Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos productos, e noticias pertencentes a' Historia da Natureza, para formar hum Museo Nacional

Part 2

Chapter 2 3,837 words Public domain Markdown

As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos, ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as cautelas necessarias.

Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.

Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os Naturalistas para distinguir as diversas especies.

_De outras producções pertencentes ao reino Animal_.

Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as _Estrellas do mar_, em que se observão sinaes menos equivocos de sensibilidade.

Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ com as cautelas já sabidas.

Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias; e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.

Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas, da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo, que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a substancia corruptivel.

Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as operações, que acabamos de expôr.

Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não quebrem os seus espinhos.

Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu desenho.

Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem remetter-se com todas as mais cautelas.

Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se corrupção.

*§. II.*

_Das remessas dos Vegetaes_.

Como estas instrucções não tem por objecto formar hum Jardim Botanico; mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a Academia, se o julgar necessario, reduzirá a instrucções compendiosas em outro papel á parte. Por ora só se trata do modo mais facil de remetter as plantas seccas com todas as partes, que as caracterizão.

Para este fim se colheráõ as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas, flores e frutos. Das plantas, que não produzem no mesmo tempo as flores e os frutos, se colheráõ dois pés, cada qual tenha huma das duas coisas. Das arvores, arbustos e plantas maiores bastará colher hum ou dois dos ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda não se poder enviar todas estas partes juntas, se enviaráõ separadas; com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.

Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos, se comprimiráõ em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, até que esteja de todo extrahida a sua humidade. Para maior segurança, depois desta operação, será conveniente expôr por algum tempo ao calor do Sol estas plantas, quando se tirão a ultima vez da imprensa.

Feito isto, se estenderáõ segunda vez os individuos de cada especie separadamente em diversos papeis, os quaes se acamaráõ em caixas de folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que já se tem advertido sobre as outras remessas; não esquecendo introduzir dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como alcanfor, ou tabaco de fumo.

Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas, frutos, e flores são tão espeços e succulentos, que não podem seccar-se pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes só podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as cautelas já indicadas para outras remessas similhantes.

Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito tempo sem corrupção, se colheráõ maduros, e se exporáõ algum tempo ao calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e depois se metteráõ nas caixas, em que devem enviar-se.

Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se conservão muito tempo sem corrupção, como o _gingibre_, _curcuma_, _amomum_, e outras. A estação mais favoravel de as tirar da terra nos paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se as mais fortes, se porão em algum lugar enxuto á sombra até se evaporar a sua primeira humidade; e se metteráõ depois em caixões com arêa bem secca, para se remetterem.

Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela casca, que as veste, se conservão com mais facilidade sem corrupção, se preparão da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.

Não se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de balsamos, rezinas, gommas, e outras producções similhantes, que pertencem ao reino vegetal, ou sejão solidas ou líquidas; porque são bem conhecidas no commercio, e já a experiencia tem mostrado o melhor modo de fazer as suas remessas.

Tambem merecem entrar nas collecções proprias de hum Museo as diversas cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem notaveis, ou pelo polido, de que são susceptiveis, ou pela singular contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se póde tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de peças he facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu destino.

Tudo o que póde dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a não as colher, senão depois de maduras; e a mettellas, estando bem enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com arêa bem secca e miuda dentro dos caixões, em que se hão de remetter. As sementes grandes tambem se podem cobrir de cêra derretida em hum pouco de oleo de therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura até o ponto, em que o calor não possa causar-lhe damno.

Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se não confundão. Não usando da mistura de musgo, ou arêa, podem remetter-se, para evitar esta confusão, cada huma das especies de sementes embrulhada á parte em hum papel encerado; observando na sua accommodação dentro das bocetas as precauções necessarias, para que cheguem inteiras.

Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em que mais facilmente se conservão, será conveniente, e não menos commodo mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas bocetas do mesmo modo que fica dito.

*§. III*

_Das remessas dos Mineraes_.

Os productos do reino mineral são os que menos cautelas requerem, para chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e saber procurallos. No que respeita ás suas remessas, que he o unico objecto destas Instrucções, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e _fossís_.

As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a faça notavel, principalmente pelo uso, que póde ter nas Artes.

Das pedras, ou sejão de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenhão, ou pela sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes, agathas, marmores, congelações, amiantos, &c.

As amostras de todo o genero de fossís, que puderem ajuntar-se, são dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes, que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero de petrificações, crystallizações, bitumes fossís, lavas, pyrites, &c. remettão os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.

Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e fossís, devem remetter-se em caixões separados, podendo ser, para evitar confusão; e embrulhados á parte com numeros differentes, que correspondão aos numeros da relação, de que adiante fallaremos.

Accommodar-se-hão nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do transporte lhes não cause algum damno; e se observaráõ as mais cautelas necessarias, para que a humidade os não prejudique.

Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a natureza produz no seio do mar, ha algumas, que fórmão em certo modo huma classe á parte; e que por essa mesma causa parece não devião confundir-se com as outras producções pertencentes aos tres reinos. Esta são as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos com a fórma, exterior reduzirão á classe das plantas marinhas; e outros, attendendo á sua dureza, julgárão ser especie de pedras.

Todas estas producções se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas, pela grande variedade da figura e disposição de seus ramos, e por outras particularidades não menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas vezes sahem pegadas a pedaços de rócha, e entrelaçadas humas com outras, assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes são igualmente dignas da attenção do Filosofo.

Como porém nenhuma destas substancias he sujeita a corrupção, basta que se accommodem nos caixões cercadas de materias molles, e seguras com travessas de madeira, para se não quebrarem com o movimento.

Estas singulares producções não são mais, que huma collecção de pequenas casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos enviar á parte, se metteráõ logo, apenas se tirarem do mar, as massas duras, que os contém, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma lente, se for necessario, se divisaráõ parte de cada hum dos animaes, fóra de suas pequenas grutas. Não se deixará escapar este momento; e com algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prenderá o animal; e arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lançará logo em espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle não tenha tempo de se contrahir, e perder a sua fórma natural antes de morrer. No mesmo espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como todo o genero de polypos: e as suas remessas se farão do mesmo modo, e com as mesmas cautelas, que já se advertírão, fallando dos insectos.

Ha outras producções marinhas além das sobreditas, que pela sua figura, miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivocão mais com as plantas. Os Botanistas lhes dão vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce até depôrem todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em differentes papeis com todas as mais precauções já expostas sobre as remessas das plantas terrestres.

Como porém estas mesmas corallinas pelas ultimas observações se tem conhecido constarem de pequenas casas, em que habitão animaes, da mesma sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tirão de differentes substancias, para se não confundirem as suas especies, as quaes differem entre si conforme a differença das massas, em que se achão.

Além de todas estas producções marinhas ha outras muitas, que não só tem a fórma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o são, como o sargaço, e outras. Estas, como já advertimos, devem lavar-se primeiro em agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotaráõ, como as outras plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.

As esponjas marinhas, cuja natureza ainda não he bastantemente conhecida por falta de observações, mas que facilmente se distinguem das outras especies pela sua fórma exterior, merecem tambem ser conservadas nos Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e seccas, se accommodaráõ nos caixões com algodão, sargaço ou estopa, sem as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito sobre a preparação exterior das caixas, em que se remettem os mais productos da natureza.

Parece escusado dar instrucções sobre as remessas de algumas obras de artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas, instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas. Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico artificio consista na sua diversa disposição, como são algumas carapuças e cinturas de pennas de diversas cores, de que usão alguns póvos da Africa e America, se remetteráõ com as cautelas, que deixamos apontadas sobre as remessas das mesmas producções naturaes, de que são compostas.

Finalmente as instrucções antecedentes poderáõ accommodar-se a alguns productos, de que aqui se não faz menção, conhecida a sua natureza, e a classe a que pertencem.

*§. IV.*

_Das noticias pertencentes á Historia Natural_.

As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno, em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que o habitão.

Em quanto á primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caixões, ou bocetas mandem huma relação exacta de todas as coisas que contém. Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e distintas com numeros diversos, na relação debaixo dos mesmos numeros respectivos se declarará 1.° o nome tanto indigeno, como estrangeiro da dita especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas. 2.° Notar-se-hão todas as suas qualidades mais attendiveis, e particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que remette, expressará todos os factos constantes e uniformes, que distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto, instinto, artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais particularidade se demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde resultar para a vida humana. Na relação das qualidades dos vegetaes declarará os lugares do seu nascimento, a estação propria da sua plantação, o tempo da sua frutificação, os usos, que a experiencia tiver mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que mandar as amostras, não se esquecerá o Correspondente de expressar os lugares, em que se achão, a profundidade de seus veios, a natureza dos terrenos circumvizinhos, e os usos, que já tem no paiz, e os que podem ter na Sociedade.

Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz, devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma relação, em que se dê huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes dão os mesmos póvos, que dellas se servem.

Além destas relações particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos caixões das remessas, será conveniente que se mande á parte huma relação geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza. Desta deixará o Correspondente huma copia fiel na sua mão, para não remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter novamente os que se lhe pedirem.

Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, só servem para dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como não interessa menos conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem tambem huma descripção Geografica delle, que comprehenda com a exacção possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno da attenção de hum Filosofo. E para procederem sem confusão, podem ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v. g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem á agoa.

Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimensões, a sua situação a respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passaráõ a coisas mais particulares. 1.° Em quanto aos montes, devem declarar, se ha muitos, se poucos; se alguns delles são promontorios, e vulcanos; qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como a respeito da superficie do mar; quaes as suas direcções, quaes as grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores. 2.° Em quanto á natureza do terreno devem expôr, quaes são os animaes terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se produzem e habitão; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os mineraes, que das suas entranhas se costumão, ou podem extrahir em maior abundancia; quaes finalmente são os usos, a que os habitantes do paiz applicão todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.° Em quanto aos homens, descreveráõ a sua estatura e fórma exterior, o feitio do seu rosto, a sua força, e côr naturaes; e além de todas estas propriedades, notaráõ nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doenças communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser attribuidas. 4.° Em quanto á estructura interior do terreno, devem descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas, os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de terras, &c.

No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.° em quanto ás suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus gráos de calor ou de frio. 2.° Em quanto aos meteoros do ar, devem mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns aos outros, e o tempo da sua duração; mas particularmente declararáõ, quaes são os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em fim o numero, principio e duração das estaçoes, que pelo decurso do anno varião regular, ou irregularmente no paiz. 3.° Em quanto aos effeitos do mesmo ar, devem declarar-se as doenças tanto epidemicas, como ordinarias, a que estão mais commummente sujeitos os habitantes do paiz, e que trazem a sua origem da intemperança do ar.

No que pertence á agoa, he preciso indicar 1.° em quanto ao mar, a sua profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas distancias e alturas; a differença do seu sabor, conforme a differença dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras producções marinhas, que nelle se achão; o periodo de suas marés combinado com as variações da Lua, &c. 2.° Em quanto aos rios, descreveráõ os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso, as suas inundações periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde passão. 3.° Além das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as mineraes com huma exacta exposição das suas qualidades e virtudes, descreveráõ todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.° Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas costas; e declarar todas as variações, que nellas se observão nas diversas estações do anno. Por conclusão, todas as observações, que tiverem feito sobre o fysico do paiz, serão bem acceitas; principalmente aquellas, que possão de algum modo ser uteis para o augmento do commercio e das Artes.