Chapter 4
--Jesus! dizia Luiza erguendo os braços, entre as mulheres de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára, collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto:
--A senhora marqueza de Selmes morreu.
O SINEIRO DE SANTA-AGATHA
Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa, ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia: quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora, sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?
Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda a banda.
Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e mais um velho creado que me seguia a cavallo.
Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular, desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.
Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao desastre.
Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo das azinheiras, n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de sino distinctamente.
--Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está chamando. Onde é, cocheiro?
O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.
--Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.
--Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa do diabo?
Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.--Ninho de demonios e malfeitores! Em _trinta e tres_, a guerra civil correra lá, farejando as riquezas do culto--as freiras tinham debandado pelas serras, com os seus habitos brancos e os seus rostinhos macerados--por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios--e diz que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.
Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:
--Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem bispos!
--Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já volto!
--Mas onde é que o senhor vae?
--Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os sem resultado, apontou-me o caminho provavel do mosteiro, lá longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a nossa berlinda de viagem.
* * * * *
Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros. O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama; tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me, prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade de lua velada poude orientar-me na marcha.
Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se, pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes, casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além, achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de capiteis mutilados. Ao centro murmurava uma fonte, cahida ás gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.
Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito, pendiam tapetes de hera--e por um bocado de muralha derrubada via-se o claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas, estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas grinaldas.
Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres quadradas de solar.
Lembrava-me de ter ouvido a minha avó, como a abbadia fôra uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino, successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e inscripções.
Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um cordeiro guisado, na ceia do Natal, sob a condição expressa de ser branco e acabado de nascer.
Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal. Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e pregas miudinhas no bocatel das roupagens--e tão longe do nosso tempo! tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.
Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas, cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos e _cearinhas_ de trigo grelado em pratos da India, ás escuras, durante os vinte e cinco longos dias de uma lua--todos os annos, á hora de servir a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.
--Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser manducado pelas freiritas sem dentes?...
Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.
Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.
A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas que elle dava, em nos vendo felizes a todos.
Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe da nossa casa _das Torres_.
Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora lembrado o _madeiro do Natal_, tão escrupulosamente escolhido entre os troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa provincia; o _madeiro_ que as comadres vão vêr a casa das comadres e cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o primeiro _toast_ da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada entre as tristezas do seu amantissimo coração.--Paciencia! dizia eu, deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de ruinas, como quem busca fixar a realidade no meio das oscillações que a sombra despregava das arcarias.
Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás fragas da cordilheira.
Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes, d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação de agigantar o que apenas entrevê.
E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças; emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos de gente acocorada.
Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam por todas as bandas da serra, vagarosos, cosidos ás pedras, derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos olhos e capotes negros sobre os hombros.
Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos conspiradores.
Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos, quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o traziam.
Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos. Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu vi fazer-se um movimento simultaneo em todos os magotes, para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera escarranchado.
Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão. Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem. Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um captiveiro.
Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clarões deixavam vêr a fisionomia de aquella assembléa extravagante. Oh minha cabeça esvaida de cansaço! Eu não posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que se estava passando: tão extraordinarias visões me tiveram estarrecido na formidavel sombra do templo. Lembro-me que o sino tocou de novo. Era um som funebre e longinquo de _gong_, espargindo na noite um terror de evocação; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os homens a um ajuste de contas definitivo.
Pelas arcarias do claustro, que eu avistára por entre a derrocada d'um muro, vinha marchando uma procissão de monjas lentas, mirradas, pequeninas, cambaleantes, e tão brancas e diaphanas á luz das tochas, que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus sepulchros, transpondo os seculos á voz expiadora do _gong_. Entre os véos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som baço de sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles destroços de santas, d'onde a alma parecia ter voado, através das divinisações augustas do martyrio.
Poucas eram: mas vagarosamente a procissão ia crescendo no percurso, ao clarão bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as mãos descarnadas. Alguem lhe tirára o capote de cima dos hombros, e da cabeça o bioco de burel que a encapuchava. E surgia assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha, cingida na estamenha da ordem, o véo de nodosa e rude grossaria... e que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trémula cabeça, lá ia enfileirar-se no préstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.
A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla, majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos doces, além das naves, pelos rasgões da derrocada, ondeava á oscillação das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande hausto d'uncção fervorosa e fé christã.
Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas, diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas, cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhidão tingia de sangue os caprichos manuelinos da architectura.
Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mór appareceu de subito n'uma aureola de pompas, damascos, flôres e vasos de oiro cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a fumarada dos thuribulos, as grandes flôres de purpura emmaranhadas no estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes, saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava, espavorida dos fogos que oscillavam cá em baixo, nas inquietações do vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz, tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando ás ruinas, e conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.
--Meu senhor, disse uma voz.
* * * * *
A vista das monjas, a multidão cahira de joelhos, tocada de veneração por aquellas creaturas celestes, mumias da fé catholica, que a oração transfigurára até á innocencia ideal dos serafins.
Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas: vinha na frente a abbadessa, de báculo e mitra, com uma capa de brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando não obstante uma especie de aerea graça da infancia, através da caricatura d'aquelle cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas cinzas, perdera a incandescencia entre as macerações da vida ascética. E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto sêcco vos lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dôr.
O que dissera, _meu senhor_, puxou-me de banda: era um embuçado d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.
Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as duas pontas iam tentar brava guerreia: a do nariz embirrando com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha, mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.
--Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.
O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um espanto sem saber por que.
Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido, forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos tropeçando assim nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas junturas da muralha--elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, pulando certo quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas da sua capa e á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me cravavam na carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.
--Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.
Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.
E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.
A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte de sopros e rizadas maléficas.
O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de roda, n'uma sarabanda de incoherencias.
Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as mesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes affinidades de ser a ser.
Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos, emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora, embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de syncope.--Ar! Ar!
A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando separado de mim, não pudesse ou não quizesse procurar-me sensações nitidas e exactas--tanto as coisas que eu tocava me pareciam differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas mãos _shake-hands_ bruscos. Abria então a bocca para gritar que me acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia, positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por cima d'elle, n'uma exaltação furiosa--a ponto de por cinco minutos rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra aos varandins da torre a debruçar-se.
A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul pallido do céo.
Uma floresta de cordas, mastros, travessões e guindastes, emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de mangação.
* * * * *
O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de sonoridade.