# Cantos Sagrados

## Part 2

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A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!... A todos por egual, a infindas creaturas,... Que, em multiplo labor, e por differentes modos, Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!...

Áquelle que transpõe as portas da existencia Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia, Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!..

Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade, Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!... É quem fecunda e rege os soes na immensidade; Quem dá ao universo a paz em que repousa!...

Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!... E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã! E vens de longe aqui, sedento de poesia, A namorar-me a mim, que sou a tua irmã!

Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos Eternos de Verdade, e a missa vae findar! Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos, Em nome do Senhor, te quero abençoar!

Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso, Senti entrar-me n'alma a alma do universo!...

Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr, Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==!

Quinta da Beselga

1885.

VIII

AVÉ CREATOR!

Desprende pelo espaço as azas d'ouro, Águia de Deus, no mundo extraviada!... Pela patria celeste, a tua amada, Vae em busca de Deus, Cantando um hymno em honra do seu nome, Que meu querer e instincto insaciavel Te guiarão, qual bussola admiravel, Pelos infindos ceus!

Senhor! venho invocar teu nome augusto, Em face d'estes vastos horisontes!... Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes, Fallando-me de Ti, Lançam-me n'alma um teu olhar divino, E, com elle, um occeano de luz pura, Que me trasborda em ondas de ventura O que eu t'offereço aqui!

Não sob o tecto do sombrio templo, Que a fé christã do povo erguera outr'ora Como um tumulo, onde o homem commemora A tua morte, oh Pae!... Mas sob o tecto azul do Templo Eterno, Perante o sol que passa dando a vida Em teu nome, que esta oração sentida Buscar teu throno vae!

Pois é--me triste a mim que as cousas brutas, Ellas, sem alma, em gratidão me vençam: E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam Da sua eterna luz, Converte-a em flôres, canticos e fructos, E, n'um concerto alegre e harmonioso, Tributa ao Sol um culto tão piedoso, Que o peito meu seduz!

Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios Do seu formoso olhar durante o inverno, A amante debulhar-se em pranto eterno, Das gallas se despir; Em valle e monte as folhas, com tristeza, Dos troncos com os ventos desprendendo-se, E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se, Raivoso aos ceus bramir!...

Mas quando o Sol de novo a aquece e anima: Oh que effluvios d'amôr então contemplo!... Traz o amante a alleluia ao escuro templo, E as trevas dão fulgôr; Espalma a folha o ramo resequido, E, ao som do mar que canta de mansinho, Da terra brota a flôr, da haste o ninho, Do ninho surge o amor!

Seja assim o meu peito! Que a minha alma, Buscando o foco eterno e resplendente Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente: Me eleve o coração A trasbordar torrentes de harmonias, Que entoem pela voz das creaturas: Santo! Santo! tres vezes nas alturas, Ao Deus da creacão!

Pois eu que sou o espirito das cousas, O verbo inspirador, a alma, a vida; Sinto em meu peito a gratidão devida Á tua mão que attrae Em giro eterno os mundos do Universo; E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto, Não hei de só ficar injusto e ingrato Para comtigo, oh Pae!

Seja pois o meu canto a voz do interprete, Que moldando nas formas da palavra A vida universal que em tudo lavra Co'o sopro animador: Eu possa vêr a Terra envolta em canticos, Sobre as azas de luz da alma humana, Remontar-se ás origens d'onde emana, As tuas mãos, Senhor!

Quinta da Beselga

1871.

IX

SURSUM CORDA!

Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha, Por entre um fogo eterno, expande o movimento Da machina febril do mundo que trabalha!

E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa, Qual perola engastada em fulgidos brilhantes, Derramas tua luz serena e voluptuosa Nos seios virginaes das timidas amantes:

C'o os vossos esplendores, Pela amplidão dos ceus, Cantae altos louvores Ao espirito de Deus!

E tu, mar rugidor! austero cenobita, Que em vastas solidões gemendo os teus pesares, Levantas o teu canto á abbobada infinita, Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares!

E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas Fontes que derivaes das fendas dos rochedos, Ás flôres murmurando, em musicas divinas, De amor e de ventura uns intimos segredos:

Mudae as harmonias Da vossa eterna vóz Em ternas homilias Ao pae de todos nós!

Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas, Altivas demandando o azul do firmamento; Que encheis as solidões de musicas estranhas, Se passa sobre vós o espirito do vento!

Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso Da luz que envia o sol da abbobada azulada, Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso, Como o habito subtil d'uma alma enamorada:

A musica e o perfume Que desprendeis, votae A quem em si resume O mundo inteiro e é Pae!

Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas, Altivos como os reis, indomitos senhores, Debaixo do docel das mûrmuras florestas, Rugis como um trovão os fervidos amores!

E vós, corças gentis e timidos cordeiros, Que em vossos corações e almas bem formadas, Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros, E á carne em podridão as hervas perfumadas:

Louvae a quem fizera, Co'o mesmo engenho e amor, As fauces d'uma fera, E o calice d'uma flôr!

Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes, E todos vós que entraes no giro da existência; Que haveis nas regiões das cousas immortaes, Por synthese suprema, a _luz da consciencia_:

Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade, Louvemos todos nós n'uma oração sentida, Em côro festival que attinja a immensidade, O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida!

Cantemos, creaturas! Pela amplidão dos ceus, Hossana nas alturas Ao espirito de Deus!

Carvalhaes, 1886.

X

AOS CATHOLICOS

Todos vós que sois sinceros crentes, Que oraes a Deus no intimo do peito, Oh mysticos christãos; Embora tenha crenças differentes D'aquellas que seguis, eu vos respeito, E julgo como irmãos!

Eu amo a Deus; depois a Humanidade; Depois os bons, e d'estes o primeiro, É Christo, o Redemptor! Não sendo egual em tudo á Divindade, É, como justo e homem verdadeiro, Meu mestre e meu mentor!

Embora por fanatico me tomem Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso, Que o Martyr da Paixão Parece-me tão grande como homem, Que até sinto vertigens quando messo Seu terno coração!...

Oh meu Jesus! nas luctas pela vida, Por onde tanto naufrago fallece No meio da viagem: Minha alma soffredora e dolorida, Cahiria tambem se não tivesse A tua doce imagem!...

Eu que creio que o facho da sciencia Nos ha de revellar, ao fim de tudo, Que em nós se concilia Rasão e Fé, Justiça e Consciencia: Ah quero-te Jesus! por meu escudo, Por meu amparo e guia!

Na Sé de Lisboa

na quarta feira de trevas

1888.

XI

FÉ E RASÃO

A CRUZ E O PÁRA RAIOS

Da velha cathedral, esbella e rendilhada, Votada a ser mansão do Deus, author do mundo, Na flecha a mais gentil, campeia abençoada A cruz do Redemptor, da Gallilêa o oriundo!

Nos impetos da fé, cortantes como a espada, O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo, Aponta á multidão, humilde e ajoelhada, Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo!

Em nome d'ella exalça a fé porque a aviventa, E diz mal da rasão que tenta, em vãos ensaios, Dos ceus arrebatar a luz, de que é sedenta!

Mas do alto onde ella está, que causa até desmaios, Temendo que a derrube o fogo da tormenta: Em nome da Rasão lhe pôe um pára raios!...

Outubro de 1888.

XII

AMOR E PROVIDENCIA

Em quanto eu, alta noite, velo e lido, Por vós mantendo innumeros cuidados, Dormis, caros filhinhos, socegados Em torno a mim o sonho appetecido!

Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido Meus esforços por vêr realisados Vossos sonhos gentis e perfumados: Ampara-vos um peito estremecido.

Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço: Com suprema bondade e sapiencia, Rege os mundos que rolam pelo espaço!

Esse Alguem é o Amor por excellencia, O formidavel e invisivel braço, E o olhar que nunca dorme==_a Providencia_==!

Lisboa, 1885.

XIII

Á GUERRA!

O QUE EU SINTO...

Se vejo com pavor as luctas carniceiras Que empenham as nações, chamadas as primeiras, Nos campos da batalha, Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro, Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro: ==É Deus que ali trabalha==!

Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve, Nos ceus ha um limite além do qual em breve Fallece a aza e taes Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne. O dia ha de chegar em que Deus os condemne E brade-lhes==Não mais==!

No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca Que engeite o vôo alado!... Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra A fonte de chrystal, de cujas aguas medra A arvore, a flor, o prado!...

E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!... Ou odio figadal, intrinseco, tamanho Que a todos nos divida?! Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco D'um Cezar que decida,

D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo, Que um homem, cujo peito infinito e profundo Abrange a Terra e os Ceus, Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia, A luz, o ar, a vida, a força, a providencia, Que deste-lhe, meu Deus?!

Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça Obrigue-os a expiar com fronte submissa Dos crimes o estendal Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia, Servindo de lição, ficando por memoria, Em prol do teu Ideal!...

E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio, E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio Signaes _de nova Luz_!... As crenças do Passado estando já em terra, Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra Os sonhos de Jesus!...

E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo, Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento, E o espirito divino Aos nossos corações! Que a toda a creatura, Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura, A todos deu destino!

Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos, Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos, De fito no Senhor, De fito no Ideal, minha alma não se inquieta: Confia e sobe a Deus, é como a borboleta Que vae poisar na flor!

Bussaco, 1870.

XIV

Á PAZ DOS POVOS

HOMO, EX HOMINIS LUPO, HOMINIS COOPERATOR

De lobo te foi dado outrora o nome, Lobo que a propria especie devastava Cruento e fero, qual não viras nunca Leões, pantheras, tigres ou chacaes!...

E a fera, quando a fome A incita, é quando crava O dente e a garra adunca Nos miseros mortaes.

Da massa do teu cerebro colhendo A luz consciente e pura das ideas, Concebes mil engenhos homicidas, Inventos d'infernal destruição!

Com elles, monstro horrendo! Ha seculos semeias, Em guerras fratercidas, A morte e a assolação!...

Mas como as forças cosmicas da Terra Cessaram suas luctas de gigantes, Trazendo á luz do Sol, d'amôr sedenta, Dois mundos revestidos d'esplendores,

O mineral que encerra Os fulgidos brilhantes; E o vegetal que ostenta O olhar gentil das flores:

Assim as mil paixões que a tanto custo Contem teu peito e o rubro sangue agita, Por ultimo hão de ter a vida calma Que impõe por norma a tudo a Providencia;

E o Bello, o Bom e o Justo, Na sua acção bemdicta, Levar-te aos seios d'alma A paz da consciencia!

Do sol os raios que dão vida ao globo; Da vida a força multipla que actua Em prol de cada qual, para que tomem Quinhão no Bem, que é dado como a luz:

Reclamam nos que o Lobo, Da historia se destrua, E dê lugar ao homem Sonhado por Jesus!

Se o cahos do teu peito foi sequencia Do cahos primitivo da natura: Terá tambem destino egual ao d'este; Dará um quarto mundo, o da Verdade!...

O da alma, cuja essencia Incorruptivel, pura, Procria a luz celeste Do Bem, na Humanidade!

Ver-te-has então qual Semideus Consciente! O sangue que pecorre em tuas veias, Origem dando a fulgidas doutrinas, Ás nitidas noções das coisas bellas:

Tua alma um resplendente Santuario, onde as ideias Serão luzes divinas, Mais puras que as estrellas!

Antithese da Vida do Passado, Compete-te integrar na Terra os Povos; E, chave do vastissimo problema Da Vida humana: honrando o Redemptor,

Nos ceus tem Deus traçado Aos teus destinos novos, Por synthese suprema, A Paz, o Bem, o Amor!

25 d'abril de 1898.

XV

AO HOMEM

Segundo as tradicções que vão sumir-se Na noite secular das priscas eras: Rugiram contra ti, Homem, as feras, E as coleras do mar; Dos ceus revoltos os trovões e os raios; Qual reprobo vivias no universo Inerme, nu e só, na sombra immerso, Sem Deus, sem luz, sem lar!...

Apoz infindos seculos de lucta Co'as forças implacaveis da materia, Soffrendo, em toda a escala da miseria, O frio, a fome, a dôr: Venceste, e oppões ás lugubres cavernas, Á escura habitação dos trogloditas, Os fulgidos palacios onde habitas, Conscio do teu valor!...

Imperios contra ti ergueram despotas, Quaes moles collossaes architectadas, Assentes no prestigio das espadas, Nas mãos d'um Pharaó, D'um habil Julio Cesar; mas as moles, Minadas pela acção do povo obscuro, Cahiram como cae um fragil muro No chão desfeito em pó!...

No intuito de livrar teu grande espirito Dos vinculos do mal e enobrecel-o, Tomas-te a Jesus Christo por modelo Das tuas concepções; D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma, De ti fizeram novamente escravo, Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo, Partiste os teus grilhões!...

Por ultimo lançando mão das forças Da Terra tua mãe, das leis da Historia: Apenas em tres seculos de gloria, Com mil prodigios teus, Mudas-te totalmente a face ao mundo, E propões-te a fazer o mesmo á alma, Porque esta, resplendente, justa e calma, Triumphe á luz dos céus!

Forjou a mão de Deus no sol teus raios!... D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio Do teu almo poder! o grão prodigio Das tuas concepções, Que em marmore e crystal, em prata e ouro, E em tellas formossissimas, transmittes De mão em mão, sem conta, e sem limites, Ás novas gerações!...

Na terra, erma de Luz, Homem surgiste, Trazendo no teu rubro sangue a Ideia, A luz que doma o fogo, o apaga, o atêa, E o faz descer do céu Humilde como um cão!... Poder terrivel, Que Jupiter temeu, quando, iracundo, Mandou prender, por dar exemplo ao mundo, Na rocha a Prometteu!...

D'ahi a mola occulta, a força ingenita, A causa porque tu, no ardor da guerra, Revolves sem cessar o céu, a terra, A alma e o coração, E fazes e desfazes, sem descanço, Systemas, religiões, philosophias; Depões a Deuses, reis e tiranias, Em nome da Rasão!...

Por veres quem tu és e quanto vales: Das proprias obras faze o claro espelho, E escreve em face dellas o evangelho Da nova religião, O authentico, o real, o verdadeiro; Que em vez do degradado filho d'Eva, Com ligitimo orgulho a Deus eleva Tua alma e coração!

Senhor das energias infinitas Do mundo, com que Deus teu pae reforça Teu multiplo poder: expulsa a força Que os despotas produz; Levanta novamente altar e templos Ao Bello, ao Justo, ao Bem, á Sapiencia, Afim de que na Terra a Consciencia Impere em plena luz!

Em vez de Força, Amôr rege hoje o mundo!... E Amôr, se toma as normas da Justiça, Fará com que, empenhando-te na liça D'um ideal melhor: Floresçam sobre a Terra, em prol de todos, Honrando a Deus, servindo a Humanidade, Os sonhos de pureza e de bondade De Christo, o Redemptor!...

Terás no espaço os soes por companheiros, Comtigo permuttando noite e dia, Na sua eterna e placida harmonia, Os mil problemas seus!... D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra: Verás com resplendor a tua Ideia, Chamando-a á vida, em tudo onde campeã O espirito de Deus!

1892.

XVI

Á MULHER

Senhor da Força, nós, o heroe lendario, Da Terra o domador, o sabio, o forte, Dir-se-ia que jurámos ante a morte Guerra d'irmão a irmão!... Mais féros do que os tigres, destruimo-nos A ferro, a fogo, a polvora, a metralha, Deixando, pelos campos de batalha, O sangue, a assolação!...

Mudou agora o Eterno ao mundo a rota Que ha seculos trazia,... e novos astros Despontam no horisonte, e em nossos mastros Mais rutilos tropheus!... Em vez da guerra truculenta e impia, Impõe-nos por principio a Paz dos Povos, Que impavidos demandam mundos novos, Nova luz, novo Deus!...

Fechado para sempre o ferreo cyclo Da guerra universal, obscuro berço Do velho mundo barbaro, inda immerso Nas lendas dos heroes: Compete a Ti, Mulher, filha dilecta De Deus, c'roar na Terra a grande obra, Que em fulgido progresso se desdobra, Á clara luz dos soes!...

Missão mais nobre á vida humana é dado: Juntar e repartir de muitos modos, Por cada um de nós, e em prol de todos, Do Bem a eterna luz, Fazendo com que caiam na nossa alma, Qual chuva em messe loira e movediça, N'uma missão d'amor e de Justiça, Os sonhos de Jesus!...

Em vez da Força, Amor rege hoje o mundo! E amor, tomando as gallas da Belleza, As normas de Justiça, a mãe, a deusa Das novas gerações: Ao teu celeste influxo, posto á sombra Da mãe de todos nós, a _Humanidade_, A paz será na Terra, e na Verdade Os nossos corações!...

Belleza e Amor, unindo-se, fizeram Do teu mimoso ser um relicario, Onde a mão do divino estatuario Os sonhos seus guardou!... D'encantos mil, conjuncto incomparavel! A Deus já mereceste tal conceito, Que só do amor divino do teu peito, A vida confiou!...

Teu lindo rosto, espelho da sua alma, Transporta-me a ideaes de tal apreço, Que em frente d'elle extatico estremeço, E ponho-me a scismar: Se entre as ondas de graça e de belleza, Que lançam sobre mim seus olhos ternos, Está ou não occulto a bemdizer-nos De Deus o proprio olhar!...

Tem jus as niveas formas do teu corpo Ao flácido velludo, á fina seda, Primor da industria humana que arremeda As petalas da flôr! Rainha! traja mantos d'ouro e purpura, A doce perl'a, o fulgido brilhante, E tudo quanto esplendido levante Na Terra o teu amor!

Amor se symbolisa n'um menino, Dos ceus gentil e alado mensageiro, Trazendo atraz de si, como um cordeiro, Pacifico leão! O magico poder que a fera doma, A força de que se arma esse innocente És tu mulher, e a fera obediente O nosso coração!

Conscia de Ti, das leis da vida, impera! E aos pés verás as almas subjugadas! Tem mais poder que o fio das espadas, Um riso e olhar dos teus! Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo, Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique, Nos faça com que a alma humana fique Mais proxima de Deus!

1892.

XVII

AOS FILHOS

Trazidos pelo Amor, que por instantes, O veu ergue á Verdade, Por nós á luz vieram, quaes prestantes Peões da Humanidade!...

Amor é quem dos ceus nos abre a porta, Nos deixa vêr o intuito De Deus na Terra, e a elle nos transporta Da amante o olhar fortuito!

Em nós n'um sonho lindo tendo origem, Se o sonho a Deus encerra, As sabias leis da historia humana exigem, Que o sonho desça á Terra!...

Dos paes vingasse o amor, que este o faria Entrar na realidade, Expondo a divinal sabedoria Em plena claridade!...

Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia Seus raios sempre novos; E a Terra os bens innumeros que cria Em paz, a bem dos Povos!

Em vez de irmãos maleficos eivados De odios que o sangue atiça, Os bons e os maus ver-se-iam congraçados Em nome de Justiça!

Em frente das pacificas moradas, Jasmins, lyrios e rosas!... E as ruas que pisamos marchetadas De pedras preciosas!

