Aves Migradoras

Chapter 10

Chapter 103,773 wordsPublic domain

--Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos ao mysterio. Creio que foi _mysterio_, que disse.

--Foi. Esther teve uma grande paixão!

--Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e sabonetes. _Fermentou_ alguma cousa de?...

--Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.

--Está bem; estou já calado.

--Uma paixão fatal! Amou...

--Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.

--Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera missa.

--Bem dizia eu!

--Dizem que bella figura.

--Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima? Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?

--Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado e fugiu para as missões do ultramar.

--Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?

--Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.

--E como não lhe fosse permittido professar...

--Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.

--Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe traz uma especie nova, numa _corbeille_ admiravel.

--Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida begonia _rex-isis_, especie do mais bello effeito decorativo. É um vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro, representando dragões engalfinhados.

--Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E depois?

--A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a convivencia das mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já entrou na estufa da condessinha?

--Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.

--É isso, com a begonia sêcca.

--Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle esqueleto de planta. E agora me lembro--ella ficava triste e suspirava. Era a theologia do primo adorado.

--Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do Mexico, que os francezes chamavam _Poinsettie_, exemplar soberbo. Conhece?

--Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde, envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas. Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande flôr. Uma opulencia, em resumo.

--Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da condessinha.

--Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos e... amor do judeu das tamaras com a...

--Mau!

--Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.

--Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:

--Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?

--Ella disse: _Zebedeu?_

--Disse.

--Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...

--Eu nem podia fallar!

--Oh castidade loira de vinte annos!

--E apertava-me tanto as mãos...

--Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...

--Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.--Eu estava a tremer como um poltrão.--Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.

--Qual? perguntei em voz baixa.

--Que não amaria ninguem mais. A não ser...

--A não ser?...

--Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem ninguem lhe tocar.

--Mas isso é impossivel.

--Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não creia: chorei!--Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de branco, que vinha entrando. Era Esther.

--Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca, disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.

--Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.

O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo do instrumento.

--Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar. Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende, fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa, enfastiado e murmurando:

--Fosse a cousa commigo...

No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.

--Vem acabar-me a historia de hontem?

--Venho sollicitar a sua presteza de atirador.

--Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro! Cruel! Desalmado!

--Qual! Tenho um projecto.

--Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o projecto.

--O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?

--Creio que sim.

--O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o Alvaro.

--Vou.

--Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...

--Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não pensasse em tal?

--Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias. O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por agora.

--Então?

--Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo, aponta ao vaso da China e...

--O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.

--Que? Ama a condessinha?

--Eu amo toda a gente; que diabo!...

--Estou esperando a sua resposta.

--Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!

--Olhe para mim. Se o não fizer...

--Dá um tiro no craneo; dá?

--Qual! fico solteiro toda a vida.

--Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no jardim?

--Saltando o muro que o separa da casa em que habito.

--O senhor é o diabo.

--Se a adoro!

Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das mais noites. Ao fundo do salão, a banca de _whist_, onde o cultor da pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, no meio das suas amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.

--Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor Zebedeu Kebler.

Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther confessava ruborisada que... _Deus o queria._ Tinha apparecido em pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto pender coroada de flôres de larangeira.

--És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.

--Já agora... respondi.

O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um _hibiscus_ do Japão, trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em grinaldas.

--Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma vaga saudade de amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do pobre esmigalhado, e que elle seja o talisman de um amôr, fecundo em _bébés_ de olhos azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais durador por isso mesmo.

Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente brilhavam, sorrindo de um modo encantador.

Nunca fui piegas, palavra de honra--mas inda hoje tenho calafrios pensando nos dentes d'aquella mulher.

CORONADO

Ha sete ou oito annos vinha eu do Poço do Bispo no electrico, quando nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P., clinico da localidade, com quem vim conversando até á Baixa.

Trazia na mão um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio d'uma peça poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez fallar da Coronado. Fiz com a cabeça que não, e elle, explicando que era o médico da casa, em duas palavras fez o elogio sumário da sua cliente. Mez e meio havia que esta senhora, já então de oitenta a oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez mental e muscular, se fôra por uma escada de pedra, quebrando um braço pelo terço inferior do cubito e do rádio.

Poucas esperanças tinha o clinico, dada a edade provécta da paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; senão quando, ao lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham adherido, e a cura se fizera completa e ás maravilhas!

Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir o espirito volitante, ideára e compuzera em quadras endecasylabas, uma poesia festiva ás suas mãos.

E aqui o médico estendeu-me a revista para eu lêr.

Uma das mãos da Coronado estivéra mez e meio entrapada nas ligaduras do aparelho de fractura, sem vêr a outra, e a poetiza figurava-as como duas amigas ou irmãs gémeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos e instinctos identicos, e que uma tão longa separação lançára no desespero e na saudade.

A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem ôcos, com significados precisos, frases de bronze sonoro, imagens faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sóbria, e mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. Não havia hesitação nem cançaço, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que vivem de restos e, perdido o séstro construtivo e inventivo, fazem litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a transcendencia lyrica á precisão. No tempo da Coronado os poetas ainda eram só romanticos ou classicos...

O individualismo hysteropatha não tinha creado os grupos de _cabaret_ e as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas, ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inçaram a poesia de brochuras pathologicas, dando a impressão d'uma casa d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspiração que maluqueira.

A poetiza desde 1874 ficára isolada, pela tristura claustral da sua vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dos altos de Montmartre, té aos centros d'insurreição de Madrid e de Lisboa. Poetava á antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.

Despertou-se-me então o desejo de, senão conhecer de perto, pelo menos entrevêr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois annos rimava com uma pujança feraz tão bellas coizas. O visconde de Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de conversação da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes que me ajudassem á creação d'um retrato physico ou moral, justaponivel ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.

Pouco a pouco porém outros informadores foram surgindo, ao acaso das apresentações e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos traços de luz vieram vindo, á força d'indiscrição, devo dizer, que talvez pareça violar o recato da vida intima, mas que pelo significado ultimo d'exaltação admirativa, estou que m'o perdoarão aquelles que como eu não pódem examinar uma obra d'arte, senão tocando-a e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam comungar da sua singularidade e formosura.

* * * * *

Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mór parte amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir da gran senhora a estatua arcaica, entrevêl-a como atravéz dos veus d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que póde ser não seja alma, mas que servirá para marcar o sitio onde bateu um coração.

Morto o marido em 1891, Carolina Coronado não consentiu, por mais que a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia, vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da America, e deante de todos estes symbolos de força irrevogavel, a varonil mulher opôz a razão absurda da sua paixão esponsalicia, a aflição das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos mortuarios. Não queria que a terra do cemitério provasse o corpo amado, e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob a impressão dos seus cármes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podridão custasse menos ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu féretro, _odes_[1] vitaes pudessem vir impressionar e envolver de sugestão passional, o espirito amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.

[Footnote 1: Fluidos telepaticos, animicos, que se desagregam dos _mediuns_ em somno hypnotico, chegando a tomar formas fotografaveis.]

Como Joanna _a doida_ ella acompanha, da casa de Paço d'Arcos para o palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e á força de teimosia imperiosa, de soluços, de suplicas, consegue alfim que as autoridades fechem os olhos, movidas talvez pelas imposições dos diplomaticos; quem sabe mesmo se pela feitiçaria dramatica do feito, deixando vêr n'essa estremenha uma alma do _Romancero_, de grandiosa esculptura e anormal poder de sugestão!

Desenove annos, n'um simples caixão de chumbo, envolto em madeiras de cedro ou d'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as estatuas dos nichos e os icones dos altares: até ha poucos dias irem os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz, onde como na vida as suas nupcias seguirão, na paz do nada.

* * * * *

Esta casa da Mitra foi não só mausuléo de Justus Perry, como tambem da Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro e o seu mosteiro.

Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poço do Bispo, em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do martelar das oficinas, do fumegar das altas chaminés, dos grupos de gente tisnada e arremangada, certo não poderia supôr que por traz d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma creatura rara sofria e meditava--uma creatura d'alma heroica, da raça das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e que aos oitenta e dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez desconcertante, a sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a sua belleza de rainha, e tal poder de ressurreição e recordação, que todos os fantasmas da sua mocidade viviam e existiam _reaes_, a cada simples apêlo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como as ressurgiria o _medium_ Egglinton, ou Eusápia Palladini, n'alguma sessão de hermetica e telepatica.

Fechada completamente para as menores sugestões e aparições contemporaneas, não recebendo senão dois ou tres velhos amigos que lhe fallavam do passado, não chegando sequer á janella, por uma especie de horror aos inventos modernos e aos aspectos da multidão grosseira e circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para não sentir as evoluções e reviravoltas do mundo alheio e exterior.

D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos surdos-mudos perspicazes, que á mingua de sentidos proprios que lhes desdobrem a attenção sobre o de fóra, vêem para dentro, _com força décupla_; d'onde uma hyperacuidade d'imaginações, visões, uma vida febril de sonhos e quiméras, uma sagacidade felina para induzir de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre, ou simplesmente anedótica, que ella conhecera e tratara em tempos idos.

Graças a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da escolha de traços com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com emoção profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.

Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe atribue.

A aristocracia e a elegancia representando-se pelas casas ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dénia, d'Abrantes, de Frias; pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oñate, de S. Bernardo, de Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paços disseminados pela cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres faziam ás tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soirées do Theatro Real, ou nas recepções do Palacio do Oriente, revoadas esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.

Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigação, navegação e ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovação trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estações; o tempo dos grandes emprestimos para expedições coloniaes e guerras politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola, Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finança hespanhola, como nas cathedraes os _monagillos_ encarrégues, d'entreter o oleo das lampadas, para que a fé se não extinga, e os deuses se não vejam abandonados.

Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero, Serrano, Prim.

Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (_El pobrecito hablador_), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Solá, Marinas (o autor da estatua de Velasquez), e nos seus doces _recuerdos_ de Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a delicadeza e a graça d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.

Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha, relampejantes sempre, e sempre finas, lançando-a na _melée_ social, depois de que esquissava sumariamente as essencias directrizes e as paixões tendenciosas, era um d'estes cursos de historia fallada, uma d'estas delicias cerebraes que davam da narradora a impressão mais assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar alli a escutal-a eternamente.

* * * * *

Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra licença para percorrer rapidamente a escada e alguns salões. De combinação, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual, fingindo surpreza no encontro, me apresentaria á Egéria, ao tempo sósinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava, senão estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanças bordejando de perto a derrocada.

Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham já sido vendidas por 54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas então se pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu serviço em não sei que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na Mitra a vendedora, até final de vida, e certamente o preço da propriedade fôra para liquidar os honorarios do causidico, e provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno á escriptora. Ella não podia fugir á lei fatal que põe os cerebraes do ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mór parte, o valor do dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulações e trafegos rendosos.

A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia dos fundos do casal, não teria precavido a viuva, par e passo, contra os futuros perigos de gastar sem contar, mórmente ficando as contas entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e feitores, que são bons ou máus conforme a fiscalisação a que os sujeitam.

Está-se a vêr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado transita da fartura cómoda para a escassez molesta e tragica.

É sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a tripulação perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da historia, que de resto só entristeceria o leitor contra as injustiças da vida, e passo a dizer que a minha apresentação foi captivante, e a illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pôz a minha alma rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mão d'abadessa e imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.

Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve engêlho das póchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com dois bandós nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos dão á rainha Izabel II nos seus ultimos annos de Paris.

Fallava um hespanhol claro e castiço, florido de modismos que pela graça rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha; hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado entre a gente bem educada de ha meio seculo.

Ás minhas palavras de saudação, ella, certo para atalhar o discurso, e evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnéca onde eu nascera, acrescentou que então eramos quasi vizinhos, pois Villa de Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena, a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a, de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e Aragão. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos d'excepcional fragor e intensidade.

--Se eu tinha viajado em Hespanha?