Aves Migradoras

Chapter 7

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N'isto, fez-se um grande rumor, que alastrado, mais e mais confuso, por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se rapazes e mulheres correndo ás esquinas que defrontavam com o largo, janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala, grupos freneticos buscando posição de vêr melhor; e de repente, quando a orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no côro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo as capellas, enchendo a nave, querendo forçar a balaustrada carunchosa do sanctuario. Jámais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando D. Pedro V fôra a Beja--e francamente, de logo perdeu a esperança de tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde os escudos postos ao través esculpiam complicados symbolos de nobreza, leões com asas, metade de um cavalleiro armado de lança e capacete, Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeças de moiro n'um molho: e só aguias eram algumas tres! Sobre os portões de columnellos gastos, com argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses brazões repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor arabe, e com arcos á volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria de corrimões de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto á beira d'um poço octogono, todo em altos relevos de pedra rugosa--em casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins abriam sobre quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada cá fóra, a correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas onde os estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa severa, vomitára subito um cortejo bizarro de noivado--á frente vinham os figurões de Beja em grande _mise_, ricassos das terras proximas que tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores, funccionários, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo braço como uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e vaporosa n'um véu que lhe cahia aos pés. Fez bulha na aldeia o senhor coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de metro e vinte e cinco, gesticulando para a direita e para a esquerda, que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao pé do vigario capitular, um côr de parede, que mui dulceroso e beato, afiára o dente em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias do _copo d'agua_. Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de dois botões, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas em sêdas de côr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia ao lado, mortificada no peso da cuia--quem está mesmo um cangalho é a Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam tão famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de cabello corredio, labio gretado, sêcca e presumida, que de chapéo branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos. Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam--isto deu pena em S. Mathias--e quasi em braços no meio d'ellas, uma velhita em sêda preta, pequenina como uma creança, levava um ramo de rosas brancas e o leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabeça branca d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando a essa hora, gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e homens que se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada passo, pequeninos lances detinham a procissão bruscamente, e viam-se as raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto das cabeças...

--Com sua licença--e deitavam flôres sobre a herdeira, commovidas, um ar de filhas de burgo medieval. Á porta da igreja, o Carlinhos estava entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes, dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que ainda não eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos membros nús. Deu-se então no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio de creanças, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de mãos dadas pela igreja fóra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em que os filhos são o calor, o orgulho o motivo de viver--o choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre essas adoradas creaturas, foi tão violento e fulminante, que se deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento, ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle, pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para não desatar alli em soluços, trespassado dos primeiros regelos do abandono. Cortando então por entre a gente, ouvia por toda a banda humildes palavras de conforto e piedade; velhas mães que o encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida--Vae ficar só n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe custar. Isto de filhos!

--E são os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...

Porque todos os subditos sabiam já da capitulação deshonrosa d'esse velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na altercação com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em grupo, a expressão terrivel da viuva fallando a seu cunhado, palavras cruas ditas por ella, _acautele-se, acautele-se levo-a comigo_, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a rezar desculpas, a fazer-lhe vénias. C'os diabos--nem que comesse os sobejos d'aquella magana!

--Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.

--Ai, argumentavam muitos pachorrentos, é o que se vê hoje em dia.

--Tão má, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do cunhado.

--Inda assim não entalasse o rabo, figurona!

Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!

* * * * *

No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á missa a freguezia. Ao fundo, pezava um grande armario de carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita, apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de sombra.

«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da Coitada e a minha quinta de Valle de Borrucho, constando de doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os convidados.--Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana, o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma face attonita e consternada.--Jesus! Não contente de humilhar-se ante a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e disfarçadamente puxando-lhe a manga:

--Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?

O da Torre encolheu os hombros.

--Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para continuar.

--«E outrosim lhe entrego toda a plantação de vinha e olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres mil pés de oliveira...»

--Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.

--Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas, ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com a mais generosa confiança.

--Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha residencia, o quintallão e as abegoarias. Accrescente que a contar de hoje, lh'os dou tambem.--E voltado para a cunhada, com a sua face radiante de altivez fidalga, fingia não sentir as murmurações de roda. Fóra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia, já se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, ia ficar ás sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitação quebrava agora em facções a gentana: á piedade succedera nos ganhões o fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco descia--quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva da emoção. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de rosas e o leque, dava á sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da Conceição, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobrões em oiro n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...

Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do véu; nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o alvo, correndo a assembléa com a sua cabeça tremula, a velhita exclamou:

--Esperem lá, esperem...--e para Mathias, muito ruidosa nas sêdas pretas: leia lá!

--«...com a expressa condição de residir seis mezes do anno em casa de seu pae, durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de seus filhos, caso seja fecundo o casal.»

--Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraçando-se a Dora, e a sua cabeça dava pela cintura da noiva. É que nós não queremos ficar abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.--O que fez com que o dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:

--A velhota teve mais juizo que tu. Emfim lá estou, se um dia... É como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!--Chegou então a vez de se saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias começou com a sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais. Era quasi uma replica da viuva, á arrogancia com que o da Torre amontoára riquezas aos pés da filha. Foi longa a lista, novas herdades iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louças, palacios, rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a Oriola--e por seu turno a viuva ficou nua.

Processionalmente então, e á medida que iam firmando o contracto, como a cerimonia findava, em reverencias de vassallos ante uma grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com sorrisos de grande gala, alguma graça estudada, dando parabens com ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella intimidade, na adoração dos mil e setecentos contos de dote. As mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas, beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra humida davam-lhe conselhos, descançando-lhes no hombro as suas grossas mãos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de legenda.

Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua cunhada; a recepção foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava, pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o grande véu de noiva em que vinha envolta. Essa belleza senhorial d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera contemplar assim em plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu esplendor de pureza e brancura, porque se pôz muito pallida, apenas o véu de Dora se erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder fallar, a sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de surpreza fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas aias tinham corrido a Dora, e soluçavam. E a viuva de mãos no peito, como sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que por varias vezes lhe chegára aos ouvidos, vagamente, como uma opinião sem força--isto é, que Dora era o retrato vivo d'aquella querida filha, tão meigamente loira e tão formosa, unica creatura que ella amára no casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos o marido, Laura emfim, a sua pobre creança, morta com vinte annos, pouco antes da adopção de Carlinhos.

Evocação da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta resurreição em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas, exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco, menos asperos propositos de conducta. E voava-lhe a idéa pelas lembranças já longinquas dos seus primeiros tempos de esposa, aos dezasseis annos, quando por cubiça do pae, uma vez acordára no leito do lavrador da Oriola.

Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo ainda dos dois irmãos serem amigos, companheiros de caçadas e aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios, era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doçura do esmalte; e quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava não sei porque, tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano. Ah, como isso ia já longe! E Manuel todos os dias achava alguma pequena lembrança que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo é que ella amou o cunhado, porque o perfume d'esses beijos a embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era soberbo, aspero, intractavel, brutal, _coração ao pé da bocca_, desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse tempo inteiramente só, sem amigos, nem protecções do marido, muito nova, tão cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante, cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmãos tinham ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza--e tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora gotejava odio sobre o irmão de seu marido.

* * * * *

Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e alli sua rev.ma descompôz mais uma vez os seus adversarios politicos, attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes; e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas, do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios. Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre gente ter lume nas asperas noitadas.

Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena divergencia de familia--era de mui bonitos termos s. rev.ma! Inda que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr unidas de novo as duas casas, todos davam graças.--E batendo no pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres, faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao lavrador dos Panascos.

Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga em fraga--enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.--Anda, sempre te abaixaste, bem feito! dizia-se _á da_ Fevronia, na passagem do cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas, muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e palpita, ao primeiro contacto d'um homem.

O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr a _funcção_ que se preparava aos servos e trabalhadores. N'um banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias. N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido do pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em couves, para mais de vinte pipas de vinho... E a Fevronia punha as mãos do _error_ de moedas que ia custar a frescata ao fidalgo--mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla, jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles, acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas, _desgarradas_ n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que ensurdecia a gente. Vinham chegando as raparigas de claros cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos, envergonhadas dos _de fóra_, lenços em cruz sobre os seios inviolados, de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.