Cantos Sagrados

Part 3

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Tal o sonho que passa pela mente D'um pae creando os filhos, E n'essa fé remove deligente Milhares d'empecilhos!...

Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto Cruel co'o odio eterno, Lhe põe em derredor, injusto e ingrato, Em vez do ceu, o inferno!...

Ás vezes chega a ter-se horror ao homem, Ás suas impias luctas, Ao termos de entregar o peito joven D'um filho ás feras brutas!...

Antithese do Bem em que inda espera, Pergunta dolorido Um pae a Deus: se accaso lhe valera Seu filho ter nascido!...

Emfim é lei, e a lei, ideal supremo Bemdicto e sublimado, Fará com que passemos d'este extremo Do mal, ao Bem sonhado!...

De Deus a Idéa amplissima, infinita, Qual filha ao lar paterno, Em torno a Deus explendida gravita, No seu percurso eterno!

E tal como do cahos pavoroso, Que a custo eu mal devasso, Surgio mais tarde o mundo esplendoroso, Que rola pelo espaço!

E á eterna luz dos soes no firmamento, Celeste peregrino, Caminha sem cessar no seguimento D'um Ideal Divino:

Assim o coração febril se arrasta, Na sua lucta immensa, Atraz do Bem Supremo, e tanto basta Por base á minha crença!...

Buscando o summo Ideal por entre antitheses, Fazendo e desmanchando: O espirito concebe as largas syntheses De Deus, de quando em quando!

Ao fim de cada qual resurge a Vida, E muda os moldes velhos Por outros que se ajustam á medida Dos novos evangelhos!...

Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!... Os criticos deparam Co'os netos desmachando um dia os templos, Que seus avós sagraram!...

D'ahi os odios vãos de fanatismo; Os multiplos revezes, Que assolam as nações co'o cataclysmo Das crenças muitas vezes!

Quem do alto vé, no entanto, a historia humana, Contempla sorridente A marcha dos destinos porque emana D'um Pae ommisciente!

Passem nos ceus, com rapidez tamanha, Os astros diamantinos; Que a terra os segue; a terra os acompanha Eguaes são seus destinos!...

Aquillo que ha de vir e que deriva D'aquillo que hoje somos, Que em si contém do Eterno a parte viva, Nos filhos o depomos!...

Os filhos são da arvore da vida A flôr dos novos fructos, A quem de Deus a essencia é transmittida, Com os seus mil attributos!

E os paes então o fructo assasonado, Já proximo da queda; Com elles cae a parte do Passado Que é morta, e Deus arreda!

E quem nas leis divinas confiando, Á fulgida seara Do bem se consagrou, não morre quando Dos vivos se separa!...

Contente desce em paz á sepultura, Na crença de que os filhos Verão mais tarde em plena formosura Dos sonhos seus os brilhos!

Na marcha ascencional da humana historia, Que a mão de Deus conduz, O filho entrou na Luz que é transitoria, O pae na eterna Luz!...

Á farta os vermes seu cadaver róam Na campa onde se esvae! Sua alma triumphante e os soes entoam Hossana a Deus que é Pae!

Abril de 1898.

XVIII

Á HUMANIDADE

Estrellas que rolaes no espaço ethereo N'um vertice de luz vertiginoso, E em numero sem conta e sem repouso, De Deus cumpris altissimo mysterio!

E vós flôres gentis, purpureas rosas, Roxas violetas, candidas boninas, Que abris, tomando formas peregrinas, Á luz do Sol as petalas mimosas:

Commigo erguendo a vóz Ao throno da Verdade, Saudae a Humanidade, Que é mãe de todos nós!

Materno amor, que tanto admiro e acato, Perenne luz vital do Ser Supremo, Ante cujo esplendor confuso eu tremo, Se sondo o teu Santissimo mandato!

Ou sejas tu mulher juncto do berço Com terno olhar velando o teu filhinho; Ou tu maviosa rola no teu ninho; Bemditas no concerto do Universo:

Por tão divinos bens, No intimo do peito, Votae sentido preito Ao symbolo das mães!

Mulheres que prestaes culto a Maria, Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça, Doçura, vida e esperança onde se enlaça O vosso coração de noite e dia!

E vós ingenuas multidões que hei visto Com ar tristonho, humilde e miserando, Nos templos de mãos postas adorando Por vossa padroeira a Mãe de Christo:

A Virgem que adoraes, Tornou-se a precursora Da mãe que surge agora Aos olhos dos mortaes!

A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva, Levanta aos ceus os filhos redemidos! Em cantigos transforma os seus gemidos! No Bem o mal, na doce luz a treva!

A mãe que os filhos todos encaminha Ao Summo Bem, que traz no peito occulto; Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto; Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha==

«Bemdito sê nos ceus!» «Bemdito sê na Terra!» «Sacrario onde se encerra» «O Espirito de Deus!»

Oh povos que viveis sob a vigilia Do olhar supremo em toda a redondeza, Formando pelas leis da natureza E os vinculos moraes, uma familia:

Sabei que cada qual, tendo-a comsigo, Trará como um clarão na consciencia, Um rutilo fanal, a Providencia Que o pode redimir na hora do perigo!

Interpretes de Lei Divina, e para exemplo, Em honra d'ella um templo Na alma humana erguei!

Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes, Vós todos que formaes a eterna cahorte Dos bons, dos que perante a vida e a morte, De Deus esparsem raios resplendentes:

Por preito á obra santa e redemptora, Que põe a Terra e os ceus em harmonia, Como alto solta alegre a cotovia A limpida canção á luz d'aurora:

Á minha unindo a vóz, Cantemos creaturas, Hossana nas alturas Á Mãe de todos nós!

1897.

XIX

AO NOVO CYCLO HISTORICO

AO TRIUMPHO DO ESPIRITO

Homem! sob o docel das fulgidas estrellas, Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo, Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas, A custo iniciando o teu Poder no mundo!...

A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio, Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria, Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!...

No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem, Rompia ainda incerta, envolta em serração, Tua alma, cuja luz transporta o mundo á origem Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Rasão!...

Que seculos sem fim primeiro que desvendes, Dos vinculos da carne, esse fanal divino!... Que lugubres visões!... Que espectros!... Que duendes!... Que espiritos do mal, turvavam teu destino!...

Que o digam as ficções do extincto fetichismo!... O numero sem fim dos deuses dos selvagens!... As tetricas visões da Fé no Judaismo!... Do inferno dos christãos as lobregas voragens!...

Mas tudo emfim venceste e hoje sôa a hora De veres sem pavor a estrada percorrida!... De creres já em ti, em Deus, na luz d'aurora Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre á Vida!...

Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas, Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha, Medonhas convulsões e guerras fratricidas!...

Decerto obedecendo a occulto e grão motivo, No plano universal da Vida a que és sugeito, As mil conflagrações do cahos primitivo Vieram a surgir de novo no teu peito!...

Dois cyclos Deus traçou, d'uma orbita infinita, Dos povos do universo ás multiplas colmeias: Um vota-o as paixões que o rubro sangue agita; O outro ao resplendor sereno das idéas!...

Inicio da missão primeira a que és chamado, Tu vês, em pleno horror, da força o predominio Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado, Se votam sem quartel ás luctas de exterminio!...

Mil raças d'animaes, minados d'odio eterno, Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!... Tem odios figadaes, que lembram os do inferno, Que foi a projeção de tempos tão sombrios!...

Em face então do mundo acceso todo em guerra, Proclamas-te senhor e rei da creação! E levas sem quartel a morte a toda a Terra, Á pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canhão!...

Soberbo co'o poder, que d'ambições se nutre, Gravas-te nos brazões heraldicos da gloria, Das feras, o leão, o tigre, a aguia, o abutre, Quaes symbolos fieis da tua acção na Historia!...

Atraz de mil visões formadas como especulos Que alcançam do Ideal a luz sempre distante, Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos, Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante!

Os proprios animaes, aquelles que escolheste Por symbolos fieis do teu poder, é certo Que estão-se a eliminar tambem: a morte investe Com elles por fatal e superior decreto!...

A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema, É a mesma a que attingio o propio cahos por meta; Nos páramos do azul os soes a teem por lemma Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!...

N'um multiplo vae-vem, n'uma completa antithese Por entre o goso e a dôr, por entre a sombra e a luz, Chegas-te a conceber do mundo inteiro a synthese N'um pae celeste e Bom, no Deus que vio Jesus!...

Deriva desde então do periodo primeiro O fim que se approxima e o resplendente alvor Do novo Ideal que traz o fim do captiveiro: Em vez da Força, a Ideia; e, em vez do Odio, o Amor!

Teu cerebro pensante é como uma semente Que está reproduzindo a flôr do Ideal! Eterno nos traduz por forma resplendente Do seu divino author a essencia espiritual!...

Do bello lyrio d'alma as petalas brilhantes Cambiam sem cessar de côr e de perfume, E levam do Porvir, aos seculos distantes, O espirito de Deus que o mundo em si resume!...

É como o grão subtil que um cedro do Hymalaia Expôe formoso ao Sol, em todo o seu systhema!... Em intimo labor co'as leis da Vida, ensaia A eterna solução do divinal problema!...

O mesmo estão fazendo as fulgidas estrellas, Formoso campo em flôr, ideal jardim divino!... D'ahi as mil visões das coisas as mais bellas Que exparsem sobre nós seu brilho diamantino!

O mundo desde os soes da cupula infinita Ás flores a teus pés, com paternal carinho, Insuflam n'esse peito ancioso que palpita Valor para que vás seguro em teu caminho!...

Tem fé no teu destino; em Deus tem confiança! Da tua historia escripta as paginas sem conta Derramam na tua alma a nova luz que avança D'accordo co'o universo e que hoje em ti desponta!...

Em vez do legendario heroe das priscas eras, Das guerras extrahindo a gloria a todo o custo: Honrando o Creador, e as fulgidas espheras, Serás, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!...

É este o Ideal que as leis da natureza Inspiram com sublime e candida alegria!... Que as normas da Rasão, que as pompas da Belleza, E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!...

O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante, Da terra enviando a Deus seus canticos d'amôr!... O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante; O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flôr!...

O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto, Vem dar um novo rumo á tua antiga historia; Vem pôr-te em equilibrio, em intimo concerto Co'a vida universal, de que és a alma e a gloria!

É esta a nova Fé que em tuba altisonante, Interprete da Vida, entôa a voz da musa!... Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!... O espirito de Deus em sua vóz se accusa!...

Novembro de 1898.

XX

NOVA LUZ! NOVO IDEAL!

Espirito Supremo, d'onde brota A luz que eterna os mundos alumia, E deixa pelo espaço uma harmonia Echo da tua vóz! Inspira-me a assistir, sereno e impavido, Ao funebre ruiz do christianismo, E d'este inevitavel cataclysmo Salva-te a ti e a nós!

A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo De toda a perfeição, a ti importa Que d'esta fé, tornada letra morta, Vejamos renascer Do mundo novo a crença ardente e rutila, Co'o magico fulgor da nossa Ideia, O espelho onde melhor se patenteia No mundo o teu poder!

Ao teu olhar religiões sem numero, Com ritos, cultos, cheios de fulgores, Desambam, como as petalas das flôres Ao Sol que as reproduz!... Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido, Trajando d'ouro e purpura o horizonte, Das sombras de hoje, esplendido desponte, A dar-nos nova luz!...

Outra verdade, filha d'estes tempos, Que venha a nós em nome teu, n'esta hora, Matar a sêde ardente que devora Os nossos corações, Depois que á intensa luz de mil combates, Travados pela fé contra a Sciencia, Começa-se a apagar na consciencia O ideal christão!

A Ti attraes as almas como as aguias De monte em monte a prole aos ceus subindo, Fazendo com que attinja o espaço infindo Que abarca o seu olhar!... De Brahma a Budha, de Moysés a Christo, Se fez essa ascenção prodigiosa, Ao fim do qual a alma é desejosa De a novos ceus voar!...

Ah d'esta vacuidade em que se encontram Os nossos corações cheios de febre, Que uma alma nova irrompa e audaz celebre Suas nupcias d'amor Co'o mundo que lhe coube por partilha, Passando a co-existir serenamente, Harmonica, feliz e resplendente, Como ante o Sol a flôr!...

Por nós, que não por ti, que és intangivel Ás frageis condições da vida humana: Perante o aspecto triumphal que emana De toda a creação: Convem-nos expurgir do fundo d'alma, Da fonte onde se gera o pensamento, O cunho de tristeza e desalento, Que imprime o ideal christão!...

Ha na verdade em tudo o que é belleza, E força e vida e amor nas creaturas, Desde os astros que brilham nas alturas, Á flôr a nossos pés: Tanta porta do ceu a abrir-se á alma; Riqueza tanta e tanto amor occulto A revellar-te a Ti, que é justo um culto Erguer-lhes outra vez!

Digamos a verdade: uma semente, Que eterna e intacta a arvore resume, Com troncos, folhas, flôres e o perfume Que entrega ás virações: Encerra em si mais luz, lição mais pratica, Mais digna de por nós ser apprendida Qual maxima d'amor, e ideal da vida, Que um livro d'orações!

Tua alma é presa ao mundo que creaste E o mundo, cuja orbita infinita Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita D'amor teu coração, Tem jus a que façamos d'elle a Biblia Eterna, aonde apprenda a Humanidade, Sedenta de Justiça e de Verdade, A nova religião!...

Ah tens a executar teus vastos planos D'amor, e de Justiça, aurifulgentes, Fanaticos aos mil, e mil videntes, E innumeros heroes, De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio, Buscando interpretar teu pensamento; E encontram pelo azul do firmamento No mesmo afan os soes!...

Que á tua vóz as gerações extinctas Resurjam e contemplem com surpreza Esta obra immensa, cheia de belleza, Que em multiplo labor, As novas gerações estão fazendo!... Que em nome da Verdade triumphante, Unisono na Terra se alevante Este hymno em teu louvor!

1889.

XXI

APPELLO SUPREMO!

A minha alma immortal n'este exilio onde existe, Abrigando no seio a ideaes tão risonhos, E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste, Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos:

Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio; Mas que dias depois, co'o cahir da geada, E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!...

Assim foi para mim o florir dos amores, N'essa quadra febril em que o sangue é fecundo, Quando rompe a manhã, quando abrem as flôres, Quando o Sol brilhante e o azul é profundo!...

Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida; Nem ha nuvem no ceu, pelo vento açoutada; Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida, Que se possa dizer mais do que eu desgraçada!...

Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte D'um estadio a outro estadio atravez muito custo, Em demanda do _Bem_, que triumpha da morte: Deves crêr do Porvir no Ideal santo e augusto!

E se foste, minha alma, a illudida afinal, Quando crêste emplumar nesta quadra o teu ninho,... Pede a Deus que te envie aquella hora fatal Que abre a porta á Verdade e vae tu teu caminho!...

Oh Justiça increada! oh meu Deus! oh meu Pae! Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo Da _Bellesa_ e do _Amor_, que me envolve e me attrae: Dá-me as azas Senhor, com que vá ter comtigo!...

Lisboa, 1869.

XXII

REFUGIO ULTIMO!

Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito A ti meu ser se evol'!... Tem jus aos ceus quem mede esse infinito Que vae de sol a sol!...

Sonhei na terra, amando-a muito e muito, Novo Deus, nova lei; Mas foi, pura illusão, baldado intuito, Comtigo só me achei!...

Suppuz em vez do gellido egoismo, Da guerra surda e atroz D'interesses, em perpetuo antagonismo, Que envolve a todos nós:

Homens, povos, nações, por varios modos Unidos, dando as mãos: _Todos por um, valendo um só por todos, Vivendo como irmãos!..._

É fé que sigo, é crença que mantenho: Que em mysterioso nó Unis-te os homens, com supremo engenho, Formando uma alma só;

Em serviço da qual cada individuo, Com multiplo labor, Trabalha por lhe dar, no esforço assiduo, O maximo esplendor!...

Quão mais estreito o vinculo fôr dado, Mais luz hade irromper Do nosso coração, do amor gerado No ventre da mulher!...

Tal o sonho que em dias mais felizes Ao mundo consagrei!... Como hade aqui lançar fundas raizes: A ti contente irei!...

Se um raio de calôr ou luz, prestantes, A terra a si prendeu: É vel'os como, em rapidos instantes, Se evolam para o céu;

E como, n'um sentido em tudo opposto, A pedra na amplidão, Quanto mais alto attinge, com mais gosto Gravita para o chão!...

E eu não gravito: eu subo na vertigem D'um céllico condor A demandar em ti, na propria origem, Belleza, luz e amor!

Permitte, pois, do mundo em que eu habito Meu ser a ti se evol': Tem jus aos ceus quem mede esse infinito Que vae de sol a sol!

Novembro de 1868.

LIVRO SEGUNDO

ESPELHO DUPLO

O MUNDO E A CONSCIENCIA

I

ALVORADA

Algures brilha o sol no azul do firmamento, E expõe com resplendor das cousas o espectaculo! Aqui, na escuridão, o mundo é tabernaculo Onde os frageis mortaes descançam um momento!...

Alem, o Sol incita o mundo ao movimento, Á lucta pela Vida, o esteio e o sustentaculo Desde o ser da Rasão ao minimo animaculo, Aqui, o somno esparse em todos novo alento!

Ó Luz! tu és do mundo a Força, a Alma, a Vida, A essencia do meu Ser, a minha propria Ideia, O proprio Deus, talvez!... _Belleza, Amor, Verdade!_

Atraz de Ti caminha a Terra, mãe querida! Bemdito caminhar! Por Ti minha alma anceia!... Bemvinda sejas, pois, oh doce claridade!

Lisboa, 1898.

II

Á LUZ

Oh Luz dourada e pura! Oh Luz, irmã do Amor! Espelho e formusura Da Alma do Senhor!

Em ti eu vejo e abraço O author da creação, Soltando pelo espaço Explendida canção

Meus olhos que te admiram, Bem como a Terra e os Ceus, Ao verem-te, sentiram O proprio olhar de Deus!

O ceu, mal vens n'aurora, Mais alva que a alva lã, De purpura colora As faces de manhã!

A Terra, envolta em galas, Mais bella que as Huris, Reveste-se de opálas, De perolas e rubis!

As aves innocentes, Sentindo o teu fulgor, Gorgeiam, de contentes, Seus canticos d'amor!

Os lyrios junto ás fontes, Perdendo o teu clarão, As suas lindas fontes Inclinam-se para o chão!

Eu mesmo, se em verdade Sonhei, com Jesus, O bem da Humanidade, A Ti o devo oh Luz!

Oh candida alegria! Espirito de Deus, Que animas noite e dia A Terra, o mar, e os ceus,

Adoro-te portento!... E a Ti levando as mãos, Como ante o sacramento! Os simplices christãos!...

D'esta alma és o esteio! Que a tua essencia pura Ampare-me no meio Da minha desventura!...

E quando a morte um dia Roubar aos olhos meus, A esplendida harmonia Que formam Terra e ceus:

Seguindo prasenteiro A lei que me conduz, Meu grito derradeiro Será por ti oh Luz!

III

AO SOL!

Oh maravilha esplendida engastada Na fronte augusta do azul profundo, Qual lamina brilhante onde gravada Se visse a face de quem fez o mundo,

Eu te saudo oh Sol? qual religioso O Indio quando viu a vez primeira Surgir do mar teu facho luminoso E alegrar com a luz a terra inteira!

Ah! quiz cantar o braço omnipotente Que por nós trabalhava a cada instante: E a terra, o mar, e quanto vive e sente, Apontou para Ti, astro brilhante!

Possam teus raios que nos ceus se expandem Ricos da gloria e cheios d'alegria, Fazer com que do peito meu debandem As sombras da tristeza que trazia,

E ouve-me um canto alegre como o côro Das aves quando, envolto em magestade, Tu transpões do oriente as portas d'ouro E abençoas dos ceus a Humanidade!

Oh astro, coração tres vezes santo, De cujo seio foi por Deus emmerso O movimento e a vida e tudo quanto Forma hoje a harmonia do Universo!

Ouvi louvar-te, num concerto vario, Montanhas, mares, flôres e arvoredos, Que do meu peito, como d'um sacrario, Confiaram seus intimos segredos!

Louvam-te as aves; louvam-te as creanças, E os velhos que não teem fogo nos lares, Buscando a doce luz que tu lhes lanças, Como a imagem de Deus junto aos altares!

Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste Por tua esposa, na epocha sombria, Em que de crepe a abbobada se veste, Lacrimosa chorando noite e dia;