As Obras Dos Jeronymos Parecer Apresentado A Commissao Dos Monu

Chapter 3

Chapter 31,583 wordsPublic domain

Muito propositadamente o quiz ir explicando e definindo n'esta summaria nota, tanto para que a responsabilidade individual d'elle mais desafogada deixe a da resolução que os meus collegas entendam dever preferir, como para escusar delongas de discussão em assumpto e idéas que reclamam realmente uma resolução prompta e sobre as quaes, pela minha parte, considero inutil voltar.

Como se vê, em relação á forma ou processo material da conclusão das obras, as minhas idéas, de ha muito definidas e affirmadas, coincidem, geralmente, com o projecto apresentado pelo Director dos edificios publicos, e excluem todos os outros, e todos ainda que possam reincidir na excrecencia que considero historica e artisticamente absurda de um chamado «corpo central».

Mas propoz tambem esse funccionario, embora não pareça ter presistido na idéa, a abertura de um concurso para apurar o projecto da conclusão desejada. Comprehendo que o «concurso» encontre uma corrente favoravel e sympathica, mais ou menos artificiosamente sugerida, na opinião geral.

O «concurso» não deixou inteiramente de ser, ainda, uma especie de feitiço nacional, por mais que tenha mostrado ser, apenas, um processo embusteiro de dissolver e esconder responsabilidades, quantas vezes tambem, de arredar merecimentos reaes, de elevar insignificancias, de esmagar direitos.

O bom, o genuino, o pratico concurso é a livre concorrencia do trabalho, das aptidões, da affirmação positiva dos merecimentos de cada qual, perante este juiz difficilmente corruptivel que se chama Toda-a-gente, ou este Tribunal implacavel e permanente que se chama a Historia.

O «concurso», no caso pendente, ou ha de ter uma base extremamente restricta de applicação que o torna inutil, ou alargada essa base sobre o thema da melhor conclusão, não apenas das _obras_, mas do Monumento, ir-nos-hemos envolver em novos embaraços e em novas delongas, se é que não tivermos de reconhecer que se perdeu muito tempo e muito trabalho para não obter um projecto viavel.

No começo das obras o concurso podera ter tido, ao menos, a vantagem de suscitar o estudo detido e serio da reconstrucção ou da restauração a fazer; dos elementos e caracteres do estylo a seguir; das condições e circumstancias da obra a realisar.

Hoje daria, naturalmente, apenas, o resultado de mais demorar a conclusão e de mais a affastar, ainda, do caracter e estructura primitiva,--modesta e simples,--da parte que se quiz reconstruir.

A emulação e a prosapia dos concorrentes forçar-lhes-hia a imaginação; cada qual procuraria produzir um projecto do que mais e melhor se affirmassem os seus recursos, as suas aptidões, a sua originalidade de constructor e de artista.

E se a isto juntarmos as influencias perturbadoras da indisciplina intellectual e educativa que enfraquece e desmoralisa por egual a nossa producção e a nossa critica artistica; se contar-mos com a pressão das consagrações forjadas e impostas pelas pequenas camarilhas num meio mal organisado para que o publico pense e julgue por si, n'estas cousas da Historia e da Arte, facil é de prever, a quem não fôr inteiramente inexperiente e ingenuo, que o concurso longe de ser um processo expedito e seguro será o mais arriscado e menos pratico, nas circumstancias ou nas condições, pelo menos, em que o problema tem de ser posto e resolvido.

O exemplo,--um pequeno mas significativo exemplo,--do concurso para a pintura do tecto do Theatro _D. Maria_, não é muito antigo.

E eu sei bem quanto se viu atormentado um jury firmemente consciencioso e sério para dar a preferencia ao projecto do monumento a Affonso de Albuquerque que mais estudo, mais caracter, mais originalidade intelligente e san possuia, mas que fôra pensado e elaborado por um artista sem nome, sobretudo sem camarilha.

De resto, o que se pretende e precisa é menos um trabalho de concepção, que de direcção e execução architectonica. Quanto menos esforço conceptivo ou inventivo se despender, mais garantido fica o caracter restitutivo da construcção.

Temos no paiz pouco mais,--se tanto,--de meia duzia de architectos authenticos. Para o que entendo que deve ser ou que só pode ser hoje a conclusão das obras, nos termos praticos que todas as circumstancias indicam, póde antecipadamente affirmar-se que qualquer d'esses architectos é apto e competente.

Por estas e por muitas outras rasões ainda, concluo, pois, por julgar mais do que dispensavel, inconveniente, o concurso, e direi até que uma d'essas rasões é exactamente não ver explicada a necessidade d'elle.

Resumindo e terminando, o que tenho a honra de propôr é que se aconselhe ao Governo, o seguinte:

1.^o--A conclusão das obras deve consistir na união do Templo com a Galilea; no desobstruimento completo d'esta desde o seu extremo occidental até á porta da nave principal do Templo, e na reconstrucção da parte interrompida da mesma galilea e da casaria sobreposta, em perfeita e uniforme continuidade dos membros e vãos existentes, com absoluta exclusão de qualquer corpo central,--real ou simulado,--por contrario ao caracter primitivo da edificação e á unidade monumental d'ella. As secções posteriores das obras deverão concluir-se com a maior sobriedade architectonica e decorativa tendo sómente em vista completal-as e ligal-as n'uma traça geral no menor praso e com a maior economia.

Deverão ser aproveitadas e conservadas, quanto possivel, as construcções feitas, e poderá servir de base á conclusão indicada e projecto apresentado pelo Director dos edificios publicos com as variantes approvadas por uma commissão que terá a seu cargo a inspecção da obra até final.

2.^o--A obra deverá ser mantida na administração directa do Estado, e feita pela Repartição dos edificios publicos, tendo a inspecção superior e permanente d'ella, até á conclusão, uma commissão composta de um engenheiro, de um architecto e de um critico d'Arte, respectivamente escolhidos pelo Conselho Superior d'Obras Publicas, pela Academia de Bellas Artes e pela Commissão dos Monumentos Nacionaes.

3.^o--Deverão ser e estar removidos até o dia 31 de dezembro de 1896, todos os estabelecimentos que actualmente occupam diversas secções do Monumento, e bem assim transferida para outro Templo a séde parochial.

4.^o--Até á mesma data deverá ser o Monumento desafrontado das edificações de qualquer especie que se intercallem entre elle e o Rio ou o caes marginal.

5.^o--O Templo deve ficar destinado, sómente, ás grandes celebrações religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores e Navegadores portuguezes.

6.^o--Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento e installação do Archivo Nacional, convindo que essa installação se ache concluida até o mez de Maio de 1897.

Lisboa, 2 de Novembro de 1895.

_Luciano Cordeiro._

Notas:

[1] «Copia. Fachada geral do edificio tal qual existia antes de se proceder á reconstrucção». (Escala 1:100) Tem a rubrica:--«Manuel Raymundo Valladas, major d'engenheria, director da Casa Pia, encarregado dos trabalhos de reconstrucções».

Consta-me que o original existe no cartorio da Casa Pia.

[2] _Galilaeum_ porticum hoc interpretatur, quam nostri Galerie vocant; etc. (_Ducange_).

Ha quem prefira ainda a fórma barbara e obsoleta de _galilé_, e escusado é dizer que as duas são indifferentemente adoptadas pelos melhores lexicographos. Mas o que tem graça é o debique que a fórma culta e portuguesissima de _galilea_, desde que eu a adoptei, de preferencia, soffreu na propria commissão dos monumentos.

--«Que galilé é que era, porque... assim escreviam as _chronicas_», e ainda por este apendice jovial da rasão: «que Galilea era uma terra, uma região bem conhecida».

E se fosse exactamente do nome classico da provincia da Judea, theatro e berço dos primeiros mysterios christãos, que devesse extrahir-se a etymologia melhor do termo indicativo d'aquelle membro da architectura sacra?

Vale talvez a pena pensar n'isto, se não acham mais commodo contentar-se com as derivações etymologicas de _galea_, _leae_; de _galeatus_ (_galea indutus_); de _galerus_, _ri_, etc. em que não sei se teem alguma vez pensado.

[3] É extraordinario como se perdeu a noção facil e pratica da disposição geral da edificação, da sua orientação, ou como mais exactamente se póde dizer, da sua _occidentação_, a ponto de se obstruir e afogar a secção occidental, a entrada da galilea, que se tivesse sido reconhecida e mantida não teria deixado pensar em corpos ou entradas «centraes» na fachada do sul. N'um parecer juncto ao processo lembra Nepomuceno a indicação de Carvalho da Costa de «que em certos dias _o sol ao cahir_ entrava pelo arco onde estava a fonte e ia bater na porta do sacrario».

[4] Depois de ter escripto este parecer disse-me o meu amigo e dedicado director da Casa Pia, F. Margiochi, que o projecto original existe ali.

[5] «Cadernos dos esclarecimentos pedidos pela commissão nomeada por portaria de 19 de dezembro de 1878»...

No processo official do Ministerio das Obras Publicas.

[6] Tenho idea, e mais alguem a terá, de que na decoração do famoso corpo ou torreão central que ruiu, apparecia até... o escudo da Saboia, cortezã allusão, naturalmente, ao recente consorcio Regio. Tambem n'uma reconstrucção (sic) da Madre de Deus, póde ver-se, ainda, torneando o capitel d'um columnello gothico... um comboio de caminho de ferro! Homenagem á visinhança...

[7] Relatorio da adm. da R. Casa Pia de Lisboa, relat. ao anno econ. de 1891-1892.--Lisboa, 1895.

[8] «As obras teem tido andamento consideravel sob a direcção do Sr. architecto Domingos Parente da Silva.» _Rel. da adm. da R. Casa Pia, relativo ao anno de 1891-1892_.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correcção | +----------+---------------------+----------------------+ |#pág. 3| resconstrucção | reconstrucção | |#pág. 4| pripcipalmente | principalmente | |#pág. 7| soberbamento | soberbamente | |#pág. 7| o propria destino | o proprio destino | |#pág. 8| substituido | substituindo | |#pág. 10| seguida | seguido | |#pág. 13| o luxuosa | a luxuosa | |#pág. 14| boratareus | botareus | |#pág. 15| a gracioso | a graciosa | |#pág. 16| recurssos | recursos | |#pág. 20| publisos | publicos | |#pág. 21| artistico | artistica | |#pág. 21| architetonico | architectonico | |#pág. 22| Miuistro | Ministro | +----------+---------------------+----------------------+

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