Chapter 9
Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».
Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.
* * * * *
O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da phylarmonica: quatro carpinteiros a trombonear canudos de latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba, macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.
Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo qualquer cousa similhante á seducção.
Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por elle a companheira.
Reparou que os seus cabellos eram finos, a testa pensativa, e que as suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se derivassem de uma vontade séria de enfermeira. Os seus vestidos escuros, mal roçando nos moveis, como levados n'um vôo de borboleta, as suas lentas mãos guiadas á descoberta de fazerem o lar confortavel sem parecerem tocar nos objectos, uma percepção sagaz de concentrarem cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisação da luz, nas flôres da secretária, tudo isto que dir-se-hia casual, por vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinação que derivára primeiro do egoismo envaidecido de sentir em tôrno a vida sem attrictos, com as comidas a horas e bem feitas, a casinha tépida, macios os _fauteuils_, a atmosphera perfumada e a plethora de bem-estar constante de riqueza, defendida ás linguarices dos estranhos, pouco a pouco começou a lhe subir do estomago á intelligencia, e a figurita d'ella, severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e diaphana como uma sombra do paraizo, passava ás horas calmas de estudo pela cabeça d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia fecunda, se não fôra a fatalidade dos homens de genio não poderem propagar-se sem degenerações na descendencia. Começou a presentir então a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallação e absorpção que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de lingua, as irreverencias sardonicas da _boutade_,--todas as qualidades crueis que haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista maximo das degenerações sociaes do seu paiz.
Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do esposo, ella como que só pensava em lhe encadear as attenções no sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mão livros de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e até repassando ella mesma, através dos seus conselhos, os assumptos que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella transfilhára-se inteiramente ao corpo d'elle.
* * * * *
Uma noite de novembro, já depois das colheitas da uva e da azeitona, aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura, ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia financeira em que viviam.
Como a situação de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como se nas palavras da esposa houvesse reprimenda á sua inercia.
Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretária, agarrou n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma calligraphia tortuosa, começou a dizer, com a sua voz de pauzas doces, que as vinhas estavam velhas, o phylloxera á porta, os terrenos estanques da produção sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade horrivel do fabrico; e quanto ás terras de cereal, parte não dava, por desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta de abrolhos e de estevas, apenas nos começos do outomno era pascigo para as cabras dos pastores furtivos da visinhança. O remedio era uma remodelação completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras de pousio lançar plantações americanas, reengorgitar os almargios da ceara com os elementos chimicos necessarios á cultura intensiva, ampliar a extensão aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda na fermentação do mosto em barros pesgados, e seu esforço alcoolico com aguardentes de balsa ao esturro e á porcaria do alambique.
Demandava a nova empreza capitaes de alguma fórma custosos para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam começar aos poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma vigilancia quanto possivel methodica e regulada.
--Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades espirituaes, ephemeras e... irritantes.
--Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a politica do districto...
--Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás, pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de acção.
--Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...
--Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma fortuna decisiva.
--Em dinheiro talvez?
--Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões. Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu declaras cerebralmente inferiores desenvolveram na vida qualidades de lucta que te faltam.
--Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...
--A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.
--Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.
--Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas antigas ambições.
--Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!
--Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou defendes aquelles para que tens uma certa vocação. Em politica achas todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não visam nunca individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a rodo pelos regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo isto senão um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares sendo primeiro e unico de pé?
--Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que eu detesto!
--O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle? porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um canalha sarcastico, e quarenta adeptos que apenas servidos desertaram de ti como da peste.
A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia, e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente, fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de _clan_. Tudo estaria em fazer do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter feminino e dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos, e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos? Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por gazetilhas obscenas no _Pimpão_, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e redactor politico da _Nova_, jornal do presidente do conselho, que o despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de confiança.
Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando, avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma sublime benevolencia, apoiar-lhe as pretensões, combinando-se depois de tres dias de hospedagem e de jantares pantagruelicos, que adquirida a gazeta, com typografia e pessoal conveniente, Jorge Miguel fosse a Lisboa munido de cartas prestar ao ministério vassallagem, e receber dos magnates do partido a sua iniciativa de cavalleiro. Quinze dias depois ia na casa do nosso pacifico contemplador uma barafunda dos demonios.
Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas, caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, por conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do «escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador. Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para fazer de alqueires, moios.
A reapparição do _Clamor de Beja_, jornal independente, um typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande provincia.
Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa, jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto a levar de vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o gallego do bahú veio a dar fundo nas _Duas Nações_, ante uma canja que tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou como poude as vitellas flacidas com cenouras, um _roast-beef_ de folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S. Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via, extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões de jornaes e silvos de comboyos. Mentalmente, com esforços de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu _rail_ de _flaneur_ nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado, como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um novo monumento--emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz, picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...
O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER
--Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o sei.
--Qual!
--Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade dos que amo, e o amor da minha filha...--Baixava a voz para dizer-me--Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo castigo.
Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura estrondosa, feita n'uma senhora das suas relações, por um dos taes.
--E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.
--Faço, faço.
--Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas, que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos medicamentos nem os tomo.
--Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...
--Horriveis! E tão prosaicas...
--De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.a tira effeitos poeticos da doença que diz soffrer, confesse.
--Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um aneurisma, meu Deus!...
--Ahi, está V. Ex.a poetando com hypotheses de martyrio, simples achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. Ex.a vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu estomago!
--E o meu, doutor, o meu?
--A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.a duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.a marqueza de Valle de Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.a tem os seus soffrimentos. É uma compensação.
--Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo onde quatro homens faziam _whist_, á luz d'uma serpentina. Um velho calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se respeitosamente e veiu junto de nós.
Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope: andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.
--Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa mãe.
--Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.
--Mas a partida...
--O doutor vae substitui-lo, sim?
--E a condessa assim me desterra tão cruelmente!--Ella estendeu-me a mão dizendo:
--Será por pouco tempo.--Fui. Esther não viera ainda. As senhoras começavam a chegar em pequena gala, com _bournous_ de casimira branca forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas pequeninas _soirées_, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle, enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido, uma elegancia fina de _gentleman_; e nas conversações mais frivolas, em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a redondeza das suas espaduas reaes, surgindo de espumas de renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé, junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle disse:
--Já penetrei no mysterio.
--Qual?
--O da condessinha.
--Vamos a vêr como.
--Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...
--Sangue judeu! Ella?--Kebler baixou a voz e contou-me:
--Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira, chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria que um governo individado fez barão e par.
--Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto? Caramba!
--Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.
--A esposa era muito formosa então, para poder alcançar tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.
--Lingua damnada!
--Adeante. É então supersticiosa, hein?
--Não imagina.