Chapter 2
Frequentes vezes relembrava a infanta D. Izabel a brevidade da felicidade terrena, como para resignação sua e dos religiosos que a escutavam. Recordava com tranquilla tristeza a magnificencia dos seus desposorios com o filho de D. Manuel, celebrados em Villa Viçosa em abril de 1537. Não exaggerava historiando com piedoso desdem o apparato d'essa festa nupcial, que a dedicada amisade de seu irmão D. Theodosio de Bragança quizera tornar esplendida. Uma phrase de Damião de Goes corrobora as maguadas recordações da infanta: «O aparato d'estas festas foi tamanho--diz o chronista manuelino--que com assaz trabalho o poderá um Rei fazer com mór magnificencia.» D. João III, se não ordenára as festas, assistiu a ellas, com os infantes seus irmãos, e a flôr da sua côrte. Fôra elle que justára o casamento com D. Theodosio. Cabia-lhe, pois, a iniciativa d'esse enlace que parecia prometter uma longa e venturosa duração, e que tão breve foi. El-rei, que se achava no paço d'Evora a esse tempo, fôra esperado pelo duque D. Theodosio a meia legua de Villa Viçosa. Seguiu-se o jantar nupcial, no paço do duque, em que D. Izabel teve logar ao lado do rei, e o duque logo abaixo dos infantes. Sobre todas estas recordações do seu noivado passava nos labios da infanta viuva um sorriso triste e resignado. Com fidalga saudade, digamos assim, encarecia a gentil presença, bondade e piedade do infante seu marido. Então acudia algum religioso de S. Domingos ou da Arrabida a elogiar os dotes intellectuaes de D. Duarte, que praticava em latim com o seu mestre André de Rezende, e recitava ao revez, de memoria, qualquer capitulo de Cicero; e ditava quatro cartas ao mesmo tempo, e compunha musica e poesia, e cantava, e jogava as armas, e era caçador eximio. Quando vinha a lume esta prenda da caça, ainda a infanta se lastimava dos incommodos que, mesmo depois de casado, se dava o infante quando sahia a montear, e era certa a millessima edição do caso de lhe haver um seu privado exposto os perigos dos excessos venatorios, e o infante respondido que bom era educarem-se os homens em asperos exercicios para melhor poderem soffrer os trabalhos da guerra. Esta longa resenha das virtudes e talentos de D. Duarte seguia quasi sempre a ordem chronologica da sua biographia, e portanto força era relembrar a sua morte, por elle predicta, e o cilicio com que mysteriosamente trazia cingidas as carnes, e a pomba que ao passar a sua tumba, caminho de Belém, onde jaz, pelo hospital de Todos os Santos, voara mansamente para o ceu.
Fôra n'esta atmosphera fradesca e milagreira, onde continuamente se apregoava o ephemero e fragil das felicidades terrenas, ainda mesmo das mais santamente conquistadas pelo amor e pela virtude, que o moço Agostinho Pimenta respirou tristemente ao entrar na sociedade para onde o mandaram desterrado do seu bucolico Minho.
Mas eu já vi uma vez, navegando Douro acima, empinar-se sobre a margem esquerda o mais arido, o mais calcinado, o mais duro fraguedo que póde imaginar-se, e pendurado d'uma rocha, e como que nascido do seio d'ella, o mais verde, o mais fresco, o mais curvo festão de verdura que se poderá descrever. Era nos fins de julho, pelos grandes calores. Havia uma hora que navegavamos por entre alcantis que se recortavam com os vagos contornos de gigantes de pedra. Nas frontes tostadas dos marinheiros porejava o copioso suor do trabalho. A corrente era pequena, e o barco subia vagarosamente a impulsos de vara. Dariamos um thesoiro, se o tivessemos, por uma sombra de oasis. Mas o deserto, que era de pedra, parecia infindo. Apertava comnosco o vago receio que nos dá a solidão nas longas horas da charneca alemtejana, aggravado pelo sol canicular que sobre nós cahia a prumo. De repente, ao dobrar uma volta do rio, surge como por encantamento, desconhecido dos marinheiros, o largo e alto festão, que promettia sombra deliciosa para o descanço de meia hora. Foi assombrosa a nossa alegria. Como e quando nascera ali aquelle braço de verdura que parecia estender-se amigavelmente ao viajante para lhe offerecer abrigo? Ninguem o sabia; não o poderam dizer os marinheiros.
Assim tambem ninguem podéra dizer como desabrochara o coração de Agostinho Pimenta no sombrio paço que fechára as portas ao Amor quando o cadaver do infante D. Duarte sahira para Belem.
Entre as damas que serviam a infanta D. Izabel uma havia, D. Branca de Noronha, cuja formosura floria nas graças senhoris dos dezesete annos. Tambem ella fazia lembrar o oasis no deserto. Esta gentil menina contrastava singularmente com as melancholicas tendencias da familia e commensaes da infanta viuva. D. Izabel era inalteravelmente a piedosa fundadora do convento de Ribamar; seu filho, o infante D. Duarte, havia recebido para todo o sempre a influencia d'uma educação intolerantemente religiosa; Pedro d'Andrade Caminha conciliava como podia as suas malquerenças como homem com o seu fanatismo religioso como camareiro do infante; os franciscanos da Arrabida traziam para as salas do paço a melancholia inherente á solidão do eremiterio. Delimitando os extremos d'esta sociedade espessamente taciturna e aborrida,--duas creanças quasi de egual idade, posto que de genios differentes,--Branca de Noronha e Agostinho Pimenta.
Quem dera ás duas irmãs de D. Duarte o poderem espanejar-se, ainda que tambem a medo, como a lepida aiasinha Branca!
Ella era a inquieta encarnação da alegria, a onda limpida que, sem se amedrontar com o aspecto sinistro das ribas solitarias, as cobre de instante a instante com as suas abundantes rendas de espuma, e as suas pequenas perolas de agua. Era o unico riso que borboleteava ao de cima da melancholia quasi conventual d'aquella casa, e, como o riso é por via de regra a expressão da alegria, jámais se deixou contagiar da tristesa que empallidecia os semblantes, e hybernava nos corações.
Agostinho Pimenta, cujos habitos infantis foram os de um poeta que desabrocha entre a pensativa bellesa das paizagens do campo, não teve força bastante para se deixar ficar embellesado nas scintillações que de quando em quando lhe relampagueava a mocidade, e assim foi que cedeu á pressão religiosa da infanta viuva e dos monges arrabidos.
Branca de Noronha sorria d'elle com uma graça capaz de abalar a seriedade de Frei Jacome Peregrino, se ella poderá dizer-lhe com a mesma franquesa os chistes com que de emboscada accomettia o moço Agostinho Pimenta.
Não raro acontecia, á volta d'um corredor, encontrarem-se os dois, e curvar-se ella em palaciana misura para dizer-lhe:
--_Deo gratias_, Padre Frei Agostinho!
E despedia n'uma graciosa corrida, atabafando com a mão delicada o seu metallico rir senhoril.
Tantas vezes se repetiu a amavel zombaria da formosa aiasinha da infanta, que o moço Agostinho Pimenta resolveu aproveitar um d'estes frequentes episodios para dizer-lhe:
--Não graceje, Dona Branca, que póde vir a converter-se em realidade o que nos seus labios é zombaria. Está na sua mão, direi antes no seu coração, o atirar-me para a solidão conventual...
--Vejo que tem aproveitado as lições de Frei Jacome Peregrino...
--Ah! não continue a zombar, Dona Branca!
--Quer então que eu chore a conquista de mais uma alma para o ceu? Não deve ser. O sr. Agostinho Pimenta tem inclinação para a vida monastica. Eu não tenho. Que se me dá que vista o habito? Vista, se quizer. Será mais um religioso que frequentará as salas da sr.ª infanta...
--É-lhe então absolutamente indifferente que eu professe?
E D. Branca, sem responder a esta pergunta, a que o novel poeta das margens do Lima dava uma importancia apaixonada, mesurou graciosamente e motejou:
--Padre Frei Agostinho, queira Vossa Charidade recommendar-me aos seus irmãos capuchos.
E desappareceu com a ligeiresa d'uma arveloa. Agostinho Pimenta era, como sabemos, o poeta educado pela naturesa, que tem o segredo de aconselhar tristesas. Accrescia que respirava n'um meio onde o fanatismo religioso se inoculava lentamente, durante a somnolencia dos serões fidalgos, como as emanações da mancenilheira, durante o indiscreto somno do viandante. Fez-se mais pensativo que nunca no decurso de tres dias, durante os quaes algumas vezes lhe chegára aos ouvidos o leve rir descuidado da aiasinha. Ao cabo do terceiro dia foi ao encontro do provincial Frei Jacome, que estava praticando com a infanta e o infante n'uma das salas do paço, e, depois de solicitar venia de D. Duarte e sua mãe, pediu ao virtuoso monge que lhe permittisse vestir o habito da sua Provincia.
Jubilou Frei Jacome com a resolução do moço Pimenta, com que elle contava havia quatro annos, attribuindo-a candidamente á efficacia dos seus conselhos, similhantemente ao pomareiro que se vangloria de que a arvore fructifique mais pelo seu trabalho do que por espontaneidade da naturesa.
Correu o anno do noviciado ou da approvação de Agostinho Pimenta, como então se dizia, no conventinho de Santa Cruz da Serra de Cintra, do qual elle ao depois tomou o appellido na profissão, como deixou escripto:
Nasci, e renasci na Casa em dia De Santa Cruz, da Cruz o nome tenho.
Durante o noviciado, que principiou em 1560, Agostinho Pimenta parecia por vezes entrever nas suas visões monasticas a formosa imagem da aiasinha da infanta, e então era o descer da serra de Cintra e vir em cata d'essa visão, que o podia salvar antes que as portas do conventinho de Santa Cruz se fechassem eternamente sobre elle. D'estas visitas ao paço do infante D. Duarte, dá recatada e dissimulada conta o biographo José Caetano de Mesquita, quando diz: «E ainda que conservou algumas correspondencias de pessoas instruidas, julgando não desdizer da austeridade do seu instituto condescender com os seus amigos, achando-se nas suas mezas, e comendo dos delicados pratos com que eram servidas; comtudo sempre se houve com religiosa modestia, e o decoro devido á mesma reforma.»
Uma d'estas visitas parece haver decidido definitivamente da sorte de Agostinho Pimenta.
Celebrava-se o decimo-nono anniversario natalicio do infante D. Duarte. As duas meninas suas irmãs haviam instado com a infanta D. Izabel para que não deixasse passar despercebido o dia, e, consultados os frades da Arrabida, concordaram elles que era de justiça ser assim. A infanta viuva annuiu por obediencia aos seus conselheiros, e permittiu se realisasse excepcionalmente a festa commemorativa do anniversario de seu filho.
Agostinho Pimenta viera de Cintra expressamente.
Era em março. A primavera enflorava as alinhadas moitas do jardim, e as rosas abriam alas festivas ás damas que divagavam por entre os canteiros. Primava entre as damas de mais peregrinas graças a tréfega aiasinha Branca. Não a perdia de vista Agostinho Pimenta quando glosava, com o sabor religioso que a sua posição exigia, este mote que lhe dera a infanta D. Catharina:
Antre as cousas mais formosas Busca a mais formosa d'ellas; Mais que o sol, lua, e estrellas, Mais que lirios, e que rosas.
Havia D. Antonio de Mello, fidalgo ao serviço do infante, cortado uma rosa, ao passar por um dos canteiros. Era alva de neve raiada de laivos sanguineos. Decorrido tempo apparecera D. Antonio sem a flor, e Agostinho Pimenta, encontrando Branca á beira do lago, sorriu-lhe com a doce familiaridade que mezes antes os reunia no paço do infante. A travêssa aiasinha, attentando no habito de Agostinho, respondeu com um sorriso desdenhoso, e, ao curvar-se para mesurar o costumado _Deo gratias, Padre Frei Agostinho_, a contracção do seio fez com que se despenhasse á agua do lago a rosa branca radiada de filamentos purpurinos, que D. Antonio lhe dera, e ella occultára no peito.
Não se prendeu a aiasinha com a contrariedade. N'esse dia era-lhe permittido vibrar livremente a sonoridade metallica da sua voz. Riu alegremente, e desappareceu por entre os alegretes com o rapido deslisar das deusas do paganismo. E as brancas nymphas de loiça, e os sarcasticos satyrosinhos de marmore, que se alapavam entre a verdura do jardim, pareciam dizer á veloz aiasinha n'uma longa resonancia:
--Viva, Galathea!
Agostinho Pimenta ficou chumbado á beira do lago, com os olhos postos na rosa fluctuante, e como que lhe segredava no seu olhar melancholico: «Tambem eu me despenhei como tu!»
Doera-lhe no coração a magua de que a donzellinha se deixasse enliçar nos aventurosos laços dos fidalgos que n'aquelle tempo viviam por côrtes, e desde esse momento desejára antecipar, se possivel fôra, a hora solemne da profissão. Esta descrença na puresa feminina era-lhe em parte aggravada pelas cartas despeitadas de seu irmão Diogo Bernardes, que se exulára em Ponte de Lima, mal ferido d'um galanteio começado á beira do Tejo com uma dama que preferira casar rica.
Ah! mas Agostinho Pimenta enganava-se. A alegre aiasinha da infanta D. Izabel tinha o genio mariposo que borboletea nas flores e se desvia dos espinhaes. Era a graça com duas azas: tinha a desenvoltura que não rasteja.
Ao outro dia partia para o solar de Bragança em Villa Viçosa a infanta viuva, suas filhas e seu filho D. Duarte.
As duas unicas recreações que habitualmente se permittia o infante D. Duarte, a despeito de suas irmãs, tinham um caracter tradicional de familia: eram a poesia e a caça.
O principe seu pai, cuja fama de caçador a historia ainda hoje pregoa, fôra trovador. Dá testimunho Souza na _Historia genealogica_: «Na poesia vulgar compoz sentenciosamente, guardando as regras poeticas.»
D. Duarte não versejava, mas gostava de ouvir trovar no seu paço. Monteador era-o por herança, e famoso. Andava nos costumes da familia o de uma caçada annual em Villa Viçosa.
O infante era acompanhado pelos fidalgos de sua casa, D. Diogo de Lima, D. Antonio da Gama, Jorge da Silva, D. Diogo, D. Antonio e D. Rodrigo de Mello, D. Luiz e D. Francisco de Moura, Gaspar de Souza, João Mendes de Castello Branco, Fancisco Leitão, Luiz do Amaral e Pedro d'Andrade Caminha.
O duque de Bragança, D. João, era seguido de luzida e numerosa comitiva.
Á infanta viuva, a D. Maria e a D. Catharina faziam sequito mais de vinte senhoras, entre as quaes não seria difficil distinguir D. Branca de Noronha.
A entrada em Villa Viçosa foi deslumbrante de magnificencia e digna d'um principe de sangue, immediato á coroa.
O infante D. Duarte ia vestido á flamenga em cavallo de brida, e a infanta sua mãe em umas andas, ricamente guarnecidas, acompanhada por D. Catharina. D. Maria cavalgava em mula com andilhas de preciosa chaparia de ouro.
De vespera haviam chegado os pagens e monteiros com numerosas matilhas de lebreos, sabujos e outros cães, e boas aves de presa.
De manhã cedo já os nobres caçadores andavam no seu rude lidar, e não poucas vezes lhes era servido o almoço á sombra d'uma alameda cuja simplicidade bucolica notavelmente contrastava com as finas toalhas hollandezas, os gomis de ouro lavrado, os picheis e taças de prata,--com a preciosa baixella da casa do infante.
Foi n'uma d'essas manhãs, e sob essa mesma alameda frondosa, que o infante D. Duarte recebeu uma carta cuja direcção, era a seguinte:--_Para sua excellencia o senhor infante D. Duarte._[1]
Para logo conheceu o infante a letra: era de Agostinho Pimenta.
Houve curiosidade de saber o que diria a carta, por inesperada. O noviço do conventinho da serra de Cintra sollicitava da infanta viuva e de seu filho authorisação para professar. Jubilou com a noticia a côrte do infante: havia conseguido uma victoria. Só D. Branca de Noronha tregeitou quasi imperceptivelmente de desdem.
Momentos depois, ao tempo em que Agostinho Pimenta dolorosamente suppunha a louçã aiasinha requebrada nas galanterias de D. Antonio de Mello, esquivava-se ella ao encontro d'este galanteador fidalgo, impellindo gentilmente o seu palafrem ao longo da alameda.
Ha uma desenvoltura mais casta do que o recato melindroso.
Ha, mas tambem ha uma força maior do que a Verdade.
É o Amor.
Pintaram-n'o cego os antigos. Cego, porque tudo é despenhar-se em insondaveis profundesas de virtude ou de crime, sem lançar mão á humilde esteva que florece no cairel do abysmo, para que o sustenha na queda; cego, porque tudo é querer arremetter com as difficuldades que lhe tomam o passo e ir por deante na sua vertiginosa carreira quasi sempre vencedor e poucas vezes vencido; cego, porque se não lembra de que a vida é pequena para elle e porque aspira á eternidade quando se inflamma em peito de Jacob e de sete em sete annos renova o longo sonho da sua ventura almejada com o pensamento fito em Rachel.
Duello titanico do Amor com a Verdade: do Amor, que nada quer vêr, com a Verdade, que nasceu para ser vista; do Amor, que é o Protheu de si mesmo, e que se faz Othello, Romeu ou Antony, com a Verdade, que tem uma só forma, uma só face, e um só destino.
Postas rosto a rosto estas duas grandes forças, trava-se furiosa a briga, arremettem-se, digladiam-se, confundem-se n'um vulto só como os corpos de dois luctadores raivosamente abraçados n'um circo romano, e quasi sempre o Amor, arremessando desdenhosamente para o largo esse gigante luminoso que se chama a Verdade, passa ovante mas ferido em vertiginosa carreira como se fôra arrastado pelo legendario cavallo de Mazeppa.
Quem lhe vai pensar as feridas ao misero? conchegal-o ao seio quando pára finalmente depois do torrentoso despenho? Então mirra-se as mais das vezes na cruciante solidão d'uma existencia sem esperança.
Antigamente fazia-se monge, como aconteceu com Agostinho Pimenta. Amortalhava-se no habito, cingia-se de cilicios, vivia na cella ou na gruta, ajoelhava deante da caveira ou da cruz. Depois que passaram os seculos em que o coração era templo de vestaes, onde flammejava puro e vivido o fogo dos affectos, o Amor, cego como na antiguidade, se bem que menos casto e soffrido, atira-se voluptuosamente aos braços da morte, como Werther, ou ri satanicamente como Byron ao levantar com mão nervosa os ondulosos cortinados dos leitos conjugaes.
Dedicação que exigia o sacrificio d'uma vida inteira, ou febre impetuosa que dura o tempo d'uma sezão, sempre cego o Amor, hontem e hoje, hoje e amanhã, exagerando as suas dores, embalando-se nas fabulas creadas pela sua phantasia exaltada, fechando os olhos á verdade que, embora vencida por elle, que é mais forte, lhe sobrevive no seu throno de luz, assente em degraus de granito,--eterna como Deus.
Tambem no coração de Agostinho Pimenta estava travado a essa hora o duello horrivel. Turvava-lhe a vista o Amor, suppondo Branca peccadora. A Verdade quizera poder leval-o pela mão a debruçar-se n'uma das janellas do conventinho de Cintra, mostrar-lhe as borboletas que doidejavam nas comas floridas, e perguntar-lhe se alguma d'ellas valia menos por ter doidejado mais.
Mas o Amor, o grande Amor d'esses tempos legendarios, que fazia do coração uma lamina d'aço, mais sonora quanto mais martellada, mais flexivel quanto mais comprimida, o Amor empunhara a sua lyra maguada e pelos arvoredos da serra fôra soluçando tristes cantares, emquanto a eterna Verdade ia chorando pelo poeta, que fugia do mundo, lagrimas de luz.
Coincide com a carta dirigida ao infante D. Duarte o versejar das tristezas que no livro de Frei Agostinho tomaram o titulo de--_A uma ingratidão_--e que rematam com estas allusões clarissimas:
Se mal fundei a minha confiança, _Se tão mal empreguei amor tão puro,_ _Porque não tomarei de mim vingança_? Quanto mais cruel fôr, quanto mais duro Contra mim, tanto mais serei mais brando; Pois todo o mal em mim é mais seguro; Assi me irei de todo acostumando A ser tamanho imigo do meu gosto, Que me fique esta magua consolando. Dous rios correrão pelo meu rosto, Envoltos nos meus gritos, derramados Noite, dia, manhã, tarde, sol-posto. Os tristes versos meus dependurados Nos troncos deixarei das verdes plantas, Que das sêccas assaz estão queimados. N'elles escreverei além de quantas _Cousas já padeci, quantas padeço,_ Por julgarem tão mal muitas tão santas: Comtudo, meu Senhor, eu não esqueço Que rogastes na Cruz por _gente ingrata?_ _Eu por __ELLA__tambem perdão vos peço._ Se vós, meu Deus, rogais por quem vos mata, Como não rogarei a vós, Senhor, _Que perdoeis a quem tão mal me trata?_ Bem claro vendo estou, quanto melhor _É ser injustamente perseguido_ _Que poder ser d'alguem perseguidor._ A cousa de que mais estou sentido É vêr que nos meus olhos faltou vista, Para vêr de que côr era vestido Um coração devoto do Baptista.
Completo o anno do noviciado, o irmão de Diogo Bernardes tomou effectivamente o nome de Agostinho da Cruz. Deixára ao mundo o nome que o mundo lhe dera. Desde o dia da profissão, a sua vida foi quasi inteiramente de reclusão meditativa. Rareou as visitas á sociedade, especialmente ao paço do infante D. Duarte, onde a completa mudança da sua physionomia começou a infundir respeito nas pessoas que annos antes o conheceram.
Branca attentava no ainda moço Agostinho, e já não ousava disparar-lhe os chistes proprios do seu genio. Se acertava encontral-o, fugia-o receiosa de visinhar a tristesa do habito. Agostinho da Cruz tirava d'esta esquivança indicios de culpabilidade, e recolhia taciturno ao seu convento, onde aligeirava as horas da clausura compondo versos que dias depois lançava ao fogo.
Mais de quarenta annos deslisaram entre este repartir-se com Deus e com a secreta inspiração que não deixava apagar na sua alma o fogo vestal da poesia. N'este meio tempo, indo ao convento de Cintra D. Diogo Lopes de Lima, perguntára a Frei Agostinho da Cruz se o habito lhe vedava o poetar. O monge respondera sorrindo que os versos menos valiosos eram os que se davam ao papel, e d'esses quasi todos os inutilisava. Outros havia que recitava áquellas penhas ou confiava áquellas arvores. D. Diogo de Lima, relanceando os olhos ao tronco a cuja sombra praticavam, viu repetidas vezes entalhada no cortex a letra B. Preoccuparam-n'o pelo caminho as palavras do franciscano, e dias depois relatava o succedido no paço do duque de Aveiro, em Azeitão.
Facil lhes foi correr com a memoria as breves paginas da brevissima mocidade de Agostinho Pimenta, e o associarem a gentil aiasinha da infanta D. Izabel á inicial entalhada nas arvores de Cintra. Uma só pessoa podia aclarar a verdade. No convento de Jesus estava recolhida desde a morte da infanta D. Izabel uma senhora que podia dar noticia da gentil aiasinha dos dezesete annos. Esta senhora orçava pelos cincoenta e cinco. Era D. Branca de Noronha.
De Azeitão a Setubal breve é a jornada, e brevissima o foi para tão destro cavalleiro como o duque.
Consultada por D. Alvaro de Lencastre a reclusa do convento de Jesus, pôde ella conciliar as suas recordações no sentido de presumir-se causa involuntaria da conversão de Agostinho Pimenta.
Desde esse momento D. Branca deixou de ser um segredo da alma do monge, que, tendo a rogos do provincial Frei Antonio da Assumpção acceitado a guardiania do convento de S. José de Ribamar, mais que nunca se afervorou no empenho de retirar-se á serra da Arrabida, desde que percebeu as allusões do duque de Aveiro e de D. Diogo de Lima aos poucos annos da sua mocidade vividos na casa do infante.
Obtida a licença, não sem grandes difficuldades, passou-se Agostinho da Cruz á serra da Arrabida, onde não havia commodo para viver solitario.
Implorou a amisade do duque para ter eremiterio, mas, recreado nas diversões campestres do seu paço de Azeitão, esqueceu-se D. Alvaro de Lencastre de lh'o mandar edificar. Frei Agostinho da Cruz não reclamou. Fez uma cubata de ramos silvestres, e por sua propria mão tentou levantar casa mais de geito para resistir ás violencias da serra. Feriu-se nas mãos, e desistiu do intento. N'esta conjunctura visitaram-n'o os duques de Aveiro e de Torres Novas, o primeiro dos quaes era padroeiro da Arrabida. Então tornou a lembrar a ermida. Tratou-se de escolher sitio. Vacillaram na escolha, e o duque de Torres Novas, floreando a enxada, demarcou, por cortar hesitações, a área da ermida.