Chapter 12
Era a Velledo. E atraz d'ella pelo braço d'actores, maridos ou coisa parecida, outras actrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria Freitas... Os trens esperavam á porta do theatro. Falando ao mesmo tempo, n'uma alegria de boa gente que alarga o coração, essa sociedade foi abandonando o _foyer_. Havia de todos os generos, modestos, espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de má lingua, os de má fama, e trambolhos lyricos, gente infeliz ao jogo e fanada de orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discipulos, citando descobertas e ramos de sciencia que mais peso causavam no seu caco de homem celebre, pelo arrevezado das designações, forçando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas por um burlesco d'encomenda. No alarde d'erudição e individualidade que o preocupava, as citações saltavam-lhe aos magotes, desordenadas, occasionaes, n'um fogo d'artificio a duas côres. Ás vezes calava-se interdicto, circunvagando as lunetas, na desconfiança de haver sido vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-n'o para algum paradoxo applaudido, farejavam-n'o os discipulos por todos os lados, inquietos, com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das gravatas do grande homem, os seus sapatorros inglezes, e o largo gesto que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham recolher palavras da sua bocca de semi-deus.
De seu lado, o desenterrado Lindôso abotoava modestamente o casaco de botões recomidos e cotovellos surrados, não tendo ainda _coterie_; e humilde, olho aceso, faulhava d'inveja sobre os que iam de braço com femeas, sentindo as primeiras seccuras do amor vicioso. Então foi um movimento alegre de partida, um borborinho de risos e vozes que já não procuravam entender-se. As senhoras carregavam sobre a fronte os capuzes das _sorties-de-bal_, rendas de froco, ou simples tules picados de abelhas de oiro; e pela escada, apanhando os vestidos n'um desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e esses primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra etrusca, pela expansão esvasada e alta das curvas. Laura, uma loira redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo braço do festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretensões ainda de galanteria e elegancia. E a cada passo ella deitava-lhe a cabecinha no hombro, mostrando os dentes miudos. Maria Freitas era uma grande morena, esqueletica e muda, a quem davam papeis de velha, para que sempre tivera vocação. Não tinha amor permanente, e como quartos d'estalagem, alugava a quem vinha, o seu coração hospitaleiro. Entanto as collegas toleravam-na, porque apesar de tudo era util, e pelo contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco, os olhos de Elisa começavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas nas palpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas lá longe, nos dias de crise frenetica, se incendiam ante collegiaes frescos, d'ar timido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco, cheia de signaes, grande talento de comedia, e tendo pelas mulheres o desprezo d'um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito á rua. Rogério deixára-se ficar, na esperança de dar o braço á Velledo, que tambem aguardava o quer que fosse. E quando ia offerecer-se, viu-a voltar-se contra o brasileiro, pôr-lhe no hombro a mãosinha calçada em luva de canhão molle, a dizer-lhe com a bella voz de scena:
--O meu amigo será bastante bom para me deixar o seu braço?
Ficou attonito a semelhante desfeita! Quanto por ella tinha feito era sem preço--a ceia, o drama, as _toilettes_ d'apparato... E enxotado! Mas jurou alli mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou á rua, já toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonára os velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para n'uma velha tipoia se enroscar entre os seus ricos frangãos da geração moderna, aos empurrões em pae Tiburcio, e mandando á fava a historia brejeira que elle insistia em contar-lhe. Maria Freitas installou-se nos joelhos de Moreira, n'um pequeno _coupé_ d'aluguer, á direita do festejado Peres, e á esquerda d'um revolucionario côr de melão, que insubordinava Alcantara com discursos socialistas. No meio da rua, mordendo o bigode com melancholias de birrento, Rogério procurava companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas estender os braços de dentro d'um carro, e puxar Laura, a quem genial Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pallida Ophelia. De duas carruagens ou tres, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como doida, ella ria de cabeça para traz entre os desavergonhados, debatendo-se na furia dos abraços. Hirto como um lacaio, o brasileiro escancarava a portinhola d'um bello carro de noite, servido por cavallos claros, e moços de taboa aguardando de pé que ella entrasse. A eminente actriz circunvagava a vista em procura d'alguem. Como Rogério se tinha approximado um pouco, á semelhança d'estes cães batidos que veem de rastos para o dono, ella, n'um rir cascalhado, disse-lhe assim:
--Ouvi que não tinha gostado do meu desempenho no segundo acto. Um homem difficil, o senhor. O monologo então, detestavel! Mas podia ter-m'o ensaiado, com o seu ponto de vista.
--Mas, atalhou o pobre auctor balbuciante, eu não disse...
--Se a peça tem musica, foi ella dizendo com volubilidade, quem fazia uma creação unica, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a proposito. Que faz _isso_ agora?
--É cruel o que está a dizer.
--Justiça ao merito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute... Que infeliz eu tenho sido com os genios d'incubação demorada! Talvez inda arranje um remorsosinho por tanta incapacidade.
--Lá se lhe é agradavel fazer-me soffrer...
--Diga á Laura que tem logar aqui. Ella só--e como elle aventurava desculpas n'um tom de collegial submisso:--mau! perdemos tempo.
Rogério foi chamar a ingenua, que parou logo de rir, e sem dar boas noites aos que pensavam detel-a, veio lesta anichar-se no carro da Velledo; e foi em surdina uma altercação entre as duas. O brasileiro atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogério. Quando um pobresinho gemeu ao pé do dramaturgo:
--E eu?--Era o pensador Horacio tiritando sob a nisa rapada, com olhos de fome e gestos vasios de mãos.
--Que é? perdeu o capote? disse Rogério distrahidamente.
--Não acho logar, meu bom amigo.
--Pois enfie por ahi, grande massador.
--Ponhamos a questão nos devidos termos, ia começando o desgraçado. Enfiar seria...--mas Rogério agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do chão vigorosamente, e arrumou com elle para a almofada d'um cocheiro.
--Nós cá, pronunciou Lindôso dando o braço ao dramaturgo, iremos a pé, ha tempo de sobra. E venha de lá um charuto ao seu amigo, venham de lá dois!
* * * * *
--Não me dirás, começou elle, porque razão pouzam com tamanha filaucia estas sirigaitas d'actrizitas, que segundo parece, fazem a honra de ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinoüs não era positivamente meu pae. Mas sinto-me bastante feio para ser sympathico a uma mulher; e a lingua em que solicito d'ellas algum favor pequenino, pequenino, é um portuguez todo metaphoras côr de ceu, e com o agridoce das ginjas garrafaes. Já digo, é-me odiosa a meia mascara. Mulher completamente honesta, ou então mulher completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o monstrosinho defecante que se chama a femea dos nossos palcos, especie de tatu dessorado e desgeitoso, que nem arte põe no prazer, nem teve a coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca alguem primiu polpa de actriz luzitana, donde não sahisse logo algodão, palha de centeio ou cautchu. Olha que ha-de ser do clima.--E depois de um silencio--Dize cá. De que ceu artistico choveu esta Velledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar d'uma maritornes, essa dona, meu filho! Hombros, talvez, não discuto... Mas como artista, é uma tragica de feira. Mulher boa para sophá d'um pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalhão d'assombro. Mas d'ahi ao talento, que insondavel abysmo vae!...
--Eis o que eu digo tambem, notou Rogério, picado.
--Pois meu filho, o asteroide dispõe do mais quantioso orgulho, que tenho visto fazer teia em cabeça oca de mulher. O modo de receber então. Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto, dando beijamão aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e não tinha ainda podido escutar tamanho obelisco dramatico. A tua peça arrastou-me, não admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra, comprometteu-te, achatou-te. Cuidas que és ainda o Vasques? Mas não! Estás feito n'um pataco macanjo.
E como o outro ria, o desenterrado proseguiu:
--O segundo acto então, fez-t'o ella em frangalhos. Que falta d'intenção, que _gaucherie_ de piso scenico, que berros e que tregeitos de maritornes! Castello Picão e Rua das Trinas _jouant la duchesse_. E todavia ha n'esse acto um monologo, artificial como reconstituição historica, porém habilmente instrumentado como crescendo d'estylo.
--Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-m'o ella. Imagina que acaba de me passar uma sarabanda em fórma, só de me vêr frio no fim do segundo acto. Sabe que me faz doido de desejos, abusa d'esta fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. Se lhe vou dizer qualquer coisa, é capaz de não representar mais a peça.
--Eu a arranjo, deixa tu estar.
--Diabo! não lhe vás para ahi dizer...
--Homem, não ponhas a tua cubiça pela femea acima do teu amor pela arte. Ou se é artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem fiança estarmos tolerando a desmoralisação que ahi se vê por todos os ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras colligadas pelo rèclamo, tolhendo o passo aos talentos validos. Litteratura ingloria, atravessadiça e somnambula. Litteratura filha de paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado--e animando-se:
--O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets para o tracejar. Basta vêr o que se passa. Por toda a parte jovens espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as amantes, e deitar por terra as religiões e as sociedades. Na mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vão uns com dominó de Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppée. Sahem do collegio já desesperados, blasphemantes, com o _fatal amor_, as ambições e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da vida social, que á nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes. Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podridões de sepulchros...
Pensadores que não pensam nada: archeologos capazes de reconhecer etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam á porta das escadas--e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam uns de cachexia, e idiotisam outros na adoração da propria _chateza_. Necessario pôr em armas um forte cordão de tropas, que preserve d'um tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me ámanhã: os valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificação em que jaz. Se não ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como em França. A _Comédie_ dá Molière, Racine e Corneille duas vezes por semana. O mesmo nas _matinées_ do Odéon. Não prestam os artistas? É derribal-os, reconstruil-os, ou educar artistas novos. Forçados a dezenas de papeis differentes no espaço d'uma _season_, os actores não profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro, por outro lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem coherencia, estão inaptos para traçar um typo de fortes linhas e energia contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua personalidade. E chegamos a isto--Borbas empunhando o sceptro da critica dramatica, e o borrachão do Peres arvorado em, galvanisador da historia no palco portuguez. A culpa teem-na vossês--distinguindo actores que nem sabem virgular o papel, formando _traine_ nos camarins das estrellas faceis, indo de rastos para os comicos lhe representarem as peças: tolerando n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de pontifices. Inda mais. O espirito das plateias está grosseiro: pouca vibratilidade, nenhum prazer ante as finuras do dialogo, emoção n'uma só corda... D'onde resulta que a _ficelle_ mais decrépita, um berro d'imprecação, um esgare terrifico no fascias, qualquer mutação vocal ou passo enfatico contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate no sino grande da ovação. Tudo que fôr delicado, nervoso, reconditamento ironico, escapa a essa frandulagem _d'arrière-boutique_. Eis o resultado de trinta ou quarenta annos d'arte roubada aos dramalhões da _Porte-Saint-Martin_, mal traduzida, mal representada, mal criticada; elaboração sezonatica d'escrevinhadores que não souberam comprehender a obra inicial de Garrett, e continual-a, muito menos. Em França, o theatro romantico, brilhante e fecundo, inda agora impera, e está truncando a via ao naturalismo no palco, attenta a persistencia do gôsto publico pelas violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos actos, e essa rara habilidade no _savoir faire_ que caracterisou sempre a escóla, desde Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. Não dá a impressão d'um trabalho de genio, esse theatro, mas é cheio d'arte e vigor, e comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na incoherencia e na furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho representam a transição, inda dubia e pallida, para o naturalismo continuador de Molière e Ben Johnson, d'onde brotará talvez o jacto arterial que avivente a scena, decadente em nossos dias.
--Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.
--Entre nós levaria a palma quem soubesse continuar Garrett. Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida não tem caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade. Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro terá de viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio, pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. Só tu poderás resuscitar o nosso palco.
Rogério tinha-lhe logo cahido nos braços, lacrimoso, dizendo coisas commovidas.
--Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a cabo essa incontestavel vocação! Terás de estudar a historia pedra a pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho; critical-a, sentir-lhe o lado artistico á luz d'uma philosophia profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem, pelas officinas, pelas prisões, cavando batatas na courella d'um padre, ou vendendo agulhas com o pregão d'um belfurinheiro. E educal-os por tua conta, á tua vontade, sob o teu ponto de vista e o cyclone da tua inspiração. Para que ao vermos em scena as tuas figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, não tenhamos de berrar--bem vos conheço, heroes de tal seculo! Esse ahi é o Miranda, que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do _Ferra Moscas_; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de Castella, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fóra, ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na _Exactidão_ esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para o Alecrim. Leilão amanhã.
Perco tudo, nao tem que vêr.--Era a roupa branca da mulher, o seu vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria! Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...
A assaltada fôra um tanto brusca, pois Rogério parecia lento em esportular a quantia implorada. Então começou o desenterrado uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia, em divagações lyricas, ora habilmente voltava a frizar certos detalhes de intuito prático. E disse as duras precisões do seu lar, essas grandes batalhas tenebrosas da miseria que não pede esmola, e os frenéticos sacrificios do talento amordaçado pelas conspirações do silencio. Rogério inda duas vezes fez--homem, é que... homem, é que...--mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-hia odioso se recusasse aquella miseria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou a bolsa.
--Quatro é que tu dizes, não?
--Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindôso, e Rogério deixava cahir cada moeda por sua vez--talento, muito talento expendido a mãos plenas pela tua peça. Lá isso! Selvageria, furias shakesperianas, sim! A vertigem da execução prejudica sempre a lucidez do problema. Cinco... seis... É o sonho tenebroso e dantesco, com sobresaltos e recahidas, que sacode pelos hombros os personagens do Hugo. Um positivista, juntava elle n'um riso pallido de caloteiro, deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.
--Vê se queres mais, menino...
--Não. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta insignificancia. Deita mais esses meudos. Os pequenos precisados de botas... Diz que querem vêr a tua peça. Oh a infancia! E fechou a mão que estendera ao dinheiro.
--Verás o meu artigo. Comparo-te aos mestres, não has-de ter razão de queixa. E subiu á casa de prego, que era na sobreloja, á esquina, com a sua lanterna de tres gumes, dizendo: _Exactidão, penhores, juro modico_, emquanto Rogério esperava mordicando o charuto.
* * * * *
Dias e mezes correram, sem que realmente as relações de Rogério com a artista adeantassem muito. O pobre auctor sentia-se exhausto de ceremonial, perdia tempo em declarações, não largava o camarim com presentes de flôres e versos da melhor fabrica; mas fitando a grande Velledo nas pupillas, não via n'ellas fuzilar essa scentelha brusca com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como ella lhe escorregava dos braços, como uma cobra, cada vez mais astuciosa, o desejo d'elle parecia congestionar-se d'infrenes ardores, a cada repulsa soffrida. Ia sendo tempo de se pôr á vontade com ella, de se conhecerem de perto--Rogério tinha pouco geito para lunatico. O amor platonico era irrisorio á sua alma de provincia, positiva em negocios, e acostumada a satisfazer de prompto os apetites que lhe vinham. Por mais porém que fizesse, para aos frequentadores do camarim parecer na intimidade da artista, não ouvia rosnar em volta, da supposta ligação. Ella via-o chegar como aos outros, apertava-lhe a mão com um pequeno riso, fazendo telintar os braceletes.
--Bem, meu caro?
E continuava a palestra interrompida. Depois a correcção exigida ao penetrar n'aquelle camarim. Vinha-se de cabeça descoberta, cortejal-a com grandes reverencias. Os homens não fumavam. Uma palavra familiar, uma graça mais núa, transmutavam na côr as iris da divindade. E nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as formulas mais puras do estylo. Porque era de saber que se tratava com uma mulher superior, a primeira actriz portugueza, astro, deuza, musa do drama, Rachel, Sarah, M.lle Mars, e as mais chapas consagradas n'este genero d'apotheoses. Depois, mulher do mundo, espirito de duqueza á Balzac, leituras finas, e seriedade de porte, dizia-se, não vulgar entre lonas pintadas. Era d'estas mulheres de scena afinal, corrompidas d'espirito e gastas de sensibilidade, pelo habito de fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, labios, cabellos, sentimentos. O abuso de cosmeticos, estragando-lhe a epiderme da face, prohibira-lhe as transparencias do rubor, que na mulher mesmo velha, são a juventude eterna da alma--ao tempo que os papeis violentos, embotando a sua vibratilidade, lhe não deixavam já sentir as coisas originalmente e por si proprias, como se cada sensação sendo um dedilhar de corda eolea, ficasse impossivel, estando esta corda partida. Como todo o artista fatigado, a Velledo só obedecia agora aos moveis extremos, o interesse, o orgulho, um vicio, um desejo, sentindo desprezos pelo mais. Tudo era n'ella preparado scientificamente, ensaiado, solemne, feito de cór--um papel, um sorriso, uma generosidade, um cumprimento. Aos trinta annos percorrera já tudo na vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podridões são pictorescas; bambochas de fabrica; mancebias d'acaso, em aguas furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo, pantomimas de feira, noites sem leito... todas as escoriações do vicio caloteado e baixo. Teve um filho aos quinze, de que já não sabia aos dezoito. E pancadas, figurou no livro das prisões, foi bailarina e creada de hospedaria. Agarrada para povo n'um dramalhão de apparato, uma noite em que vagueava á busca de homem, entrára a crescer. O ponto levou-a para casa, o ensaiador achou-lhe geito; dois ou tres noticiaristas entraram com referencias á _novel artista_. E engrossou, encheu de hombros, fez-se mulher; e este viver a fôra curtindo, ficando-lhe o frio olhar calculista, que farto de se vêr explorado e cuspido, tudo agora revertia em proveito proprio. A sua belleza, embryonaria aos quinze, eflloresceu após o primeiro filho em exhuberancias mimosas e brancas, e delicados tons de face. Aos trinta annos, levando uma existencia tranquilla, boa meza, dois cavallos, o palacete da Graça, e brasileiro para _argent de poche_, Velledo era uma mulher alta, branca, sólida, admiravelmente moldada. Isto dava aos seus grandes gestos de drama, pomposos á força de convencionaes, uma soberania e relevo que eram o furor do corpo commercial, brasileiros de volta, provincias e ilhas, todo o paiz inda rançado em banhas lyricas e sentimentaes tradicções. Nenhuma d'esse tempo possuia olhos, hombros e braços como a Velledo. Gentes decahidas por edade ou excessos, iam ouvil-a de rainha, princeza d'isto ou d'aquillo, Fernanda, Magdalena de Vilhena ou Morgadinha, a galvanisarem-se e readquirir tom, pela excitação ou deslumbramento da sua voz dizendo tiradas pomposas, ou d'essa extraordinaria carne extravasando em maravilhas plasticas. N'uma cidade como a nossa, onde as mulheres filiformes e glaucas lembram bichos de seda na muda, aquella magnifica e authentica mulher fazia imperio e dava cubiça, mesmo assim fria de mascara, e parecendo viver fóra de scena a eterna insomnia das estatuas. Não era muito talento, mas os gestos salvavam-n'a, depois de se haverem salvo pelos braços. Os amantes tinham-n'a feito distincta, linha de princeza, uma graça real a receber os que promettiam, nenhum, titubiamento em _tête-à-tête_, e esse vestuario esmanchado, cheio d'exquisitice, um pouco doido e pictoresco, que as aborrecidas inventam para se distrahir.
Succedia andar ás aranhas n'uma peça, não tendo percebido palavra do papel, gaguejando se o lance queria vehemencia, rindo se exigia dolorosa gravidade, avançando em vez de recuar, partindo as tiradas, surripiando phrases ás outras personagens, e compromettendo os collegas, na espectativa de fazer quebrar a empreza.