# Cantos Sagrados

## Part 5

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Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de coração.

A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista, philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira forense.

Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes do legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que contribuiram para o triumpho das armas liberaes.

Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e recreio pela Europa.

Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em Portugal.

Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha, que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores do movimento revolucionario de 1820.

Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos sequazes do absolutismo em Portugal.

Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.

Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.

A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia, e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.

Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na virtude humana.

Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos, destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e devoradas pela febre do ouro e do goso!

N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro celebre _Les Mensonges conventionelles de notre civilisation_, é natural que não encontrem echo estes nossos CANTOS, nascidos d'uma grande fe no futuro da Humanidade!

São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos, d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.

O QUE EU VI

Paginas 1 e 2

Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em que jornal litterario e em que data o foi.

Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de CANTOS. Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.

Como d'ella se deprehende o _Deus_ a quem nos referimos está completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.

É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das consciencias e dos mundos.

É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias, dirigindo-as!...

Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos, tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas; um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo Moral, Deus é o _Ser por excellencia_, a chave insubstituivel do multiplo e mysterioso Problema da Vida.

Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo interior, encontra n'este, como outros tantos _Ideaes da Perfeição Suprema_, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e eternas.

Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.

Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a, qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos.

E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente exclusivamente em factos demonstraveis!...

Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!...

Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e expostas.

Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi, por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos, substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste.

Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso que por todo o paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes, sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá entrado!...

O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos humanos, a _moral_, a _arte_, o _direito_ e a _justiça_, abandonando o sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e de absurdos.

No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça, será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do Universo.

Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles a quem principalmente visamos nos nossos CANTOS.

Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares d'estas, _Avé Creator_ pag. 37, e o _Sursum Corda_ pag. 41 e outras.

TRISTEZA

Paginas 5 a 7.

Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não era ainda frequentada pelo publico da capital.

N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma tonalidade de côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas, havia n'essa manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos feixes de sol a distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos e a folhagem das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros cantando em redor dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das flôres.

Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!...

Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali, aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma nodoa na creação!

Da alta comprehensão que temos da _dignidade humana_ e do papel que o Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as poesias _Ao Homem_ e _Á Mulher_), resultou para nós uma philosophia e uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido assaltados!...

D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno cumprimento das suas leis eternas e divinas.

Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma, como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.

Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.

PRESENTIMENTOS

Paginas 8 a 18

E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando, finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a honra.

Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula, egoista e dissoluta!

Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na restauração do Imperio por Napoleão _le petit_ e causou-nos indignação o que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do _Direito Humano_, contra os thronos colligados em nome do _Direito Divino_!...

Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento democratico, a cuja sombra a França não conseguio ainda emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo direito!...

Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando d'ella partiramos!...

A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino, representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas, concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos ideaes.

Ao vêrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos aos nossos!...

Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos esta poesia.

Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador.

REVELLACÃO

Paginas 25 a 32

Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos de cedros já hoje seculares.

A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da Terra!...

Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa, celebradas com pompa na Capella da Universidade.

Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do _Miserere_, de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja, lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano, quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da _Verdade_ e do _Amor_, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas do nosso credo.

Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e apoucados recursos, a causa da Humanidade.

Este CANTO pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que presidiu a quasi todos os outros.

AVE CREATOR

Paginas 37 a 40

Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha, em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que é proxima aos memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e dedicados amigos, o Conde de Nova Gôa.

N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos referiremos na poesia _Á Terra_, foi onde se passou o periodo da nossa maior actividade litteraria.

O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e sentidas composições poeticas.

Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado pelo Sol e vivificado pelo Amor!

AO HOMEM--Á MULHER

Paginas 57 a 65

O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da Humanidade.

É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco, na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo.

É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé.

É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que lhe fôra imposto como _labaro da vida_, para se constituir no augusto executor da _obra divina_, n'um dos cooperadores conscientes dos _Problemas do Universo_.

É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse, pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.

Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça.

Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino, como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça.

A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de Marco Aurelio; mais tarde sob o Ideal de Christo, da França com o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza; de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros: tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789 nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que, pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.

Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.

O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão!

Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado, como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o Absoluto--Deus.--

O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor glorificação do seu Deus.

Para que o _par humano_ se não estonteie, porém, com a propria gloria, e não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo: collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe dos povos--a _Humanidade_!

Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira, em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.

Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!

A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos fé que estes CANTOS hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta.

Á HUMANIDADE

Paginas 74 a 77

