Chapter 8
Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos mariolas--que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas, poços, bebedoiros e hortejos--e por essa aldeia que viera, subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes, palheiros, ferramentas de trabalho!
Colossal tudo aquillo--e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa assim?--N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias, poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas, os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.
E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardes familiares. Alguns mais ratões da Oriola--e sempre a Oriola teve fama de moços reinadios--botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas, sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos, aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias, inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem caindo n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.
Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas, o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro timido d'agua corrente: espera! ouço passos...--É o vento, disséra elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha--n'essa noite _elle_ tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus dominios--ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina, sincera, humida, talhada a buril, ao mesmo tempo imperiosa e feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco, herculeo, alado em juventudes divinas.
--Vaes ter frio, minha filha.
--Frio, eu, ao pé de ti!...
E do capuz negro do _bournous_ que ella levava, forrado de pelles setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito, muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de faúlhas calcinantes--lá está um vulto além, n'aquelle canto da estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes, ennovelando-se, augmentando em numero á medida que o breack fugia.
--Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.
Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado, fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta, d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens, cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos, n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza d'ella, toda impaciencias, _coquetteries_ e ardores.
Á chegada eram deshoras, cantavam os primeiros gallos em S. Mathias--ella nunca tinha por alli passado.
--Gente na estrada, estamos perdidos!
Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as lanternas, e o _break_ em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.
--Viram-nos, Jesus.
--Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella exaltara-se: adoro-te.
--Mas, por Deus, não grites! dizia elle.--Davam beijos de lava, o amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...
E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se por desgraça!--Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima d'um portello baixo--toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, chammejando horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á meia noite de S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se não ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, terrenos declivosos: o _break_ parára ao pé d'aquella grande oliveira.
--Não sentes pena de deshonrar teu irmão?
--Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa, fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando o _break_ entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!--Ao que elle respondia: doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar tudo ao marido, ao mesmo tempo que um suor frio a aljofrava, só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim, odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza, ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea, virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!
Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas intencionalmente--este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem cruel. Era o marido fital-a--tremia toda como um vime. Quando elle se exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse: prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; as esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os doentes, matar a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o uma lenda de poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a saber, que vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e fizera-se neutra a sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, Fernando Zarco tinha caído n'um marasmo desopilante, não saía, não recebia, não fallava. Ás vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso nos labios, uma palavra carinhosa para lhe inspirar conforto; e estendendo o braço para agarrar no talher, lentamente, como tendo alguma coisa grave a indagar, elle ficava a miral-a com o ardor dos seus olhos encovados; depois ia baixando a cabeça n'uma confusão, vagarosa, funebremente--sim! sim!--e viam-se-lhe as narinas arfando nos haustos d'uma raiva subterranea.
Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras; correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O cunhado nas almofadas do _break_, á sombra da arvore, aguardava por ella como n'outro tempo.
* * * * *
Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.
--Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'este _break_, é velho mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...
--Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande embaraço, não havia roseiras aqui.
--Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.--A sua voz tremia.
--Chut! casaram hoje os nossos filhos.
--Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana velha, a quem hoje dei o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.
--É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de ti.--Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra, os orgulhos feridos de mulher.
--Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.
--Ah, bem vejo que amavas tua mulher...
--E tu que amastes meu irmão?
--Mas é falso.
--De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos amámos.
--Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!
--Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio a saber...
--Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu, dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca que te provoquei. Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo me abandonava então!...
--Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.--Ella cortava rosas, no rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando, deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella idyllica paisagem.
E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel Zarco de não assistir ao _copo d'agua_, mas sentia-se indisposta, tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do _break_, esperou curvado que ella subisse.
--Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por traz das arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.
--Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e brancas.
Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o _break_ d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.
--Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no rosal.--Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo vasio de reacção.
--Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.
O _break_ tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas, elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que conforme disse, esquecera na igreja.
--Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.--E o carro abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se interpunham, a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.
--Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella, a tal noite...
--Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal só vem um, que para mais me não serve.
A outra velha acudiu com admiração:
--Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.
E a viuva com um rir doloroso:
--Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem jardins sem pousar no chão.
--Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.
--É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!--E os seus olhos iam na direcção do olival.
A PROVINCIA
Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma ternura de adeuzes que o caracter _blasé_ de quasi todos tornára, valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo «fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida--n'uma casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira entre elle e um empregadorio velho do Museu.
Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de alchimista, silenciosa, de porta fechada ás visitas e cerebralidade muda ás expansões.
A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das suas _blagues_, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte, explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica, archi-estouvada.
Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver sósinho, ia casar.
A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão absorvente que se lhe tinha conhecido, chegada ao cume, collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre, fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.
Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um _couvre-pieds_ acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima padiola, para a gare--e os aposentos sem trastes, o relogio parado no muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia, aguardava o auto-de-fé liquidador. Jorge Miguel despiu o casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de favor--menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos sentimentos--e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella, e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento, consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes pedindo conselho para casos de psychologia individual cheios de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul, muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto, uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.
Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos; entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas inertes, baquearam no chão pulverisadas, e o vento d'alba as varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.
* * * * *
Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera fallarios triviaes alguma vez.
Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados. Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes, uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.
As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da deserção de Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres borboletas, a orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios do telegrapho, receiosas de que o vento as pulverise antes de chegarem, com palavras legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar de angustia nas vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das chaminés, indo ás alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos cemiterios, pousando nos jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os somnos e as doces mortes.
--Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de loucura...
E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações. Lentamente, como amanhecia, por todo aquelle vasto mappa encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes, como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das gerações.