Chapter 2
É que o bárbaro sanguinário tinha pela frente, enterreirando-o, um adversário mais temeroso, o jagunço.
Os recém-vindos eram brasileiros do Norte; e o seu patrão, Pedro C. de Oliveira, mais um modelo de lidador obscuro aparecendo em lances de fecundas iniciativas entre os acontecimentos de uma história estranha. Para aquilatar-se-lhe a valia, observemos de relance que em janeiro de 1900 foi nomeado, apesar da sua nacionalidade, governador de toda a zona que o seu barracão centralizava.
O Coronel Portillo, que ali deparou agasalho sincero sem o pregão de rasgados oferecimentos, tão característico da nossa gens obscura, trai em todos os conceitos que emitiu no seu relatório - desde o primeiro dia até despedir-se da "muy estimable familia del señor Olivera", o encanto que lhe causou a estância animadíssima no centro de suas culturas fartas, e inteligentemente locada com as numerosas vivendas circulantes no alto da barranca, a prumo sobre a margem esquerda do rio, que se alcançava subindo uma longa escadaria resistente e tosca. Cativaram-no, sobretudo, os valentes tranqüilos que se lhe mostraram modestíssimos em pleno triunfo sobre a barbaria e a terra. Por fim, à sua visão esclarecida não escapou que aquele forasteiro, sem um decreto e sem uma subvenção, resolvera o problema colimado pelo governo de seu país, fundando no lugar mais conveniente a estação garantidora da "via central" demandando a Amazônia. Disse-o nuamente: Porto Vitória era o lugar mais apropriado para a guarnição militar e alfândega que protegessem a importação e exportação da colônia de Chanchamayo, norte de Pajonal, Tarma e montañas do Palcazu, Matro e Pozuzo.
Concluiu: "La casa de Olivera debe ser tomada por el Supremo Gobierno como la más aparente para las oficinas de la capitania, aduana e comandancia militar."
Foi aceito o alvitre. Um decreto do Presidente Pierola ordenou a demarcação de Puerto Victoria para estabelecer-se comisaría destinada a proteger os colonizadores daquelas terras; e num grande ciúme da situação vantajosa adquirida revelou o intento de uma posse exclusiva "no consentiendo, alli, en el radio de un quilómetro, poblador alguno".
O Peru conseguira realmente uma estação fluvial admirável. E os brasileiros retiraram-se.
Passaram cinco anos.
Em 1905 um touriste parisiense, J. Delebecque, desceu o Pachitéa, em viagem para o Amazonas, e não notaria a estância outrora florescente se não o acompanhassem alguns índios mansos conhecedores dos lugares.
No alto da barranca, que os enxurros solapavam, viam-se apenas alguns tetos abatidos e restos de culturas afogadas num carrascal bravio.
O porto era uma ruína.
O viajante ali permaneceu por algumas horas a fim de secar as suas roupas encharcadas ao calor de uma fogueira feita com as portas desquiciadas e ombreiras vacilantes das vivendas, consoante praticam todos os que por ali passam na travessia de Iquitos; e considerou, melancolicamente, que daquele jeito Puerto Victoria seria em breve apenas uma recordação.
Depois abalou rio abaixo, a toda a voga, fugindo da paragem que se ermana no mais completo abandono...
Notas