Chapter 14
--Amanhã peça nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vae enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. O melhor papel para a Velledo! Ella que até agora só fazia os pezados centros dramaticos, _Joanna a doida_, a _Mulher que deita cartas_... entra n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escóla moderna. Eh! Eh! que diz a isto o scintillante Lindôso? O publico tel-as-ha na mesma noite, as duas, face a face. Elle é imparcial. Julgará.
E emquanto a raiva branca epileptisava o outro--Amanhã os jornaes saudarão a eminente actriz, pela penna dos mais festejados escriptores. E na noite da peça, enchente á cunha, bilhetes a libra, uma chuva de corôas. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Velledo. O que escrevem contra ella é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de canalhas vendidos, a começar por ti.
--Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, já hoje lhe advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? És dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem pão muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro, expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto, esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexivel, chamou o creado.
--Isto ao jornal.
--O jornal não publicará, disse Lindôso.
--O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.
--Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!--Era quasi noite.
--Nao. Dormes cá hoje, tornou Rogério.
--Vou gritar, n'esse caso.
--Hum! Não cahirás em semelhante tolice. Ao primeiro berro, amordaço-te, e passas a noite n'uma camisa de forças.
--Mas isto é inaudito!
--Creio que sim.
--Hei-de tirar uma desforra.
--É da ordem.
--Mas quando me deixam sahir então?
--Quatro da manhã. Hora em que a tiragem dos jornaes está toda feita. E coração ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas. Isto aqui não é agora nenhum carcere; podes circular pela casa toda. Hein? Não me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e não ha vintem por cima das mesas.
--E promettia-me dez libras, _isto_!...
* * * * *
Quem hasteava a Velledo era um grupo d'escriptores de pulso (como então se dizia) feito do pae nobre Tiburcio, critico Borbas, festejado Peres, Rogério, Moreira das magicas e os inimigos d'Alcina. Uma espécie de cenaculo, que receando a decadencia da scena, se impuzera alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos _conspicuos quanto experimentados_. Esta tropa de massadores, quasi todos carecas, decidira pôr dique á sedição de Pirralho e Lindôso, creando o _Binoculo_, semanário que definiria a missão do theatro, pondo em relevo as regalias dos auctores, e encarregando-se de catalogar os comediantes pela ordem e genero dos meritos que patenteassem: quem havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...
A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido n'uma botica da rua do Amparo, com penna e tinta para tracejar das resoluções adoptadas. E houve logo disputas sobre o titulo da folha.--_O Binoculo_, dizia festejado Peres.--_Arte de Talma_, opinava pae nobre Tiburcio.--_Diabo Verde_, era o parecer do Moreira das magicas. Porém Borbas, um auctoritario que tinha o culto das civilisações antigas, disse logo: _O Capitolio!_ Cada qual então pediu a palavra afim de justificar o seu titulo. Engalfinharam-se uns nos outros, á descompostura. Como estava vivo de vespera o artigo de Pirralho exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sahir resposta bem official, bem da _mestrança_, que trancasse as doutrinas da escóla avançada. Suspensa a sessão por vinte e quatro horas, cada um foi estudar para casa o que havia d'escrever no jornal, com promessa d'assembleia no laboratorio da botica, ao dia seguinte.
No outro dia, eil-os de volta arrastando as passadas, beiços lividos, olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores auctores. Varios, seguidos de gallegos, tinham feito conduzir annos inteiros da _Revista dos Dois Mundos_. Borbas, em casaca e tira branca, solemne, convencido, radiando uma vasta auctoridade, appareceu com a sua resma d'apontamentos. Aberta a sessão, palavra a um, palavra a outro, combinaram-se notas, organisou-se o plano d'ataque... resultado, duas columnas de sandices e a ideia do jornal posta de banda. Foi o momento de Rogério fazer a sua entrada na sala. Inquiriram todos: então?--Era na manhã sequente á detenção de Lindôso.
--Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo n'um jubilo. Lindôso nosso. Vem o artigo na _Gazeta do Sport_.
--E viva!
--Quasi todos os jornaes fallam da Velledo em quatro columnas e cinco. Grandes letras, titulos d'arromba... _Um genio! A primeira tragica da Europa. Continue progredindo..._
Já vinte mãos cresciam ávidas para os jornaes que elle trazia.
--Venha de lá isso. Venha de lá.
Estendiam as folhas por cima da mesa, tumultuosamente, vangloriando-se dos artigos como d'obra sua, dizendo alto as passagens flammantes. Gritava um:
--Isto soprei eu ao articulista. Outro:
--São as minhas ideias escriptas e escarradas.
--Escarradas sobretudo, insinuava um terceiro.
Nenhum d'elles escrevera uma virgula, mas procuravam enganar-se, dizendo:--é como se os artigos fossem escriptos por nós, visto que demos a substancia.
--E pagos por mim, suspirava Rogério arruinado, auctor e victima do triumpho que elles se attribuiam. Mas Borbas, esfregando o nariz como um botão de campainha, rosnava com entonos de leão:
--Tiveram medo. Inda valho alguma coisa.
_D. Maria_, essa noite, offerecia o mais bizarro e pictoresco aspecto. Uma furia revolvia a turba na plateia; havia conclaves pelos cantos, palavras altas; gestos doidos sahiam dos grupos, accentuando alguma affirmativa audaciosa--e os decididos declaravam que havia d'ir tudo raso! Já os informadores de jornal, correndo os olhos pelos camarotes, de carteira aberta, tomavam nota dos nomes e _toilettes_. Aqui e além, pelas ordens caras, faziam-se ruidos vagos, arrastar de cadeiras, risinhos cantados de senhoras: um _bournous_ desacolchetado no fundo d'uma frisa, distrahia subito as palestras, e luminosas espaduas gottejadas de diamantes, vinham á luz do gaz espanejar brancuras exoticas de magnolia. Toda a galante guarda de semi-mundanas, destacava pelos logares de honra, os seus estapafurdios couraceiros, todos os typos, trajos e côres de cabellos. Laura a _condessa_, em pellucia verde pavão e rendas pretas, tincta de loiro essa noite, punha um bonnet de pennas delicioso. Luiza em escarlate, bordada de vidrilhos, admiravelmente grande e bem feita, dir-se-hia brotar d'um cacto com a rebeldia d'um génio de volupia e ruina. Hermine, de damasco branco, decotada até ao ventre e coberta de geraneos pallidos, soberba de carne, divina d'impudor, affixava o seu riso de bacchante, vago, inquietador, sem ponto de mira, como essas estatuas d'Egino que riem ceifando cabeças.
O sport era feito de figuras bassas, estranhas, espigadas, bonitas algumas, e com um tom d'elegancia doentia. Uma especie de figurino geral corrigia os typos, dava o rythmo dos cumprimentos trocados, parecia decretar do entono da pronuncia, e haver stereotypado das boccas, o mesmo modo de rir altivo e frio. E apontavam-se as figuras salientes--o marquezito de Selmes, imberbe, loiro, quasi ideal, com vicios perversos e um geito cynico na bocca de cherubim: tão predestinado a gommoso, que apenas parido, entrára a pedir cognac e vinte libras, afim de se abalar _chez Tata_. Junto d'elle, o visconde de Palhalvo, de craneo em pera, com bochechas immensas que lhe esmagavam a bocca e o nariz, mostrava nos olhos ternos, genero carneiro morto, a todas as ricas herdeiras, o seu joven coração devoluto. Alberto M., poeta insonso, tortulho ultimo da epocha romantica, muito estimado nos salões, e causador dos mais finos adulterios, debruçava-se todo para uma viuvita loira que vinha d'aliviar o luto. E a phalange alegre das ceias nos gabinetes do Matta e do Augusto: mulheres fugidas aos maridos, actrizes sem theatros, filhos de banqueiros, vergonteas fidalgas afundando os ultimos contos d'uma antiga opulencia, medicos em voga, personagens alvares vivendo á sombra d'um nome de familia, janotas pagos por uma velha.
Barão de Murtede tinha-se installado mais a franceza, n'uma frisa de bocca, mesmo em face da esposa e das filhas, que estavam ouvindo contar ao Alfredinho torto, o Alfredinho dos _cotillons_, uma scena de sopapo nos corredores de S. Carlos, por causa de não sei que bailarina americana. A franceza, muito desengonçada, d'olhos pardos, irritante de magreza, quasi diaphana, coberta de signaes postiços, ouvia-lhe distrahidamente uma tolice qualquer, abrindo e fechando o leque, com as suas mãos cobertas de pelle de Suède, que rescendiam heliotropo. A espaços:
--_Oh, que c'est charmant! Oh, que c'est charmant!..._ e fitava com provocação a frisa fronteira, d'onde a baroneza de Murtede fazia olhinhos doces sobre um delegado de barba sedosa, um _vello vaicharel da Veira_, recem-chegado á côrte, que a compromettia na plateia, á vista de toda a gente. N'outra frisa, ao fundo da sala, as Simas, mãe e filha, davam audiencia, antes de subir o panno, a uma multidão turbulenta e esfaimada de _viveurs_. De longe, Hermine lhe fazia signaes, affixando á sala a sua familiaridade com senhoras d'aquellas; emquanto mais circumspecta toda rigorista no seu programa de senhora, Laura, apenas de leve respondia aos cumprimentos que ellas de lá lhe mandavam, por entre macaquices de beijos, nas pontas dos dedos. Na frisa das Simas, aquella noite, era uma algazarra de metter medo; tinha-se installado alli o quartel general da má lingua, e o centro expedicionario das frescatas para depois do espectaculo. A mãe, uma gorducha quasi nova, com dentes chumbados na frente, e o ceu da bocca de platina, branca, myope, dando-se um tic de palpebras muito impertinente, esposa d'um general, e sobrinha, dizia-se, do senhor D. Miguel, tinha começado vida na melhor roda lisbonense, entre os explendores das festas e a convivencia das grandes familias. Habitos de grande vida, tão funestos ás pequenas fortunas, deram-lhe com a casa de bancarrota em bancarrota. Já por fim, ellas mesmas faziam a cozinha, e cortavam os seus vestidos de sahir, convidando as amizades a um chá, todas as terças-feiras, com piano e castiçaes de cristofle, n'um casebre apalaçado ao Bairro Alto, em cujo rez-do-chão, por signal que viera installar-se uma typographia socialista.
Para vir a casa d'ellas, em principio, inda era de rigor ser-se apresentado--mais tarde, o general, intercedido, fez concessões, como era bom homem... pedia então sua meia libra, dez, quinze tostões, e a cada conviva, além do chá, revertia o direito de tratar por tu a dona da casa. O general fôra rico em solteiro, o jogo porém tinha-lhe comido tudo, e a mulher esbanjára-lhe o resto. Uma filha mais nova, Fernanda, toda mimosa na sua figurinha etherea de Gretchen, inda chegou a ser pedida em casamento, mesmo assim pobre e mal educada, por um guarda-marinha que, a adorava, e depois a repudiou, sabendo a vida crapulosa da mãe e da outra irmã. Desolada, e desconhecendo outro caminho que não fosse o da sua singela honestidade, sem vocação para _cocotte_, e sem coragem para costureira, a pobre pequena atirou comsigo ao fundo d'uma cisterna que havia no pateo.
Entanto, já a vida as apertava d'urgencias, dia a dia insaciaveis--o luxo d'um lado--do outro lado a penhora--do outro ainda o general... em termos que a mãe, tomando as redeas da casa, durante o _delirium tremens_ do marido, entrou a dar bailes de mascaras no casebre armoriado, abrindo as suas portas a toda a casta de rodilhões e torpezas. Alli debutaram muitas raparigas na vida galante, costureiritas que os devassos encommendavam á mãe Simas; filhas de pequenos empregados, que entravam no baile em musselina branca, sem brincos, nem colar, accedendo ao appello d'uma amiga de collegio; noivas que vinham ganhar o enxoval de casamento, n'uma prostituição secreta e cheia de rancores; hespanholas retiradas da má vida, por algum amante que as desejasse gosar mais por detalhe... algumas ingenuas, lindas algumas, e outras simplesmente irritantes, pela virgindade physica que traziam, esculpida em desejos, mal sazonados ainda, nos meios limões erecteis do peito.
Durante o dia, era frequente encontrar-se a mãe Simas por todas as ruas da cidade, offegante, enrodilhada no fundo d'uma tipoia, fazendo adeusinho aos caixeiros, rindo para os ociosos das tabacarias, apeando-se á porta de todas as escadas sem guarda-portão. Ia em serviço.--Até á noite, até á noite, dizia ella, apanhando as saias a molhe, por baixo de cujas barras, não raro badaleavam penduricalhos de lama immunda. E esquecida da mala por todos os cantos, voltava atraz, esbarrava n'um taipal, ouvindo sem pestanejar, no seu _aplomb_ de condessa, os apropositos mais desavergonhados...
Dentro de pouco, a casa foi creando fama, pelo expedito das suas encommendas e gosto fino das suas requisições, creando fama sobretudo na provincia, no Brasil, e por essas possessões d'Africa, d'onde annualmente chegam a Lisboa, os mais tenebrosos, os mais acerbos apetites de homem, recalcados na solidão, e centuplicados de força pelos delirios côr d'absintho da abstinencia. Á chronica da casa mesmo, no livro de oiro dos escandalos mais reconditos, tinham vindo jungir-se muitos nomes da nobresa, sangues de mil castas, fibrina dos Gamas, materia corante do mestre d'Aviz, soro e saes de Nun'alvares, Miguel de Vasconcellos, ou algum sapateiro da Bairrada--todas as elegantes ociosidades patricias e dinheirosas, que por Lisboa entreteem o fogo da luxuria, nas saturnaes nocturnas da cidade baixa. A policia, tão meticulosa para com outros gyneceus de menos alcandorados brazões, guardára sempre ante o alcouce das Simas, um mysterioso receio ennastrado de deferencia, alguma coisa como a protecção da lei aos grandes monopolios. De grandes personagens se dizia, que nas dobras d'uma capa andaluza, altas horas, alli vinham beijar, entre duas taças de Champagne extra-secco, velludosas covinhas de barba, divinas de mocidade, surprehendentes de frescura, pacientemente rebuscadas, negociadas, cathechisadas, pelas Simas, mãe e filha, durante uma alcovitice de semanas e semanas; através dos viveiros mais bem fornidos de caça, bairros pobres, casas de modista e bastidores. Os melhor informados, frizavam precisamente, as jerarchias e nomes dos grandes freguezes, apontavam os cocheiros de noite, muito em segredo commissionados para este serviço deshonesto; e outras historias lugubres... gritos de virgindades laceradas, rumores surdos de luctas no socego tragico da casa, sombras correndo em negro, de cabellos soltos, na brancura dos stores illuminados por dentro... Até d'uma vez... emfim, a instituição das Simas, entrada nos habitos lisboetas, fazia-se agora tão necessaria á cidade como os albergues nocturnos ou a Escola Polytechnica.
* * * * *
Farejando a sala, o frequentador habituado, teria podido adivinhar uma especie de plano de campanha na ordenação dos espectadores da plateia, plano sabio traçado por algum grande claquista envelhecido nas barafundas do proscenio. Cada ala de _fauteuils_ tinha o seu chefe. Ao pé da cadeira d'um espectador indifferente, viera installar-se um espectador comprado. Nas primeiras filas, destacando a sua linha temivel de luvas brancas e faces terrosas, installara-se a escóla que protegia a Velledo, na pessoa de dez ou doze escriptores cambados, e uma tropa de conselheiros e velhotes de bom tempo, por cujos leitos a actriz espargira os perfumes talvez do seu banho matinal. Festejado Peres e Moreira das magicas, inquietos, encasacados, cavalleiros de Christo, profusos d'adeuses e abraços, tinham-se postado ás portinholas da sala como duas fuinhas, passando palavra aos que iam entrando, distribuindo poesias, pedindo applausos descaradamente. E ao passo que o brasileiro cuidava da ceia, com profusão de flôres e philarmonicas, Rogério levára ao Monte-pio os ultimos penhores que pudessem pagar um brinde a essa mulher que o entontecia e deslumbrava. No momento de descer a escada da Velledo, ainda o dramaturgo estava decidido a romper com ella. Porém cá fóra, a sua indole cobarde, amollecida de desejo, perdidos uns restos de pudor, tinha concebido possuir a todo o transe aquelle bello corpo de espuma e rosa, custasse o que custasse, uma só noite que fôsse--e assim organisára a reunião de criticos no laboratorio de pharmacia, a detenção de Lindôso, o chuveiro de panegyricos em todos os jornaes, e emfim a bella enchente d'aquella noite. A imaginação de Rogério fôra de tal ordem e presteza, que Pirralho e os adoradores d'Alcina apenas tinham encontrado cadeiras nas ultimas filas, e camarotes das ultimas ordens. Desterrados para tão longinquas paragens, perdidos por escaninhos taes, facil seria suffocar a pateada que elles intentassem. Lindôso, desacreditado pelo artigo d'essa manhã, não tinha julgado prudente apparecer. Pirralho voltara-lhe as costas, os amigos d'Alcina ameaçavam esbofeteal-o em publico. Já o calor aljofrava as calvas susceptiveis, e as asas dos leques, por centenas, faziam no ambito como um borborinho de pombal.
Á hora de subir o panno, o triumpho negociado por Rogério era coisa decidida ou quasi; e os animos pareciam propensos a victoriar, _mais uma vez, a nossa primeira actriz_. A peça, retalhada a dialogos scintillantes, era alguma coisa no genero Sardou e Dumas filho, estapafurdia como senso dramatico, mas irritante d'ironias e perfumada de gentilissimas graças--um adulterio desculpado por theorias de folhetim, em cuja imoralidade ninguem fizera attenção. N'essa comedia, toda sublinhada com uma rara finura, esfuziando os paradoxos por jorros e as mordacidades por turbilhões, sem entrecho quasi e profunda não obstante, combinando argucias de gentil-homem com sahidas de garoto, imagine-se o que faria a Velledo, quasi gorda, chegada aos quarenta, com gestos atufando-se na plastica sólida dos braços, e não possuindo já a nervosa vida de scena, inspirativa, momentanea, nem já podendo facetar pelos entonos da voz, as mil intenções e subtilezas de dialogo, d'uma peça toda intellectual como aquella. Em compensação, as _toilettes_ de rigor, os setins roçagantes, os _pufs_ d'estofo adamascado, bordados de flôres, plumas, franjas e peitilhos de contas, iam direito á fascinação das burguezas. E apenas ella appareceu, foi na sala um borborinho atufado--_sss... sss..._--alguns tacões bateram ainda, e houve nas torrinhas um bocejo em voz alta, intencional. Mas estava calculada a reacção. De varios pontos, subito, ao mesmo tempo, sahiram palmas destacadas, quatro ou cinco vezes gritando:--bravo!--e uma formidavel salva revoou no theatro, louca, ensurdecedora, como nunca se vira. Vibrado o centro emocionavel da turba, podia a peça ter corrido como quizesse, bem, mediocremente ou mal; o resultado tinha de ser uma victoria. Foi assim que no segundo acto as chamadas eram já tantas, que Velledo fatigada, resolveu, desmaiar em scena. As flôres enchiam completamente o palco e choviam sem conta dos camarotes. De pé nas cadeiras, debruçadas lá cima das torrinhas, centenas de figuras batiam as mãos; e Rogério achando ainda uma scentelha dos juvenis enthusiasmos d'outr'ora veio á scena offerecer-lhe um volumoso cofre de sandalo.
Disse-lhe rapidamente:--a peça nova fez successo. Cumpri a minha promessa. Espero não esquecerá a sua.
--Obrigada, disse ella, estendendo-lhe a mão, e a sua voz commovida, dir-se-hia fluctuar n'um lago cerulo de promessas d'amor.
INDICE
Aves Migradoras, 5
O Sineiro de Santa-Agatha, 71
Pequeno Drama na Aldeia, 117
A Provincia, 171
O Juramento da Condessa Esther, 195
Coronado, 209
A Eminente Actriz, 231