Chapter 10
Carlota sabia de mais as circumstancias de seu pae, quando esta esperada revelação lhe foi feita. Serena e carinhosa, como sempre o fora, desde que a desgraça entrara em sua casa, respondeu-lhe que não tivesse elle cuidado com a sua profissão, porque a prelada a recebia pela prenda da musica, em que ella estudava continuamente, e a tia Rufina lhe fazia as pequenas despezas necessarias para a profissão.
Estavam as cousas n'este pé, quando Antonio José da Silva, mercador de pannos que foi na rua das Flores, pessoa a todos os respeitos digna de larga chronica (como de feito a teve na Filha do arcediago) e um dos maiores credores de Norberto, se apresentou pedindo em casamento Carlota Angela, estipulando as seguintes clausulas:
1.ª Pagaria todas as dividas do sogro, e adiantaria dez contos de réis para casco de novo negocio, a juro de quatro e meio por cento.
2.ª Compraria a quinta do Candal, já traspassada para pagamento de dividas, e daria o usofructo d'ella a seus sogros, reservando para si a hortaliça necessaria ao consumo da casa, dois gigos de maçã camoeza, dez alqueires de feijão branco, e os pastios necessarios para quatro cevados.
_Item._ Daria aos paes de Carlota paga e quitação das quantias que lhe estivessem devendo no acto de se lavrarem as escripturas de casamento.
_Item._ Sua mulher iria viver na rua das Flores, e não tornaria a ir aos _balancés_ por onde costumava andar em solteira, nem trajaria vestidos como as fidalgas, nem andaria de corpo bem feito sem mantilha, quando fosse á missa, ou désse, aos domingos de tarde, um passeio até Campanhã, ou Valbom.
Estes artigos depôl-os sobre a mesa Antonio José da Silva, em seguida á proposta de casamento, a que Norberto, embrutecido pela fortuna de similhante proposta, respondeu logo que o negocio se havia de arranjar.
E sem perda de tempo, entrou o arrozeiro no pateo de S. Bento com uma cara tão festiva e gozosa, que deu nos olhos á madre porteira.
Mandou chamar a filha, e rompeu assim o dialogo, com assomos de boçal jucundidade:
--Estamos outra vez ricos, rapariga!
--Ricos?!
--Sim, ricos! alegra-te, Carlota.
--Pois que foi, meu pae? Appareceu-lhe o seu dinheiro?
--Quem dera isso! É cá outra cousa, menina! Estamos ricos, porque tu vaes ser muito rica.
--Eu!? De que maneira?
--O Antonio da rua das Flores pediu-te em casamento.
Carlota engasgou-se, quando soltava uma palavra ou exclamação imperceptivel.
--Não conheces o Antonio José da Silva? Aquelle rapaz que está podre de rico? aquelle que herdou a casa do patrão, aqui ha tres annos? Ora essa! não conheces?!
--Não conheço, nem quero conhecer, meu pae.
--Tu que dizes, Carlota!? Pois tu não queres casar com elle?!
--Não, senhor.
--Ó pobretaina de uma figa! pois tu vês que não tens nada, que teus paes estão pobres como Job, e não queres valer aos auctores de teus dias?
--Não, meu pae, eu dou a minha vida aos auctores d'ella, se a quizerem; mas o coração, que já dei a Deus, não póde ser de mais alguem. O pae não é tão innocente como parece. Devia suppôr que a minha resposta era esta. Quando entrei n'esta casa, disse-lhe francamente as minhas tenções. Como ellas não estavam dependentes dos thesouros de meu pae, a perda d'esses thesouros não as alterou na minima cousa. Sou a mesma que era, e brevemente serei o que já não posso deixar de ser: uma freira pobre sem precisão de ser rica, com muito mais do que me é necessario para ir amparando a minha curta vida no serviço de Deus, e na penitencia dos meus peccados, e dos peccados alheios.
--Não quero sermões, com mil diabos! vociferou o arrozeiro, batendo um retumbante punhado sobre a banqueta--Não venho ouvir prédicas! És minha filha, e has de fazer o que eu quizer. Não te dou o consentimento para seres freira!
--Paciencia: sel-o-hei na intenção; mas não sairei do convento.
--Has de sair por justiça.
--Morta, póde ser.
--Viva, e muito viva, eu t'o juro por esta luz que nos alumia!
--Não jure, pae, que se engana. Ninguem será capaz de me arrancar com vida para fóra d'esta casa. Quando eu não tiver forças com que me agarrar a estes ferros, nada se me dá que me levem para fóra, porque a minha alma já terá subido d'aqui á presença de Deus.
--Conta-me lônas, que eu te ensinarei. Filha maldita, que viste teu pae pobre e desgraçado, e não lhe valeste! Filha cruel, eu te amaldiçôo em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo. _Amen._
--Meu Deus!--exclamou Carlota--Ó meu pae, não profira similhantes palavras! Não augmente a triste vida que eu tenho. Eu lhe prometto de trabalhar toda a minha vida para que em sua casa nunca haja a menor privação. Pedirei esmolas ás senhoras religiosas ricas, para lhe mandar, meu pae. Não me amaldiçôe, que eu não lhe mereço esse castigo, nem é possivel que Deus consinta que a sua maldição seja valiosa. Pelas chagas de Christo, arrependa-se d'essas amargas palavras que disse...
A pobre menina, banhada em lagrimas, supplicava ainda de joelhos, quando Norberto de Meirelles saíu da grade esbaforido, resfolegando vapores do interior vulcanico do peito.
Ao passar por Antonio José da Silva, que o esperava á porta da loja, na rua das Flores, disse-lhe:
--Nada feito.
--Venha cá, snr. Norberto, conte lá isso. Com que então não é o mel p'ra bôca do asno; aqui calha melhor dizer _da asna_, digo bem, snr. Norberto?
--V. m. é pouco cortez, snr. Antonio. Se vamos a pôr as cousas no direito, ninguem póde ser asno sem sua licença. Lá por que a minha filha me desobedece não dou ousio a v. m. de lhe chamar nomes, que é o mesmo que chamarm'os a mim. Se é rico, snr. Antonio, eu tambem já o fui, e não tratava ninguem de asno, porque aprendi a cortezia com as pessoas de bem com quem sempre tratei.
--Não se enfade, homem,--replicou o irmão da snr.ª Angelica (honrosamente mencionada na Filha do arcediago) pondo-lhe as mãos vermelhas, como dois mólhos de rábanos, sobre os hombros--não vá a Vallongo por tão pouco, snr. Norberto. Isto que eu lhe disse foi assim um modo de fallar, sem aquella de injuriar a sua filha, nem a v. m., que tem os figados, como lá diz o dictado, muito ao pé da bôca. Entre cá, sente-se, desabafe, e veja se quer tomar um copo do da instituição da Companhia, e uma cavaca de Arouca pare lhe dar animo.
--Obrigado; não quero nada; passe v. m. muito bem, e rasgue quando quizer o tal papelucho das condições que me deu... Aqui o tem. Emquanto ao que lhe devo, se v. m. não quizer esperar que eu lhe possa pagar, mande tomar conta do que eu tiver, e fica d'aqui já arrumada esta pendencia.
--Espere, homem, que ainda não chegaram as cousas a esse ponto. Eu quero fallar com a sua filha, e mau é se ella me não dá o sim. Uma cousa é ir, outra mandar.
--Não faz nada, snr. Antonio, digo-lh'o eu. A rapariga não falla como nós, e tem lá na cabeça um palavriado da breca, que não sei onde ella o foi aprender. Dizia-me o meu cunhado doutor (Deus lhe falle n'alma), que a cabeça de Carlota era um vulcão. V. m. sabe o que é um vulcão?
--_Vulcão_, pelos modos, é... é o mesmo que _balcão_...
--Bem no digo eu! Vulcão é uma cousa de lume que sáe debaixo da terra.
--Ah!--interrompeu o snr. Antonio, abrindo a bôca como em testimunho da sua admiração--Já entendo... Quer dizer que ella tem grandes fumaças de ser bonita!... Olha o milagre! bonita é, mas ha-as por ahi tão bonitas como ella, que tomaram que eu as quizesse. Emfim, eu sempre lá quero ir, dê no que der. Assim como assim, nada se perde. O que for soará. Appareça por aqui ámanhã, snr. Norberto.
Afoutado por tão estupida esperança, Antonio José da Silva teve a audacia de procurar Carlota Angela. Vae ler-se o texto d'esta visita, porque foi ella uma das maiores affrontas que a desgraça fez á pobre menina. Todas as outras, confrontadas com esta, eram favores da fortuna.
O snr. Antonio ignorava a pratica dos conventos, ao tocante a locutorios. Quando o introduziram, pela primeira vez de sua vida, em uma grade, o alapuzado moço achou-se affrontado com a vista dos ferros. Carlota appareceu com sua tia, meia hora depois que a esperavam. Esse espaço de tempo fora necessario á freira para convencer a sobrinha de que não era civil nem bonito deixar de receber a visita, qualquer que fosse a intenção da pessoa que a visitava.
--Bons dias, minhas senhoras--disse Antonio, avançando e recuando, tres vezes, uma assaralhopada cortezia.--Não me conhecem?
--Já soubemos que era o snr. Antonio José da Silva que procurava minha sobrinha--disse soror Rufina.
--Já sabem ao que vim, pelos modos.
--Ignoramos.
--Venho a troco do que se passou com o snr. Norberto.
--Parece impossivel!--acudiu Carlota--Eu creio que disse claramente a meu pae o que é escusado repetir ao snr. Silva.
--A menina ha de fazer favor de me ouvir um bocadinho, se não tem muito que fazer.
--Pois não! queira fallar--disse Rufina.
--Eu sympathiso com a snr.ª D. Carlotinha desde que a vi nas endoenças da Misericordia faz agora cinco annos. Já então me deu na venêta de a pedir ao snr. seu pae; mas rosnava-se por ahi que a menina não gostava de rapazes do negocio, e tinha lá suas tendencias para a farda. Metti a falla no bucho, e esperei até ver no que paravam as cousas. Depois aconteceu em sua casa a desgraça d'aquelle grande roubo, o snr. Norberto ficou mal arranjado de fortuna, e eu, como o outro que diz, fiquei sendo o mesmo homem a respeito da menina. Fui pedil-a a seu pae em casamento, e elle ficou a pular de contente, porque, a fallar-lhe a verdade, não é por me gabar, mas seu pae não endireita mais a cabeça se eu não casar com a menina. Em primeiro logar, rasgo as letras que se vencem contra o snr. Norberto no mez que vem, depois empresto-lhe quasi sem juro o capital necessario para elle montar o negocio no pé em que estava antes da quebra; depois, arremato a quinta do Candal em nome da snr.ª D. Carlotinha, porque já ouvi dizer que a menina gosta muito da aldeia, e eu tambem não desgosto, porque lá cômo muito melhor, e as aguas são mais leves. Pois é verdade: eu venho para este fim. Agora veja lá a menina o que decide. Se quer ser minha esposa, trato de arranjar os papeis, botam-se os banhos, e vamos a isto. Então que diz?
--Já respondi a meu pae--disse, com mal disfarçada cólera, Carlota Angela.--Não me queixo do snr. por aqui vir com similhante fim; creio que meu pae, por delicadeza, lhe não diria sem rebuço a minha resposta. Eu não caso com o snr. Silva, nem com alguem. Resolvi ser religiosa. O meu tempo de noviciado acabou. Estou esperando a licença regia para professar.
--Deixe-se de asneiras--atalhou Antonio José, soltando um boçal frouxo de riso que indignou Rufina e enojou Carlota--Pois a menina quer-se vir aqui metter n'esta espelunca, podendo ser rica e viver regaladamente como pouca gente! Tenha juizo, creaturinha! Isto de convento é bom para quem não tem, como o outro que diz, um marido que lhe dê tudo o que for necessario para o augmento da sua pessoa, e que a traga nas pontinhas.
Carlota erguera-se para sair. Rufina seguira o exemplo da sobrinha. Antonio José da Silva permanecera refestellado na cadeira, até que se ergueu, forçado pela silenciosa mesura das duas senhoras, exclamando:
--Então que diz?!
--Minha sobrinha já respondeu ao snr. Antonio--disse a freira affavelmente.
--Com que então, nada feito?--redarguiu o lêrdo aspirante ao matrimonio, que, dez annos depois, lhe empeçonhou a existencia, segundo reza a chronica já citada, da qual entendemos que a leitora deve prover-se, se a zanga que lhe faz o bronco mercador de pannos requer uma vingança superior ao delicto--Pois sabe que mais, snr.ª D. Carlota?--proseguiu, erguendo-se, com modos colericos, e brutalmente canhotos--Eu entendo o que isso é, e bem sei por que a menina anda a fingir que quer ser freira p'ra dar tempo a que elle volte lá do Brazil.
--Elle! quem?!--exclamou Carlota com assomos de indignação, que o só olhar da tia sofreou.
--Faça-se de novas! pois não sabe quem?! o da marinha, aquelle que lhe caiu lá no gôto, porque trazia a cintura arrochada no fardalhão, que sabe Deus a quem elle o ficou devendo, quando foi para Lisboa...
Carlota Angela saiu precipitadamente da grade; soror Rufina ficou para explicar ao sandeu a descortezia da sobrinha; aconteceu, porém, que elle não se julgou affrontado pelo impeto da saida.
--Snr. Antonio--disse a freira--v. m. está ahi fallando n'uma pessoa que morreu. Minha sobrinha não espera alguem.
--Eu não sabia que elle morreu! Isso agora é outro caso... Acho que fiz uma asneira em lembral-o á pobre moça! Faça favor de lhe dizer que me desculpe. Ora olhem quem havia de dizer que o tal rapaz dera á casca lá no Brazil! Pois eu cuidava que ella estava, como diz lá o outro, encantada por elle, como a doninha com o sapo. Ainda bem que ella lhe não caíu nas mãos, porque pelos modos o homem era jacobino, e melhor foi assim, não lhe parece, senhora Madre?
A freira não pôde deixar de sorrir ao titulo de _Madre_ que pela primeira vez lhe fora dado.
--An?--tornou elle--está-se a rir?! então que quer dizer lá essa risadita?! Isto parece-me casa de doudos, por mais que me digam.
--Não deve aqui voltar, snr. Antonio,--replicou a freira com muita brandura e graça--porque seria pena que o seu juizo perigasse n'esta casa de doudos.
--E olhe que a fallar a verdade já me lembrou isso, e essa cousa que a senhora Madre acaba de propôr não me cáe em cesto roto. Isso leva agua no bico. A senhora Madre lá lhe parece que a sua sobrinha é capaz de me fazer dar volta ó miôlo? Não tenha pena do rapaz, que eu tambem a não tenho! (O snr. Antonio José da Silva tinha por esse tempo os seus quarenta annos.) Quem chegou á idade adultera (emende _adulta_) sem dar com as ventas no sedeiro, tambem já não cáe na arriola de se apaixonar por quem lhe não sabe agradecer os affectos do seu peito; é como lhe digo, senhora Madre, e póde dizel-o tal e qual á sua sobrinha, que não vá ella cuidar que eu perco a vontade de comer. De tolas como ella está cheio o Porto. Tomara eu boa vontade de casar, que mulheres andam-se-me a metter pelos olhos com um palmo de cara soffrivel, e bons dotes... cuida que não, senhora freira!?
--Cuido que sim, snr. Antonio,--disse com a mais comica paciencia soror Rufina--cuido que v. m. merece uma menina de merecimentos muito superiores aos da minha pobre sobrinha. Se ella o não sabe avaliar ao justo, é porque está inclinada para a religião, onde nem todas as pessoas são doudas, snr. Antonio. Vá v. m. na graça de Deus, escolha entre tantas meninas que se lhe offerecem a melhor, e seja muito feliz. As minhas obrigações não consentem que eu me demore.
--Sempre lhe quero dizer mais uma palavra, se está para isso, snr.ª Madre.
--Com tanto que seja breve...
--Olhe lá... A senhora quer fazer um contracto commigo?
--Um contracto! Nós as religiosas não podemos fazer contractos, nem supponho que genero de contracto possamos fazer.
--Eu lhe digo. Se a senhora fizer com que sua sobrinha queira casar commigo, eu obrigo-me a dar á senhora cem mil réis cada anno emquanto a snr.ª Madre for viva...
--Emquanto eu for viva?--atalhou a freira, sustendo com difficuldade o impeto do riso.
--Sim, senhora--tem cem mil réis em metal, pagos no principio do anno, emquanto a senhora for viva.
--Não aceito.
--Então quanto quer? diga lá, que me pilha em boa maré!
--Se me dá os cem mil réis por mais alguns annos...
--Que é? não entendo isso.
--V. m. diz que me dá cem mil réis annuaes; mas tira a condição de m'os não dar logo que eu morra, não é assim?
--Podera não! Dou-lh'os emquanto a snr.ª Madre for viva.
--Pois eu quero que m'os continue a pagar por mais alguns annos.
--A senhora por mais que me digam está a mangar commigo! Então é douda ou não é?! E o caso é que já pegou á moça a toleima...
Soror Rufina arquejava em gargalhadas indomitas, quando o lôrpa lhe dirigia os ultimos insultos.
Não podendo mais sustentar-se na grade, a freira deixou o mercador a resmungar, e lançou-se a rir nos braços de Carlota, que a esperava chorando.
Acabou-se o ignobil episodio de Antonio José da Silva.
Aos que não conhecem esta raça inextinguivel no Porto, aos que reputam desnaturada a linguagem que o romancista saccou da lingua d'este Antonio, emprasamos para que estudem, e observem, hoje, n'este anno de 1858, já passado quasi meio seculo, os Antonios existentes, se é possivel encontrar-se um Antonio assim que não seja um lustre da nobreza coeva do gaz e do telegrapho electrico.
XVI
Quem quizer saber quantos são ao todo os filhos de Adão, conte primeiro quantos são os afflictos e atribulados.
Bernardes. (_Nova Floresta_.)
A filha de Norberto de Meirelles esperava em vão que sua mãe com supplicas incessantes alcançasse do marido o dote para a profissão. O negociante poderia com algum sacrificio acceder ás instancias de D. Rosalia; mas a pertinacia de Carlota em rejeitar a proposta de Antonio José da Silva irritou-o de tal modo, que não houve convencel-o a aceitar, a titulo de emprestimo, a dadiva do patrimonio que os paes da noviça Dorothea queriam dar á intima amiga de sua filha. Ia mais por diante a brutalidade do arrozeiro, negando-lhe o consentimento. Ora, contra esta tyrannia nova, entre as tyrannias de paes crueis e barbaros tutores, como se diz nos romances não menos barbaros e crueis, contra esta nova tyrannia trabalhavam na côrte pessoas empenhadas a favor da noviça por intervenção de algumas freiras.
Obtida a licença regia, graças á pouca actividade de Norberto, e talvez á diversão em que o traziam os cuidados e afflicções de pagar as letras do snr. Antonio José da rua das Flores, Carlota Angela soube que seria freira sem dote, freira de prenda, como se chamam as meninas que tocam ou cantam, e dão a sua habilidade como equivalente de patrimonio.
Foi um dia de jubilo no mosteiro de S. Bento da Avè Maria o da chegada da licença. A profissão de Carlota era uma festa, em que todas as freiras tomavam parte. Os fartos meios, que lhes sobejavam, permittiam solemnisar com todas as galas e magestade o acto augusto, que a noviça anciava, chorando de alegria, e esperando com susto, como se temesse algum imprevisto obstaculo á sua felicidade. Chegou o fausto dia.
Se entendem que não é impertinencia descriptiva debuxar á pressa os promenores da profissão de uma religiosa benedictina, acompanharemos Carlota Angela desde que a mestra, avisada pelo dobre do sino, a foi buscar da casa do noviciado para o côro. A noviça ajoelhou aos pés da prelada, proferindo as palavras do rito, que são uma supplica de misericordia a Deus e á abbadessa, que a interroga ácerca do que pretende. Entre as mãos de Carlota estava a regra do patriarcha S. Bento, e n'essa postura devota e humilhada profere os votos. Á grade do côro, onde se passa esta scena quasi silenciosa, chega um sacerdote com a cruz processional entre dois candelabros, e após elle os paramentos.
A noviça cantou com a voz tremida a carta da sua profissão. As ultimas palavras mais as dissereis gemidos desatados de uma suffocante angustia. Lida a carta, o som melancolico do orgão parecia chorar com ella, cuja voz, em terceto com a da cantora e da mestra de noviças, entoou, tres vezes, o seguinte verso:
_Suscipe, Domine, secundum eloquium tuum, et vivam, et non confundas me ab expectatione mea._
Carlota foi ajoelhar ante o altar da Virgem, e depôz no respaldo do altar a carta da profissão. O côro cantava, entretanto, um _Gloria_ de tristissima toada.
D'alli, foi ao meio do côro a professante, e ajoelhou sobre uma alcatifa entre quatro candelabros; ajoelharam todos, e entoaram uma ladainha, acompanhada a orgão, e instrumental.
As freiras assistentes ergueram nos braços a noviça, emquanto se cantava o _Veni, creator Spiritus_, invocação de tanta religiosidade e compunção, que as lagrimas saltaram a um tempo de todos os olhos.
Carlota foi prostrar-se diante da abbadessa, que a despiu, ao passo que a trança dos cabellos era deposta n'uma salva de prata. Cingiram-lhe depois a touca e o véo, que o celebrante aspergira e incensara, e ajoelharam com ella. «Recebe, donzella, o véo sagrado--disse a abbadessa, impondo-lh'o na cabeça--para que chegues sem mácula ao tribunal de nosso Senhor Jesus Christo, ao qual se dobram os joelhos no céo, na terra, e no inferno por toda a eternidade.» Sobre o hombro direito lhe collocaram em seguida umas disciplinas, acompanhando a acção com estas palavras: «Recebe, ó cara irmã, as armas da tua milicia».
O celebrante entoou uma oração, durante a qual as lagrimas da professante manavam copiosamente sobre as mãos de soror Rufina, que lhe amparava o rosto.
A prelada proferia as ultimas palavras da benção final, o orgão acompanhava _Benedictio Dei Patris_, esse hymno de acção de graças, que os anjos parecia sublimarem em accordes de celestial melodia, quando entrou na igreja um mancebo com tal impeto, que se fez reparado ás pessoas por entre as quaes rompeu com precipitada vehemencia.
--Já professou?--perguntou o individuo machinalmente a um rosto conhecido que proferira o seu nome,
--Agora mesmo.
--Professa!--exclamou Francisco Salter de Mendonça, correndo para as grades do côro--Professa! Tudo perdido, tudo perdido!
Encostado aos ferros do côro, com a fronte banhada de suor frio, e a luz dos olhos turvada, Francisco Salter estava já amparado entre os braços das pessoas que o reconheceram.
Fez-se um grande reboliço na igreja. A multidão agglomerava-se em redor do official de marinha, sem poder averiguar a causa dos gemidos que se ouviam no côro.
Não eram de Carlota Angela esses gemidos. A infeliz dirieis que adivinhou a entrada de Salter na igreja, porque, erguendo-se de repente, antes que a prelada pronunciasse as ultimas palavras da benção final, correu á grade, soltou um ai suffocado, como se outro não podésse já soltar do coração expirante, e caiu desmaiada nos braços de algumas freiras, que lhe tinham seguido o movimento arrebatado.
Soror Carlota foi transportada á sua cella, sem sentidos. Francisco Salter de Mendonça recobrou alento e razão, quando se viu espectaculo de tanta gente, e pediu licença para sair.
A serenidade que de repente lhe assomou ao rosto causava novo espanto aos amigos ou conhecidos que se empenhavam em o levar d'alli. Entre esses havia um que tinha o segredo d'aquella grande desventura, e lhe pediu mui encarecidamente que o acompanhasse para sua casa. Mendonça rejeitou com tranquilla urbanidade os offerecimentos, e parecia surdo ás consolações. O sorriso contrafeito, com que desmentia as lagrimas que lhe aguavam os olhos, presagiava alguma grande desgraça. Um suicidio foi o receio das pessoas a quem o mysterioso acontecimento foi de bôca em bôca revelado.
Por fim, Mendonça desopprimido do concurso que o rodeava ainda no adro da igreja, entrou no pateo do mosteiro, foi com sereno aspecto á portaria, e pediu á madre porteira o favor de o annunciar á senhora religiosa que acabava de professar. Concorreram algumas freiras a ouvir este recado, e todas á uma balbuciaram não sabemos que palavras de consolação religiosa que Francisco Salter parecia não ouvir.
Immovel permanecia elle, esperando a apparição de Carlota, quando lhe indicaram a grade onde elle devia esperar que lhe fallassem.
--É a snr.ª D. Carlota Angela que eu procuro--disse elle com imperturbavel firmeza.
--Pois suba para a grade, que o estão lá esperando.
--Mas quem é que me espera, senhoras?
--Alguem é...--responderam as freiras.
--Quem eu procuro, e com quem preciso fallar, é a senhora que professou ha pouco. Não conheço mais alguem n'esta casa.
--Pois queira subir...--disse o padre capellão do mosteiro, que n'este momento viera collocar-se ao pé de Francisco Salter--Eu acompanho v. s.ª á grade onde o esperam--continuou o padre, dando-lhe o braço, e guiando-o automaticamente para a grade, onde o estavam esperando.
Mendonça encontrou na grade uma freira desconhecida: era soror Rufina.
--Creio que não lhe será desagradavel--disse ella--encontrar uma tia de Carlota.
--Quizera antes, minha senhora, encontrar sua sobrinha.