passadas de religioso terror, vendo-a, ainda vestida com os hábitos da profissão, invocar tão afflicta e descomposta o nome profano de um homem que, no entender das servas de Deus, devia considerar-se de direito morto, quando o não estivesse de facto. Algumas escrupulisaram de assistirem ao debate da professa nos braços das mais novas, e congregaram-se na cella da escrivã para decidirem que o demonio entrara no corpo de Carlota. O voto da mais auctorisada era que se chamasse o capellão para exorcismar a energumena. Outra acrescentava que, no caso infausto de contumacia diabolica, seria util e piedoso dar parte do successo ao bispo, para que este obrigasse Francisco Salter a sair do Porto, como perturbador d'aquella casa.
Entretanto, soror Rufina, chamada da grade, onde deixara Mendonça esperando saber o estado de Carlota, pedira ás amigas menos escrupulosas de sua sobrinha que a deixassem só com ella.
--Francisco desejava ver-te--disse Rufina.--Logo que tenhas força e vontade irás ver o que é um amigo do coração, um anjo de paz que Deus te envia, assegurando-te que a felicidade do espirito não destroe a felicidade do claustro, que a esposa do Senhor póde ser a irmã estremosa do homem a quem amou.
Carlota cravava os seus grandes olhos no rosto risonho da tia, como se não comprehendesse. A freira continuou:
--Esperavas que Mendonça te viesse lançar em rosto a tua impersistencia, minha filha? Não, Carlota. Mendonça sabe tudo. Diz que vem procurar as tuas consolações, a fim de não tentar contra a propria vida. Vês tu, menina, que sublime encargo Deus te confia no momento em que as tuas angustias tocam o extremo? Tens de amparar a vida do nobre moço, de lhe dares consolações...
--Eu, meu Deusl eu consolal-o!--exclamou Carlota, arrancando impetuosamente o véo--Ha uma só consolação possivel para nós. Annullem-me os votos que fiz. Não posso ser freira, não quero ser freira. Deus sabe que fui atraiçoada, que professei, porque me mentiram, e eu não minto a Deus. Minha querida tia, eu sou agora mais desgraçada que nunca. Morro impenitente, se me não dizem que é possivel annullar um juramento falso que me obrigaram a dar.
--Carlota! tu não comprehendes a felicidade n'este mundo sem o crime?
--Crime! qual foi o meu crime? que fiz eu para merecer este castigo? Onde está Deus, que me não amparou antes d'este desgraçado passo que dei hoje, e me não mata agora, se não posso remedial-o?
--Isso é uma blasphemia, filha! o demonio da tentação não quer deixar-te gosar as alegrias puras que Deus te permitte.
--Alegrias, minha tia! Pois cuida que se engana assim a afflicção? Alegrias para mim, que estou condemnada a um carcere perpetuo, que hei de ver sempre entre mim e o esposo da minha alma uma barreira de ferro, que nem posso sequer esperar que elle venha recolher o meu ultimo suspiro?! Vel-o todos os dias... oh! esse é o mais horrivel de quantos padecimentos podia antever a minha imaginação! Antes acabar no desespero, sem vel-o! Antes morrer aqui abafada sem que elle seja a desgraçada testimunha das minhas agonias! Que hei de eu dizer-lhe, ou que ha de elle dizer-me a mim? Se elle me pedir contas dos meus juramentos, se me lançar na rosto a minha falta de fé, se me perguntar como pude eu sobreviver á certeza de que elle tinha morrido, que hei de eu responder?
--Diz-lhe que vestiste o habito de eterna viuvez, que escolheste a vida mais pura, para que as orações por alma d'elle fossem mais gratas ao Senhor. Diz-lhe antes que escolheste o mais longo paroxismo de uma morte atribulada; que podeste acreditar que elle violara o seu juramento; conta-lhe tudo quanto a traição inventou em teu damno; diz-lhe que ainda convencida de que elle morrera, depois de atraiçoar-te, lhe perdoaste, e caíste de joelhos aos pés da cruz, pedindo á misericordia infinita que lhe perdoasse o perjurio. Que mulher houve n'este mundo tão forte da sua innocencia como tu para poder apresentar-se com o rosto immaculado na presença do homem que lhe vem pedir contas? Qual é o teu crime, infeliz? Não te disseram a ti que Francisco esposara outra mulher no Rio de Janeiro? Não te affirmaram que elle morrera depois? O silencio de dois annos não estava sempre confirmando o cruel desengano das tuas esperanças? Quem te ha de accusar, Carlota?
--Elle, minha tia. Eu tinha obrigação de não acreditar a calumnia! Eu fui mais vil e miseravel que os infames que urdiram a minha desgraça! Não tenho animo de lhe apparecer, não sei como possa defender-se a minha fraqueza, nem quero defender-me, porque sou eu a que me accuso de indigna do perdão d'este homem, que eu fiz tão infeliz... Ha um só remedio, minha tia... Se m'o não dão, nem quero mais vel-o, nem prometto respeitar a religião que nos manda supportar com paciencia o peso da vida... e que vida, meu Deus!... que vida de inferno me seria esta, se eu não podesse arrancar do coração esta braza viva que me está atormentando!
--Pois que queres tu, Carlota! Valha-me a Virgem Santissima! que se ha de fazer, infeliz creatura?
--Annullem-me os votos, deixem-me ir lançar aos pés de quem póde restituir-me a minha liberdade. Não posso ser freira, declaro bem alto para que todos me ouçam n'esta casa, e me desculpem do mal que eu fizer; não posso ser freira, sem dar grandes escandalos, sem insultar a virtude das pessoas que me rodeiam, sem amaldiçoar a hora em que professei, e a religião que me manda morrer sem desabafo.
--Carlota! pelo amor de Deus!--exclamou soror Rufina, tapando-lhe a bôca, e abraçando-a com convulsivo terror. Teme o castigo do céo, minha filha. Arrepende-te d'essas blasphemias, e Deus não permittirá que tu comeces a expial-as n'este mundo com a deshonra... Tu não sabes o que disseste, Carlota. Foi a desesperação que a fez assim fallar, minha Mãe Santissima; não consintaes que ella seja castigada! Alcançae de vosso Filho um bocadinho de refrigerio para esta desgraçada que a dor enlouqueceu.
A freira continuou uma supplica assim afflictiva diante da imagem da Mãe de Deus. Carlota Angela correra impetuosamente para o mais escuro da casa, e lá prorompera, sósinha, em prantos, que não eram de contrição, nem sequer de desafôgo á sua grande angustia. Apertavam-a ainda os frenesis da desesperação enraivecida e impia. Rebatia com gestos furiosos as timidas consolações da tia e da meiga Dorothea, cujas palavras mais suavemente lhe deviam fallar ao coração, se a quasi demencia a não tivesse assaltado com vertigens de quarto em quarto de hora.
Francisco Salter recebeu, ainda na grade, a triste informação do estado de Carlota. Perguntou elle a soror Rufina, se teria duvida em entregar-lhe uma carta. A freira hesitou emquanto Mendonça lhe não disse que a carta seria um lenitivo para Carlota, e talvez um balsamo de completa cura.
Qual deva ser a efficacia d'esse balsamo infere-se da carta que se copia textualmente no capitulo immediato.
XVII
Dans le monde tout est confondu. Les juges ne sont plus que des bourreaux, qui offrent des victimes humaines á ce Dieu mensonger qu'on appelle le Droit et la Justice. L'homme sans foi devient un sage et le sage une dupe. Le héros qui donne sa vie pour la vérité n'est qu'un malheureux fou, qui s'est sacrifié pour une chimère. Qu'il meure désespéré sur les pavés sanglants, objet de l'indifférence de Dieu et de la raillerie des hommes!
Jules Simon. (_Le Devoir._)
«Carlota.
«O destino esmaga-nos, se succumbirmos. Coragem, intrepidez de desesperados, é a nossa salvação... A sociedade pôz-nos um pé sobre o peito: o coração geme nas agonias da morte violenta; mas não morrerá. Affrontemos os assassinos. Vamos direitos ao encontro da infamia. A nossa vingança é viver. A nossa vingança é enxugar as lagrimas, e suffocar os gemidos. A nossa vingança é fazer a sociedade responsavel perante a sua propria consciencia do crime que ella propria ha de condemnar, depois que nos queimou na alma o germen da virtude.
«És freira, Carlota Angela. Forçaram-te a violar a palavra jurada, cujo cumprimento vinha pedir. Disseram-te que eu te atraiçoara e morrera. Tinhas obrigação de defender a minha honra, emquanto eu não viesse da sepultura pedir-te perdão da perfidia. Não te condemno, nem sequer me queixo. Entre a perversidade dos que te rodearam e a tua innocencia, a lucta era desigual. Fraqueaste, porque a desgraça exigia que eu bebesse o ultimo trago do meu calix. Eu não podia deixar de ser infeliz até á extrema d'este inferno. Aqui deve ser o termo final da minha condemnação. Não se póde ir mais além. Suicidar-me seria desmentir a fortaleza com que tenho arrostado a desventura até hoje. Chorar comtigo, devorar em silencio um dia e outro dia, na escuridade da desesperação, o resto de duas vidas tão miseraveis como as nossas, seria escolher a peior das mortes, o paroxismo prolongado, sem desafôgo nas crenças, sem refugio na esperança de outro mundo.
«Não creio, nem espero nada além d'esta vida, Carlota.
«Se te sentes arrebatada para a grandeza do Creador, repara na miseria das creaturas. D'este asqueroso lamaçal de sangue e lagrimas, para onde nos empurrou a mão humana, como queres tu que o espirito possa levantar-se para Deus?! Não ha justiça na terra, nem providencia no céo. O summo bem é um sonho dos corações opprimidos, quando a oppressão não estala os ultimos filamentos da fé, quando a angustia não é tamanha que cerre todos os respiradouros da alma. Se ha Deus, a sua inercia, á vista das atrocidades que soffremos, é igual á indifferença, á impotencia, ao nada. Nas minhas e nas tuas dores, a justiça eterna permaneceu insensivel, como se temesse ou approvasse a infamia dos homens.
«Não baixou do céo um anjo que te dissesse:
«Aquelle que te ama, vive em torturas, arcou já triumphante com a morte, esmagará por fim o preconceito da honra, e virá buscar-te. Não dês a Deus um coração que não podes dar. Não jures ante o altar um voto que implica a morte do homem que a estas horas, sobre o mar, me está pedindo que te dê forças para o soffrimento, que te illumine com um clarão de esperança, que te povôe os sonhos com a imagem d'elle.»
«Fallou-te assim um anjo, Carlota? Não. Em redor de ti estava o terror do desconforto, o silencio da desesperação, o desamparo, e as piedosas lamentações de algumas almas boas que te mostravam o céo, porque a vida se te havia convertido em inferno.
«Eu gemi n'um carcere longos mezes. Visitou-me a fome, a sêde, o frenesi da loucura, o terrivel _nunca mais_, essas duas palavras malditas que encerram todo o fel das amarguras humanas. E, no tumultuar de tantas penas injustas, nunca a justiça divina me disse que esperasse o dia do resgate, a corôa do martyrio immerecido, a vista da mulher chorada que me vinha consolar nos instantes do lethargo, e fazer suave a pedra em que eu encostava a cabeça abrasada. Nunca. Gemi no desamparo, como o malfeitor repulsivo, que a sociedade lançou de si maldito, e maldito de Deus nem sequer podia esperar a purificação do remorso.
«Que mal fizeras tu, pobre mulher? Por que te mortificaram os homens, e como consentiu um Deus justiceiro o tormento que te deram?
«Que mal fizera eu, homem de consciencia pura, que passei os annos da minha mocidade estudando os raros exemplos de virtude que me encantavam o coração?
«Padecemos, porque fomos escravos da honra, Carlota Angela.
«Se eu passasse por cima dos respeitos humanos, terias sido minha amante, serias hoje minha esposa, e a sociedade apontar-nos-hia como modelo de amor fiel e devotado a todos os sacrificios. Faltou a culpa, para que a fortuna nos não ludibriasse. Era necessario o crime para sermos hoje felizes. A virtude o que é?
«A minha honra reduziu-me a isto que eu sou. Sacrifiquei-te aos deveres que a minha probidade me impunha, e fiz-te a desgraçada que hoje és.
«Quero salvar-te, Carlota, e quero que me salves.
«Apparece-me, filha da minha alma; vem ouvir-me, porque a nossa época de felicidade começa hoje. Não ha para nós n'este mundo mais que nós mesmos. Tudo que se oppozer ao destino que vamos seguir, é mentira, é perfidia, é uma nova traição que te armam, Carlota.
«Sorri á esperança, martyr! Irradie em volta de ti o sol de esperança que me está abrilhantando o futuro. O coração delira-me de alegria no peito, onde não cabe. Agora conheço que me pertences, que te não perdi, que és mais minha por um direito de torturas, que valem mais que todos os juramentos. Sacode as algemas que a hypocrisia te encadeiou nos pulsos. Deixa voar o coração, que um voto sacrilego ou impostor te assellou ao nada da uma esperança estupida ou fementida. És livre, Carlota. A tua alma não podia obedecer ás suggestões de malvados, porque era minha.
«Agora te digo que venho pedir contas do teu juramento.
«Carlota Angela, estou aqui! Pertences-me.»
A freira acabava de ler esta carta, e correra á grade, onde a esperava Mendonça.
Não dizem os nossos apontamentos o que se passou na grade. Se escrevessemos de imaginação, dava-se aqui um dialogo plangente, travado de exclamações, umas de expansão maviosa, outras de frenesi insano. O mais natural, na situação dos dois infelizes, é chorarem longo tempo silenciosos. Devia a sua dor ser uma das que suffocam e entalam na garganta o gemido. A desesperação mataria n'elles o jubilo de se verem: a freira não poderia dizer a Mendonça: «sou tua». N'aquellas grades, duras e inflexiveis como o «cumpra-se» terrivel do destino, estava escripto o impossivel. Entalal-as, espedaçal-as, só a mão sacrilega do crime poderia. Carlota ha de rasgar o véo, ha de calcar o habito, ha de passar por cima da sua virtude, da sua religião, do seu esposo celestial, se quizer dizer a Mendonça: «sou tua».
Devia, pois, ser melancolico além do exprimivel o que ahi se passou n'essa grade; triste, e desgraçado direi, a julgal-o pelas consequencias, que se vão descrever, com um certo pezar em que esperamos tomem os leitores o seu quinhão de pena, se não todos, ao menos aquelles que não dão nada pela felicidade da terra, quando ella implica offensa ao Senhor do céo.
Se as calamidades que promanarem d'esse encontro não forem das que matam os agentes da sua propria desgraça, e, ao mesmo tempo, escandalisam a moral, a quem ha de a moral condemnar? em que ponto d'esta escabrosa senda da vida quereis que se levante o signal de aviso para acautelar os ignorantes do abysmo que as flores escondem?
Nao sabemos, não o sabem os que teem a experiencia das quédas, e vão caíndo sempre no golfão, para onde os allicia com blandicias uma attracção satanica. Estamos fartos até ao tedio de ouvir dizer que o homem é bom, que o homem é mau. O homem não é bom nem mau de seu natural: é aquillo que o fazem ser; é o que realmente deve ser n'este mundo, segundo a organisação d'este mundo, organisação viciosa, aleijada, falsa, peccaminosa, quer o defeito começasse no paraizo terreal, quer nos multiplicados infernos que as idades se foram inventando através das civilisações.
O leitor tem o juizo necessario para se não dar á canceira de interpretar essas linhas assim com assomos de dogmaticas. Este romance pecca por acaso em divagações philosophicas, e n'isso está cifrado o merito não vulgar de um livro que sustenta o caracter singelo e lhano desde a primeira pagina, para que aos mais myopes se não esconda a luz debaixo do alqueire.
Reparou soror Rufina em sua sobrinha, na volta da grade; achou-a serena de mais, risonha até; um lampejo de alegria interior que lhe reaccendia nos olhos a luz que as lagrimas haviam apagado. A velha freira, já apalpada por infortunios de amor, não conjecturou d'aquella inesperada alegria tão innocentemente como Carlota cuidava. O temor que a sobresaltou presagiava a verdade, mas tão desgraçada era a verdade, que a freira antes quiz desmentir o proprio presentimento, do que interrogar a sobrinha, innocente talvez.
--Como vens alegre, Carlota!--disse ella.
--Fiquei mais desopprimida, minha tia; o muito chorar faz bem... estou muito melhor, e agora espero vencer o infortunio.
--Com que armas, filha?
--Com que armas?... Com as da resignação... A maldade, a guerra que o mundo faz a fracas mulheres como eu, só com a paciencia se sustenta.
--E Mendonça aconselhou-te a resignação?--disse a freira com suspeitoso intento.
--Elle? tomara o infeliz quem lhe ensinasse o remedio das suas afflicções... Nenhum de nós é forte; somos ambos por igual desgraçados e fracos para luctar com as perfidias que nos fazem, ou que nos fizeram. O remedio unico é gemer até á morte, dar á sociedade o regalo de nos esmagar, soffrer-lhe na garganta o pé com evangelica submissão. Entende-o assim, minha tia?
--Que modo de perguntar é esse, Carlota?! Eu estranho-te...
--Estranha-me!? Pois queria que eu voltasse da grade mais afflicta do que fui?
--Não; esperava que as tuas palavras fossem mais sinceras, filha.
--Pois não são?!
--Ha ironia n'esse elogio que fazes á tua paciencia. O coração de uma mulher não é assim. Concilias-te muito depressa com o sacrificio. A virtude não se alcança assim tão rapida, e essa paciencia, que te impões, é a virtude suprema. Não, Carlota, não. Tu... Tremo dizer-t'o...
--Diga, minha tia.
--Tu, filha, meditas um desatino.
--Um desatino!...
--Sim, Carlota; tu intentas fugir do convento--disse a freira com pavor.
--Não, tia...--balbuciou a trémula religiosa, mudando subitamente do semblante sereno para os gestos alvoroçados da surpreza, do mêdo, reflexivos da agitação interior que fizera n'ella o ar assombrado da tia.
--Não balbucies, desgraçada. O teu rosto está confessando o desvario do coração. Diz com animo, filha, confia á tua amiga essa resolução funesta, que não executarás, sem que as minhas lagrimas te demovam de tal desgraça. Oh! não faças tal, infeliz, que te deshonras para o mundo, e te perdes para Deus.
--Minha tia!--exclamou Carlota, abraçando-a, e soluçando palavras inarticuladas.
--É pois certo?--tornou a freira.
--É certo, minha tia, é certo que ou Deus me mata, ou eu fujo.
--Jesus! Maria Santissima! Que dizes, Carlota!
--Não posso desdizer-me, minha querida tia. Eu sou do homem que amo. Não vejo nada n'este mundo senão elle, e as suas lagrimas. Mas as suas lagrimas são-me menos preciosas que a vida de Francisco. Soffreu muito o meu desgraçado amigo, soffreu muito; é preciso que eu o indemnise com a minha reputação, com a vida, com os soffrimentos de todas as pessoas que me estimam. Eu hei de ser menos infeliz, e elle será feliz quanto se póde ser...
--Á custa de um crime... Carlota!
--De um crime que é o resultado de muitas infamias urdidas contra a nossa felicidade. É um crime só o nosso, um só; Deus perdôa, e, se não perdôa, aceito o inferno, se ha inferno, aceito...
--Cala-te, desgraçada, que insultas a religião; cala-te ahi, que enlouqueceste, Carlota, e Deus bem sabe que a tua razão desvaria!
--Não, minha tia. Eu sinto-me no meu perfeito juizo: a desesperação enlouquecia-me de antes algumas vezes; mas a esperança restituiu-me hoje o vigor da minha antiga razão; com a differença que de antes assustal-a-hiam os juizos do mundo, que a subornavam, e hoje a minha razão vê tudo como tudo é, sente-se livre, e capaz de destruir todos os obstaculos que uma falsa piedade me pozer.
--Mas tu não és já senhora de tuas acções, Carlota!--bradou a tia com azedume.