Cantos

Part 6

Chapter 63,549 wordsPublic domain

E o exercito contrario entra rugindo Na villa, que as suas portas lhe franqueia: Rasteiro corre o incendio e surdamente O custoso edificio ataca e mina. Eis que a chamma roaz amostra as fendas Das portas que se abrasão; descortina O torvo olhar do vencedor--apenas-- Lá dentro o incendio só, fóra só trevas! Urros de frenesi, de dôr, de raiva Escutão dos que, ás subitas colhidos, Contra os muros em brasa se arremeção; Dos que, perdido o tino, intentão loucos Achar a salvação, e a morte encontrão. Lá dentro confusão, silencio fóra! São carrascos aqui, victimas dentro. Geme o travejamento, estrala a pedra, Cresce horror sobre horror, desaba o tecto, E o fumo ennegrecido se ennovella Co’o vertice sublime os céos roçando. Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens, Como ignea columna que da terra Hiante rebentasse,--tal se eleva, Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce A labareda portentosa; e baixa, E desce á terra, e o edificio enrola, E o sorve inteiro, qual se forão vagas Que a dura rocha do alicerce abalão, Que a enlação, como a prêa,--e ao fundo pégo Levão, deixando o mar branco d’espuma. No horror da noite, sibilando os ventos, Lingoas pyramidaes do atroz incendio, Fumosas pelas ruas estalando, Tingem da côr do inferno a côr da noite, Tingem da côr do sangue a côr do inferno! --O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.

VII.

E aquelles que inda sãos e immunes erão, Os que a peste engeitou, Que fome e sede e privações soffrerão... A espada decepou.

E a donzella tremeo, da mãi nos braços Não salva ainda, Que incitava os prazeres do soldado A face linda.

E o fido amante, que de a ver tão bella Sentio prazer, Sente martyrios por que a vê formosa No seo morrer.

Coisa alguma escapou!--Já tudo é cinzas, Tudo destruição: A columna, o palacio, a casa, o templo, O templo da oração!

Meninos, homens e mulheres,--todos Já rojão sobre o pó; Mas o Deos, o Deos bom já está vingado, Por ella já sente dó.

E a villa d’outr’ora mais ruidosa, Lá resurgio cidade; Por que o Deos da justiça, o das armadas, O Deos é de bondade.

* * * * *

QUADRAS DA MINHA VIDA.

RECORDAÇÃO E DESEJO.

AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.

Sol chi non lascia eredità d’affetti Poca gioia ha dell’urna. FOSCOLO.

I.

Houve tempo em que os meos olhos Gostavão do sol brilhante, E do negro véo da noite, E da aurora scintillante.

Gostavão da branca nuvem Em céo de azul espraiada, Do terno gemer da fonte Sobre pedras despenhada.

Gostavão das vivas côres De bella flôr vicejante, E da voz immensa e forte Do verde bosque ondeante.

Inteira a natureza me sorria! A luz brilhante, o susurrar da brisa, O verde bosque, o rosicler d’aurora, Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra, D’esperança e d’amor minha alma ardente, De luz e de calor meu peito enchião. Inteira a natureza parecia Meos mais fundos, mais intimos desejos Perscrutar e cumprir;--almo sorriso Parecia enfeitar co’os seos encantos, Com todo o seo amor compor, doiral-o, Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no, Porque minha alma de o sentir folgasse.

Oh! quadra tão feliz!--Se ouvia a brisa Nas folhas susurrando, o som das agoas, Dos bosques o rugir;--se os desejava, --O bosque, a brisa, a folha, o trepidante Das agoas murmurar prestes ouvia. Se o sol doirava os céos, se a lua casta, Se as timidas estrellas scintillavão, Se a flôr desabrochava involta em musgo, --Era a flôr que eu amava,--erão estrellas Meos amores sómente, o sol brilhante, A lua merencoria--os meos amores! Oh! quadra tão feliz!--doce harmonia, Acordo extreme de vontade e força, Que atava minha vida á natureza! Ella era para mim bem como a esposa Recem-casada, pudica sorrindo; Alma de noiva--coração de virgem, Que a minha vida inteira abrilhantava! Quando um desejo me brotava n’alma. Ella o desejo meo satisfazia; E o quer que ella fizesse ou me dissesse, Esse era o meo desejo, essa a voz minha, Esse era o meo sentir do fundo d’alma, Expresso pela voz que eu mais amava.

II.

Agora a flôr que m’importa, Ou a brisa perfumada, Ou o som d’amiga fonte Sobre pedras despenhada?

Que me importa a voz confusa Do bosque verde-frondoso. Que m’importa a branca lua, Que m’importa o sol formoso?

Que m’importa a nova aurora, Quando se pinta no céo; Que m’importa a feia noite, Quando desdobra o seo véo?

Estas scenas, que amei, já me não causão Nem dôr e nem prazer!--Indifferente, Minha alma um só desejo não concebe, Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde Do meo imaginar as puras azas Cercear, desprender-lhe as niveas plumas, Roja-las sobre o pó, calca-las tristes? Perante a creação tão vasta e bella Minha alma é como a flôr que pende murcha; E qual profundo abysmo:--embalde estrellas Brilhão no azul dos céos, embalde a noite Estende sobre a terra o negro manto: Não póde a luz chegar ao fundo abysmo, Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face; Não póde a luz á flôr prestar mais brilho, Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!

III.

Houve tempo em que os meos olhos Se extasiavão de ver Agil donzella formosa Por entre flôres correr.

Gostavão de um gesto brando, Que revelasse pudor; Gostavão de uns olhos negros, Que rutilassem de amor.

E gostavão meus ouvidos De uma voz--toda harmonia,-- Quer pesares exprimisse, Quer exprimisse alegria.

Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem Indolente ou fugaz--alegre ou triste, Da vida a estreita senda desflorando Com pé ligeiro e animo tranquillo; Improvida e brilhante parecendo Seos dias desfolhar, uns após outros, Como folhas de rosa;--e no futuro-- Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora. Era deleite e dôr vê-la tão leda Do mundo as afflicções, angustias, prantos Affrontar co’um sorriso; era um descanso Interno e fundo, que sentia a mente, Um quadro em que os meos olhos repousavão, Ver tanta formosura e tal pureza Em rosto de mulher com alma d’anjo!

IV.

Houve tempo em que os meos olhos Gostavão de lindo infante, Com a candura e sorriso Que adorna infantil semblante.

Gostavão do grave aspecto De magestoso ancião, Tendo nos labios conselhos, Tendo amor no coração.

Um representa a innocencia, Outro a verdade sem véo; Ambos tão puros, tão graves, Ambos tão perto do céo!

Infante e velho!--principio e fim da vida!-- Um entra neste mundo, outro sae delle, Gozando ambos da aurora;--um sobre a terra, E o outro lá nos céos.--O Deos, que é grande, Do pobre velho compensando as dôres, O chama para si; o Deos clemente Sobre a innocencia de continuo vela. Amei do velho o magestoso aspecto, Amei o infante que não tem segredos, Nem cobre o coração co’os folhos d’alma. Amei as doces vozes da innocencia, A rispida franqueza amei do velho, E as rigidas verdades mal sabidas. Só por labios senis pronunciadas.

V.

Houve tempo, em que possivel Eu julguei no mundo achar Dois amigos extremosos, Dois irmãos do meu pensar;

Amigos que compr’hendessem Meo prazer e minha dôr, Dos meos labios o sorriso, Da minha alma o dissabor;

Amigos, cuja existencia Vivesse eu co’o meo viver: Unidos sempre na vida, Unidos--té no morrer.

Amizade!--união, virtude, encanto-- Consorcio do querer, de força e d’alma-- Dos grandes sentimentos cá da terra Talvez o mais reciproco, o mais fundo! Quem ha que diga: Eu sou feliz!--se acaso Um amigo lhe falta?--um doce amigo, Que sinta o seo prazer como elle o sente, Que soffra a sua dôr como elle a soffre? Quando a ventura lhes sorri na vida, Um a par d’outro--ei-los lá vão felizes; Quando um sente afflicção, nos braços do outro A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos, Encontra doce alivio o desditoso No thesouro que encerra um peito amigo. Candido par de cysnes, vão roçando A face azul do mar co’as niveas azas Em deleite amoroso;--acalentados Pelo sereno espreguiçar das ondas, Aspirando perfumes mal sentidos, Por vesperina arajem bafejados, É jogo o seo viver;--porém se o vento No frondoso arvoredo ruge ao longe, Se o mar, batendo irado as ermas praias, Crusadas vagas em novello enrola, Com grito de terror o par candente Sacode as niveas azas, bate-as,--fogem.

VI.

Houve tempo em que eu pedia Uma mulher ao meo Deos, Uma mulher que eu amasse, Um dos bellos anjos seos.

Em que eu a Deos só pedia Com fervorosa oração Um amor sincero e fundo, Um amor do coração.

Qu’eu sentisse um peito amante Contra o meu peito bater, Sómente um dia ... sómente! E depois delle morrer.

Amei! e o meo amor foi vida insana! Um ardente anhelar, cauterio vivo, Posto no coração, a remorde-lo. Não tinha uma harmonia a natureza Comparada a sua voz; não tinha côres Formosas como as della,--nem perfumes Como esse puro odor qu’ella esparzia D’angelica dureza.--Meos ouvidos O feiticeiro som dos meigos labios Ouvião com prazer; meos olhos vagos De a ver não se cansavão; labios d’homens Não poderão dizer como eu a amava! E achei que o amor mentia, e que o meo anjo Era apenas mulher! chorei! deixei-a! E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo, A sorte, boa ou má, levou-m’os longe, Bem longe quando eu perto os carecia. Conclui que a amizade era um phantasma, Na velhice prudente--habito apenas, No joven--doudejar; em mim lembrança; Lembrança!--porém tal que a não trocára Pelos gozos da terra,--meos prazeres Forão só meos amigos,--meos amores Hão de ser neste mundo elles sómente.

VII.

Houve tempo em que eu sentia Grave e solemne afflicção, Quando ouvia junto ao morto Cantar-se a triste oração.

Quando ouvia o sino escuro Em sons pesados dobrar, E os cantos do sacerdote Erguidos junto do altar.

Quando via sobre um corpo A fria lousa cahir; Silencio debaixo della, Sonhos talvez--e dormir.

Feliz quem dorme sob a lousa amiga, Tepida talvez com o pranto amargo Dos olhos da afflicção;--se os mortos sentem, Ou se almas tem amor aos seos despojos, Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia, E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos, Hão de lembrar-se com prazer dos vivos, Que chorão sobre a campa, onde já brota O denso musgo, e já desponta a relva.

Lagem fria dos mortos! quem me dera Gozar do teo descanço, ir asilar-me Sob o teo sancto horror, e nessas trevas Do bulicio do mundo ir esconder-me! Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse No teo silencio fundo asilo eterno! Ahi não pulsa o coração, nem sente Martyrios de viver quem já não vive.

* * * * *

HYMNOS.

Singe dem Herrn mein Lied, und du, begeisterte Seele, Werde ganz Jubel dem Gott, den alle Wesen bekennen! WIELAND.

MESQUINHO TRIBUTO DE PROFUNDA AMIZADE AO DR. J. D. LISBOA SERRA.

* * * * *

O MAR.

Frappé de ta grandeur farouche Je tremble ... est-ce bien toi, vieux lion que je touche, Océan, terrible océan! TURQUETY.

Oceano terrivel, mar immenso De vagas procellosas que se enrolão Floridas rebentando em branca espuma N’um pólo e n’outro pólo, Emfim ... emfim te vejo; emfim meos olhos Na indomita cerviz tremulos cravo, E esse rugido teo sanhudo e forte Emfim medroso escuto!

D’onde houveste, ó pelago revolto, Esse rugido teo? Em vão dos ventos Corre o insano pegão lascando os troncos, E do profundo abysmo Chamando á superficie infindas vagas, Que avaro encerras no teo seio undoso; Ao insano rugir dos ventos bravos Sobresáe teo rugido. Em vão troveja horrisona tormenta; Essa voz do trovão, que os céos abala, Não cobre a tua voz.--Ah! d’onde a houveste, Magestoso oceano?

Ó mar, o teo rugido é um echo incerto Da creadora voz, de que surgiste: Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas As vagas compelliste. E á noite, quando o céo é puro e limpo, Teo chão tinges de azul,--tuas ondas correm Por sobre estrellas mil; turvão-se os olhos Entre dois céos brilhantes.

Da voz de Jehovah um echo incerto Julgo ser teo rugir; mas só, perenne, Imagem do infinito, retratando As feituras de Deos. Por isto, a sós comtigo, a mente livre Se eleva, aos céos remonta ardente, altiva, E d’este lodo terreal se apura, Bem como o bronze ao fogo. Férvida a Musa, co’os teos sons casada, Glorifica o Senhor de sobre os astros Co’a fronte além dos céos, além das nuvens, E co’os pés sobre ti.

O que ha mais forte do que tu? Se erriças A coma perigosa, a náo possante, Extremo de artificio, em breve tempo Se afunda e se anniquila. Es poderoso sem rival na terra; Mas lá te vás quebrar n’um grão d’areia, Tão forte contra os homens, tão sem força Contra coisa tão fraca!

Mas n’esse instante que me está marcado, Em que hei de esta prisão fugir p’ra sempre, Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue Teo sonoro rugido. Então mais forte do que tu, minha alma, Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo, Quebrará n’um relance o circl’o estreito Do finito e dos céos!

Então, entre myriadas de estrellas, Cantando hymnos d’amor nas harpas d’anjos, Mais forte soará que as tuas vagas, Mordendo a fulva areia; Inda mais doce que o singelo canto De merencoria virgem, quando a noite Occupa a terra,--e do que a mansa brisa, Que entre flôres suspira.

* * * * *

IDEIA DE DEOS.

Gross ist der Herr! Die Himmel ohne Zahl Sind seine Wohnungen! Seine Wagen die donnernden Gewölke, Und Blitze sein Gespann. KLEIST.

I.

Á voz de Jehovah infindos mundos Se formárão do nada; Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia, E a noite foi creada.

Luzio no espaço a lua! sobre a terra Rouqueja o mar raivoso, E as espheras nos céos erguerão hymnos Ao Deos prodigioso.

Hymno de amor a creação, que sôa Eternal, incessante, Da noite no remanso, no ruido Do dia scintillante!

A morte, as afflicções, o espaço, o tempo, O que é para o Senhor? Eterno, immenso, que lh’importa a sanha Do tempo roedor?

Como um raio de luz, percorre o espaço, E tudo nota e vê-- O argueiro, os mundos, o universo, o justo; E o homem que não crê.

E elle que póde anniquilar os mundos, Tão forte como elle é, E vê e passa, e não castiga o crime, Nem o impio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro O Nome seo maldiz, Quando só vive de vingança e roubos, Julgando-se feliz;

Quando o impio commanda, quando o justo Soffre as penas do mal, E as virgens sem pudor, e as mães sem honra, E a justiça venal;

Ai da perversa, da nação maldicta, Cheia de ingratidão, Que ha de ella mesma sugeitar seo collo Á justa punição.

Ou já terrivel peste expande as azas, Bem lenta a esvoaçar; Vai de uns a outros, dos festins conviva, Hospede em todo o lar!

Ou já torvo rugir da guerra accesa Espalha a confusão; E a esposa, e a filha, de terror oppressa, Não sente o coração.

E o pae, e o esposo, no morrer cruento, Vomita o fel raivoso; --Milhões de insectos vis que um pé gigante Enterra em chão lodoso.

E do povo corrupto um povo nasce Esperançoso e crente, Como do podre e carunchoso tronco Hastea forte e virente.

II.

Oh! como é grande o Senhor Deos, que os mundos Equilibra nos ares; Que vai do abysmo aos céos, que susta as iras Do pelago fremente, A cujo sopro a maquina estrellada Vacilla nos seos eixos, A cujo aceno os cherubins se movem Humildes, respeitosos, Cujo poder, que é sem igual, excede A hyperbole arrojada! Oh! como é grande o Senhor Deos dos mundos, O Senhor dos prodigios.

III.

Elle mandou que o sol fosse principio, E razão de existencia, Que fosse a luz dos homens--olho eterno Da sua providencia.

Mandou que a chuva refrescasse os membros, Refizesse o vigor Da terra hiante, do animal cançado Em praino abrasador.

Mandou que a brisa susurrasse amiga, Roubando aroma á flôr; Que os rochedos tivessem longa vida, E os homens grato amor!

Oh! como é grande e bom o Deos que manda Um sonho ao desgraçado, Que vive agro viver entre miserias, De ferros rodeado;

O Deos que manda ao infeliz que espere Na sua providencia; Que o justo durma, descançado e forte Na sua consciencia!

Que o assassino de continuo vele, Que trema de morrer; Em quanto lá nos céos, o que foi morto, Desfructa outro viver!

Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege A maquina estrellada, Que ao triste dá prazer; descanço e vida Á mente atribulada!

* * * * *

O ROMPER D’ALVA.

Quand ta corde n’aurait qu’un son, Harpa fidèle, chante encore Le Dieu que ma jeunesse adore, Car c’est un hymne que son nom. LAMARTINE.

Do vento o rijo sopro as mansas ondas Varreo do immenso pego,--e o mar rugindo Ás nuvens se elevou com furia insana; Ennovelladas vagas se arrojárão Ao céo co’a branca espuma! Raivando em vão se encontrão soluçando Na base d’erma rocha descalvada; Em vão de furias crescem, que se quebra A força enorme do impotente orgulho Na rocha altiva ou na arenosa praia. Da tormenta o furor lhe accende os brios, Da tormenta o furor lh’enfreia as iras, Que em teimosos gemidos se descerrão; Da quieta noite despertando os echos Além, no valle humilde, onde não chega Seo sanhudo gemer, que o dia abafa.

Mas a brisa susurrando A face do céo varreo, Tristes nuvens espalhando, Que a noite em ondas verteo.

Além, atraz da montanha, Branda luz se patenteia, Que d’alma a dôr afugenta, Se dentro sentida anceia.

Branda luz, que afaga a vista, De que se ama o céo tingir, Quando entre o azul transparente Parece alegre sorrir;

Como es linda!--Como dobras Da vida a força e do amor! --Que tão bem luz dentro d’alma Teo luzir encantador!

No teo ameno silencio A tormenta se perdeo, E do mar a forte vida Nos abysmos se escondeo!

Porque assim de novo agora Que o vento o não vem toldar, Parece que vai queixoso Mansamente a soluçar?

Porque as ramas do arvoredo, Bem como as ondas do mar, Sem correr sopro de vento, Começão de murmurar?

Sobre o tapiz d’alta relva, --Rocio da madrugada-- Destilla gotas de orvalho A verde folha inclinada.

Renascida a natureza Parece sentir amor; Mais brilhante, mais viçosa O calix levanta a flôr.

Por entre as ramas occultas, Docemente a gorgear, Acordão trinando as aves, Alegres, no seo trinar.

O arvoredo n’essa lingoa Que diz, porque assim susurra? Que diz o cantar das aves? Que diz o mar que murmura?

--Dizem um nome sublime, O nome do que é Senhor, Um nome que os anjos dizem, O nome do Creador.

Tão bem eu, Senhor, direi Teo nome--do coração, E ajuntarei o meo hymno Ao hymno da creação.

Quando a dôr meo peito acanha, Quando me rala a afflicção, Quando nem tenho na terra Mesquinha consolação;

Tu, Senhor, do peso insano Livras meo peito arquejante, Seccas-me o pranto que os olhos Vertendo estão abundante.

Tu pacificas minha alma, Quando se rasga com pena, Como a noite que se esconde Na luz da manhã serena.

Tu es a luz do universo, Tu es o ser creador, Tu es o amor, es a vida, Tu es meo Deos, meo Senhor.

Direi nas sombras da noite, Direi ao romper da aurora: --Tu es o Deos do universo, O Deos que minha alma adora.

Tão bem eu, Senhor, direi Teo nome--do coração, E ajuntarei o meo hymno Ao hymno da creação.

* * * * *

A TARDE.

Ave Maria! blessed be the hour! The time, the clime, the spot where I so oft Have felt that moment in its fullest power Sink o’er the earth so beautiful and soft.... BYRON.

Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores, Mãe da meditação, meo doce encanto! Os rogos da minha alma emfim ouviste, E grato refrigerio vens trazer-lhe No teo remansear prenhe de enlevos! Em quanto de te ver gostão meos olhos, Em quanto sinto a minha voz nos labios, Em quanto a morte me não rouba á vida, Um hymno em teo louvor minha alma exhale, Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!

I.

É bella a noite, quando grave estende Sobre a terra dormente o negro manto De brilhantes estrellas recamado; Mas nessa escuridão, nesse silencio Que ella comsigo traz, ha um quê de horrivel Que espanta e desespera e geme n’alma; Um quê de triste que nos lembra a morte! No romper d’alva ha tanto amor, tal vida, Ha tantas côres, brilhantismo e pompa, Que fascina, que attrahe, que a amar convida; Não pode supportal-a homem que soffre, Orfãos de coração não podem vel-a.

Só tu, feliz, só tu, a todos prendes! A mente, o coração, sentidos, olhos, A ledice e a dôr, o pranto e o riso, Folgão de te avistar;--são teos,--es d’elles. Homem que sente dôr folga comtigo, Homem que tem prazer folga de ver-te! Comtigo sympathisão, porque es bella, Qu’es mãe de merencorios pensamentos, Entre os céos e a terra extasis doce, Entre dôr e prazer celeste arroubo.

II.

A brisa que murmura na folhagem, As aves que pipitão docemente, A estrella que desponta, que rutila, Com duvidosa luz ferindo os mares, O sol que vai nas agoas sepultar-se Tingindo o azul dos céos de branco e d’oiro; Perfumes, murmurar, vapores, brisa, Estrellas, céos e mar, e sol e terra, Tudo existe comtigo, e tu es tudo.

III.