Astucias de Namorada, e Um melodrama em Santo Thyrso

Chapter 2

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Effectivamente minha tia deu a minha educação por acabada, e levou-me para a sua companhia, muito contra vontade, segundo me parece. Não porque ella me não tenha affecto e pelo contrario; mas minha tia, optima senhora no fundo, tem um terrivel sestro; aos cincoenta annos quer ainda inspirar amor, e combate, com uma energia desesperada, as asserções da sua certidão de baptismo. Ora, uma sobrinha de dezenove annos, filha d'uma sua irmã mais nova, é um terrivel documento, que protesta contra os cabellos d'um ébano artificial, e contra a rebocada lisura do rosto de minha tia.

Ah! que vida vae ser a minha, se não acho meio de diminuir a minha edade, e de usar de novo fato curto. Minha tia, que ainda aspira a dançar com sufficiente ligeireza, e que não deseja entrar no numero das supplentes das contradanças, que só se convidam quando falta algum par para fazer a quadrilha completa, não me leva aos bailes, porque são, diz ella, perigosos para as meninas da minha edade, e até comtigo mesma, perdôa-lhe, minha boa amiga, se não quer relacionar, dando para isso razões frivolas, mas sendo o verdadeiro motivo os teus vinte e cinco annos que não podem ficar bem á amiga de collegio d'uma menina tão nova como eu devo ser, segundo os seus calculos.

Aqui vivo, pois, n'esta casa da rua de... mais triste do que no collegio, depois da tua partida, sem chegar uma unica vez á janella, lendo, bordando, desenhando, ou conversando com o meu piano, emquanto minha tia, preparada, enfeitada e auxiliada por todos os cosmesticos imaginaveis, passa o tempo á janella, travando cem namoros por dia, e apresentando, da altura do seu quarto no segundo andar, a cuja varanda se colloca de preferencia, um rosto juvenil, que illude um ou outro passeiante ocioso, que ande procurando pelas janellas quem lhe acceite as homenagens.

O que me consola um pouco da minha vida insipida é um grande jardim, cheio de sombra e de mysterio, de flores e de aromas, onde passo as tardes, e onde muitas vezes me esqueço e me esquecem á noite, ficando eu largas horas scismando ao luar, e deixando-me ás vezes surprehender pelos primeiros clarões da alvorada.

Ahi tens a vida que eu passo, minha querida Lucinda; não achas que tenho razão para me lembrar com saudades do collegio? Escreve-me tu ao menos, já que minha tia se obstina em me ter reclusa, e em não me permittir a doce consolação de te vêr e de te abraçar; escreve-me, porque só as tuas cartas me ajudarão a supportar o fastio d'esta existencia.

Tua boa amiga

Adelaide.

Comparem os leitores o que n'esta carta se diz com as indicações dadas a Frederico por Lucinda, e perceberão qual era a travêssa idéa da maliciosa rapariga.

III

Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova da completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se fazia interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um pretexto para desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e louvou-se de não ter avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição ridicula com pessoa que a aproveitaria com tão boa vontade. A todos estes sentimentos, que primeiro lhe tumultuaram no cerebro, succedeu o amor proprio offendido, «Pois que! dizia elle, é de marmore esta mulher? Está junto de mim n'aquella noite voluptuosa, toda impregnada de languidas emanações, de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores, sente a minha respiração abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta as minhas mãos trementes, deixa-se embalar commigo, commigo como uma creoula na rede, pelo movimento lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada d'isso a commove, e lhe faz perder por um instante ao menos, os seus habitos de _coquetterie_? A propria Leonora Falconieri de Feuillet sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle bote que resvalava ao lume d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um sulco phosphorescente, e Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o fogo infernal das suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do amor d'uma das suas amigas? Oh! _coquette_.

«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar essa mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então, quando não tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente desastrado, então serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então, far-lhe-hei sentir bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não com os espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida, triumpharei... e talvez conseguirei d'essa fórma attrahil-a e fascinal-a, como ella me fascinou a mim.»

E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de...

Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar as janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a idéa de que se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não era cousa que muito custasse á sua timidez rebelde.

Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella. Frederico fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou por causa d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo os olhos da galante menina, que logo os desviou o mais depressa que pôde, mas sem que podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante delicto. Frederico affastou-se triumphantemente.

Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse passar d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o seu passeio diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os seus novos amores. A sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e convidou-o para jantar.

Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um pequeno mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em grupos, e Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante.

A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade baixa, e do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre uma porção do rio, que se prolongava até ao extremo horisonte.

Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o Tejo, rodeando co mum nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais além uma sombra tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição, devia ser o vago perfil da torre de Belem.

A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de perfumes. Frederico scismava.

--Esqueceu-se da sua promessa? perguntou Lucinda.

--Ainda se lembra d'ella? tornou Frederico amargamente.

Um relampago d'alegria illuminou os olhos da gentil senhora.

--Se lembro, tornou ella, sou uma credora inflexivel.

--Pois bem, respondeu Frederico, córando muito, e fazendo um esforço sobre si mesmo, deixe-me agradecer-lhe o ter feito a felicidade da minha existencia.

--Sim? tornou ella ironicamente. Então ama-a loucamente?

--Se a amo! tornou elle cravando os olhos ardentes na formosa menina que tinha diante de si, tanto que nem eu suppunha que se podia amar assim. Oh! mas é que tambem é uma creatura celestial, tão bella que os anjos a invejam.

Lucinda mal podia soffrear o riso.

--E essa belleza, é provavelmente como a de Marilia, tornou ella, para a pintarem não bastam as tintas da terra, são necessarias as do céu. Por conseguinte nem ouso pedir-lhe que m'a descreva.

--Porque? Não a conhece! perguntou Frederico espantado.

Lucinda embaraçou-se, mas promptamente recuperou o sangue-frio.

--Somos amigas intimas, como sabe; comtudo não desgostaria de poder apreciar o seu talento de pintor.

Frederico fitou os olhos nos d'ella, como se tentasse prescrutar o seu pensamento. Lucinda desviou os seus.

Uma idéa, que elle julgou louca, passou pela mente de Frederico.

--Vou tentar, disse o timido rapaz, com mais animação do que a que lhe era habitual, e cravando pela primeira vez com firmeza e ardor os seus olhos ao rosto de Lucinda; e para me ser mais facil a tarefa, permitta-me que lhe narre como e onde me senti verdadeiramente deslumbrado pela sua rara belleza, e como ousei dizer-lhe com os meus olhos o amor immenso que me enchia a alma. Era a hora do sol posto; ella estava com a face encostada á mão e como v. ex.ª n'este momento. Nos seus olhos negros parecia fluctuar a vaga tristeza do crepusculo; os cabellos, arfando suavemente com a brisa, enquadravam-lhe uma fronte alva e limpida, tão limpida, que de vez em quando parecia que n'essa testa innundada de luz se via passar a vaga sombra do pensamento. Rodeiava-se de flores, que formavam ao seu doce vulto uma profunda moldura. Ao vel-a assim, melancholica como o anjo da tarde, suave e meiga, como a anjo dos celestes amores, pensei que a ventura suprema seria viver a seus pés, e enviando-lhe a minha alma n'um olhar, votei-lhe um affecto, profundo e ardente como os seus negros olhos.

Lucinda ouvia-o arrebatada; fôra isso mesmo o que ella desejára, fôra isso mesmo o que ella tivera em vista acenando-lhe com essa miragem d'amor da velha tia, amor nada perigoso, porque, da mesma fórma que a miragem, de longe podia fascinar, mas de perto conhecia-se o areial... dos cincoenta annos.

Se Frederico se deixasse arrastar pelo demonio da inspiração, e levantasse um pouco mais o véu de gaze com que encobrira a sua declaração, Lucinda poderia auxilial-o, confessando-lhe o seu ardil, e quebrando d'essa forma o gelo. Mas infelizmente a maliciosa rapariga, um instante docemente perturbada pela eloquencia de Frederico, pensou de subito, quando elle findou o seu trecho, na ficticia inspiradora d'esse memoravel discurso, e deu aos seus labios uma expressão de riso reprimido, que bastou para que o espirito sensitivo de Frederico logo se retraisse, e tremesse de ter avançado tanto.

Lucinda percebeu o erro, e quiz remedial-o. Já era tarde. Frederico retirou-se desgostoso. Ella, vendo-o partir, bateu o pé com despeito. A _coquette_ ia-se enleiando nas suas proprias redes.

--É necessario que esta comedia acabe, murmurou ella com as lagrimas nos olhos, ainda que eu tenha de me lançar nos seus braços, como uma doida; porque sinto agora essa commoção desconhecida, de que tanto me fallavam, e de que eu tanto zombava. Amo.

IV

Não conhecem os leitores o caracter de Lucinda, se supposeram que ella se importasse um instante só com o desejo que a tia d'Adelaide manifestára de não se relacionar com a amiga de collegio de sua sobrinha. Foi ella mesma que tomou a iniciativa; apresentou-se em casa da sua antiga companheira, não pareceu reparar na frieza da dona da casa, lisongeiou-a na sua mania de combater a velhice, declarou alto e bom som que Adelaide era no collegio uma creancinha, de que ella fôra não a companheira, mas a protectora, a segunda mãe. Esteve quasi dizendo que a sua amiguinha entrára para o collegio ainda de mama. Estas asserções illuminaram n'um momomento o rosto da tia, dissiparam como por encanto a sua frieza, e deram a Lucinda o logar d'amiga intima. Esta, affectava sempre tratar D. Marianna com familiaridade, fazia-lhe confidencias imaginaveis, e pedia-lhe egual franqueza. A boa senhora caiu no laço, e, córando pudicamente, principiou a narrar-lhe aventuras não menos suppostas, porque os namoros que obtinha desfaziam-se sempre á luz traidora do dia, quando o desgraçado pretendente, fazendo sentinella á porta da casa, via a dois passos de distancia os encantos que o haviam fascinado da altura d'um segundo andar.

D. Marianna devia ter sido formosissima; e d'essa formosura extincta conservava olhos, onde ainda se não apagára de todo o sacro fogo. Eram elles o nucleo em torno do qual se agrupavam os feitiços artificiaes.

Notava, comtudo, Lucinda, uma extraordinaria tristeza em Adelaide. Preoccupada e melancholica, a loira creança, em vez de procurar a companhia da sua amiga de collegio, evitava-a pelo contrario, e parecia estar cada vez mais affeiçoada á solidão do seu jardim. Debalde Lucinda tentava penetrar o segredo d'esta preoccupação. Adelaide era impenetravel. Lucinda, devemos confessal-o, não insistiu muito, e, pensando unicamente no meio de deslindar a comedia, cuja teia imprudentemente urdira, depois de scismar alguns instantes na extraordinaria melancholia da sua amiga, não fez mais esforços para penetrar o mysterio.

Os seus amores é que progrediam maravilhosamente, Frederico fallava-lhe do seu amor tão fervidamente, acompanhava as suas confidencias com tão ardentes olhares, que não se podia duvidar que, apesar de toda a sua timidez, um levissimo impulso bastava para quebrar os cordões da mascara, e transformar n'uma declaração franca e discreta, as confissões que se trocavam enygmaticamente, por meio d'essas bemaventuradas confidencias e que se commentavam e explicavam pelo fogo das pupillas.

Comtudo o momento decisivo approximava-se, estava já por tal fórma retezada a corda do arco, que por muito que Frederico hesitasse em despedir a frecha inflammada, ella partiria expontaneamente, n'um instante de exaltação. Vinte vezes Lucinda julgára que esse momento cubiçado era chegado emfim, vinte vezes vira Frederico apertar-lhe a mão convulso, e mover os labios como se fosse a proferir a palavra que rasgaria o véu transparente, que encobria esses amores, e vinte vezes a mão lhe descaira gelida, e vinte vezes os labios se tinham cerrado sem balbuciarem um som. E comtudo não era a timidez de Frederico o obstaculo; n'esses instantes estava elle n'esse estado d'ebriedade doida, em que se não pensa, em que os sentidos, o espirito, a imaginação, tudo se acha exaltado a tal ponto que o mais timido se arroja a audacias que depois o fazem estremecer. É como esse instante rapido, em que nas batalhas o fumo da polvora, o troar da artilheria, os gritos de victoria, o clangor das trombetas exaltam os proprios covardes e os arrojam, momentaneamente intrepidos, ao centro das fileiras inimigas. Lucinda estava tambem demasiadamente commovida para que podesse gelar esse enthusiasmo fervente com um sorriso ironico, uma palavra mordaz. Mas parecia que uma voz desconhecida, uma sombra fatal vinha murmurar ao ouvido de Frederico algumas palavras sinistras, e, remorso ou receio, Frederico ficava melancholico e sombrio, como os convivas de Lucrecia Borgia, ouvindo no meio dos seus cantos bachicos resoarem as notas funebres do côro dos monges.

Lucinda não percebia esta hesitação de nova especie, e receiando vagamente um novo perigo, resolvera dar á comedia o seu desenlace.

Duas palavras de Frederico decidiram-n'a de todo.

Um dia, depois de terem feito mil floreados sobre o amor a proposito ou antes a desproposito de intangivel, da vaporosa Laura d'aquelle Petrarcha inconstante, Frederico deixou pender a fronte melancholica, e murmurou:

--Pobre criança!

Lucinda ia desatando a rir; a frase «pobre criança» applicada á quinquagenaria tia era d'um effeito comico, ainda realçado pelo tom sentimental do romantico mancebo.

Mas, ao mesmo tempo, Lucinda sentiu um inexprimivel jubilo. Essa frase queria dizer: «Pobre victima, que julgas ser o alvo dos meus pensamentos, e que não és mais do que o escudo, que me serve para conquistar, com mais resguardo, o amor da mulher a quem adoro.» Assim, essas suas palavras eram uma confissão explicita do que se passava na sua alma; encerravam em si a chave do enygma.

Porém, Lucinda não desejava que esse sentimento de compaixão soasse indefinidamente no peito de Frederico Nunes; julgára que, apesar da distancia, o seu namorado chegasse a tomar a sério o amor de D. Marianna. A pretenciosa tia podia parecer uma galante senhora, bem conservada, nunca uma formosa rapariga. Lucinda sempre julgára Frederico cumplice do seu amoroso artificio. Vira que elle precisava d'um meio, por mais tenue que fosse, para fallar sem receio, proporciona-lhe a occasião de o obter. Se elle a acceitasse, é porque realmente a amava. Assim succedeu, e como, nos termos a que tinham chegado, o véu, além de ser inutil, era tambem prejudicial, tratou de o dilacerar.

Para isso dirigiu-se a D. Marianna, e disse-lhe que um mancebo elegante que nutria por ella a mais violenta paixão, que se julgava correspondido, se podia acreditar nos ternos olhares com que da janella o favorecera, sabendo a amisade que as ligava, e sendo da intimidade de Lucinda, se dirigira a esta para que obtivesse da sua amiga uma entrevista, em que lhe podesse declarar o seu affecto e o desejo que alimentava de o ver coroado por um feliz hymineu. D. Marianna caíu das nuvens. Tinha distribuido os seus olhares ternos com tanta prodigalidade que não sabia qual dos felizes mortaes contemplados na distribuição, queria dar ao crepusculo da sua vida uma ventura raras vezes reservada para essa idade, a d'um casamento por amor.

Escusamos de dizer que, depois da resistencia pudica e indispensavel, D. Marianna consentio na entrevista. Marcou-se dia, ou antes noite, porque D. Marianna, allegando a maledicencia das visinhas, mas na realidade para não ter que affrontar senão a luz mentirosa das vellas, exigio obstinadamente que fosse a essa hora. Convencionou-se que Lucinda daria a chave do jardim ao aventuroso namorado, e que passaria aquella noite em sua casa para entreter Adelaide, e velar assim para que não fosse perturbada a amorosa entrevista.

Combinado por este lado o plano estrategico, Lucinda dirigiu-se a Frederico. Disse-lhe que a sua amiga desejava ardentemente fallar-lhe, que o encarregava de lhe dizer que era tão urgente a necessidade d'uma entrevista que a obrigava a pôr de parte a modestia feminina, e a dirigir-se a elle, fiando-se na sua honra de cavalheiro. Demais uma senhora respeitavel assistirá á entrevista. Concluiu dizendo-lhe que era na seguinte noite que devia realisar-se a entrevista, ensinando-lhe a topographia da casa e dando-lhe a chave do jardim.

Lucinda dissera isto com voz artisticamente suspensa, como se debalde tentasse reprimir os soluços. Estava preparando uma explosão. Podia ser esse o instante supremo. Frederico devia talvez cair-lhe aos pés, e o susto que teria, elle o timido moço, de ter uma entrevista com uma mulher, apressaria o desenlace. Teria nesse caso a coragem do medo.

Effectivamente era esse o caminho que iam tomando as coisas. No primeiro impeto Frederico ia arrojar-se aos pés de Lucinda, atirando para longe de si a chave do jardim. Mas a reflexão sobreveio, e o extranho rapaz apanhou a chave, e passando a mão pela testa, disse com voz firme:

--Irei. É um dever d'honra.

Lucinda amaldiçoou os escrupulos do seu namorado. O destino obstinava-se; a comedia tinha de se representar até ao fim.

V

Chegou finalmente o dia marcado, e esperado com impaciencia por D. Marianna. Lucinda andava perturbada, e tanto que nem deu por um redobramento de tristeza que se tornava bem visivel no rosto da sua amiga Adelaide, de quem ella se esquecia tanto. Adelaide primeiro fugira a escolhel-a para confidente, porque bem conhecia a sua indole sarcastica, e não queria expor os pobres passarinhos dos seus sonhos a terem a aza magoada por algum epigramma de Lucinda.

Mas pouco a pouco Adelaide sentiu-se despeitada, por vêr que á sua boa amiga era tão completamente indifferente o estado do seu espirito. Adelaide, vendo isto, julgou-se a pessoa mais infeliz d'este mundo; tinha na vida, negro o presente, o passado, e o futuro; o presente ensombrava-lh'o a ciosa preoccupação da sua vida, o passado, onde ella se engolphava com jubilo quando a realidade da existencia a torturava, ennegrecera tambem com a indifferença de Lucinda, o futuro, esse devaneiara-o ella bem dourado, e bem cheio de luz, um sonho rapido e fragrante atravessara-lhe, e perfumára-lhe o viver.... mas esvaíra-se bem ligeiro como sonho que era, tornando apenas com a sua luz fugitiva mais espessas as trevas, que voltaram de novo a enlutar-lhe a mocidade.

A amisade, que votava á sua companheira de collegio, e a profunda tristeza que a salteiára, venceriam a resolução em que estava de conservar secreto tudo o que se passava no seu espirito, e o receio que tinha dos sarcasmos de Lucinda, se a indifferença d'esta não a ferisse mais do que todos os seus motejos. Mas Lucinda andava preoccupada, Lucinda nem reparava na pallidez da sua amiga. Vir ella passar um dia a sua casa, prometter ficar á noute, e não lhe dirigir durante esse tempo todo, mais de quatro ou cinco palavras, era uma cousa que a pobre Adelaidesinha não podia perceber, e ainda menos, a intimidade subita que se estabelecera entre sua tia e a sua amiga. N'esse dia andou aquella toda azafamada a enfeitar-se, a pintar-se, a lustrar o cabello, a dispor _coquettemente_ a sala de visitas; Lucinda ajudava-a n'este trabalho, e trocava com ella em voz baixa palavras mysteriosas. Perguntou Adelaide, espantada de ver tantos preparativos, se se esperava alguem nessa noute, recebeu uma resposta secca das duas senhoras; e a pobre menina, suffocada em soluços, e não podendo conter as lagrimas, refugiou-se, levando um livro, no seu caramanchão favorito. Ahi desaffogou, derramou prantos copiosos, nomeou-se, por decreto proprio, a mais infeliz de todas as mulheres, e pensou que estava abandonada por todos, e que, orphã desde a infancia, era destino seu caminhar solitaria no mundo.

Entretanto, descia a noute, e ella não pensava em voltar para casa. Lucinda, vagamente inquieta, não se tirava da janella. Apezar das palavras que Frederico dissera, ao receber a chave do jardim, Lucinda conhecia bastante a sua timidez organica (se assim podemos dizer) para suppôr que elle não ousaria nunca transpor o limiar da porta. Embebida n'esses pensamentos, esquecera-se completamente de Adelaide, e do encargo que recebera de a entreter, emquanto durasse a entrevista. D. Marianna, enebriada por aquella inesperada aventura, collocava as vellas de modo, que se conservasse na sala a tibia luz, aconselhada por Garrett, a penumbra tão util aos amantes, e duplamente util, a quem só dispõe d'esse recurso para combater, com mais ou menos vantagem, os inconvenientes d'uma certidão de baptismo, que já podia entrar na classe honrosa dos documentos historicos.

Lucinda, encostada á janella do seu quarto, cravava os olhos na escuridão, procurando distinguir o vulto elegante de Frederico. De vez em quando ia espreitar á porta da sala e ria-se. D. Marianna, sentada no canapé, vestida com o fato mais fresco e juvenil, esperava magestosamente a visita d'aquelle a quem os seus encantos tinham rendido.

Afinal, Lucinda viu um homem que se dirigia, envolto n'uma capa escura, para a porta do jardim. As pulsações febris do seu coração indicaram-lhe, mais depressa do que a vista, que era esse o vulto de Frederico.

A noute estava negra; mas um candieiro de gaz, illuminando em cheio a porta do jardim, permittia a Lucinda seguir todos os movimentos de Frederico. Viu-o hesitar, metter a chave na fechadura, tiral-a e affastar-se. Lucinda sorriu-se.

--Deita-a por cima do muro, e foge, murmurou ella.

Mas enganava-se; Frederico pareceu tomar uma resolução definitiva, tornou rapidamente a metter a chave na fechadura, abriu a porta e entrou no jardim.

--Está predestinado, murmurou Lucinda affastando-se da janella. Os seus tolos escrupulos obrigam-n'o a enterrar-se até á cintura no tremedal do ridiculo. E depois quem sabe? Talvez depois de reconhecer a quinquagenaria formosura da Calypso que vae abandonar, o punjam mais os remorsos.

E Lucinda desatou a rir. Mas a reflexão veiu, e uma sombra de melancholia se lhe espalhou no semblante.