As Noites do Asceta

Chapter 3

Chapter 32,750 wordsPublic domain

O paço d'Azeitão! O que hoje são paredes ruinosas e negras era n'aquelle tempo um palacio que, segundo o phrasear de Frei Luiz de Souza, podia competir com os melhores de Hespanha. Casas, jardins, pomares, bosques e pinhaes magnificos! E como tudo isso foi docemente conquistado pelos descendentes do mestre de S. Thiago aos frades de S. Domingos, seus visinhos! Pediram terreno para fazer uma casa de campo. Os frades, orgulhosos da nobre visinhança, deram o terreno, e o mais que lhes foram pedindo, até que appareceu o grandioso palacio, de que restam as paredes!

Mas fiquem em paz as ruinas.

Respirava dilatada na profunda solidão da serra da Arrabida a alma de Frei Agostinho da Cruz depois que o duque d'Aveiro lhe fizera mercê da ermida, que ainda hoje se conserva em memoria do seu primeiro morador. Pequena era a habitação do ermita, em verdade, mas a alma do poeta tinha maior espaço na amplidão da montanha coroada pelo firmamento e defrontada pelo oceano. Frei Agostinho amava profundamente a noite, porque era só então que a sua pallida figura de solitario podia errar livremente, nas asperesas da serra, acobertada pelas sombrias azas do mysterio. Algumas vezes, de dia, o molestavam até á mortificação a visita de pessoas amigas e a reservada espionagem dos religiosos do mosteiro que, por quererem parecer mais zelosos, não supportavam que Frei Agostinho vivesse fóra da clausura. Mas a noite adormecia a vigilancia nos olhos dos espiões, e afugentava da asperesa da serra as pessoas que lá o procuravam. Então, a sua alma podia voejar desopprimida de receios, e subir em extasis para Deus ou roçar por ventura as suas azas, purificadas no chrysol da fé, pelas austeras paredes do mosteiro de Jesus, onde vivia a que fôra a gentil aiasinha de D. Izabel.

Fossem quaes fossem as tribulações de Frei Agostinho durante os amigos silencios da lua, como diz a expressão virgiliana, jámais deixou de fazer oração antes de sair o sol, e de nas primeiras horas da manhã ir á ermida da Senhora da Memoria ouvir a missa de Frei Diogo dos Innocentes, outro solitario que depois lhe ajudava.

Era, pois, durante a expressiva mudez da noite que por deante dos olhos do solitario da Arrabida perpassavam os phantasmas do passado, as visões do presente, e talvez as prophecias do futuro. Desenhava-se-lhe com sombrio relevo o ephemero tempo da sua mocidade agora povoado de cadaveres. Em 1576 havia fallecido em Villa Viçosa a infanta D. Izabel. O infante D. Duarte, que acompanhára el-rei D. Sebastião na sua primeira jornada a Africa, voltára enfermo ao reino e fallecera no mesmo anno que sua mãe, dois mezes depois. A infanta D. Maria, casada com o principe Farneze, dera em longes terras a alma ao Creador, um anno depois de sua mãe e de seu irmão. O nome da duqueza de Bragança, D. Catharina, entremostrava-se-lhe envolvido n'esse labyrintho de graves acontecimentos politicos que succederam depois da morte do cardeal. Seu irmão Diogo Bernardes, que estivera captivo em Africa, por haver acompanhado D. Sebastião a Alcacerquibir, na qualidade de chronista, e que lográra repatriar-se, recebendo no reino uma tença de Filippe II, fallecera n'esse mesmo anno em que Frei Agostinho conseguira recolher-se á Arrabida. Pedro d'Andrade Caminha tinha succumbido dezeseis annos antes. A colera do Senhor havia passado sobre o ceu da patria como um gladio de fogo, e a fome, a peste e a guerra haviam devastado a terra onde o cadaver de Camões, amortalhado na bandeira gloriosa das quinas, dormia o somno da immortalidade.

Esse fôra o grande poeta que morrera com a patria.

Todos os mais, aquelles de quem Frei Agostinho da Cruz se lembrava, taes como seu irmão Diogo Bernardes e Pedro Caminha, haviam adorado todas as realezas e todos os homens; atravessaram a côrte portugueza trovando e trovando entráram na côrte hespanhola.

Ah! elle não! Elle, o solitario da Arrabida, fizera do amor terreno a escada de Jacob por onde subira ao amor divino.

A gentil aiasinha da infanta D. Izabel envelhecera reclusa no convento de Setubal. Era como que um livro que elle fechára ao vestir o habito, mas que o seu coração encadernára no pergaminho da saudade, como que para durar sempre.

O unico poema que lhe era dado lêr, quando d'essas encerradas memorias desviava a vista, era o vasto firmamento arqueado, n'uma grande serenidade azul, zebrada de lacteas ondulações, sobre o dorso austero da montanha.

Umas vezes a lua, suspensa como enorme lampada circular, outras vezes as palpitações luminosas do relampago lhe allumiavam estas horas nocturnas de funda meditação.

Certo dia, pouco depois da visita do duque d'Aveiro ao convento de Jezus, procurou-o na serra o Padre Frei Fernando de Santa Maria, _por negocio preciso_, diz piedosamente o biographo Mesquita. Estava alheiado em extasi Frei Agostinho da Cruz, quando o Padre Fernando chegou. Foi mister dar-lhe tempo de redescender á realidade terrena e, quando a alma do asceta voltou a encarnar-se no homem, o Padre Fernando de Santa Maria entregou a Frei Agostinho da Cruz uma carta que em Setubal lhe haviam confiado para o solitario da Arrabida.

--Quem se lembra ainda de mim no mundo? perguntou serenamente Frei Agostinho.

O Padre Fernando encolheu os hombros, inclinou-se e sahiu.

Frei Agostinho lançou-se contra o solo aspero da ermida, e por longo tempo permaneceu em oração. Quando a vaga claridade do luar nascente principiava a cobrir d'uma fina gaze branca a amplidão do mar, Frei Agostinho desceu tranquillamente a montanha em demanda da lapa de Santa Margarida, o seu retiro dilecto das noites luminosas.

Ah! a gruta de Santa Margarida!

Ide cortando as aguas com o rumo na serra da Arrabida. Quando ao sopé da serra encontrardes o legendario penedo chamado do _Duque_, onde D. Alvaro de Lencastre ia sentar-se a pescar, desembarcai. Então vos espera a maior formosura que jámais vos foi dado vêr. Abre-se em dois arcos a rocha, um que dá sobre o mar, outro que dá para as fragas. Entrai pelo do mar, até onde vos poder levar o vosso barquinho, como fazem os pescadores do Cabo quando vão ouvir missa ou levar offrenda á santa da Lapa. De repente arquea-se sobre vós a grande gruta silenciosa, cheia duma frescura e d'uma suavidade inalteraveis, sepultada num silencio religioso que o roçar das ondas parece não interromper. Recorta-se irregularmente em caprichosas estalactites o concavo da lapa. Em alguns pontos, foram subindo do solo as columnas vitreas a que os naturalistas chamam estalagmites, e tanto cresceram que poderam fundir-se com as grandes massas de carambina pendentes da abobada. Abraçaram-se, e fizeram columnas que tres homens não poderão circullar com os braços: Ao fundo da gruta tremeluz a alampada no singelo altarsinho de Santa Margarida, que o mar, quando nas marés vivas entra em cachões pelas rusticas arcadas, parece respeitar, desenrolando-lhe aos pés um tapete de espuma: Quando isto não é, encarregam-se as ondas de alastrar de plantas e despojos marinhos o chão da lapa.

Ahi, como aprazia á sua alma, descançou Frei Agostinho da Cruz.

Houve um momento que pareceu de hesitação, durante o qual o solitario monge acompanhou com a vista os caprichosos recortes da vaga á bocca da gruta. O luar descrevia até meio da lapa uma zona clarissima. Frei Agostinho introduziu a mão direita entre o habito e o peito, e tirou a carta que o Padre Fernando de Santa Maria lhe havia entregado. Abriu serenamente e leu... Mas, lidas algumas palavras, Frei Agostinho levantou-se de golpe, avançou alguns passos como para conseguir que um raio da lua cahisse em cheio sobre o papel, tornou a ler, ergueu de novo a fronte, e, saccudindo o papel na mão nervosa, apostrophou:

--Bemdicto sejas tu, Senhor, que não te esqueceste de mim na minha solidão! Agora posso morrer no teu seio, ó santo Deus dos affligidos e dos peccadores.

E ajoelhou, e levantou os olhos ao ceu, e assim esteve longo tempo com a fronte cadaverica melancholicamente illuminada pelo luar.

A chave do segredo, que esse papel continha, está nos versos de Frei Agostinho, n'essa mesma noite escriptos na gruta de Santa Margarida. Dizem assim:

A D. BRANCA

Como queres que negue a teu esp'rito, Branca, serva da branca Virgem pura, Mostrar o que me pedes por escripto? Não sei eu por qual outra creatura Os tristes versos meus desenterrara Debaixo de tão alta sepultura. Mas pois de branca queres fazer clara, Aquella luz Divina te esclareça, Que nunca a bons desejos desampara. Não imagines cousa que te desça Do caminho do Ceu breve, e seguro, Por mais que trabalhoso te pareça. Com penas immortaes do reino escuro Não te quero espantar; pois seguir queres A Cruz do teu Senhor por amor puro. Que podes esperar, por mais que esperes, Do mundo, que te tem desenganada, Que te póde faltar, se a Deus te deres? Se vires que por tudo deixas nada, Por nada deixarás o que descança No curso d'esta vida tão cançada. A tanto subirás n'esta mudança, Que não haverá dôr, por mór que seja, Na qual não cresça mais tua esperança. Assi de culpas minhas eu me veja Tão longe, como perto ess'alma tua D'aquillo, que esta minha ver deseja. Que vás após de quem á custa sua Por nos levar ó Ceu, d'onde nos chama, Na terra padeceu morte tão crua. Um firme coração, que em vós se inflamma, Ardendo por se vêr de Vós amado, Por Vos amar, Senhor, tudo desama. Do tempo, que gastei tão mal gastado, Dera melhor razão, do que daria De vos seguir, Senhor Crucificado; Mas nunca a fraca voz me faltaria Para dizer do mundo a falsidade, Como quem n'elle andou cego sem guia. Levanta os olhos teus á saudade Do Summo Bem dos bens, e n'elle aprende Aquillo que mais fôr sua vontade. A Fenis, que do tempo se defende, Antes que lhe falleça força, e vida, No fogo se renova, em que se accende. Não se põe mais a Rola, carecida Do seu primeiro amor, em verde ramo; Foge da fonte clara aborrecida. Testimunha me seja por quem chamo, Da verdade que escrevo brevemente Nos versos que por seu amor derramo. Que não podes sem elle ser contente, Sem elle, que dilata seu castigo, Por não negar perdão ao penitente. Busca falsas razões o duro imigo Para nos impedir que de mais perto Possamos contemplar tamanho amigo. Ah braços estendidos, Lado aberto! Quanto se sentem mais as vossas dores N'esta quietação d'este desejo! Nascem n'esta asperesa brandas flores, E n'ella tão suave doce fruito, Como tu colherás, como lá fôres, Amando muito mais quem amas muito.

Estes versos chegaram ao convento de Jezus de Setubal tres dias depois e, transcorrido um mez, dobrava austeramente o sino do convento annunciando a profissão da que outr'ora havia sido a tréfega aiasinha da infanta D. Izabel.

Frei Agostinho da Cruz subiu vagarosamente ao seu eremiterio quando as estrellas começavam a empallidecer no ceu. Entrou em oração, e, horas volvidas, foi á ermida da Senhora da Memoria ouvir e dizer missa. Depois recolheu-se ao seu cubiculo, e ahi passou o dia no sagrado mysterio da solidão. Ao pardejar da tarde, perdeu-se na montanha a continuar as suas meditativas noites de asceta, a ultima das quaes foi a de 14 de março de 1619, em que, na enfermaria que a Provincia tinha em Setubal, santamente rendeu a alma ao Creador.

No convento de Jezus, áquella hora, ouvia-se tocar á agonia na egreja da Annunciada, contigua ao hospital, e pouco depois o dobrar do sino attraia á beira do cadaver de Frei Agostinho toda a população da villa de Setubal, que lhe retalhava o habito para guardar uma reliquia.

Ao outro dia vogava rio abaixo, nas aguas do Sado, uma falua, armada de muitos ramos e de ricas tapeçarias da casa de Aveiro. Transportava para a serra da Arrabida o cadaver de Frei Agostinho. Em torno do feretro agrupavam-se n'um silencio religioso o duque de Torres Novas, o marquez de Porto Seguro, e alguns religiosos arrabidos. O povo de Setubal alinhava-se na praia e, descoberto e reverente, abençoava o SANTO.

* * * * *

Vai, ó casto poeta do amor, repoisar no grande tumulo granitico da tua montanha querida. Poeta e monge, tens duplo direito a essa ingente sepultura, onde os monges, tristes e sós, foram muita vez genuflectir sobre a tua lage, e onde os poetas irão pelas idades a dentro pedir ao luar que lhes empreste os contornos phantasticos do teu vulto pensativo para te reporem sob a gruta de Santa Margarida meditando maguas secretas.

Podeste finalmente dormir, onde quizeste viver.

Se a tua musa jamais se librou magestosa nos epicos arrojos da lyra de Camões, cantor do coração e poeta do Amor como elle, a morte vos irmanou na grandeza da sepultura.

Para elle foi sepulchro enorme a patria. Quem sabe onde jaz? Era pequena uma cova para tamanho homem. Repoisa na patria, sepultura por dois lados orlada pelo mar. É-lhe epitaphio um poema. É-lhe monumento a historia.

Tu repoisas dentro da grande urna de pedra, cinzelada pela naturesa á beira das aguas marinhas. É-te epitaphio a montanha. É-te monumento a Cruz, porque ella recorda o teu nome, erguida sobre altar de rocha.

Era pequena uma valla para tamanho soffrer.

Assim foi que a morte igualou no somno derradeiro e glorioso o poeta guerreiro e o poeta monge, dois leaes amantes antigos, dois finos corações namorados, que pulsaram, um cingido na cota, o outro oppresso no habito, por duas damas formosas, Nathercia e Branca, que por longo tempo hão de viver, não em o mundo phantastico dos poetas,[2] mas na extensa galeria das grandes dedicações portuguesas.

Aqui fica, n'este livrinho escripto com a sentida saudade que o teu destino inspira, ó santo eremita da Arrabida, o que quer que seja da mysteriosa poesia que as silenciosas noites da serra desabrochavam no teu coração.

FIM.

[1] D. João III era tão affeiçoado a este sobrinho, que lhe concedeu o tratamento de _excellencia_, sendo que o filho natural d'el-rei, D. Duarte, apenas tinha o de _senhoria_.

[2] «....Frei Agostinho da Cruz explicava as abstracções do amor divino, em versos da eschola italiana, a uma certa senhora D. Branca, hoje desconhecida. Dona Branca tambem seguia a vida religiosa, etc.»

_Historia dos Quinhentistas_,--Theophilo Braga.

Obras publicadas pela Empreza Editora CARVALHO & C.ª

THEATRO

*Bibliotheca Theatral*, 3 vol. contendo 15 peças--cada vol. 600 Os tres vol. 1$500

*A Familia*, drama em 5 actos, orig. de J. R. Cordeiro 300

*Os Sabichões*, com. em 4 actos, orig. de E. Biester 250

*O Fidalguinho*, com. em 3 actos, orig. de Ferreira de Mesquita 200

*Ao calçar das luvas*, com. em 1 acto, orig. de Rangel de Lima 100

*Abençoado progresso*, com. em 1 acto, orig. de R. de Lima 100

*Quem desdenha...*, com. em 1 acto, orig. de Pinheiro Chagas 100

*Um homem politico*, com. em 3 actos, imit. por A. Abranches 200

*As Tres rocas de chrystal*, magica em 3 actos e 17 quadros imit. por A. Abranches 300

*A Mosca branca*, com. em 3 actos, imit. por Duarte Santos 200

*João o britador*, drama em 5 actos, trad. de Castilho e Mello 250

*A Cruz de prata*, drama em 5 actos, trad. de Castilho e Mello 300

*O afilhado de Pompignac*, comedia drama em 4 actos, trad. de Castilho e Mello. 200

*As Campainhas*, com. em 1 acto, trad. de Pinheiro Chagas 100

*Caso de Consciencia*, com. em 1 acto, trad. de P. Chagas 100

*Luiz XI e o poeta*, com. em 1 acto, trad. de Fer. de Mesquita 160

Collecção completa 1$700

ROMANCES

1.º anno

1.º--*As duas flores de sangue*, orig. historico de Pinheiro Chagas (1 vol.) 500

2.º e 3.º--*As doze espadas do diabo*, Henri Kock (2 vol.) 800

4.º--*Claudio*, orig. de Julio Cesar Machado (1 vol.) 500

5.º--*Nas Cinzas*, Gontran Borys (1 vol.) 300

6.º--*Uma noite em Florença*, Alexandre Dumas (1 vol.) 300

7.º--*O Corsario portuguez*, orig. de Carlos Pinto d'Almeida (1 vol.) 400

8.º--*Dragonne e Mignonne*, Ponson du Terrail (1 vol.) 400

Collecção completa 2$500

2.º ANNO

JULHO DE 1876 A JUNHO DE 1877

OITO BRINDES ANNUAES

Anno, 2$250--Semestre, 1$200--Trimestre, 650--Mez, 240

Volume, 15% d'abatimento no preço para a venda avulso.

OPUSCULOS ROMANTICOS

narrativas por Alberto Pimentel

1.º--*A ultima ceia do Dr. Fausto*, (edição portuense) 200

2.º--*As noites do asceta* 200

No prélo--*Idyllios dos reis*.

OBRAS DIVERSAS

*Almanach burocratico* para 1875 400

*Almanach burocratico* para 1876 800

*Biograp. do marquez de Sá da Bandeira* (com o retrato) 400

Á venda nas principaes livrarias, e remette-se franco de porte a quem enviar a importancia ao escriptorio

RUA LARGA DE S. ROQUE, 100, 1.º andar