Chapter 13
Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de pés, que perturba de morte os actores, e tem feito o _de-profundis_ de muito drama e comedia. Contra inanição semelhante, era conhecido no palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava á dona Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:--_sss_... giralda!--Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a situação, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas finas, e servindo nas occasiões desesperadas, desde que estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou um caustico, no intuito de suppurar ovações. Apertada n'elle, a grande Velledo ficava pouco menos de núa, contando bem da cinta para cima. Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o octogenario marquez das Berlengas, um galante da _sociedade do delirio_, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos braços d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rôto, em fralda de camisa, como estava, o _desdichado_!
Esse collete, justo atraz por um cordão de seda lasso e cruzado, recordava uma _corbeille_ d'onde espumasse a radiosa floração da sua carne, musical e superabundante--e seios turgentes gottejando rubis das mamellas; braços torneados, á Clodion, desde o punho até aos hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o frio marmore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e sã.
E apenas ella entrava assim eloquente e vil, um rumor corria por toda a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das varandas vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns contra os outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a tempestade de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo. Havia no ambiente podre revoadas de _sss_... E a excitação, como uma cheia, afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade humana, e pondo á mostra a torpeza physica dos mais graves funccionários. Era então que se viam velhitos da mais austera prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos--juizes, antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de secretaria--furiosos d'amor canino, e dando a sua opinião d'olho esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, tão nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi núa, corria-lhe na carne um arfar d'emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a narina n'um frémito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella pela sala deitava. Erguia o braço n'um movimento afadigado; e viam-se cabellitos na axilla, muito pretos. O arco das duas sobrancelhas, quebrado em accento circumflexo, exprimia maravilhosamente o desdem. E suspensa, a sala aguardava que ella fallasse.
--_Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me tinham dito que era; cobarde nunca!..._--e ao meio da scena, n'uma colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel sacerdotisa:
--_Saia!_
Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.
* * * * *
Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogério declarou-se a Velledo, n'um portuguez que a actriz não usava escutar lá muitas vezes. Fôra n'um escaninho do palco, durante a mutação de scenario.
--Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.--Elle compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixão. E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.
--Dizer-m'o não basta, tornou a eminente actriz. É necessario que m'o prove.
--Mas como? disse elle surdamente.
--Isso não é commigo.
E depois d'uma pausa:
--Ha talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?
Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca do colo d'ella, redondo e nú, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a, apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado á força. E n'um desvairamento, agarrou-a pelos dois braços sifflando, engasgado de furia.
--Cala-te estupor, cala-te diabo!--Era n'uma sombra de panno de fundo, que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo, cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogério tinha-a cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, signaes de dedos crispados, babugens de raiva lubrica, que no pó d'arroz deixavam listrões nojentos de vêr. Enxovalhada da brutalidade, a Velledo chorava, gaguejando:
--Infame! Infame!
Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da túnica cahira, violentamente roçado. Rogério ficára a resfolegar n'um canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir alto entre os bastidores. E mal o galã disse--_é ella, conheço-a, o coração m'o diz!_--entrou em scena radiante e magnifica, monologando para si:
--_Elle prometteu-me que viria. O seu amor é leal. Virá de certo_--e n'uma expansão d'amor:--_adoro-o, sim, adoro-o!..._
--Has de cá cahir, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a tristeza em que o viam, com subtis allusões á actriz. Nos camarins não se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecára as ultimas propriedades, perdia ao jogo, e mandava á Velledo todos os dias, uma grande _corbeille_ de camelias e rosas confeccionada no Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella colleccionava com paixão, _bibelots_ de Sèvres, pratos e _netskés_ do Japão, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peças vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo, regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços escandalosos. Como amador de _bric-à-brac_, Rogério era uma besta, chegando a pagar por libras monos de loja de chá, fallidos de todo o merito. Velledo encolhia então desdenhosamente os hombros, mirando a bugiganga. E com irónica piedade:
--Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da provincia. Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayança repetida, qualquer peça que ella pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar indicado. A actriz impacientava-se então, fazia momo com o seu beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vasias.
--Se elle é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.
E predilecções de momento, ambições por quanto via nos armazens, e logo tédios pelo que ia adquirindo. Em dias de nervos quebrava, mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que tendo feito das impressões violentas um habito abusivo, desesperam por fim, se acaso em vão apoz ellas correm. Tão raras as horas de bom humor, que Rogério, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como recompensa disputada. Esse homem altivo cahia aos pés da sua gata sabia, em pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E sobre a posse tão ardentemente implorada, nem rastro d'esperança! Se ia beijal-a com mais furia, se a queria enlaçar pela cinta, ou a respiração cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella logo de pé, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.
--Olhe que me não esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?--ou fazendo saltar o _lorgnon_ Regencia:
--Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto é do brasileiro.
Mezes passavam assim. Se por um lado Rogério não adeantava com a actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferença estalára aqui e além, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso. Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos, punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou conseguia rir das graçolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher--e assim conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi, as intimas juventudes do seu coração, uma singeleza timida e crédula, uma especie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face daquella grande rainha da scena, e pequenas attenções balbuciantes para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e humilhações inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de lagrimas.
Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de continuo enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma gravata de coleira á volta dos collarinhos molles, esse mudo velho, parecia marchar somnambulo na sua idéa fixa, dolorosamente algemado á sua paixão como a um cepo de patibulo, para toda a gente affavel, dizendo _muito obrigado_ á creadagem, orgulhoso de ter em casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a edade já fazia grotescos, desdenhado, repellido, porém fincando sempre nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes. Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter resultado, foi sempre mantendo á vista d'elle, uma reserva polida, quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um asco a desconfiança. Os risos d'elles, ao toparem-se, no serão da tragica, eram um espremer de beiços seccos, com distillo d'amargura. Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de desgraça, que lhe varresse a Velledo, como uma _nau dos quintos_, do mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem. E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um segredo, favorsinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro signal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro já não passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e enfastiado, mãos febris, não dava palava a ninguem. Em volta ao caso ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, philosopho Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos positivo-publicistas, lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e interior, a gestação laboriosa d'algum grande livro. Actores, já o tratavam de resto, não o sentindo como outr'ora, generoso d'emprestimos, e tão prodigo d'alegres ceias no _Gibraltar_. A primeira vez que appareceu sem relogio, fumando cigarros de mendigo, quasi todos, achando-o pulha, lhe voltaram as costas.
Por esse tempo revelava-se Alcina, que passára da opera-buffa ao theatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fôra na Suzanna do _Demi-Monde_, papel de prova, cheio de movimento e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete medonho, e que Alcina fez com distincção surprehendente. Sobre o caso, a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as supplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos na hoste dos que bradavam--Velledo!--e na dos que punham Alcina na mais brilhante evidencia. A prima de Rogério, por conseguinte, passou a synthetisar a escóla nova, como a Velledo era a expressão da antiga arte. Pirralho e o magreirão Lindôso, macacos-pontifices da alta critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de referencias picaras á antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo, segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo de morrer a rir. E dois ou tres _distinctos escriptores e nossos amigos_ estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o que esbanjava em cabellos postiços, e da composição chimica d'aquelles seios esculpturaes...
A actriz Alcina, não! Era a mocidade maleavel e viva, a intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforço, o genio desprezando artificios, e dando-se á plateia em relampagos--e como mulher, uma nympha de Clodion, elançada e viva.
--É necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindôso. A arte é constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...
--Isso é forte, homem...
--Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E d'ahi põe recusas ás nossas mais ternas blandicias. Póde-se lá soffrer!
No entanto crescia o desespero da Velledo, que chorava dias e dias accusando o emprezario, não querendo estudar os papeis, cobrindo a imprensa d'insultos, Rogério e o brasileiro de repellões. Uma manhã, apenas aquelle veio, ella resolutamente:
--Essa creatura que elogiam por ahi, é sua prima, e foi sua amante, já sei. Porque não accedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos jornaes.
Rogério ia protestar. Ella disse--canalha! e mais rapido:--em todo o caso, oiça. Se a peça nova fizer reviramento completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Ha uma condição de que não abdico, note bem. Que essa bebeda seja posta de rastos, fóra do theatro em que eu represento. O resto é com o senhor. Acceita?
Elle poz o chapéu na cabeça, disse:
--Não!--E sahiu como doido.
* * * * *
Chovia, e elle sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile, seguia alagado ao longo dos predios. Dois ou tres amigos chamaram-n'o de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vasio e foi andando. A sua paixão pela actriz, avolumada pela resistencia, obstruia-lhe a livre esphera da deliberação, da acção, e desvairava-o. Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com teimozia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem egoismo e sem calculo, n'uma boa vontade de rapaz. E nem mulher nem dinheiro!... Então recrudescia-lhe o desejo d'ella, e era uma febre bestial d'amor que o espicaçava a todo o instante e lhe fazia delirios. Foi pelas ruas de mãos nas algibeiras, flanando ao acaso na lama. Vendo um antigo freguez, os cocheiros paravam fazendo-lhe signal--e era uma humilhação para Rogério ter de recusar, ou virar a cabeça fingindo não ver. As ruas surprehendidas por essas primeiras gottas de chuva hibernal, tinham sobresaltos e gritos de vida que procura abrigar-se, a um tempo frenetica e contente... mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calças até á origem das polainas, chamando os trens, ou entrando á pressa nas escadas.
O ar frio dava ás epidermes das mulheres um côr de rosa mais pudico. Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazens de modas, em cujas _vitrines_ se encontravam já densos estofos, chapéus e capotas do ultimo modelo. Lisboa, que voltava das praias e estações d'aguas, procedia á sua installação, buscava nos livreiros as ultimas edições, lia os cartazes dos theatros, escolhendo a sua noite, dictando a sua _toilette_, familiarisando-se com os aspectos das ruas e o rolar das carruagens. E a cada instante, Rogério tinha de fazer um signal aos conhecimentos antigos, actrizes dos pequenos theatros, jornalistas, _dandies_, horisontaes; toda a mascarada elegante passeando os primeiros paletots estofados, no giro da evidencia e da moda. E intimidades que roçavam pela fadiga do seu casaco um velho dito maldoso, desdens que lhe acenavam de longe co'as pontas das luvas amarellas, piedades vis que o lastimavam, ou peccadoras que lhe riam pela ferida dos beiços pintados, tendo partilhado outr'ora o luxo dos dias aureos de Rogério. Parece que tinha combinado cruzar com elle hombro a hombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas de chic!--Primeiro Laura, a _condessa_, uma soberba rapariga que explorava um club de velhos, e era gosada por acções. E as mais: Annita, que surprehendendo a primeira sombra na face, ia casar com um judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito phosphorejavam as monstruosidades dos harens da Asia; Luiza, alta, morena, sã, com os seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de _commis-voyageur_... E o pobre auctor de preoccupado, nem reparava no espanto e na commiseracão com que o fitavam. Uma patifaria sem nome, quererem voltal-o contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja carreira difficil ella percorrera toda, sem auxilio nem reclame! Doida, boa, sincera de mais, e por isso mesmo enganada sem rebuço. Eil-a ahi na celebridade, chegando ruidosamente ao pinaculo, musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsal-a do primeiro theatro--que negra infamia pretendia então a outra d'elle? Chegara ao jornal do Lindôso sem dar por isso. Subiu. Inda não tinham sahido das repartições, e a redacção estava deserta.
--O snr. Lindôso, disse Rogério para o gerente.
--Primeiro gabinete, á esquerda.
Estava lá. Ora viva! disse Rogério.
--Sei a que vens. Não posso pagar-te inda hoje. Sê benevolo uns dias mais. E volubilmente:--Então sabes? Os constituintes venderam-se. Estou aqui a rachal-os de meio a meio. A que chegámos! E mostrava os linguados escriptos--Lisboa vae vêr o bom.
--Eu cá, disse Rogério, vinha para outro negócio. Janta hoje commigo. Tenho lá baixo um trem.
--Demonio! pois sim. Ao _Central_?
--Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparavel. Pulcheria se chama. Então a mais acrisolada sciencia nos molhos! Tenho um Murillo no quarto, que outro dia, sentindo o olor d'um bacalhau confeccionado por ella, sahiu á casa de jantar acceso em fome.
--Raio de cozinheira!
--Vens d'ahi?
--Dois minutos para terminar a demolição d'um partido politico. E como se porta na lebre ensopada, essa tal Pulcheria?
--N'isso então! Imagina um d'estes acepipes tenros, alpestres, perfumados, extranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vae ella, chega-lhe ás ventas carneiro com batatas--e o morto pega a bailar no meio da casa.
--A caminho, fez o outro espicaçado pela fome de quarenta cães sem dono.
A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam elles a sua entrada no escriptorio. Rogério fechou a porta da escada e metteu a chave na algibeira.
--Ah diabo! exclamou Lindôso com uma palmada na testa. De todo me esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnifica! Artigo para o publico, está claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre nós, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para nós, era quasi infantil.
Rogério, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro! pensava elle.
--Nem admira, continuou Lindôso. Tu, o que ha de mais moderno no estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!? Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramatica. E olha que influe alguma coisa, a gente não se chamar Walter Scott ou Shakespeare, menino.
--Sopra-te o vento d'outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre a Alcina...
--O artigo para amanhã é superior. Vaes vêr que maravilha d'analyse e graça humoristica. A sagacidade do Taine na fórma irisada do Wolff. Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de lucta, e regeneramos o theatro portuguez.
--Trazes o artigo?
--Vou lêr-t'o. Ficas assombrado.--Mas onde foi elle buscar este vigor de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.
Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que lêsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem não receia lhe tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no tom desdenhoso de quem trata subalternos--e uma vez alli, tocava na Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle, não era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a _pose_ esculpida na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida, tola, velha, quasi feia...
E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempção pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...
--Admiravel, hein?
--Pois sim, fez Rogério retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa canalhice?
O outro, embasbacado! Quanto ganhava?
--Ora essa! Eu não trafico com o sacerdocio. É convicção.
--Sabido! O artigo de hontem trazia as tuas iniciaes. Publica o de hoje com o nome todo; tens dez libras.
--Hein?
--Sómente onde estiver Alcina, porás Velledo, e onde Velledo, Alcina.
--Que quer dizer toda essa cantiga?
--Nada de scenas. Entre pulhas, o descaramento é a alma dos negocios. Dez libras para virares d'opinião. Recusas? perdes o dinheiro e quebro-te as costellas. Tão certo!...
Lindôso fizera-se verde, queria-se erguer, não podia; e tudo era olhar para a porta, calcular a retirada.
--De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulcheria... Traste!
Rogério nâo respondeu.
--Mas tu? a ferro e fogo com a Velledo, porque te voltastes á ultima hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmonisa.
--Faz as emendas que te disse, tornou Rogério docemente.
Mas o desenterrado hesitava.
--Com quem imaginas tu que estás falando? aventurou-se elle a perguntar.
Rogério agarrou-o pelo pescoço, como as cozinheiras fazem aos gatos lambareiros.--Anda! Senão desfaço-te! Senão atiro comtigo da janella!
--É violencia. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz de Rogério rebentou n'um estampido.
--Olha que eu estrangulo-te. Escreve!
Fez-lhe pegar na penna.--Emenda!--E roxo d'asphyxia, cyanosado, humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogério agarrou no artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para Lindôso corrigir--Agora assigna!
O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assignou.
--Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.