Camillo Castello Branco

Chapter 2

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«Os meus vinte volumes e o meu tinteiro de ferro estão hoje sob o tecto gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para sempre. Parei aqui, porque ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva a imagem do passado, ainda aquella alma se me hospeda no coração em instantes de sonhos do céo, ainda a pedra tumular das affeições cahidas á voragem infernal do desengano, está pendida sobre a derradeira: que a saudade é ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptivel que o passado nos herda.

«A casa, onde vivo, rodeiam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas. Este incessante soido é a linguagem da noite que me falla: parece-me que é voz d'além-mundo, um como borborinho que referve longe ás portas da eternidade. Se eu não amasse de preferencia o socego do tumulo, amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do córrego onde vou cada tarde vêr a folhinha sêcca derivar na onda limpida; amaria o pobre presbyterio, que ha trezentos annos acolhe em seu seio de pedra bruta as gerações pacificas, ditosas, e incultas d'estes selvagens felizes que tão illuminadamente amaram e serviram o seu Creador. Amaria tudo; mas amo muito mais a morte.

«Aqui, se Deus se amercear de mim, embargando o passo ao anjo exterminador, que continuo me assalteia os aditos do meu eden de quinze dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a narrativa que Affonso de Teive me fez.

«Seis mezes ha que se fez noite no meu espirito. Por arrebatados impetos de quem quer furtar-se ás garras de um imaginario dragão, tenho fugido para defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as graciosas imagens, filhas do céo, que, nos dias da mocidade fremente de más paixões, me refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal, psalmeando-me o hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi a suprema provação, a forja ardentissima em que minha alma foi lançada á voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que sombreava a negrura do coração, eram tudo trevas, frio, lethargia, esquecimento.

«Não sei de que futuro abril do meu porvir me veiu esta manhã um bafejo aromatico de flôres, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugace archanjo do contentamento. Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu espirito ergueu-se alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso que na immensidade dos seus mundos ainda guardará para mim um quinhão de alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciencia repousada, prelibações de bemaventurança, e honrada alliança com os homens.

«Penso que estou escrevendo as tuas palavras, ó meu amigo, redimido a lagrimas, a ultrages e a desapego do mundo. O clarão, que hoje alumiou a minha alvorada, seria porventura um reflexo das tuas alegrias. Ha dias me disseste:

«Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva?» Querias tu dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação, e ao mundo o confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam sua alma antes que a irreligiosidade os escarnecesse: orei, meu amigo; porque, n'um dos mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas de contar, interrompi o teu silencio, perguntando:

«--E que fizeste depois?

«E tu respondeste-me:

«--Depois, OREI[2].»

V

Quando o CRIME DO PADRE AMARO e o PRIMO BAZILIO de Eça de Queiroz estalaram como gritos de guerra nos dominios das lettras portuguezas, fez-se á volta do recem-chegado um clamor de admiração, que, para ser justo, só precisava de ser consciente. Quem isto escreve applaudiu e deu a razão do applauso. O romancista felicitou o critico pela comprehensão do trabalho e dos intuitos. Estes processos desusados tiram á critica a feição _protectora_ e fixam a independencia da arte no sentido elevado e puro da palavra _independencia_[3].

Mas de par com as saudações _criticadas_ surgiram as acclamações insensatas da turba multa e a exploração perfida do _successo_ do romancista.

A perfidia consistia em jogar os livros de Eça de Queiroz como uma catapulta contra a obra de Camillo Castello Branco. Provocado o velho leão, não moribundo por mal dos aggressores, sahiu a terreno--zombando. O _Euzebio Macario_ e a _Corja_ são tiros certeiros contra a matulagem; não prejudicam nem visam a prejudicar os processos novos dos mestres da ultima geração; mas põem a nota de bom senso na conta do que se derimia entre a velhacaria e a ignorancia e restabelecem a situação no seu terreno sob o ponto de vista da boa critica.

Mas fora dos dois livros de ironia buscaremos specimen de soberba execução artistica, alheia aos antigos processos do grande romancista. É do livro _A Brazileira de Prazins_. A galeria do romance portuguez não apresenta quadro mais vigoroso, nem mais surprehendente colorido tragico, com todas as _nuances_ de uma observação que se evade á fadiga pelos primores incomparaveis dos seus moldes.

«O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:--A casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...

«--Credo!--exclamou a mulher com as mãos na cabeça.--Nossa Senhora nos acuda!

«--Leva rumor!--e punha o dedo no nariz.

«--Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembrate dos trez annos que penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...

«--Já te disse que me não cantes--e relançava-lhe o seu formidavel olhar vêsgo, incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a buxa de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.

«--Ó José, vê lá o que vaes fazer!--insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno de Maria da Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle, cantando n'uma surdina rouca:

_Leva avante, portuguezes, Leva avante, não temer..._

«--Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.

«E o Melro n'uma distracção lyrica:

_Pela sancta liberdade, Triumphar ou padecer..._

«Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'agodão em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.--Está suja--disse elle--dá cá um todo-nada de aguardente.

«--Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!

«--Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!--E pôz-se a assobiar a _Luisinha_. Enroscou algodão embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava, _mezza voce_:

_Agora, agora, agora, Luisinha, agora._

«Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou o fusil de aço, que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pedreneira, que faiscava.

«--Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! soluçava a mulher.

«E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um _sfogato_:

_E viva a nossa rainha, Luisinha, Que é uma linda capitôa..._

«--Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuxos e uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.

«A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e regougou:--Máo!... máo!...

«Carregou a clavina com a polvora de um cartuxo; bateu com a cronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recamara, para fazer descer a polvora ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartuxo, bateu-as com a vareta ligeiramente uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.

_Agora, agora, agora, Luisinha, agora._

«Depois pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

«A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O _Alma-negra_ fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da _Maria da Fonte_.--Ora agora--disse elle--ouvistes? porta da cosinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

«--Vae com Nossa Senhora--disse a mulher--e poz-se de joelhos a uma estampa do Bom Jesus, a rezar muitos _Padre-nossos_, a fio.

«Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar, nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio da coruja no campanario distante, punham arrepios de medo na espinha d'aquelle homem que ia matar outro--chamal-o á janella e varal-o á traição com uma bala.--Era o traçado.

«--Que raio de escuro!--dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.

«Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao _Fiat_ genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.

«O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o rio Péle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do _faubourg Saint-Honoré_, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.

«Havia tambem um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. Tinia dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.

«O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era elle quem reclamava um quartinho que pozera _de porta_, e o banqueiro recolhêra com as paradas que estavam _dentro_, quando tirou a contraria _de cara_.

«--Que não admittia ladroeiras!

«E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.

«A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com um murro herculeo phenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.

«Quando, á meia noite, o _Alma-negra_ entrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.

«O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera trez horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre--que o compadre não lhe dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimara o Zeferino; e a mulher--que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.

«Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

«--Emfim, você ganha a casa, compadre, porque matava Zéférino, se os outros não matam elle, heim?»

VI

É de Lisboa o grande romancista. Nasceu a 16 de março de 1826. Orphão aos dez annos de edade, foi transportado a Villa Real (Trás os Montes) d'onde passou ao Porto. Foi n'esta ultima cidade que elle se affirmou litterariamente, e no Porto ou a breve distancia tem vivido, salvo alguma ausencia limitadissima, a sua vida de combates e de triumphos.

Hoje vive--ha uns vinte annos--na freguezia de S. Miguel de Seide, concelho de Villa Nova de Famalicão.

S. Miguel de Seide vincula-se á historia litteraria portugueza do seculo XIX, por Camillo Castello Branco, como Valle de Lobos por Alexandre Herculano. Ermos sagrados e veneraveis!

Não vale a pena mencionar distincções honorificas, desdenhosamente acceitas por Camillo. Citaremos apenas a distincção que elle recusou; registro de um castigo. É de 1862, na _Revolução de Setembro_ de 19 de março d'aquelle anno e refere-se ao Instituto de Coimbra.

As obras de Camillo Castello Branco, manuseadas por duas gerações, durante os ultimos quarenta annos decorridos (tem a data de 1847 o _Agostinho de Ceuta_) não figuram completas em algum catalogo publicado. Colligimos, todavia, os dados ao nosso alcance para a formação de mais completa lista bibliographica da obra do grande escriptor.

_Abençoadas lagrimas!_, drama em tres actos.

_Agostinho de Ceuta_, drama em quatro actos.

_Agulha em palheiro._

_Amor de perdição._

_Amor de salvação._

_Amores do diabo_, por Cazotte. Traducção.

_Anathema._

_Ao anoitecer da vida_, poesias.

_Annos de prosa._

_Esboço biographico de D. Antonio Alves Martins, bispo de Vizeu._

_Aspirações._

_O bem e o mal._

_No bom Jesus do Monte._

_Os brilhantes do brazileiro._

_A bruxa de Monte Cordova._

_Cancioneiro Alegre._

_Carlota Angela._

_O carrasco de Victor Hugo José Alves._

_Cavar em ruinas._

_A caveira da martyr._

_O clero e o Sr. Alexandre Herculano._

_Coisas espantosas._

_Coisas leves e pesadas._

_Condemnado_, drama em trez actos.

_Coração, cabeça e estomago._

_A Corja._

_Correspondencia epistolar entre Camillo Castello Branco e José Cardoso Vieira de Castro._

_Curso de literatura portugueza_, por Andrade Ferreira e C. C. Branco.

_A cruz_, semanario religioso.

_O demonio do ouro._

_Diccionario Universal de educação e ensino_, por Capagne: traducção.

_Divindade de Jesus e tradição apostolica_, com uma carta dirigida ao auctor pelo visconde de Azevedo.

_A doida do Candal._

_Doze casamentos felizes._

_Duas epocas da vida_, poesias. Incluindo o folheto _Hossana._

_Duas horas de leitura._

_A engeitada_, romance.

_Esboços de apreciações litterarias._

_A espada de Alexandre. Córte profundo na questão do homem-mulher e mulher-homem, por um socio prendado de varias philharmonicas._

_Lagrimas abençoadas._

_O livro de consolação._

_O livro negro_, continuação dos _Mysterios de Lisboa_.

_Luta de gigantes._

_O Marquez de Torres Novas_, drama em cinco actos.

_Os martyres_, por Chateaubriand; traducção.

_Memorias do Carcere._

_Memorias de Fr. João de S. José de Queiroz, bispo do Grão Pará_, com uma introdução e muitas notas illustrativas.

_Memorias de Guilherme do Amaral._

_O Morgado de Fafe em Lisboa_, drama em dois actos.

_O Morgado de Fafe amoroso_, comedia em trez actos.

_Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e biographicas._

_A mulher fatal._

_Mysterios de Fafe._

_Mysterios de Lisboa._

_A neta do Arcediago._

_Noites de insomnia._

_Noites de Lamego._

_Novellas do Minho._

_O Olho de vidro._

_Espinhos e flores_, drama em tres actos.

_O esqueleto._

_Estrellas propicias._

_Estrellas funestas._

_Eusebio Macario._

_Fanny_, por Ernesto Feydeau, trad.

_A filha do Arcediago._

_A filha do Dr. Negro._

_A filha do regicida._

_A freira no subterraneo_, traducção.

_Gazeta litteraria do Porto._

_O genio do Christianismo_, de Chateaubriand; traducção.

_Historia de Gabriel Malagrida_, pelo P. Mony; traducção.

_O homem de brios._

_Horas de paz_, escritos religiosos.

_A immortalidade, a morte e a vida_, estudo ácerca do destino do homem por B. Puchesse, traduzido e com um prefacio.

_O inferno_, por Calet, traducção.

_Inspirações_, poesias.

_O judeu._

_Justiça_, drama em dois actos.

_Onde está a felicidade?_

_Poesia ou dinheiro_, drama em dois actos.

_Poesias._

_Poesias e prosas ineditas de Fernão Rodrigues Lobo Soropita_, com uma prefação e notas.

_Purgatorio e Paraizo_, drama em trez actos.

_Quatro horas innocentes._

_O que fazem mulheres._

_A queda d'um anjo._

_O Regicida._

_Romance de um homem rico._

_Romance de um rapaz pobre_, por Octavio Feuillet, traducção.

_O santo da montanha._

_O sangue._

_Scenas contemporaneas._

_Scenas da Foz. Solemnia verba. Ultima palavra da Sciencia._

_Scenas innocentes da comedia humana._

_O senhor do Paço de Ninães._

_A sereia._

_Theatro comico. A morgadinha de Val de Amores,_ em um acto. _Entre a flauta e a viola_, entremez em um acto.

_As trez irmans._

_O ultimo acto_, drama em um acto.

_Um homem de brios._

_Um livro_, poesias.

_Vaidades irritadas e irritantes._

_Vida de D. Affonso VI._

_Vinte horas de liteira._

_Vingança._

_As virtudes antigas, ou a freira que fazia chagas e o frade que fazia reis._

_O visconde de Ouguella._

_Voltareis, ó Christo?_

_Euzebio Macario._

_A Corja._

_O general Carlos Ribeiro._

_O Cancioneiro Alegre._

_Os Criticos do Cancioneiro Alegre._

_D. Luiz de Portugal._

_O vinho do Porto._

_Maria da Fonte._

_Eccos humoristicos do Minho._

_Serões de S. Miguel de Seide._

_Brazileira de Prazins._

_Bohemia do Espirito._

_Vulcões de Lama._

_Luiz de Camões--Carta de Guia._

_Vida de D. Affonso VI._

VII

Fez-se nos ultimos tempos cerrada noite de amarguras no espirito de Camillo Castello Branco. Os desgostos cruciantes que lhe surgiram da loucura de Jorge Camillo, seu filho, aggravaram-se com a enfermidade dolorosissima e pertinaz, que nos ultimos dois annos tem flagellado acerbamente a vida do illustre escriptor, e levado a consternação e a magoa a dentro dos corações amigos.

Nestes ultimos mezes, após doze annos de ausencia, visitou Lisboa. A vinda do grande homem foi o acontecimento do dia. Acorreram a saudal-o os mais distinctos por seu saber, talentos e posição. A ideia de um tributo por parte do municipio de Lisboa ao seu filho mais illustre n'este seculo pareceu avocar por momentos o _senado_ lisbonense das combinações resolutivas e salvadoras da sua politica. Passou breve o lampejo racional; não houve rua que fornecesse o cunhal para a inscripção d'aquelle grande nome. Estavam distribuidos todos os cunhaes, excepto ainda o das Bolas, pelos bolas contemporaneos, não esquecendo o _Diario de Noticias_, que o leitor pode ver entre as ruas do Norte e da Barroca, muito gratas ás musas nacionaes.

Regressou ao Minho, e lá vive o grande homem, na região que ficará celebre, mercê dos livros em que elle de preferencia a enquadrou com seus matizes e que elle escolheu para abrigo da sua gloria. Lá vive, longe das academias, longe do bulicio dos pequeninos e dos miseraveis, involto na lenda entre flammejante e sombria da sua lucta e do seu martyrio.

Gloria do seu paiz, em quarenta annos de victorias, Camillo Castello Branco deixará na sua obra o monumento mais complexo e valioso da historia da nossa litteratura, da nossa lingua e das chronicas historicas, e ao mesmo passo o grande e immortal modelo da polemica, do humorismo, da elevação tragica, da simplicidade popular, modelo que fará o desespero--ai de nós!--d'aquelles a quem foi offerecido.

Typ. GUILLARD, AILLAUD & Cª.--1889.

[1] _A Mulher Fatal_, introducção. Camillo Castello Branco.

[2] Do _Amor de salvação_.

[3] Veja-se COMBATES e CRITICAS, vol. I, cap. do REALISMO NA ARTE.

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