Part 2
Fonseca insistiu em dar a Araújo a nota de duzentos mil-réis; mas Araújo recusou com tanta força que era impossível satisfazer tão legítimo desejo. Fonseca entrou pois com Araújo na cocheira e algumas palavras disse em particular a uma pessoa que ali se achava; foi com essa pessoa ao escritório. Ali examinou o empregado da casa se Teotônio da Anunciação (nome que o leitor e eu e o empregado, e talvez o gênero humano todo ouvimos pela primeira vez) era devedor da casa; o empregado examinou os livros e declarou que semelhante nome não estava inscrito neles. Araújo que examinava nessa ocasião riquíssimo coupé que ia sair, e pensava já encomendar um para o seu grande dia, nada viu da conversa entre o amigo e o dono da casa.
Capítulo V
Apenas se acharam na rua, perguntou Araújo:
— Mas não me pode dizer uma coisa?
— O quê?
— Em que rua mora ela?
Fonseca sorriu-se.
— Impaciente! disse ele.
E continuou:
— É natural; vamos passar por lá; talvez esteja à janela e um grande passo fica dado desde já.
Encaminharam-se para os lados da Rua da Ajuda.
— É nesta rua? perguntou Araújo.
— É, respondeu Fonseca; vê aquela casa de persianas que ali está?
— Vejo.
— É ali.
— Há um vulto de mulher por trás das persianas.
— Talvez seja ela.
Iam pelo lado oposto ao da casa. Ao passar em frente viu Araújo que era uma moça, mas não a mesma.
— Não é ela…
— Não é, é a cunhada. Voltemos. Já fica sabendo a casa.
Despediram-se daí a pouco; Araújo contentíssimo com a situação, e Fonseca não menos satisfeito.
— Até depois de amanhã, disse este; lá lhe irei levar o convite… O resto à sorte. Adeus!
— Adeus!
Um aperto de mão vigoroso e amistoso selou estas relações de recente data. Fonseca apertou a mão do outro com a energia de quem o via pela última vez.
Importa-nos pouco saber os acontecimentos do dia seguinte, a não ser que Araújo passou três e quatro vezes pela Rua da Ajuda a ver se descobria a formosa incógnita. Mas em vão; a misteriosa prima do Fonseca parecia esquivar-se aos olhos do rapaz.
— Não importa, dizia este, vê-la-ei sábado.
No dia seguinte, que era sexta-feira, debalde esperou pelo convite; Fonseca não lhe apareceu. Estaria doente? Araújo esperou vê-lo no dia de sábado, mas nada. Foi à Rua da Ajuda, continuou a ver a moça já entrevista, uma velha e um menino, mas nada da misteriosa do Carceller.
Então a idéia dos cento e vinte mil-réis lhe apareceu no espírito com uma expressão irresistível. Araújo confessou a si próprio que havia sido, não só roubado, o que já seria muito, mas também ludibriado. Arrepelou-se, descompôs-se a si próprio, mas reconheceu que era tarde. Deu ao diabo a mulher, o Fonseca, a sua própria toleima e resolveu a ir ter com Soares, contar tudo, e rir com ele.
Fazia estas reflexões em casa, deitado num sofá, quando ouviu grande assobiar de apitos e vozes de gente na rua. Correu à janela.
O espetáculo era triste; um homem jazia no chão, com o sangue a cair do peito. O povo estava em grupo em volta dele, e alguns policiais também, enquanto outros apitavam e corriam na direção da Rua do Núncio, por onde se fora o assassino. Toda a gente estava às janelas.
De repente o ferido fez um movimento de contração, e uma golfada de sangue rompeu da boca. Araújo ouve um grito abafado. Volta-se para o lado de onde vinha; era na janela da casa ao pé. Uma moça caíra nos braços de uma senhora idosa.
Céus! era a misteriosa.
Araújo ficou atônito.
A moça foi levada para dentro, e pouco a pouco se escoou a onda de povo que enchia a rua. Debalde Araújo se demorou à janela cerca de uma hora; ninguém reapareceu.
Chamou ele um criado, e perguntou se a família que morava ao pé se mudara há pouco.
— Não, senhor, respondeu o criado; mora aí há um ano.
— Um ano! disse Araújo consigo. Será possível que eu nunca a visse? É verdade que nunca apareço à janela.
Interrogou o criado a respeito das vizinhas. Soube que era uma senhora viúva, e uma filha viúva como ela, que ali moravam. Havia além disso um menino, irmão da moça. Os escravos eram três; duas pretas e um preto. Raras vezes saíam; e ainda mais raras vezes chegavam à janela. Tais foram as poucas informações que Araújo obteve.
Mas ele estava disposto a ir até às do cabo para realizar a promessa feita ao Soares. Ruminou vários planos. Todos lhe pareceram impraticáveis, falhos ou descorteses. O melhor — ao menos o que ele aceitou — foi meter o criado na dança.
— José, disse ele daí a dois dias. És capaz de uma missão atrevida?
— Sou capaz.
— Tens habilidade para isso?
— Isso o quê?
— Entregarás uma carta a alguma das escravas das vizinhas?…
— Entrego a Joana…
— Naturalmente é a dama dos teus pensamentos.
— Não senhor, respondeu José pondo os olhos no chão com modéstia.
Araújo confiou no criado a delicada missão; este e Joana houveram-se com extrema habilidade. A carta foi ao seu termo. Suprimo uma série de acontecimentos mais ou menos parecidos com os acontecimentos amorosos. Houve sua luta e repugnância; mas o tempo vence tudo, e a misteriosa moça, que se chamava Cristina, dentro de três meses estava casada com Araújo.
Na véspera desse dia, estando ele com ela, a pensar no seu futuro e no paraíso matrimonial, fez a seguinte observação:
— E quando eu penso que corri seca e meca, à procura de uma moça, que estava ao pé de mim!
A leitora desejaria naturalmente uma descrição da bela Cristina, que apenas de relance apareceu neste conto; mas eu tenho a honra de observar que o conto está acabado, e por isso a descrição é de todo ponto inútil. Basta saber que era formosa, e que Araújo foi muito feliz com ela.
Um mês depois de casado abria Araújo o Jornal do Commercio, e soltava uma exclamação de satisfação.
— Que é? perguntou Cristina.
— Lembras-te daquele Fonseca de quem te falei?
— Sim.
— Está preso.
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