Aves Migradoras

Chapter 11

Chapter 113,703 wordsPublic domain

Todo o hespanhol é sedentario e bairrista, porém o portuguez quasi que o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, é percorrer um pouco a sua terra. «Hespanhoes, resumiu ella, somos todos nós, os peninsulares».

E de repente, voltando-se para mim--Se eu era iberico?

Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha interpelante colheu, _al primer vuelo_, medindo n'elle a patriotice chocada em leituras da _Filippa de Vilhena_ e outros canastrões theatraes archisandeus.

--_No se moleste usted. No es mas que hablar_, contraveio logo com o mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:

--Tinha sido o erro de Filippe II, tão grande politico, não transferir logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito, Portugal e Hespanha estariam hoje abraçados n'uma nacionalidade unica e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem té ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a perda da independencia não foi tão dolorosa a Portugal como se diz nos manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominação hespanhola em Lisboa foram até sympathicos á população, sobre quem Filippe II exerceu uma atracção benevola e singular...

Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta com uma massa de territorio maior que a França, e as suas colonias somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.

Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de recepção da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a rua, e duas janellas-portas ao terraço, tinham luz deslumbrante, em grandes resteas de sol primaveral.

Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braçadeiras, cortinas e alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria assedia, e teem de morrer em serviço, como os cavallos velhos nas carroças. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas poltronas e sofás, cuja seda o sol e o roçar das cabeças fanára e mesmo tinha esgarçado em certos pontos. Nas _carpets_ de preço, gusano e pés tinham já consumido a lã das flores e dos desenhos apparecendo a trama em séries de cordas varicósas.

A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser refrescados e envernizados; jarras da India, sobre columnas, voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando tudo; e até, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos, confidentes de dores e desalentos, até esses tinham um ar d'exilados, e o geito de nos dizer que o seu tempo passára, e lhes doía a velhice e as suas imensas saüdades de Madrid...

De pé, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chama _mar da palha_. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e esfumadiça.

--Diga-me se isto não é a rada d'uma cidade de dois ou tres milhões de habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia una e congraçada.

Eu por mim não queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto que o erro de Filippe II impedira talvez a realisação d'um bello sonho de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois paizes egualmente preguiçosos e incapazes, loucura fosse ajuntar misérias que já dolorosas eram, separadas.

A enseada do Tejo é que verdadeiramente prendia os meus olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma falúa ou barco de pesca desfraldava a véla de guião, quadrada, vermelha com a latina á pôpa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal, de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias para o Lido, sob os esverdeados céus do Adriatico, por uma tarde assim primaveral.

Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim, do seculo XVII, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo á doida, como nos pouzios da devêza, ao Deus dará.

--E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiñol, Felippe Trigo, Antonio Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac Muñoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.

--E Juan Valera? interrogou.

--Conheço.

--Lopez d'Ayala?

--Sim.

--Campoamor, Nuñez d'Arce, Menendez Pelayo...

--Um pouco, um pouco.

--Pereda, Galdós, La Pardo...

--Sim, sim, tudo isso li.

--_Hombre_, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. _Es usted un portugués mui sabionado._

--Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:

--Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...

Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo das ruas, emaranhando para todos os lados, labyrinthos de folhas e de ramas.

Aquillo lembrava o _Paradou_ da FAUTE de Zola, com a noite glauca dos macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma guarda de honra de passaros respondia.

Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella intensa ablução d'asas e folhas:

--Aqui se vive em plena natureza.

E ella tornou:

--Não. Aqui se morre em plena soledade.

A EMINENTE ACTRIZ

Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras, debruçada dos camarotes, e em chusma junto ás portinhas de sahida, acotovelando-se, clamando, _bravo! bravo!_ A geral estava deserta, um grupo ao meio da sala berrava, _fóra o auctor_.

E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto, muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda, houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando o _pardessus_, disse para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor laureado:

--Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.

--É possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em pyramide, com pellos de rato sobre a testa, pendulava-lhe para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate côr de moka. E puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, o _plastron_ descosido, disse alli que a peça não tinha fundo, que o estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que elles exgregavam nas gazetas, a razão era taes litteratos serem mais ignorantes, ou menos intelligentes, que a multidão a que se pretendiam impôr.

--Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.--Baixava a voz para insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado lá fóra. E este, e aquelle...

--Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nos _soláos_ do Serpa, nem no _Conde Alarcos_ do Cunha. Dêem alguma coisa mais do que phrases ôcas, meus senhores! A formula litteraria é apenas vehiculo da ideia, e não pode tornar-se em preoccupação, como ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um ponto de vista elevado e philosophico que a domine. Eis o que não ha n'essas mioleiras, meu filho! Veja-me vossê o Pimentel, que esses localistas parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe ás ventas; vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! Ocos que nem uma cabaça, immortaloides de redacção, sem testa, nem estudo, nem officio. Que tenho eu que vêr com tal romance ou tal drama, com tal phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se estas coisas me apparecerem abstractamente, sem uma orientação que as filie e correlacione n'uma dada corrente--não sei se me faço entender?

Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana, estabelecia--que tudo vinha sob dependencias e condições, facto moral ou facto physico. Tal livro é effeito do livro anterior, e causa do posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por sua anarchia psychica não sabe fazer progredir um systhema, assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito qualquer ideal em arte.

Ás vezes, é o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem treguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.

Mas acontece--e o desenterrado levou á parede o Moreira das magicas, enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete branco--acontece um bello dia, haver mais illustração na massa que no grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes. É o que se está dando entre nós co'a politica e litteratura. A corrupção dos partidos dá de si...

Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma rebanhada de talentos da geração novissima furou por entre os conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben Johnson, e aquelle pobre Molière, coitado! No entanto o theatro esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se, os da orchestra enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as golas para sahir. Aqui e além, nas ultimas ordens, um arrastar de cadeiras soava ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto fazia-se na sala, sob a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que marcava cinco horas, havia mais de sete annos.

Fôra a primeira representação dos _Dois Rivaes na Côrte_, quatro actos de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente pavoroso, onde as personagens se davam o _vós_ comparando-se ao systema planetario, e reforçando os lances de effeito, com allusões aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job... havendo um monologo sobre a capa de José, que os _fauteuils_ tinham mimoseado com surdos bravos d'adhesão. A peça era estreia de Rogério, Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho tomára definitivamente logar _na phalange dos nossos mais talentosos escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo_, diziam os jornaes. Um triumpho completo, os _Rivaes na Côrte_! Critico Borbas, do _Seculo_, tão exigente em coisas de palco, parado no camarim da Velledo, recitára com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle bocado da separação--_parto, o coração me fica suspenso n'estas paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de minha alma, conhecereis a fundo este báratro d'angustias, que como o universal diluvio_...

Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!

Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande do _Central_, á hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regosijo fremente. Aquelle Vasques, bello moço, que talento maleavel, e tão instruido! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em preconceitos d'escóla talvez.

Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o grande ar de Paris, tinha mesmo dito--é um temperamento. E o _menu_ passava de bocca em bocca.

* * * * *

Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de provincia com preoccupações de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidades de primeiro amante. Gastára no convivio d'actores, janotas, litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e boa que na educação caseira adquirira. E hypotecando as ultimas migalhas de herança, dormindo fóra, bebendo e jogando ás noites, tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.

O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada, tinha sido para ambos a melhor escóla pratica de malandrice e usura. Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia passar os dias na cogitação de explorar quem apparecesse á noite com cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella, a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma série de ratos de bastidor e polvos de redacção--gente faminta, intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripções, pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro--que ia girando n'uma baixeza d'inveja á roda dos charutos fumados, das correntes de relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para alcovitar, com pormenores de creada sobre as pernas d'uma, os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o arsenal de canalhice exigido em curso para tão equivoco mister. Desengalfinhado d'esta tropa á custa de generosidades forçadas, desprezos, empuxões, até soccos, Rogério teve de rechaçar depois uma ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas, articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes nobres, ingenuas, galãs, graciosos--tenores tysicos, barytonos sem voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós de _conscienciosos_ ou _diseurs_, que serve para tudo e goza a estima dos auctores, em razão do merito reles que exhibe, de jámais _desmanchar o conjuncto_.

Eram tambem escriptores intermedios, _amanuensando_ das onze ás quatro, fazendo jornal das quatro ás onze, finorios chouteando na esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui a vaidade dos ministros, além atirando lama ás ventas dos adversarios, em eternos clamores contra a decadencia dos costumes, mas rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de provincia tanto admirára atravez das hyperboles dos diários. E por influencia de contacto, relações, letras assignadas, condescendencias d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicações que falliam ou não chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo, debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de cinco meses. Esta ligação d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a ser truncada apenas apresentaram Rogério á Velledo. Alcina era ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além d'isso! Não resistindo ás furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua franzina e pobre organização murchava e cahia. De manhã estava côr de morta, seios sorvados, olheiras á bocca, olhos imbecis, e um ar de prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos, que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'uma _griffe_ de ruga.

E vinte e quatro annos apenas!

--Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engulir entre chavenas de café e charutos fortes, uma quantidade de calices de cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois tão petulante a beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licôr esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos, audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara pequenina!...

--Não é tudo, disse-me Rogério uma occasião no Aterro. Beber é mau, mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porém, vieram os vicios supplementares, que de resto não aprecio nas mulheres, nem estava para subsidiar em proveito dos devassos que iam lá por casa. Entende vossê?

Escrevia elle folhetins na _Gazeta do Sport_, chronica da alta-vida segundo a testada, e bastante mal escripta para se crer que assim era. Esses folhetins fizeram-no celebre, secretario d'um gremio d'escriptores, successivamente premiado de Mont-Real e irmão dos terceiros. Centros de litteratura amena e critica austera, livrarias com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por elle. Deitou almanach com bocadinhos democraticos, e um juizo do anno em que era ameaçado o throno. Lindôso, que era quebrado, e ás bancas do Martinho maravilhava localistas myopes e uma quantidade d'aspirantes, abraçava-o em publico com palavras de pompa. E por duzias, os albuns, os semanarios e jornalecos de districto, reclamavam trechos d'essa penna hilariante que gottejava sol peninsular, ortographia sonica, e mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. Já lhe davam escóla e processo de factura. Era um moderado, um joven ecletico, meio romantico, meio positivista, com predilecções d'assumptos doces e a ambição das finas coisas mundanas, cheio d'imagens originaes, chispando mordentes graças, vigoroso e probo, tendo os nervos irritaveis d'uma mulher. Na frente, como chocas, os jornaes iam conclamando unisonos:

--O talentoso amigo e brilhante escriptor...

Uma das bellas organizações da Peninsula...

Erguiam-no em rival de Lindôso, que a tantos se afigurava um prodigio além de toda a espectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem não. Deixar vêr! E o colossal Pirralho advertia que não era bom thuribular debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.

E n'uma vocalisação emphatica:

--É o defeito dos homens do Meio-Dia, onde os temperamentos são cálidos, e os modelos a seguir não abundam. Quando encetámos a nossa publicação critica, era notoria a esterilidade litteraria em Portugal...

Mas Horacio fazia um passo no grupo, armado dos seus oculos de ferro, nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:

--Systematisemos a these, conforme o proceder do meu Comte!

* * * * *

Os convidados por Rogério tinham ordem de reunir no _foyer_, findo o espectaculo. A peça acabára tarde, duas da noite; e primeiro que a Velledo apparecesse, tiveram d'esperar boa hora e meia. Emtanto falava-se da peça. Estava o melhor da litteratura e da arte. E faziam-se apresentações. Festejado Peres trinta annos de dramas historicos com applausos freneticos, rapoza velha em coisas scenicas, conforme corria, apresentou a Rogério o grande Aurelio, uma _gloria da scena_, interprete das suas creações, de quem Doux dissera n'um atonismo absorto:

--_C'est un petit prodige, ce marmot là._ E a phrase ficára celebre. Aquella apresentação penhorára Rogério, que muito commovido, voz mansa agradecia com ar modesto. Além o pensador Horacio que fazia as primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contacto impuro, definia a arte segundo Comte ao Moreira das magicas e sainetes, emquanto Pirralho dizia a vida na _Comédie Française_, o ceremonial d'entrada no _foyer_, e como Croizette era a musa dramatica moderna. Bulia em volta a ninhada _d'esperançosos_ côr de cidrão, ganymedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das facecias do mestre, com o faro na ceia offerecida. E o mestre esfogueteava pela sciencia em citações vehementes, fuzilando, causticando, vibrando a nota heroi-comica, que na sua proza fazia o delirio dos discipulos e a admiração do publico. Reinava grande cordealidade. Pae nobre Tiburcio, que desde o desastre da _Filha Roubada_, não falava ao inflexivel Borbas, veio lacrimoso abraçal-o pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como entre damas. Rogério ia radiante por todos os grupos, abraçado, elogiado, n'uma effusão d'intimidade que lhe punha o coração nas mãos. Não se ouvia á sua passagem senão palavras quentes, bocados de critica enthusiastica: a maior vocação, o mais extraordinario dramaturgo entre os modernos, um dos maiores da Peninsula--e explendidissimo, scintillantissimo--e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho Augier... Os famintos tiravam o relogio, chamavam-no de parte, davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo collegio, muito amigos sempre, não te lembras? Mas quem diria! Rogério, o 34, tão enfezadito de cara, cheio de zeros em _portuguez_, e sahir-se agora um escriptor d'aquella alçada! Elle a todos dava uma boa palavra, pedindo opiniões em separado sobre a peça; o que esperava era franqueza, visto não arder nos orgulhos balofos de certas sumidades. Moreira tinha-lhe achado grande fundo historico, côr local como o diabo--sim senhor--e que pena terem cortado o sarau do terceiro acto! De resto afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto herético para uma plateia de damas. No theatro, na escóla e no templo, a religião primeiro que tudo: já Garrett o escrevera. Bem sabia que o espirito moderno... E muitos parabens.

Mas festejado Peres, saracoteando a nalga roliça:

--Meu Rogério, disse elle cingindo o dramaturgo, has-de conceder-me, conceder-me, que tenha a sciencia do drama historico... drama historico... tão descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje... Já o fiz saber no prologo da minha _Duqueza de Bragança_... de Bragança. Eu cá, escrupulosissimo no theatro. Será casmurrice, eh! eh! casmurrice... mania de velho; deixal-o ser!... Hein? deixal-o ser. Missonier, antes d'algum quadro militar... quadro militar... até estudava os botões dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis onde eu levo o escrupulo tambem... E o publico dá palmas... dá palmas. Posto isto, e como teu amigo que sou... teu amigo... sempre direi que commetteste um crime de lesa historia... eh! eh! lesa historia... pondo compota de pecego no festim de Januario de Mendanha... compota de pecego.--E de chapéu alto para a nuca, as orelhas despegadas do craneo, o grande homem recordava um d'esses burros com mitra, arrancados ás _festas dos doidos_, nas cathedraes da Edade Média.

--Pelo correr do seculo quatorze... seculo quatorze... proseguiu elle, não era conhecida no reino aquella doçaria, conhecida no reino... que só remonta ao ultimo quartel do seculo dezeseis, eh! eh! seculo dezeseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o abbade Castro, abbade Castro... Este pormenor não é futil, como parece, futil... porquanto é da compota de pecego, da compota... que sáe a grande scena do terceiro acto, a grande scena... aliás magistral, sem favor, magistral! Linguagem vernacula, linguagem Herculano... lá isso sim, meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo historico, eh! eh! fundo historico... vacillações na côr local, hein? côr local... Mas és novo, coisas d'estas só veem na minha edade... na minha edade. E aqui para nós, hein? para nós. Vão sendo horas de manducar uma bucha, manducar.

Rogério ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindôso de nome, critico d'altos processos, por muitos calumniado de precoce e viridente genio das raças modernas, o manitanço! Mas sentiu-se um _froufrou_ de sedas no escadim doirado do _foyer_, e uma voz argentina e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou tres, risonhamente:

--Boas noites, boas noites!