Part 2
Parecendo ter o instincto d'essa desorientada situação, a Junta Consultiva de Obras Publicas, objecta, em 22 de maio de 1883, o que chama o--«gosto pyramidal»--da nova torre proposta, gosto ou forma similar á dos scenographicos miranetes dos angulos da reconstrucção ensaiada;--reconhece que simplesmente se procura n'uma engenhosa combinação de arcos botantes e botareus,--como se elles fossem meros elementos decorativos,--«mascarar o esguio e nú que se notava na construcção anterior»,--mas condescende infelizmente com a ideia d'esse «corpo central», aconselhando que elle adopte, de preferencia, a forma de uma--«torre quadrangular».
Até então podera orgulhar-se aquella illustre corporação, de achar-se isempta de responsabilidades n'esta longa e picaresca historia das _obras_ de Belem, tendo-se recusado a authorisar ou approvar quaesquer projectos anteriores.
E se a substituição que aconselha no projecto Valladas parece á primeira vista comprometter um pouco esta feliz isempção, tem pelo menos o valor de ser o primeiro rebate, a primeira nota suggestiva de um facto capital que mal se comprehende que tenha sido teimosamente inobservado e desattendido por quantos teem projectado e engenhado--«concluir»--ou--«restaurar»--o longo e formoso Monumento, alteando-lhe o aspecto e a estructura n'uma florescencia aeria de botareus brincados e de arrojadas agulhas.
Consiste esse facto em que a linha ascencional, as curvas apertadas, as formas esguias, hieraticas, pyramidaes do velho gothico, não são já as feições, as tendencias predominantes do _Manuelino_ que se objectiva e desenvolve em fortes massas longitudinaes, como arcabouços de galeões, sob o simultaneo influxo da Descoberta oriental que impulsa os espiritos para as grandesas terrenas e da Renascença greco-romana que incendeia a Arte no idealismo pagão.
É certamente o instincto, e nem admira que não seja a doutrina segura e nitida, d'este facto, o que move aquelle tribunal de consulta technica a contrapôr o--«typo rectangular e pouco elevado»,--como diz, ao que qualifica de--«typo pyramidal»,--das _obras_, por mais conforme e harmonioso com o typo primitivo, _manuelino_, do Monumento.
De resto, encontrando, a bem dizer, separada e authonoma a construcção nova que devera ser simples continuação da antiga, comprehende se que uma junta official de engenheiros,--e não de artistas ou de criticos d'arte,--transigisse com a idea de dotar essa construcção com um portico, com uma entrada apparatosa, com um «corpo central», privativo e imponente.
Mas que esse «corpo central», recommenda--não siga o typo pyramidal dos miranetes já infelizmente construidos.
E tanto, realmente, a questão insensivelmente se deslocara da idea inicial e geral das _obras_ para a d'aquelle monumento novo, que sobre os projectos de conclusão d'elle não tardou em incidir a sentença official, technica, por aquelle mesmo tribunal formulada de que o «corpo central» haveria de elevar-se alguns metros acima dos miranetes angulares, especie de balisas e enfeites terminaes d'esse monumento novo.
Não podendo, pois, considerar-se approvado o projecto Valladas, nem tendo sido fixada em outro a substituição indicada pela Junta Consultiva, continuaram as cousas no mesmo estado de incerteza e de arbitrio, aggravado ainda por novas irreflexões.
Com o mesmo desceremonioso criterio, ou com a mesma falta d'elle, com que se destinara o historico edificio a instituição asylar de creanças, projectando-se restituil-o á sua integridade monumental, formou-se e realisou-se a idea de o ir aproveitando e adaptando, aos pedaços, para asylo de outras instituições que pelas suas proprias exigencias fundamentaes desparatavam com essa installação ali, e nenhuma relação de consonancia e de harmonia critica poderiam ter com o Monumento.
Assim foi que um pseudo Museu Industrial, especie de Cabeça de Pau de rebotalhos esmolados, sem caracter nem licção que de longe lembre os bellos e instructivos Museus Industriaes de Vienna ou Berlim, pôde petulantemente pregar um lettreiro garrafal e reles sobre a graciosa e rendada archeologia de uma parte da fachada interrompida; como nas paredes do formosissimo e magestoso claustro se exhibem os desenhos e aguadas dos collegiaes, e ferem importunos e irreverentes, as fortes e velhas abobodas destinadas a abrigar a paz dos corações e a devoção dos espiritos, os toques da corneta e as voses da ordenança n'um simulacro de caserna.
Ultimamente se alojou lá, tambem, um outro serviço, um outro pseudo-museu, com o apendice de uma estação chimico agricola, se bem me lembro.
Decerto, na impressão immediata e geral o escandalo não será tal ou tamanho como o do gazometro que defuma mais adiante a joia manuelina da Torre, aquelle bruto aventesma que parece propositadamente postado lá para justificar a phrase que Garrett punha na bocca dos extranhos quando entrassem o Tejo:
--_Aqui moram barbaros!..._
Mas pelo que tenho tido mais de uma vez occasião de observar, o visitante, o forasteiro culto, o observador educado, o pensador delicado que tenha o culto, o amor, o fino sentimento da harmonia, da ordem, da consonancia ideal das cousas, dirá que a Casa Pia é uma excellente instituição, dedicada e intelligentemente servida e dirigida; que o Museu é bonito e poderia ser util, que é lamentavel até, que lhe não dê o Estado mais recursos para melhor valer, mas que tudo isso fica mal ali; que disparata irritantemente com o caracter, com a significação, com a propria estructura do Monumento; que interrompe ou affronta a integridade, a dignidade d'elle.
Se esse visitante fôr um medico, um hygienista ou um pedagogista serio, dirá que á propria instituição asylar, ás condições e ás conveniencias da sua natureza e destino repugna aquelle alojamento.
Se pensar, e souber, seriamente, o que são museus; o que são, especialmente, museus industriaes; porque e para que se querem e se fazem; se os tiver visto _funccionando_, frequentados, todos os dias, por artistas, por operarios, por mestres e patrões das grandes e pequenas industrias que vão ali beber a lição directa, pratica immediata dos modelos, da mão d'obra, do fabrico, dos preços, e não apenas, em desenfadamentos de domingos e feriados por curiosos burguezes: esse visitante observará que o museu está mal, deslocado, pouco menos que inutilisado ali, fóra das grandes correntes de circulação, dos centros mais activos do trabalho industrial.
Se fôr então um artista...
Mas para que procurar novos exemplos?
A impressão será commum.
Esse visitante dirá:--«Esta gente ou este Estado não tem a comprehensão, a vontade, a disciplina, _a medida_ exacta, racional, das cousas bellas, uteis, praticas da vida nacional. Mistura tudo: um asylo de pobreza, com um monumento d'Arte; um padrão de Historia com um museu de Industrias; a archeologia, a beneficiencia, a fabrica; a descoberta da India, a infancia desvalida, o trabalho manual e mechanico. Na Torre de Belem, pozeram um pharol, alguns postes telegraphicos, e a formar-lhe o fundo um gazometro, e montanhas de carvão; qualquer dia dão o Convento de Christo de arrendamento a um fabricante de pannos; já uma vez derrubaram um lanço do Castello de Leiria para offerecer uma pequena orgia pyrotechnica a uma visita regia. Não fizeram ha pouco da celebre estatua do Terreiro do Paço, centro ornamental de uma barraca de feira, e da columna do Rocio, poste de illuminação chineza? E o mais e o mais...»
Voltemos, porém, aos Jeronymos.
Ora é claro que independentemente das adaptações com que os hospedes alludidos irão alterando e deformando, mais ou menos disfarçadamente, o Monumento, não pode ser indifferente ao caracter e á integridade d'elle se lealmente se pretende restaurar ou restituir, o seu destino, a sua applicação actual, até porque tal circumstancia ou tal elemento pode quebrar ou pode completar essa integridade; pode affrontar ou pode enaltecer esse caracter.
Não fica a bem dizer, completa e perfeita a restituição monumental somente com affeiçoar mais ou menos o plano e a pedra á fórma primativa.
No Monumento fundiu-se uma idea; reside e perpetua-se n'elle uma intenção, um culto, uma consagração historica que se quer respeitar desde que se quer conservar e restaurar o Monumento.
Se não se comprehende, se não se sente, se não se respeita isto, parece hypocrisia o empenho e o cuidado da conservação material.
O monumento commemorativo de um feito que synthetisa e glorifica o nome, o esforço, a missão historica de um povo atravez das idades e das nações, não póde ser vasadouro ou asylo eventual de serviços e instituições avulsas sem caracter nem significação que com a d'elle condiga n'uma expontanea e nobre consonancia moral.
Santa Maria de Belem é o _Te-Deum_ que agradece e celebra a victoria da idea, da fé e do esforço que alargaram o nome e a terra da Patria portugueza, como Santa Maria da Victoria canta e celebra o triumpho do direito, da vontade, da rasão das gerações que fizeram essa Patria, independente e soberana.
Completam-se e continuam como padrões do desenvolvimento de um povo no tempo e no espaço, na sua solidariedade historica e na sua individualidade politica.
Pertencem á historia d'esse paiz.
São monumentos religiosos, menos já porque o sejam de uma crença mystica do que porque o são da honra e do nome commum.
Guardar, conservar, reparar, amoravelmente, devotamente, taes monumentos,--estes como tantos;--restituir aos Jeronymos,--que é o caso especial, opportuno, que nos preoccupa,--a continuidade, a integridade, a conclusão panoramica, esthetica, monumental: nada mais honesto, mais digno, mais affirmativo da nossa dignidade civica e da nossa cultura moral.
Mas não é tudo.
Um elemento d'essa restituição é hoje irrestituivel. Perdeu-se; não pode restaurar-se; porque não era, como os outros ou como a Arte, necessario e eterno. Ha de sempre succeder isto.
Mas como não ha Jeronymos a alojar, nem poderá resuscitar-se a instituição que desappareceu na evolução do tempo, das necessidades, do modo de ser social, para vir de novo povoar a monumental fabrica, outra terá de escolher-se e outra se escolha que se conforme com a significação, com a finalidade, com o caracter historico, fundamental e perenne, do Monumento; com a intenção, com a affirmação subsistente e actual d'elle.
Está bem de ver que assim como não se teria feito o Convento se não houvesse frades, não se ha de reconstituil-o para o deixar vasio e inutil ás necessidades da vida e da administração nacional moderna.
Teve já uma certa voga o pensamento de destinar o Templo, a jazida dos restos de cidadãos benemeritos e illustres; a Pantheon Civico, como costuma dizer-se.
Arriscada e difficil na execução, a idea era ao primeiro aspecto perfeitamente pratica e sympathica: restricta aos nomes ou aos personagens sobre os quaes passou já o juizo da Historia, tinha até a vantagem de nos redimir de muitas vergonhas.
Melhor, talvez do que no Templo, propriamente dito, na vasta gallilea, poderiam recolher-se, em sarcophagos de pedra, os restos dispersos dos heroes da Descoberta, dando-lhe assim o destino historico de _Campo Santo_ que tão naturalmente se harmonisaria, até, com a tradicção d'aquella especie de construcções.
Com relação á parte conventual, n'uma commissão official de que fiz parte, ha annos, foi lembrado que ficaria ahi adquadamente installado o museu de Bellas-Artes, esse pobre nomada que não obteve ainda alojamento proprio, e a Escola correspondente que talvez podesse chamar-se assim do seu feiticismo academico e extrangeirista á contemplação e ao amor da Arte nacional.
Mas os Museus e as Escolas tem condições especiaes de installação que não poderiam facilmente realisar-se no edificio de Belem, sem prejuizo da estructura d'elle, além de convir aos primeiros, especialmente, quando dotados de um caracter e destino de applicação actual, uma situação mais central e accessivel, á beira das grandes correntes de circulação urbana.
Ora succede que uma instituição existe de um capital e universal interesse social e historico, e de um caracter que perfeitamente se harmonisa com o do monumento, tanto que logo na fundação delle podera ter-se-lhe associado, e não offerece, hoje ainda, exigencias de adaptação que o contrariem.
Acresce que essa instituição impropriamente installada, não tem já alojamento que em boas e seguras condições lhe comporte o continuo e necessario desenvolvimento.
É o Archivo Nacional, a tradiccionaria _Torre do Tombo_, o riquissimo e genuino repositorio da vida da Nação em todos os seus elementos e em todas as suas evoluções; já se vê: o Archivo Nacional reformado, ampliado, restituido á sua nobre e justa authonomia, recolhendo e reunindo todas as folhas dispersas da Historia Portugueza, desde os humildes codices dos conventos, das freguezias, dos bispados, que apodrecem por esse paiz fóra armazenados nas Camaras Ecclesiasticas, até aos mais graduados diplomas da vida do Estado, cuja ordenação, cuja authenticidade até, anda arriscada, de ha muito, na falta de um registamento central e alheio ao simples expediente vario das repartições bureaucraticas.
E não só recolhendo e colligindo as folhas de pergaminho e de papel, mas as de pedra e de bronze em que essa Historia se fixa: Archivo e museu archeologico portuguez, ao mesmo tempo.
Onde poderá encontrar-se mais propria e grandiosa arca para encerrar taes thesouros?
Que mais condigno deposito poderá confiar-se áquellas fortes e venerandas muralhas e abobodas impregnadas da tradição gloriosa da Nação?
Como se ajustariam conteudo e continente n'uma imponente e sugestiva harmonia de estimulos e de saudades; n'um mesmo culto e n'um mesmo testemunho de honra e de nobreza?
E depois, seria talvez o caso unico em que não tivesse de sacrificar se o Monumento á instituição hospedada ou de prejudicar esta para poupar aquelle.
III
Conveniencias occasionaes de administração ou de politica entregando ultimamente as _obras_ de Belem a uma Repartição regularmente official e technica:--a da conservação dos edificios publicos,--pareceram encerrar, em fim, a historia aventurosa e tumultuaria d'essas _obras_.
Em 17 de março de 1894 essa Repartição, expondo ao Governo a conveniencia de concluir as _obras_ e de as ter terminadas por occasião do Centenario da India, propoz que se abrisse um concurso entre architectos nacionaes para se fixar definitivamente o caracter e projecto d'essa conclusão. Concordando, o Conselho d'obras publicas aconselhava, em 7 de maio, que o Director dos edificios publicos procedesse á elaboração do programma do concurso no sentido de obter um projecto de conclusão expedita e economica, «tão simples quando o permitisse o estylo Manuelino», e em 21 do mesmo mez mandava o Ministro que esse Director desse seguimento á proposta e parecer alludidos.
Mas sobrecarregado com outros encargos, hesitando, talvez, na definição das condições fundamentaes do concurso ou na propria idea e conveniencia d'elle, este funccionario apresenta, um anno depois, em 21 e 27 de maio de maio de 1895, não o programma do concurso que proposera, mas um projecto de conclusão elaborado pelo architecto Parente da Silva que lhe annuncia a remessa proxima de quatro ou cinco projectos ou variantes em preparação ainda;--outro projecto de um habil desenhador da Repartição e n'ella elaborado,--finalmente a idea propria, tambem transferida para um projecto,--de se prescindir da construcção de um «corpo central», completando a fachada na fórma e estylo uniforme dos dois lanços d'ella que subsistem, idea e projecto que alem de preferir por mais expedita e barata, acabara por intransigentemente considerar a mais adquada e racional.
--«A melhor, a unica solução que o proprio sentimento patriotico e artistico recommendam»,--diz, então,--«é, para mim, indiscutivelmente a construcção seguida dos mesmos membros e vãos ja construidos, rigorosamente identicos, _sem corpo algum central_.».
E tendo entendido dever amparar a sua idea na opinião de alguns consultores avulsos, um d'estes o architecto José Maria Nepomuceno mais accentuadamente a explica observando que a circumstancia do eixo longitudinal das arcadas coincidir com o eixo maior do Templo e a de todos os pilares dos arcos serem egualmente distanceados, provam a união entre a galilea e aquelle, e confirmam a indicação historica de que a serie dos arcos era desempedida e desafrontada, sem obstaculo algum, até á porta occidental da Igreja: conclue, pois, por considerar contrario ao caracter primitivo da construcção, o famoso «corpo central» tantas vezes imaginado.
Manda a justiça dizer que este teimoso disparate do «corpo central», agora mais doutrinariamente frisado pelo architecto Nepomuceno, parecera ter sido já percebido antes, pois que de uma allusão do processo official se depreende que pouco depois da derrocada de 1878 um engenheiro, o Sr. Cabral Couceiro, proposera que se prescindisse de vez d'essa excrecencia phantasista e impropria.
Quanto aos dois outros projectos elogiosamente apresentados pelo Director dos edificios publicos, visando ambos á construcção de um «corpo central» mais ou menos aparatoso, dispenso-me de occupar-me d'elles, depois do que deixei escripto atraz, relativamente a esta deploravel idea de scindir o Monumento em dois, ou a esta extraordinaria incomprehensão historica e artistica da estructura e do typo do grande monumento Manuelino. Mas não ficaria bem com a minha consciencia deixando de reconhecer que se esse «corpo central» não fosse fundamentalmente uma deformação, o imaginado pelo desenhador Bemvindo A. Ceia, n'um dos dois projectos alludidos, seria de quantos até hoje teem sido propostos, o que menos brigaria com o typo e com o caracter architectonico e esthetico do Monumento, pela sua fórma geral e pelas suas linhas e feições de decoração e estructura.
Evidentemente, porém, não é a uma repartição de simples expediente technico de conservação e reparação dos edificios do Estado que pertence propôr ou deliberar qual seja a melhor,--quanto mais a «unica»,--solução de obras da natureza e com o fim d'aquellas que se pretendem concluir no Monumento de Belem.
Desde a sua recente reorganisação se occupara d'ellas a Commissão dos Monumentos Nacionaes, e justamente apprehensiva pela licção do passado e pelos exemplos do presente com esta manifesta tendencia de absorpção bureaucratica do assumpto, já em officio de 29 de julho de 1894 e em conferencias verbaes com os Ministros das Obras Publicas, exposera a necessidade de que elle fosse larga e competentemente estudado, reividicando, mesmo, o direito que pelo seu regulamento lhe era attribuido, quando não lh'o fosse pelo proprio facto da sua instituição official, de ser ouvida sobre quaesquer projectos que tão grave e intimamente interessavam um dos nossos mais notaveis Monumentos.
N'este pensamento tão simples e justo, naturalmente nos encontrámos com o criterio illustrado e patriotico do actual Ministro, que fazendo sobrestar em todas as propostas e instancias recebidas, ordenou, em 29 de maio ultimo, que nos fosse enviado o processo para que sobre elle podessemos proferir o parecer e voto do nosso estudo e da competencia que a lei nos attribuiu.
A situação é clara e simples.
Não nos achamos a contas com o problema aberto de uma construcção, de uma restauração, de uma restituição monumental.
Achamo-nos em face de umas certas obras de construcção emprehendidas inteiramente fóra da nossa responsabilidade, com o fim de substituir edificações demolidas e de continuar e completar o Monumento dos Jeronymos por uma fórma que se entendeu melhor conformar-se com o caracter d'elle.
Como essas obras não obedeceram a um plano geral definido e certo, pergunta-se como terminal-as e concluil-as n'uma mais proxima e mais segura harmonia com o aspecto, o caracter, a significação historica e artistica do Monumento.
É só isto, mas não é menos do que isto.
Porque a questão hoje creio que só póde ser ou que é só, esta:--concluir essas _obras_, como quem dissera: trancar e resgatar esse escandalo, procurando restituir o Monumento, tanto e como possivel ainda, á sua intrigridade architectonica, panoramica critica, por maneira que corresponda ao objectivo moral e ao objectivo pratico que podem authorisar um Estado regularmente administrado e um povo authenticamente culto a emprehender e fazer uma obra d'esta natureza.
Não póde já, é claro, corrigir-se todos os erros; expurgar o trabalho feito de todos os aleijões; desagravar a Historia e a Arte de todas as violencias, de todos os attentados soffridos.
Não ha de deitar-se abaixo quanto se fez.
A brutalidade de um segundo desabamento poderia ser util, podera parecer providencial, como foi irrecusavelmente o primeiro, mas o Estado não faz derrocadas e não pode proceder brutalmente.
No fim de contas, estão gastos ali mais talvez de 500 contos de réis;--358 vimos já que se tinham gasto até 1878, em 15 annos,--e todos estes algarismos só podem deixar de impôr-se a espiritos desiquilibrados, irresponsaveis.
Consumiu-se muito trabalho e fez-se e existe,--é justiça dizel-o,--muito trabalho primoroso.
N'estas grandes edificações monumentaes tem sempre de ficar o rasto e o cunho das gerações que se succedem ou que por ellas passam: do seu gosto, da sua educação, da sua acção, da sua obra material ou da sua obra moral. Não temos, ali mesmo, em Belem, todo o vasto corpo da Capella Mór e uma grande parte do claustro, por exemplo, a apregoar uma remodelação, um enxerto, uma invasão irreverente, sacrilega, até, da esthesia e do trabalho originario?
Não seria um attentado maior, um absurdo, um disparate collossal derrubar tudo isto sob pretexto de uma restituição que seria apenas um artificio pretencioso e ridiculo?
Fiquem pois os minaretes inexplicaveis, mais levianos que ligeiros, fique até a irritante torre mitrada, se a sua estabilidade está garantida; fiquem as phantasias que custaram muito dinheiro e muito trabalho, quando a sua supressão correctiva possa prejudicar, mais do que o seu disparate incidental, o que deve ser e é o commum interesse e empenho d'agora.
Fiquem, que ficam attestando a situação social que as tornou possiveis.
Os factos consumados não se supprimem. Derrubadas essas phantasias inscientes não se teria suprimido o processo extravagante que as produziu, nas suas relações e nas suas revelações historicas.
Aproveite-se e emende-se, tanto e o melhor que fôr possivel, o que está feito; embarguem-se e tranquem-se, de vez, as tendencias tumultuarias e vaidosas para uma construcção monumental nova, de sobreposse, em competencia com o corpo principal do Monumento; recomponha-se a ligação com este, ineptamente cortada; abra-se, de par em par e de lez em lez, a formosissima e singular gallilea; imponham-se os restos da vasta carcaça para a reconstrucção da parte interrompida e derrubada da fachada, vedando em fim aquella brecha á insolente pretenção de um «corpo e portico central» de «imaginaria» scenographica e reconstituindo o lanço graciosamente uniforme e modesto das arcarias e casaria primitiva.
E feito isto, ou mais exactamente, á medida que se faça isto, desafronte-se o Monumento das edificações reles e do jardim pelintra que lhe interrompem e afogam, do lado do Rio, o vasto e formosissimo aspecto;--desobstruam se as suas imponentes gallarias e salões, das installações improprias que os teem ido invadindo: do asylo da Casa Pia que melhor e mais adquada collocação encontrará facilmente fóra da cidade;--do pseudo Museu industrial que, se comprehende o seu rasoavel papel, deve procurar as grandes correntes de circulação urbana e os bairros onde se concentra o movimento das industrias, etc.
E desobstruida, e desafrontada, e concluida a monumental edificação, complete-se a sua integridade historica, nacional; por um lado: alojando no Mosteiro o Archivo da Nação; por outro lado: removendo do Templo o exercicio e a administração do culto parochial.
Este é o meu parecer e o meu voto.