Chapter 2
--Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que este mundo é dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me d'estas coisas na sua idade! Não traria agora senão a libré de mim proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse á cabeça. Faça o que quizer, menina Luiza. Mas esta fabula é clara como agua. O senhor marquez gosta de si. Qualquer dia a senhora marqueza, trrr... foi-se. Que ha de fazer a Luizinha? Estará resolvida a dar-se por mulher ao primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os casebres da sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos piôlhos? Brada aos céos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite? Olha a tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os confortos da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! não tem coragem. Isso sim! Vá, tane as mãosinhas em trabalhos que humilham e não salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos não mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez gosta de si.
As lagrimas saltavam já dos olhos de Luiza.
--É mais facil morrer, disse ella.
--Pois minha rica, não será rondando o Ruy noite e dia, mais de noite que de dia, que a menina ha de ir á cova de capella e palmito. Gostar do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as vantagens. Esse pequeno é um cabeça louca; póde fazer apetite ao femeaço--o que não faz com certeza é uma bizarria que a deixe independente a si. Porque não póde! Porque não tem! D'ahi, tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora não larga os amiguinhos do collegio. A menina não tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O seu genero está na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de si.
Era o tempo das florações e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O céo dôce, todo o campo uma distillaria d'essencias: lá baixo, na aldeia, as romarias começavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio, co'os olhos longe, vendo subir a manhã pelo cantar dos passaros. Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho perfeito. O senhor marquez gosta de si.--E Luiza chorou todo o santo dia.
* * * * *
N'essa cabeça de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o pequeno tinham vindo á quinta passar as férias da Paschoa, tres ou quatro dos seus companheiros mais intimos--Palhalvo, já gordo aos quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando uma desconforme trombeta, á semelhança d'esses anjos papudos que fazem apotheose ao calix mystico, nos frontões das capellas-móres--Mattoso, filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de preceptor--Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia da Vieira--emfim Biscaya, especie d'aranhiço adunco, côr de feno, sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandára ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam já nos seus dichotes de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que outros, alvoroçava o palacio logo ao romper da manhã, extravasando nos pateos em exercicios de força e gymnastica, furtando beijos ás moças por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando correrias, d'onde os cavallos voltavam desferrados e cobertos d'espuma. Póde-se calcular o que estes diabos accrescentavam de desordem á volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao almoço e jantar fazer companhia a sua mãi. Era a unica imposição tambem da boa senhora, ter o filho em _toilette_, defronte de si, nas refeições. E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforçado em infiltrar na melancolia austera da enferma, um raio da sua graça juvenil. Mesmo, o seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices, ternuras, pequenas dedicações que a velha dama absorvia sem transluzir na face exangue emoção d'especie alguma.
Desde que Ruy chegára á quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lêr as orações e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos santos patronos mais dilectos. Era então Ruy o encarregado de lhe percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o grau de satisfação que promovia, e evitando as crises com uma ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira innocente, no jogo galante em que ella buscava encasular a adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar apoio n'uma asserção, a preferir o conselho de Luiza no tocante a qualquer pormenor de solicitude para com a mãi. E a alegria da pobre creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no _froufrou_ da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma idéa de mulher passára ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa, estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a sombra d'uma _coquetterie_, o lago azul d'aquella pureza celeste.
Uma manhã, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoço na horta, antes da caçada, quando se deteve á porta do quarto, sentindo rir e cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo, madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaçava-a entretanto. Pé ante pé, esgueirou-se por entre os batentes da porta, franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes que ás vezes se perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avançou traiçoeiramente a cabecita de vibora para fóra do esconderijo. E os seus olhos estavam como uma interrogação rancorosa, através das phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos detalhes evocava em estatua a organisação desconnexa, fruste, mysteriosa, desigual, que lá vivia. Bem podia a estranheza da installação ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas fórmas erraticas e symphonicas de côres amortecidas, via Luiza exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, já desbotado nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flôres. Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, até aos degraus do immenso leito toucado d'escuro, á laia d'eça, e com cercaduras á moda das da armação mural. Uma quantidade de moveis singulares: credencias d'ébano sobre ligeiros pés, trabalhadas como uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo genial das suas attitudes, servindo de cabide a chapéos de mil formatos: grandes jarrões sobre cubos esculpidos, em cujas arestas noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas, marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal, tenebrosos, por cima dos canapés, fazendo surgir da sua agua verde, esqualidos phantasmas d'enforcados: roupões de grandes desenhos na espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um braço sahia e apontava um capricho, escaninhos velados de religião instinctiva, qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raça, ou se iam espreguiçando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente, os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mãos brotavam da carbonosa noite do fundo, implorativas, mãos d'asceta devorado pela tentação: uma cabeça funebre movia-se nas sombras d'um capuz, insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo--se a lampada gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom mortiço que as luzes têm de dia, mesmo ás escuras. Aquillo parecia um templo, sob a agonia terrivel da lampada. Mas já lambendo o muro, o clarão d'ella fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias panoplias: a mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro arrancado ás escavações d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma antiga cota sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas então. Porém do outro lado, a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre sobre tripé de bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam á tona da caçoila, espojando arômas de flôres de Takeoka, bolas de styrax, coiro da Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De quando em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da peça, aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza sentia-se desfallecer, á idéa d'outra mulher antes d'ella, ter captivado o estudante. Mas que mulher? dizia a camareira emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por mais que procurasse, não descobria uma rival. Sua irmã não era bella: e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fóra? Isso é que não! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que abraçava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!--A sua primeira gana tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo á senhora. Mas um terror apoderára-se dos seus membros. Que medonha noite na sua alma, que singular e perfida violação do seu destino, quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que já alcunhava de traição a uma fé que ninguem lhe havia ainda jurado! E lá dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoço. Já no pateo havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu pé ante pé, para entrar outra vez com grande ruido de portas atiradas. Mas ainda ella não transpunha a área de resguardo marcada pelo biombo, Ruy sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido apenas d'uma camisa de sêda: e vindo a ella, volubilmente, abraçou-a a plenos braços, deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilhão pôl-a fóra, fechando a porta sem mais explicações. Foi n'aquelle idyllio triste a unica impressão feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a noite, lhe sabia a bocca áquelle beijo de rapaz que lhe entrára na carne pela furia virulenta da lingua.
D'alli a pouco, os caçadores deixavam o pateo direito ao laranjal. Luiza chegou-se ao terraço a vêl-os partir. Era o resto. Alberto M., empurrava para a porta Marquez das Flôres, retardado em dizer madrigaes á camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro, immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapéo de esteira do Algarve, entre cabazes de provisões. Marquez de Selmes fôra o ultimo a transpôr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:
--Tira a cabeça do sol, não adoeças.
E mandou-lhe um beijo nos dedos. Então ella alongou a vista para além dos muros do pateo, viu Ruy pelo braço de Mattoso, conversando a passos vagarosos.
--Menina Luiza.
Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.
--Da parte do senhor marquez.
Luiza abriu o cofre, na ingenua expansão de Margarida ao atacar a aria das joias, na scena do jardim.
--Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol vertiginoso.
--Para começo, é do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa. Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.
--Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha lá as pulseiras, menina Luiza:--abriu uma.--Que lindeza! Metteu-lh'a no braço. É para vêr como fica.
Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manhã. E fechou o cofre de repente, dizendo a Ezequiel que o tornasse a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella não podia aceitar presentes d'aquelles.
Então c'o gesto grave, Ezequiel:
--Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.
Mas Luiza não o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera derivar a attenção por outra corrente.
Oh, a mulher que estava com elle! Não poder ella agarral-a sem testemunhas! Não lhe poder tomar o nó da goela entre os pollegares furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a lingua para fóra da bocca, até á base toda sangrenta nas mordeduras da agonia! Via-o então apparecer d'entre as cortinas--como elle vinha, lesto, branco, em sobresaltos!--na sua esguia camisa de sêda, vermelha e longa, muito franzida á volta do pescoço, e toda ella moldando a estatura elançada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe déra, tão sapido de delicias inéditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamára uma pastilha de harem.
--Além de que, tenho fé que a menina vai d'aqui a pouco mudar de tenção. Olá se vai!
--Que está a rosnar, Ezequiel?
--Nada, nada. Aceitar, que quer dizer? É um presente: meu amo não pede nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu cá recusei deitar-me co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo bom relogio de oiro. Gente pobre põe de banda orgulhos tolos. É metter n'algibeira, menina Luiza. É de boa creação.
Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetões da marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos, velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as aguas e de todas as côres. O mal da pedraria, que faz cúpida a mulher do alto luxo, Luiza não podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de camareira. Vagamente ella entrevia a seducção d'aquellas faiscantes areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concessões, sem todavia desconfiar que atmosphera mordente põem de roda á belleza, as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo á senhora marqueza? Boa idéa. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha passára mal durante a noite, vomitos sêccos, uma ponta de febre, e a manhã passou-se n'isto. A marqueza não tinha querido erguer-se da cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio. A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro, executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vêr o tempo. E só pelo meio dia pôde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor que levava aos quartos de Ruy, não longe dos quaes demorava Ezequiel. E Luiza começou um _toilette_ minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o banho, em que ella entornára meio frasco d'agua flórida. E sobre a commoda, o cofre aberto, deixava vêr os presentes do marquez. Das gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem fina e trabalhada por ella, saias brancas--era um domingo--e d'uma gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz á vista, sobre o pequeno movel de cabeceira. Já uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante do espelho, com a friorenta graça, um pouco crispada, d'um faisão que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua tépida. Desnastrára os seus cabellos, que eram grandes, espiralados, bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os após sobre a nuca, n'um grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos frisados, soltavam-se-lhe do turbilhão de cabellos, por brinquedo, cocegando-a na pelle doirada do pescoço. Emfim a camisa cahiu; e era assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelações e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluços d'insaciavel peccado. Mesmo, á volta da banheira, dirieis que as coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, rapazes, parece crystallisar em bellezas inéditas, toda a luxuria em que as gerações têm urrado, sedentas da fórma, ha tantos seculos! Que bazar de tentações delirantes era o seu peito, que duas pétalas de rosa maculam, tão altas, tão iguaes, tão erecteis, que antes pareciam beicitos de criança, estendidos n'um momo candido para aceitarem o beijo d'um velho amigo da casa.--E mergulhou, espanejada, dilatada de prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaços chapinhava a agua, immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas respirações se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros. O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutação impreterivel dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braços, absorvente e pantanoso.
Uma hora no relogio do corredor.
Ainda agora Luiza não sabe explicar, como é que tendo jurado a si mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho em frente ao espelho, núa como Cypris na areia de Cythéra, ensaiando o effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos attritos da esponja. Á medida que ia fixando sobre o espelho, tantos e tantos detalhes de perder a cabeça, passava no clarão dos seus olhos o mudo extasi de si propria, e a coriscação do oiro novo, nas flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E comsigo mesmo acabou por achar razão a Ezequiel. Por fim de contas, aceitar que quer dizer? É um presente. O senhor marquez não pede nada em demasia da offerta. Virava a cabeça para vêr o luzeiro dos brincos, ageitava o colar, punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora, appetecivel! Se Ruy pudesse vêl-a a plena luz, assim despida, e sem a hypocrisia do mais ligeiro véo, talvez que elle sustasse de vez tantas repulsas--ai, talvez!--e viesse cahir-lhe aos pés absorvido na sua belleza immortal. Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos, ventre a ventre, se evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse instante, rimado a beijos, labio a labio; esse divino poema, através de cujas estancias rola a batalha do gozo, e do calice de cujas imagens gotteja a tripla-essencia das mais celestes devassidões! Duas vezes ou tres desenrolára a camisa, esfregando-a da gomma entre as mãos sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador, furiosa por dar-se, n'um paroxismo que ia até ao deslumbramento. De repente pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo. Enfiou a camisa á pressa, atarantada; pé ante pé foi indo de mansinho até á porta, receosa, d'ouvido á escuta occultando a nudez por traz dos reposteiros. Não se enganára. Estava entreaberta a porta do corredor. Então lançou um chale pelos hombros, enfiou as chinellas á pressa, sem se atrever a perguntar quem andava lá. Mas deu um grito de susto, vendo Ezequiel diante d'ella, lívido de morte, tremulo e babado como um satyro decrepito.
Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da peça, buscando encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro que se fosse.
Porém este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella visão de mulher núa, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos da bocca.
--Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os olhos,--o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemecê.
--Bem, bem, vá-se embora. Ande! Não ha maior atrevimento.
--Ouve, Luizinha, rica filha, eu já me vou. É uma coisa que eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E tão núasinha, tão boa, Jesus do céo!
--D'aqui p'ra fóra! Já! Ou chamo gente.
--Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moços e velhos, anda tudo atraz de ti. É uma canalha, já t'o disse, é uma canalha. Até me propuzeram que te amordaçasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo, aquelles ladrões.
A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.
--Pelo amor de Deus! supplicou elle. Ouve-me ainda.--Estou quasi rico. Estou velho. Oh, chega-te a mim! Podemos casar. Ámanhã. Hoje mesmo. Filhinha! Que és bonita d'offender a Deus no céo.
Estendia os braços para cingil-a, co'a lingua sêcca na bocca, e alongando os beiços lividos contra os claros de nudez que lobrigava.
--Anda commigo. Sahirás d'esta espelunca. Só em Lisboa, tenho doze contos no banco, á minha ordem. Pratas, inscripções arrecadadas ao canto do meu bahú. Ouve, Luiza! Tu matas-me, diabo! tu estás deitando a minha alma no inferno. Um beijo só n'essas carninhas. Deixa dar. Que mal te faz?
E vergado á tremura senil dos debochados, Ezequiel cambaleava, crispava-se, indo para ella de rastros, assim como um cão leproso conquistando a codea que lhe negam, sob golfões de chicotadas.
--Não tenho herdeiros. Um pobre velho! De hoje p'r ámanhã posso morrer. Lembras-te do que te tenho dito? Os conselhos, os mimos... tristezas que eu soffro por causa de ti. Eh! Eh! Está decidido que aceitarás.
Então conseguiu agarrar-lhe um braço, o que desligou Luiza das algemas nervosas que a sustinham, estarrecida, perante o sapo de cujo visco escorria tanta lascivia torva d'impotente. Houve uma lucta. Os cabellos de Luiza rolaram.
--Larga-me, ladrão! dizia ella n'um choro baixo, rapido, soluçando em convulsões. Comtigo, nem morta, estupor! Doira-te, a vêr se eu te não cuspo n'essa cara. A tua vida, todos a conhecem. Devias andar na costa d'Africa, amarrado com cadeias a algum canzarrão da tua parecença. Larga-me, larga-me, quando não dou cabo de ti!
Elle porém, retendo-a, sem violencia ainda:
--Tu deves lembrar-te, Luizinha, do bem que eu te tenho feito. Os teus desejos, ando a adivinhal-os. O teu nome é-me sagrado em toda a parte. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!
--Rua d'aqui! De quem eu gosto é do menino. Eu hei-de ser d'elle por força. Inda que eu haja d'entrar na vida depois.
Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma das mãos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. Áquella affronta, Ezequiel perdeu a cabeça. As obscenidades golfaram-lhe da bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da sua alma. Ella estava de pé junto da porta, quasi núa, sem se importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o marquez. O velho viu-as.