Chapter 6
Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.
Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos e os nichos.
Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as heras trepam em grossas lianas, que se abraçam nos columnellos da torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida de serpentes, alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma avançada de exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno que lhe havia sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma vertigem, d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais ouvir os queixumes do musico, que as vegetações vão sugando, assimilando em si, absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.
Chego á igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos, delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves _frou-frous_ de sêda que se acamam, tinir de pratos... E no phrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta--a porta voa, e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.
E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.
--Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.
Esfrego os olhos.
A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada asneira!
PEQUENO DRAMA NA ALDEIA
Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica, tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como n'esse periodo as primeiras desordens do sangue, ensaiavam pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e predilecções decididas por quanto fosse prazer.
--Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!
A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro, sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e muitas fugiam com elle, mandando á fava os namorados. Realmente ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas camponezas então faziam, era ter saudades do pae, rico grão-senhor de herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que ainda em vesperas de morrer tinha raptado a lavradora das Lages; aquella russa magnifica de carnação, que tinha o ar d'uma grossa madona eborense, hão-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo, era um filho do amor, vindo não se sabia d'onde, amor d'acaso, d'alguma arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e moinhos. O certo era que dias após haverem enterrado no velho cemiterio, a filha que ao rico homem restava da esposa legitima, entrara o marido em casa com um pequenito pela mão, fôra junto da esposa mortificada de prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no regaço aquella encantadora miniatura de Carlinhos pequeno, a mais fresca e divina que era possivel sonhar. A pobre senhora que se via sem descendencia, já não estava em idade de ter filhos; resignada ás traições do marido, e ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e senhoril, que ainda na provincia revelam as antigas familias, acceitara o _bambino_ sem cousa alguma perguntar. Além de que, adoptando a creança, assegurava-se herdeiro á casa, e os filhos do irmão de seu marido não participariam ceitil na grande fortuna do casal. Ah, mas esse exemplo d'adopção tinha dado a mulheres sem marido, phrenesis bruscos de contagio, e certo foi que muitas creanças appareceram dizendo-se irmãs de Carlinhos. Talvez calumnias forjadas pela outra familia, ainda que fallando sério, não faltassem a taes pretenções, uns signaes de verosimilhança. Tanto os da Oriola, que assim era conhecida a familia do Carlinhos, como os da Torre, que assim nomeavam a casa do tio adversário--eram fortunas de respeito e gente de poderio. Os primeiros tinham o maior nucleo da propriedade de redor da Oriola, aldeia perdida entre carvalhaes e sobreiros; os segundos faziam séde de governo proximo a S. Mathias, outra aldeia nos valles de Beja. Uns tinham cabellos pretos, alta estatura fina, nariz direito, olhos claros, e uma côr fulva de pelle, nuançada em deliciosos _duvets_; eram da Oriola. Mas outros insculpiam-se herculeos e loiros, nariz recurvo, dentes carniceiros, barba rara, e os olhos singularmente obliquos contra um nariz que arfava com destrezas de hispano-arabes; eram da Torre.
Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S. Mathias, a respeito do typo loiro da Torre. Nas terras de roda, estas coïncidencias faziam riso, ainda que se explicassem com honra, aqui para nós. Os da Oriola davam pão á sua aldeia, como os da Torre a S. Mathias. Lá vinha o proverbio--mesmo pão, mesmas feições. E sendo assim...
Ora cada qual d'estas familias rivaes--e nunca pude saber porque rivaes, questões de ciumes talvez, uma herança mal repartida, ambições de riqueza ou voga entre os povoados, eleições renhidas n'algum anno de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, tão vehemente e meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolações--cada qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, não passava dia sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares, tinham-se formado mesmo pequenas côrtes, feitas com figurinhas insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes na sua dentuça podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos mesmos flatos, levando e trazendo recadinhos, segredinhos, pequeninos fetidos d'intriga, em preço do chá com doce que pelos serões lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sêda da prima Dora de S. Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.
--Diz que houve balancé até de manhã.
E noticias da cortiça exportada para Inglaterra, lã que vendiam os da Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...
--Tão maus, que elevaram o preço dos carneiros, só para prejudicar os lavradores somenos. E os porcos d'elles não prestam, carne de cão, mais dura!...
Cada viajata de Dora durante a estação de banhos, cada mez d'opera em Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As mulheritas da terra vinham aos serões com seus maridos, trazer o que sabiam da Torre, inventar quando não havia que trazer, e a mãe de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a tinham acalentado, velhinhas que davam tu á sua dona, enroscando-se-lhe aos pés com somnolencia de gatas fugidas ao serviço. Mas, desgraçadas das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva, o proceder da sobrinha ou do cunhado--que tombadas em graça, nunca mais lhe viam os dentes e provavam o dôce! Ella só, viuva de Fernando Zarco, podia discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava sem commentarios o que ouvia por fóra, ou ia escutando o que ella dizia, sem retrucar mais, aliás...
Na casa da Torre, exasperação identica a respeito da Oriola, não havendo serão que as estroinices do primo não fossem esmiuçadas, exageradas e discutidas. Carlinhos não tinha pae, Dora não tinha mãe. Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e alta educação que recebera, tambem ella punha em torno de si uma pequenina côrte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua belleza de loira, magnifica e alta, toda fresca em batas d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mãos, com uns ares d'inaccessivel castellã, fazia d'ella a musa do districto, e a paixão de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora, casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa, onde até acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco, fingia não dar pelo sobrinho, o _engeitado_, como elle dizia na sua brutalidade morgadia. Os rapazes, porém, é que se iam mirando ás furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, tão ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava sério e perturbado sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar. Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses e allianças possiveis ou premeditadas, não viam por essa orla toda do districto, um casamento á altura de Dora, a menos que a orgulhosa descesse, o que todos diziam não ser provavel. Apenas um noivo a merecia bem, Carlinhos.
--Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem dentes.
Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por todas as casas; e no terreiro da egreja, ás portas das vendas, no balcão da escola régia, ou mesmo ás embocadas das ruas, por aqui, por alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudação graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem, remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o escarlate das papoulas; e como aos sóes da quadra tinham vindo as cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, á medida que ia avançando o verão. Entanto ainda as noites eram frias, e o orvalho da manhã perlava nas folhas, secretas lagrimas d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria, salobra das terras atravessadas, dando erectos viços aos panascaes verdejantes, ás junças e mentrastes das ribanceiras. Microscopicamente, as vinhas iam esboçando cachos, entre pampanos pizados d'amarello e vermelho ferrugem; começam a vir os perdigotos, as rolas tinham chegado d'uma aspera migração, e desconfio que os melros, casados de fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios das cannas e dos silvados, arredondavam já os seus ninhos, á espera da petizada. N'essa grande paz bucolica, a alma abraçava simples ideaes de ventura, nua d'ambições desordenadas e volupias lividas, e na doçura de palpitar entre aromas silvestres, ia voando em cata de amores delicados e mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas espigas se curvavam, a depôr nos regaços esmolinhas do primeiro trigo em sazão. Vista de longe, a aldeia era encantadora d'alegria e brancura. Nas collinas, de roda, empoleiradas ermidas vigiavam por ella dia e noite; Deus foragido pela descrença das cidades, andava por alli talvez na estatura de algum velho mendigo de fallas doces e resignada humildade; e pela noite, quando os rebanhos vagarosos seguiam para os curraes, esse cantinho rustico tinha scenas biblicas d'uma graça innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao toque das Trindades para dizer o _angelus_, risos de ganhões pelas devesas, cantigas que se apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim tudo quanto entretece a elegia plangente do morrer do sol. Esse dia casava-se o Carlinhos com a prima Dora, e as duas casas fortes do districto, tantos annos separadas por odios, iam emfim restaurar-se na bôa cordealidade, por esse laço dos primogenitos.
* * * * *
Imagine-se o espanto e a curiosidade que um tão inesperado successo derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenças dos Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal motivo de ligação era o casamento dos rapazes; isso não bastava entretanto; outras secretas ponderações deviam ter influido; e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre não a poupava tambem. Nem uma só vez Dora tinha fallado a sua tia; creancita ainda, succedera encontral-a não sei que de vezes; os olhos pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bébé, e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade é que o velho Zarco referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio, o filho d'aquella...
Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jámais por aquellas redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos nós agora a vêr, se a da Oriola virá dormir á Torre! diziam muito interessadas, das suas soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mór parte nem tal acreditaria, mesmo vendo. E as apostas começaram. A vêr como dorme! Apostar em como não dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com sobranceria, entre os grupos mais impacientes:
--Afinal, quem se humilha são os da Oriola. É bom saber!
E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e sapato rôto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:
--Quem viver tem muito que contar, não haja duvida.
Foi n'este marulhar d'opiniões e trocadilhos, que um forte rumor de sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalços corriam, cães ladravam, e cabeças de mulheres vinham ás portas espreitar avidamente, os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda estofada a casimira perola, grandes fivelões e lanternas de prata esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vêr, as janellas guarnecidas de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma expressão presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco pelo adro, desde o estribo até aos portaes do templo; os creados da taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, saíra a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhe a mão para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi sósinha pelo tapete fóra de cabeça alta, um dos braços pendentes, e a cauda do seu vestido de damasco negro roçagava que parecia mesmo da senhora rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo, porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo, ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde as suas velhas mãos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho, onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em pé serviam-lhe de côrte, com passadinhas respeitosas e pequenas vénias cheias d'uncção. Apoiado á espalda da poltrona, velho Zarco mastigava demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando os _ss_ de quando em quando, e ella sem lhe dar attenção, um momo altivo de labio, entretinha-se a esfolhar com o seu pé de fidalga, rosas brancas espalhadas pela alcatifa.
Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as escripturas em casa d'elle, como era natural, até ficava alli perto, no largo. V. ex.a descançaria um pouco nos quartos de minha filha...
--Meu cunhado, não me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do prior, onde quer que seja, mas sem arredar pé da egreja, que é casa de todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio, é a hora, duas e meia. Janto ás seis, o caminho é longo.
O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na impressão que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos filhos: tudo afinal se esquece.
--Tudo não! disse ella bruscamente. E proseguiu: pódem casar, pódem casar. Carlinhos além de tudo, não é meu filho, aliaz tinha-lhe prohibido esta alliança, meu cunhado!
--V. ex.a é então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado d'aquelle tom.
--Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.--E de repente, n'um accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem para o ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque francamente, disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos seus damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho ainda nos pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia--eis porque ás vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se essa creaturinha sahir ao pae!
Os dentes do outro rangeram--porque não casou então comigo? disse elle com frenesis na raiz dos cabellos.
A viuva riu-lhe na cara.
--Eu? Eu? Ora, meu cunhado!
Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante. Ambos trahiam colera nos _zig-zagues_ que faziam marchando. Os olhos ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:
--Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.
--Não, já agora, elles desgraçadamente adoram-se, Carlinhos mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus sabe se o senhor mesmo approximou...--E subia-lhe a voz em graves dramaticos, com vibrações de metal.--Mas, meu cunhado, acautele-se, acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.
--Oh, disse elle, experimente.
--Pois veremos.
--Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo, querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse um homem!
--Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E ajuntou a rir: tão certo!...
Carlinhos vinha para elles, já o velho Zarco se afastava. E vendo-o no seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buço, quasi innocente na graça leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo imperceptiveis _nuances_, foi gradualmente adoçando, enternecendo, perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ella então sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixão de leôa, como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o coração, com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, não te queria mais que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu coração.--Elle queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando á roda, jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E á flôr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando, filhos e mães que inda não tinham emigrado, e demoravam residencia no calor dos velhos ninhos patriarchaes.
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