Aves Migradoras

Chapter 5

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Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da impenitencia dos homens.

Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando uma procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer, cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que elle tinha.

A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo, abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.

Ao mesmo tempo, começava a produzir-se um phenomeno extraordinario. Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para rolar depois nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em replantar no sanctuario.

Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.

A principio disse commigo--é uma vertigem do meu espirito exasperado pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.

Tinha-me rido d'aquilo--Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não era engano. A sarabanda macabra rompia.

Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de encantamentos.

Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma, obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo, e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...

Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar com os demonios.

N'um baixo relêvo da _Ceia_, a figura do Christo ergueu-se e bateu com força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando o calix, disse do vinho--_este é o meu sangue_!

Debaixo dos pés da Madona, renasciam as cabeças da serpente, á medida que ella as esmagava.

E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando apoplexia ás faces das cariatides.

--Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?

Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do Christo, no baixo relêvo da _Ceia_--e todos os fremitos, todos os sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas, que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu contacto asqueroso.

Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.

Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o acabar--elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o. Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.

A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões, as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.

Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma cabecinha pellada de centenaria--e para traz a sombra invadia tudo, e via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as esculpturas mutiladas, as rendas em bocados pelo chão, os nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra, forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.

O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que estava perto.

A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada de referencias á margem.

É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já o arcebispo ao altar dizia o _orate_, e soava nos mosaicos da basilica o rumor dos que ajoelhavam.

* * * * *

Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez os meus pavores tomarem fórma, e as minhas angustias irem cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção lhe consegue fixar a transcendencia.

Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo. Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo--venho destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira escruciam, e os latins do inquisidor que os manda morrer em nome da misericórdia celeste.

--Velho!

Repara bem, como até na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a batalha das duas legiões. Aquelles sinos além são pela egreja; mas aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.

As mesmas tuas mãos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrança de rythmo, n'uma especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim produziu.

Faço esforços de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vêr se coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleço a limpidez do meu juizo, a sangue frio.

--Eu é que _sou talvez duplo_, e não a maneira de ser das fórmas que me circundam.

As minhas operações mentaes é que estão fraccionadas e desparallelas, como se a fouce do cerebro me não dividisse o esferoide em dois ovulos estrictamente iguaes, senão o houvesse desigualmente bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em modos de ser incompativeis.

Porém esta hypothese eriça-me os cabellos. Adeus harmonia de funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma força coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma contenção vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra impulsão...

Actividades parciaes, cerebrações avulsas, acordariam n'esses varios districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo, discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a vontade ao outro, annulando este os esforços d'aquelle: e nenhum deixando dormir nem descançar o companheiro. Mas é isto. Positivamente é isto--estes dois maus irmãos que juraram anniquilar-se d'um golpe: fratricidas que a mesma impulsão vae arrastando de roda um do outro, á espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades atravessadas de inquietações. Timido, nasceu comigo, é filho de minha mãe, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimensões, n'este momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda, este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.

* * * * *

Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.

Estendo para o altar os braços supplicantes. E o velho continúa a sua musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar celebra missa o arcebispo.

A execução d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope d'annos desgraçados.

A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe lágrimas na cara, quatro e quatro, e murmura não sei que palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.

E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz lilaz de supremos extasis acusticos.

Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida, mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel--tanto os meios d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias, arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.

A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas, desprendiam-se adeuses, voavam recordações... recordações de vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a verdade, já não sabia dizer quem fosse.

Vamos ao _Credo_. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos; desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em nave.

Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.

Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema, n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.

Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam de longe pedindo socorro...

Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o _Sanctus_, e o sacrificio da missa principia.

Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão, d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.

Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão, vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam, zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços, pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros, continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha audaz do campanario.

Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr verde das folhagens; eram as mais numerosas e as que mais robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas, noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.

Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado. Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha, pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.

E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.

Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico lhes convulsionava ainda mais os pequeninos membros, e de rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus exercitos até aos confins do horizonte.

E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha, entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e desfazer-se.

--Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz da minha razão.

Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se, lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula, brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.

No momento, o _benedictus_ segue, e o carrilhão murmura de mansinho, como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave _preghiera_ que o perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma noviça.

Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.

Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea incomparavel--e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas claras, como uma cabeça morta de _baby_, á procura do tronco, pelos valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o baptismo de Jesus feito creança.

Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.

Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose: depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo, silencioso, rufado apenas, no _frou-frou_ das asitas quasi imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento, mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas, chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide, arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas cordagens--e até um que escorregou nas lageas, ficou de bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse levantar.

Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.

Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.

Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e--oh surpresa!--aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de momos espantados.

O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto muitos lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias vestimentas.

Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos--dois ou tres calafrios passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada--e a vida nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna, que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas côr de rosa.

Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara apaziguar a colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia, interpretar pela musica do carrilhão fantastico as escruciadoras angustias da sua alma lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes esforços o céo que redimia a creança, como se não julgasse bastante a expiação do pae, abandonava-o!