Bases da ortografia portuguesa
Part 2
Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.
É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por _organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.
VII--DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS
Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase inconsciente.
É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo _haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei, louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se hão_.
É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_ = (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ = (hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_, perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos: _descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos, comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.
III
O NOSSO INTUITO
Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.
Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática, que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis. Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata, ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata, ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como _idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia, passeamos, passeais, passeiam_;--passeava, passeavas_, etc.;--_passeei, passeaste_, etc.;--_passearei, passearás_, etc.;--_passearia_, etc.;--_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem eles;--que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;--passear, passeando, passeado_. O radical português é _passe-_.
É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem método sem contradições:--se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos nomes.
Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se ORTOGRAFIA PORTUGUESA.
+ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+
POR A. R. GONÇALVES VIANNA
Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do Professor Faulmann.--Porto, 1881.
Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le dialecte de Lisbonne.--Paris, 1883.
Études de Grammaire Portugaise.--Louvain, 1884.
Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a português).--Paris, 1885.
POR G. DE VASCONCELLOS ABREU
Questions Védiques.--Paris, 1877.
Sobre a Séde originaria da Gente Árica.--Coimbra, 1878.
Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.--Lisboa, 1878.
Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.--Lisboa, 1878.
Contribuições mythologicas.
Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.--Lisboa, 1879.
Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza (publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título «Buddhist Legends from Fragmentos ... by G. de Vasconcellos Abreu. Translated with additional notes. Ceylon).--1880.--1884.
O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a recensão Bengali).--Lisboa, 1878.
Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo Grammatical.--Lisboa, 1881-1882.
De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers l'Asie.--Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros, apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).
A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.--Paris, 1885.