As Netas do Padre Eterno Romance original
Part 7
Já começavam a apagar-se as luzes quando os tres desceram. E como a noite estivesse serena, posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella objectou que poderia ser isso reparado, mas a filha, vendo que a mãe não se entendia muito bem com a aravia do sueco, replicou que não havia luar e que até fazia bem dar um passeio n’uma noite de verão: que bem encalmada saira ella do theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o sueco, de mãos enlaçadas com a menina Ricardina, fizera subir o thermometro.
Foram caminhando até ao largo das Almas, e ahi metteram para o Campo do Bomfim, os dois adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.
Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, quando passavam em direcção á capella do Senhor do Bomfim,, não se dispensou de parar para rezar de longe á milagrosa imagem da sua especial devoção.
Foi n’essa occasião que o sueco roubára um beijo á menina Ricardina.
Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos dos meus leitores dirá comsigo mesmo: «Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento de felicidade, esse!»
Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro beijo que elle dava, mas o terceiro. Sim, o terceiro, um terceiro... franciscano, a julgar pela modestia com que passou dos labios do sueco para a face da menina Ricardina, como se passasse de uma cella para outra. Dir-se-ia que era um beijo de sandalias, porque passou sem fazer barulho.
Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena disse á menina Ricardina:
—Não sei como tu te podes entender com o sueco!
—Por quê, minha mãe?
—Eu entendo muito pouco do que elle diz!
—Pois eu entendo-o perfeitamente...
Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! tu és a unica lingua que se póde aprender sem grammatica e sem diccionario! lingua de substantivos apenas, em que dois nomes proprios se juntam para formar o plural!
Todos os acontecimentos que se tinham dado nos ultimos dias haviam contribuido para diminuir e empallidecer a côrte de admiradores que, antes da chegada das Rodartes, acompanhava por toda a parte a bella andaluza.
Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, desertaram da côrte castelhana para a côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu soberanamente glorificado na pessoa das tres Graças da Messejana.
O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo constava, quando Soledad fôra para Lisboa com o pae. Estava certamente contrariado pela concorrencia que lhe faziam os outros pretendentes á mão da bella andaluza. Ella propria pensava isto.
O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.
Depois da noite fatal da récita, o estudante e o jornalista desappareceram, abandonaram o seu posto de cortezãos.
Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e os officiaes de caçadores.
Já não havia _tertulias_ possiveis, Soledad passava as noites sentada com a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso, que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: a _tertulia_, a querida _tertulia_, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita falta.
Abrindo e fechando o _abanico_, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha desesperos intimos, raivas surdas.
E, quando passava pela casa das Rodartes, e via luz nas janellas, uma revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos seus olhos.
—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia e uma côrte cada vez mais reduzida.
Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das Rodartes eram _tertulias_.
E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo:
—Quaes _tertulias_! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na côrte do _Padre Eterno_!
Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.
XIV
D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol mais insipido de que ha memoria, não conquistára vantagens amorosas junto de Soledad.
Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade incolor, fugidia, d’estas que não deixam a ninguem uma impressão duradoira.
Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, Soledad não dava maior attenção ao hespanholito. Nem o coração nem a razão a impelliam para elle. O coração recebia-o com indifferença; a razão dizia a Soledad que, depois de ter tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer á _prata de casa_,—a um patricio insignificante.
Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se de atiçar de novo a chamma do amor n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se lhe havia rendido. Mas por onde andava elle, que lhe não apparecia?
Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella.
A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas. D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que n’esse dia o correio lhe trouxera.
D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.
Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite, passaria por ali.
A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seu _rez-de-chaussée_, esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite.
A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco, mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas não sahiam da janella.
A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas, ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.
Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das raças do norte—o sueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a essa hora, segundo o costume.
Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a vidraça de Ricardina.
Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso.
N’esse momento tres corações de mulher monologaram simultaneamente.
O coração de Ricardina:
—É elle!
O coração de Soledad:
—É elle!
O coração de D. Estanislada:
—É elle!
O sueco observava de longe, via dois vultos de mulher nas janellas da casa de D. Enrique, sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, e então aviventou-se no coração do sueco o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza d’essa mulher lhe havia causado.
Ella era realmente formosa, tinha uma graça acirrante, uma graça meridional, que punha em vibração os nervos de todos os homens, especialmente os de um homem do norte.
Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão graciosa, sabia melhor talvez conquistar e deixar-se conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina já lhe havia concedido, eram o prologo tentador de uma promessa, e não ha homem nenhum, seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante a dois passos de uma posse sem restricções.
Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, e muito longe de imaginar que um terceiro incendio o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio era D. Estanislada.
De repente, olhando do escuro para a casa de D. Enrique, viu mexer-se n’uma das janellas um lenço branco.
Era o lenço de Soledad.
D’ahi a momentos, na segunda janella, outro lenço branco passou cavillosamente pelas narinas de D. Estanislada.
Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer Soledad nem D. Estanislada, ficou cada vez mais desorientado.
Lembrando-se de que Ricardina, comquanto tivesse a janella fechada, o devia estar esperando, olhou para o _rez-de-chaussée_, e viu uma ponta de lenço assomar por baixo da vidraça e logo desapparecer.
Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, esperando os acontecimentos.
D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma das janellas de D. Enrique para a rua, e ouviu-se descer uma vidraça.
Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, para que a mãe não désse por isso, tinha deixado cahir o lenço como de um balcão da idade média.
D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com estrondo a janella.
D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava, accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e regougou:
—_Que broma!_
Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno.
O sueco ainda esteve cerca de um quarto de hora alapardado no escuro, mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão.
Quando elle se approximava do _rez-de-chaussé_, sentiu abrir-se cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena.
Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle.
Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro, apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das hespanholas, e correu para casa.
O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda:
—Não! nunca!
E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas da janella.
E o sueco achou-se em plena rua, cada vez mais atarantado, sem perceber nada de tudo aquillo.
Ricardina estava como uma bicha contra o sueco, contra as hespanholas, contra o enguiço d’aquella noite.
Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo visto cahir os lenços, quizera adquiril-os como prova da leviandade de Soledad e de D. Estanislada. Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, a comedia representada pela mãe e pela filha, procurando enganarem-se uma á outra.
A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão de todos os meios que podessem libertal-a da visinhança das hespanholas: lembrou-se de mandar os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta anonyma, em que lhe explicasse o que se tinha passado.
Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como ella conhecia mal D. Enrique!—resolveu, por fim, enviar á filha o lenço da mãe, enviar á mãe o lenço da filha, descobrindo o plano de ambas, e ameaçando-as com uma denuncia.
Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado com ella na escóla, e encarregou-o de escrever as duas cartas, e de sobrescriptal-as.
A D. Estanislada dizia:
«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou hontem ao sueco, pensando que usted não dava por isso. Tenha tento na bola, quando não eu aviso o seu homem, e espalho em toda a cidade este grande escandalo. O melhor é safar-se d’aqui quanto antes.»
Para Soledad o texto era este:
«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a que trate de sahir de Setubal».
Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar, pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro.
O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as janellas da casa de D. Enrique.
O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma reconciliação com Ricardina.
Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da vidraça: Ricardina estava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens.
O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua apaixonada _réverie_. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem, e recahiu em simulada contemplação.
Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça.
Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de repellão:
—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?!
O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração. Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para lavar.
Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido.
Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo, cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco voltasse.
Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a certeza de que lhe roubavam... _mais um_.
D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros.
Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de Ricardina.
—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza!
E reflectindo um instante:
—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!
No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente:
—_Picaro!_
Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, mas reconhecendo em todo caso que ella quizera insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão ao chapeu quando passava junto de D. Estanislada.
E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:
—_Infáme!_
XV
Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte e as suas tres netas sahiram, como de costume, para o banho.
Atravessaram o passeio da Praia de Troino, riscado havia tres annos. Os eucalyptos haviam crescido com a precocidade que caracterisa o desenvolvimento d’estas arvores, de modo que abrigavam uma legião de passaros, cuja chilreada era como que um doce concerto matutino.
Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que do lago irradiam, algumas borboletas passavam, batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.
Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao pae, empregado na Doca, havia poisado a cafeteira sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava mettendo as mãos na agua, agitando-a, para fazer turbilhonar os peixes vermelhos.
As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos em dois dos bancos que torneam o lago, porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos banhistas, na travessia de casa para o banho, descansar na frescura d’aquelle oasis.
Depois cortaram na direcção da praia, a que faltava o pittoresco das praias do norte do paiz, onde os arruamentos das barracas alvejam garridamente.
Em Setubal o systema seguido é o do wagon e o da prancha. Os banhistas despem-se e vestem-se nos compartimentos do wagon, e mergulham na agua agarrados á prancha. Os _mirones_ aproveitam a sombra escassa do wagon para sentar-se a gosar o espectaculo da praia.
Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se á sombra, emquanto Hilda e Maria Ignez foram fazer a sua _toilette_ balnear.
O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns golfinhos davam saltos, ao largo, n’uma folia de _clowns_ aquaticos.
Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros doirando o mar, e a torre do Outão, com os seus contornos duros, dava relevo á margem direita do Sado.
A concorrencia de banhistas era, áquella hora, diminuta. Uma creança, nos braços do banheiro, gritava como possessa, e outra creança, de sete a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr chorar a outra, e chapinhava-a saracoteando-se no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada á prancha, resfolegava como uma phoca. E um padre, de camisola de malha, fazia ensaios de natação inhabil, arrastando-se na ondulação da agua até ir esbarrar na areia.
Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento calados, até que, de repente, disse elle á neta:
—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!
—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo disseram ás manas, respondeu Salomé.
E o velho, com ar de alegre ironia, observou:
—Como ellas andam bem informadas!
Salomé sorriu-se.
—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após um momento de silencio—se aquellas duas senhoras—referia-se a Hilda e Maria Ignez—terão coragem para me fazer alguma traição!...
—Alguma traição?!
—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana!
—Não pense n’isso, avôsinho.
—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes, não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me dás do teu coração?...
—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.
—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte...
—Sim... talvez. Perdia o tempo.
—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E o ratão do sueco! o que é feito d’elle?
—Creio que andará arrastando a aza á _señorita_. Não o tenho visto.
—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao hombro! Olha lá: o hespanholito?
—D. Ramon?
—Sim.
—Deve andar com os seus patricios. Tambem o não tenho visto.
—De toda essa _ala dos namorados_ que ahi appareceu tão galharda, apenas se salvaram talvez dois cavalleiros andantes.
—Quaes, avôsinho?
—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e que m’as querem levar, cada um para sua terra differente...
N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas para o banho, sahiram do wagon.
São raras as mulheres que conseguem triumphar de uma tão desgraçada _toilette_: blusa e calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo da _toilette_. O relevo do seio, accentuado sem exagero, aformoseava-lhe o busto.
Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:
—Não apanhem sol, meninas!
—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam ellas quasi simultaneamente.
E, dando as mãos uma á outra, saltaram da prancha ao mesmo tempo, fazendo agitar a agua, que salpicou a prancha e ainda o wagon.
Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, como sempre, uma folia quasi infantil.
Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, calado. O seu espirito fixou-se n’um pensamento, que, momentos antes, havia revelado a Salomé: queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o o lembrar-se que tinha de separar-se d’ellas.
Estavam ainda as duas Rodartes no banho, quando chegaram á praia o alferes Ruivo e o tenente Rosalgar, que não deixavam nunca, todas as manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.
Desde o mallogrado espectaculo da _Noite sinistra_, aquelles dois officiaes, bem como o tenente Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no café _Esperança_ pelos nomes dos personagens que na peça lhes haviam sido distribuidos.
Assim, por isso que as alcunhas se tinham já divulgado, podemos dizer que _D. Fafes Estorninho_ e _D. Gualter Byscaia_ estão sobre o wagon, conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem comtudo deixarem de dar attenção ao banho de Hilda e Maria Ignez.
—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, que ainda não tinha tido o gosto de os vêr desde aquella noite....
—Aquella _Noite sinistra_! atalharam ambos os officiaes, fazendo allusão ao titulo da peça, e rindo ás gargalhadas.
—Foi pena que tivessem tanto trabalho!
—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes Ruivo. Divertiu mais ainda, talvez, do que se se tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou recordações alegres para muito tempo! Sabem v. ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a _Noite sinistra_ eu passei a ser conhecido por _D. Gualter Byscaia_, e aqui o tenente por _D. Fafes Estorninho_.
—Tem graça! observou Araujo Rodarte.
Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando o olhar para Hilda e Maria Ignez, que sahiam do banho, subindo á prancha.
—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem um collega de v. ex.ᵃˢ....
—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu o tenente Rosalgar. Esse é o _D. Diogo Cucufate_.
Salomé e o avô riram.
—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. Foi pena que não chegasse ao fim! disse Araujo Rodarte.
—Pena especialmente para o Lemos—observou o alferes Ruivo—que nunca foi egualado em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!
—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou Araujo Rodarte.
—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou o tenente Rosalgar.
—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou a fugir vestido de mulher, galgando dois a dois os degraus da escada até se vêr na rua!
—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! commentou o tenente.
—A D. Estanislada esteve em risco, disse o alferes, de perder uma das melhores peças do seu guarda-roupa.
—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A peça e a gloria!
Riram todos muito com esta observação do tenente Rosalgar.
E d’ahi a momentos o alferes:
—A gloria e... a coroa!
—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte.
—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma coroa de louros para se coroar a si proprio!
—Sim?! perguntou Salomé.
—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que foi o Marcolino, marcador do café _Esperança_, quem emprestou ao Goes o dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para vêr se salva o emprestimo.
—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho rindo.
—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos: vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não perder tudo, e vae rifal-a.
—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes.