Bom Senso E Bom Gosto Carta Ao Excelentissimo Senhor Antonio Fe

Chapter 2

Chapter 2767 wordsPublic domain

Mas, ex.mo sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na Roma antiga, é que nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades. Ellas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o mais a que as idêas têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.

Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz d'essa má acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, por causa das suas idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um espectaculo raro--o espirito e a consciencia humana triumphando da materia e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei sómente é que isto é sublime......................

Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.

É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª

Coimbra 2 de Novembro de 1865.

Nem admirador nem respeitador

_Anthero do Quental._

[1] No livro do sr. Pinheiro Chagas--_Poema da Mocidade_.

[2] Os srs. Theophilo Braga e Vieira de Castro.

[3] Allude as traducções de Ovidio e Anacreonte.

[4] Allude as Cartas d'Echo e Narciso.

[5] Allude á Primavera.

[6] Allude ao Tributo Portuguez na morte de Pedro V.

[7] Allude aos tractados de Metrificação e Mnemonica.

[8] Allude a todas as obras em prosa.

[9] Allude a todas as obras em verso.

[10] Allude a todas as obras junctas, prosa e verso.

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