As Netas do Padre Eterno Romance original
Part 8
—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre, não nos ha-de faltar louro na comida.
—Pois o melhor de tudo, observou Araujo Rodarte, era mandar de presente a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez.
—N’essa não cáe o Marcolino!
D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e Maria Ignez sahiam do wagon.
O Rodarte e as netas despediram-se dos dois officiaes.
E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:
—Ellas vinham do banho um appetite!
—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e a outra não é nenhuma asneira tambem!
XVI
D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal.
Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.
D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque mordem de perto.
Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa».
Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa.
A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a existencia?
D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da moralidade?
D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros, limitar-se-ia certamente a dizer: _Es una broma!_
Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para o effeito da moralidade?!
Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade conjugal de D. Estanislada!
De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse, para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma coisa?!
Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o.
Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada d’espiões.
Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes.
Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava experimentado, gostava d’ella.
O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem, onde elle vivia.
Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação balnear.
Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que declinava.
Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe admiradores, até sua propria mãe.
Soledad olhava para o _abanico_, que com tanto _salero_ requebrava, e parecia-lhe que era como que uma espada partida na mão de um conquistador.
Cuidava ouvir dizer-lhe o _abanico_:
—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’um _bolero_ sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não dispõem dos teus recursos de hespanhola, do _salero_ e do _abanico_, dois irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que a tua belleza te dá direito.
Soledad ouviu o _abanico_ e deu-lhe credito, como todas as hespanholas. Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada, fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar esse projecto, que lhe promettia uma vida mais alegre do que a de Setubal.
O Marcolino, marcador do café _Esperança_, perguntou a D. Enrique se queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros.
E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porque _se iba a marchar_.
—Para Hespanha? insistiu o marcador.
D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos Bourbons.
E o Marcolino, que foi o primeiro republicano que pimpolhou em Setubal, respondeu-lhe mentalmente:
—Tens que esperar!...
Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo que sabel-a todo o café _Esperança_, e, dentro de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e, dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a povoação de Palmella.
—Que D. Enrique se _iba a marchar_, dizia-se, espalhava-se.
No café _Esperança_ apertavam D. Ramon Mendoza, troçavam-n’o, perguntavam-lhe se elle não fazia valer os direitos que a sorte lhe concedera; que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, sem a ter ferido no coração, a sua bella patricia?
E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, pedia gazoza, e respondia sorrindo:
—Que santos de casa não fazem milagres.
Não tardou a chegar ao conhecimento da menina Ricardina a noticia de que a familia Saavedra ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, e a sr.ª Magdalena não o ficou menos, porque havia arrendado a casa por seis mezes a D. Enrique, e poderia alugal-a ainda outra vez, para aproveitar o resto da estação balnear.
Ricardina, na esperança de que a noticia fosse verdadeira, achou que devia tratar o sueco de modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se alargar em concessões, que o satisfizessem.
Assim foi que se mostrou menos crua para elle: abriu a janella, e permittiu-lhe que a beijasse nas mãos.
—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia confiar n’elle.
O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, e contou a Ricardina a scena que tivera com as hespanholas, que não só o não cumprimentaram, mas até o mimosearam com epithetos offensivos.
—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe Ricardina continuando a fingir-se ciumenta.
—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção muito guttural.
—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a ambas, á mãe e á filha, e não queria levar com as galhetas na cara!
O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que Ricardina aprendera nos habitos devotos, egrejeiros da mãe.
E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:
—Sabe o sr. o que deve fazer agora?
—Nó saberr!
—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale um gosto na vida que seis vintens na algibeira.
—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa.
Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia, e todo o seu ideal consistia agora em conseguir que ella voltasse a empregar esse terno vocativo.
Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o por _senhor_, sem o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite dos dois lenços.
Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes, diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de representar no amor o drama tempestuoso.
Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos, ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio.
Depois, chegando ao _hotel Escoveiro_, dois copinhos de _Kirsch-wasser_ adormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a mesma.
E, por entre os fumos do _Kirsch_ e do cachimbo, pensava elle:
—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria ainda a ausencia de Soledad!
E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente...
XVII
Dentro de tres dias a familia Saavedra preparou as suas malas para sahir de Setubal.
D. Enrique andou fazendo despedidas e partiu para Santarem primeiro que a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá estava o conselheiro Antunes para n’esta e outras tarefas lhe servir de Cyreneu...
A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir que apenas levava saudades do peixe-espada. Soledad mostrava-se muito contente com a mudança de terra.
No café _Esperança_ commentava-se esta subita retirada da familia Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor.
A _blague_ não poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes.
Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não era porque houvessem concorrido acintosamente para isso.
Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos grandes imperios.
Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem porque se salientassem em garridices espectaculosas.
O _Padre Eterno_, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou envolvido.
O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu quarto, chorando, sem querer vêr ninguem.
Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr dilacerava.
—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique sobre as suas intenções?
—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de minha filha, sobretudo quando esse homem se deveria julgar muito feliz em desposal-a.
Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois:
—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos moços. São raros até os que pensam de outro modo.
—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a minha filha.
—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei, condescendi em ir a um _pic-nic_, porque julguei que seria essa uma festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque, além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho ou por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia, foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle. Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as.
—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão, procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá termo em breve, certamente.
Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo Rodarte tambem passaram lagrimas.
Despediram-se os dois cordealmente.
Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o avô.
Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção.
Logo que sahiu da repartição de fazenda, o Vianninha foi procurar Araujo Rodarte.
Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse o facto, espalhando logo que o Vianninha requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo coração era considerado devoluto.
Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade os motivos d’aquella entrevista, desculpando-se com a sua auctoridade de velho para intervir n’um assumpto que não lhe dizia directamente respeito.
—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço a familia d’essa pobre menina, cuja vida corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, pois, que me diga, por attenção para com a minha edade, quaes são as suas intenções a este respeito.
O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:
—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a v. ex.ª o que posso dizer sobre o assumpto: Adelaide e eu fomos creados juntos, paredes meias, porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a toda a hora, e habituámo-nos a ser amigos um do outro. Mas pensava eu que Adelaide apenas tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples estima, nada mais. E tanto isto é verdade, da minha parte, que eu tive passageiros namoros com outras meninas. É certo, porém, que eu sabia que Adelaide se contrariava com isso. Amuava, deixava de me fallar, de me cumprimentar até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe adeus por brincadeira, sempre que a via á janella, embora ella me não correspondesse. Quando veiu a _señorita_,—refiro-me á filha de D. Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me ter relacionado com o Goes, que andavam no grupo da familia Saavedra, associei-me a elles, passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer francamente que me não era desagradavel a companhia. Soube então que Adelaide suspeitou de que eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado com isso, a ponto de se fechar no seu quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, tendo pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos na vidraça do seu quarto, chamando-a. Bastava-me para isso estender o braço por uma das janellas da minha casa. Adelaide devia calcular que era eu, mas não veiu á janella, não quiz responder.
—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.
—Ouvia por força, porque estava fechada no seu quarto.
—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o seu resentimento.
—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.
—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr. Vianna, se ella abrisse a janella?
—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se ralasse com isso.
—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de infancia...
—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do seu proprio genio.
—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado! Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr. Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor felicidade poderia encontrar o sr. Vianna!
—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide...
—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira?
—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella...
—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo de voltar amanhã á mesma hora, e todas as suas duvidas deixarão de existir.
No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a casa de Araujo Rodarte, encontrou-se com o pae de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado n’esse dia.
Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da ida do Vianninha a casa das Rodartes, teve de confessar-se vencida, e a intervenção do _Padre Eterno_, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica á opinião publica, deu maior prestigio ao avô, e, reflexamente, ás netas.
Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no proximo casamento da Sequeira, dizia elle:
—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com uma unica differença.
—Qual?
—Caso as novas, em vez das velhas, o que prova que não faço milagres.
XVIII
O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo.
Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma.
Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes, alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor medieval.
O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação, contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa.
Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia. Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado: com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes.
Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem Pariz lhes repugnavam... para uma vez.
Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores, mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem ouvir nunca uma opera.
De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava habilitado a comer.
A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos.
O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo, deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos guerreiros d’Agar.
Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções populares, accentua-se com evidencia.
A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não invalidam a regra geral, antes a confirmam.
Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e pratica.
Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.
Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno.
Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á verdade.