Cantos Sagrados

Part 6

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Este CANTO é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos, á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do seu futuro viver!

Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante _a solução d'um Problema commum_, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.

O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!

A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, ou pelo menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios do Justo!...

Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna![1]

Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do novo direito!...

A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita e universal dos tempos modernos!

É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica, no Labaro d'uma religião universal.

Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, _a formula juridica d'este novo Direito_; e, a despeito da guerra desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou em breve no espirito de todos os codigos!

Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de Civilisação Moderna se alcançaram sem o concurso das religiões positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos politicos, poder-se-ha calcular: que transformação profunda e rapida nos destinos do universo se não vae operar, quando aquella Mãe que preside á sorte dos povos, e que tem estado até hoje degredada nas regiões abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na fé e esperança dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto quanto é permittido ás forças humanas, converterá em realidades as promessas de Jesus no sermão divino da Montanha!

É prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe hão de prestar, que esboçamos este cantico religioso.

Para que esta aspiração se converta na religião do Futuro basta que a Mãe de Jesus, esta creação poetica e encantadora do symbolismo catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da Verdade, a distribuidora da Justiça e do Amor, a Virgem Mãe dos Povos.

Então todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em honra da Mãe de Jesus, serão poucos para a glorificarmos!...

[1]Laurent nos seus estudos sobre a _Historia da Humanidade_ demonstra á saciedade quanto estes e outros heroes foram meros instrumentos d'uma causa superior, a vontade de Deus, em tudo o que fizeram.

AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!

Paginas 78 a 90

Estas duas poesias são o desdobramento, a synthetisação dos CANTOS consagrados á _Paz dos Povos_, ao _Homem_ e á _Mulher_, vendo n'estes os principaes factores da civilisação, e á Humanidade, como typo ideal da Verdade e da Belleza, na realisação progressiva do destino Humano.

Enviamos o leitor para o que expozémos nas respectivas notas, porque ali lhe será facil descortinar o systema de philosophia que se converteu para nós nos preceitos de uma moral substancialmente humana, verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religião do futuro.

APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO

Paginas 91 a 97

Estas duas poesias são o complemento da que publicámos a pag. 8 sob a denominação _Presentimentos_. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro annos antes de constituirmos familia, isto é, de entrarmos na _pratica obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo_, principio moral em que assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituições, e que é a base da religião e da philosophia.

Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu exagerado lyrismo, repassado de desalento e dôr, da correcção que o conhecimento das leis da vida e as licções de historia nos trouxeram com o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos CANTOS á _Humanidade_, á _Mulher_, ao--_Homem_, aos _Filhos_ e designadamente nos dois canticos anteriores ao _Novo Cyclo Historico, Nova Luz! Novo Ideal!_

A confiança nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na Humanidade, deu-nos forças e animo para as luctas em que nos temos visto assediados toda a vida, resignação e paciencia na adversidade, fé inabalavel na regeneração do Mundo pela sciencia, pela justiça e pelo amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem ficções, e sem mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!...

Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, não significa outra coisa.

Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças!

Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela revellação continua e progressiva da Historia!...

Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar e sentir.

AO SOL

Paginas 108 a 111

Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no _Rig Veda_ e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e culto dos Povos.

Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante livro de Buchner _La Lumière et Vie_, que nos revellou com uma pujança de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com olhos apenas d'um poeta enamorado.

Se escrevessemos este CANTO depois da leitura d'estes livros, a nossa linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos serviriamos mais vivas e mais bellas.

A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como lh'o prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por excellencia!

Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz, deu a sua alma aos povos para redimil-os!...

Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que primitivamente lhe démos.

Á ARVORE

Paginas 127 a 131

Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!...

Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão propicias á contemplação e ao estudo!

Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle, quasi completamente esquecido dos homens.

Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua quietação e silencio, tão cheios de mysterios e tradicções de mysticismo christão, _eloquentes lições_ sobre os problemas da vida, sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia, postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e desenganos!

Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses materiaes, nós fomos d'este pequeno numero.

A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura, abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e Dezembro.

Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples, sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!

Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.

Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali passados.

Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais commoventes do seu _Mario_, de _Frei Caetano Brandão_ e da _Magdalena_. Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.

Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!

Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge, aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias, cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.

Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...

Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace fatal!! Foi então que escrevemos este CANTO, á _Arvore_.

Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.

Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza, representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.

Á TERRA

Paginas 132 a 139

De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em toda a nossa vida recebemos.

Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto denominado _Passeio ao Campo_ e que faz parte do quarto livro das _Irradiações_, _No Lar_.

Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.

Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice, pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.

Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos, Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança, tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais festejado e glorioso.

Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.

Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um d'elles a sua extensão.

Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs, mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á Vida!

Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos CANTOS, preferimos as Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e inexgotavel do Ideal.

Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em troca nos deu a pureza de coração e valentia d'animo para luctarmos contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros da nossa Fé.

AOS ASTROS

Paginas 140 a 143

Reservámos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia _Aos Astros_, porque podemos dizer com toda a Justiça, imitando David, que os _Ceus proclamam a Gloria de Deus_!

A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das almas, são os dois principaes factores do movimento e da Vida no Universo e na historia.

Ambos concorrem para a solução d'um problema commum.

Dovorciados até hoje pelas religiões positivas, productos da ignorancia inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma _Unidade Suprema_, para a qual convergem todas as forças vivas da Natureza, as revellações da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos tempos!

O que poderão estes dois eternos agentes da Verdade na solução dos destinos dos povos, já o podemos antever pelas grandes e luminosas syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito culto ao contemplar, como nós o fizemos, os despojos das civilisações extinctas que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florença; nas do Vaticano, em Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas nos certamens internacionaes das grandes exposições!...

Pelo que já temos até agora conquistado com o poder creador da nossa Idéa e com o auxilio que nos prestam as forças inexgotaveis da Natureza, o que é já hoje authentico, real e verdadeiro: o homem não tem motivos para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e infinito dos tempos, e sentar-se á margem do caminho, e no meio d'este, a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justiça Eterna pela ingratidão dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve considerar-se já hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora, segundo o genio semitico, com a expulsão de Adão e Eva do Paraizo, ora, segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas montanhas do Caucaso e o despedaçamento das suas carnes pelos bicos e as garras dos abutres!

Pela mais exacta comprehensão das leis do Universo e da Historia, o homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus.

Perante esta luz, de intensissimo fulgôr e de alcance infinito, as paginas da historia escripta pelo homem, são apenas por ora uma gloriosa introducção aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completarão, e cuja sequencia só póde denunciar-se nas visões e nos sonhos dos Poetas e dos Philosophos!

Na prespectiva da morte, quando para nós se quebram os vinculos da Vida e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro que já está escripto, o _Livro da Vida Eterna_--_os Ceus_--e consagrar-lhes este CANTO, que escripto ha vinte e sete annos atraz, é ainda hoje a traducção fiel do nosso pensar e do nosso sentir.

Não desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as tres ultimas quadras d'este CANTO, porque n'ellas resumimos toda a fé que trazemos no coração.

Lisboa, 29 de março de 1899.