As Netas do Padre Eterno Romance original

Part 6

Chapter 63,662 wordsPublic domain

D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde com Soledad.

—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.

—_He ido á los toros!_

—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?

—_Una broma!_

E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, da singular coincidencia de ter ido aos touros aquelle homem que, durante a sua ausencia, fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, lidado pelo conselheiro.

Mas D. Enrique vinha mais contente do que fôra, porque tivera occasião de fallar em Lisboa com outros emigrados, e a opinião d’elles era que o estado anarchico de Hespanha não podia continuar por muito tempo. O remedio viria de alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias estrangeiras ou de uma reacção espontanea do paiz.

Era a esperança providencial de todos os emigrados a prefigurar-lhes um desfecho mais rapido do que os factos em verdade promettiam.

O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, á volta de Brancannes, demorar o convite ás Rodartes, para entrarem na récita, até que estivesse escripta a comedia e se soubesse ao certo qual o numero dos personagens femininos.

O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de afogadilho na sua _peça_, de que elle proprio já fallava com orgulho, quando ás dez horas da noite apparecia no café do Lapido para tomar cognac, como uma celebridade noctivaga.

Contava com uma verdadeira glorificação no theatro, esperava que o seu triumpho no palco de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado como dramaturgo na patria de Bocage, para entrar no palco de _D. Maria II_ só lhe seria preciso... atravessar o Tejo.

A sua reputação estava feita ou perto d’isso.

Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na sua comedia apenas entraria uma mulher. Esta noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio Goes respondeu-lhe que a espontaneidade do talento não se podia torcer como um arame, e que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente fôra uma comedia com um só personagem feminino.

Então, alguns desfructadores, _habitués_ do Lapido, suggeriram a ideia de que, para não melindrar as damas, o melhor seria não convidar nenhuma, e encarregar-se o estudante de um _travesti_.

Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, porque lhe daria no palco maior evidencia e, por isso mesmo, maior gloria.

Acceitou.

—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava elle a Aurelio Goes.

—És a baroneza de Piães.

—Casada ou solteira?

—Casada.

—E distincta?

—Certamente.

Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo ensaiando.

O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios faziam-se de dia, depois do almoço. Uma commissão encarregára-se de passar a casa: a coisa corria ás mil maravilhas.

Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:

UMA NOITE SINISTRA

_Comedia em tres actos e em verso, original do festejado escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes_

DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS

_Baroneza de Piães_ Sr. Julio de Lemos _Barão de Piães_ Sr. J. Vianna _D. Mendo Espinote_ Sr. Aurelio Goes _D. Diogo Cucufate_ Sr. Tenente Epaminondas _D. Fafes Estorninho_ Sr. Tenente Rosalgar _D. Gualter Byscaia_ Sr. Alferes Ruivo _O escrivão de fazenda_ N. N.

A acção passa-se na actualidade, em Braga.

_Ensaiador_—Sr. Aurelio Goes.

A _Gazeta Setubalense_ e a _Trombeta Ullyssiponense_ annunciaram, além e áquem do Tejo, o brilhante espectaculo que ia realisar-se em Setubal, punham no sette estrello o novel e talentoso author, Aurelio Goes, que, se os calculos não falhavam, viria a nivelar-se com Almeida Garrett, e elogiavam a vocação artistica dos distinctos amadores, que em seguida nomeavam.

Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes.

Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços reduzidos, mas não obteve resposta.

Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario da _Trombeta_, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes.

A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto juizo como elle.

Mas o proprietario da _Trombeta_, que só d’ahi a dois dias poude ser encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido, chegando a dizer ao intermediario que o _sr. Aurelio_ só lhe mandava de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o despediria da redacção.

Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á loja onde tinha encommendado a coroa, para suspender a encommenda, mas, ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta na _montre_ com este distico, que tinha tambem sido encommendado: _Ao notavel e talentoso dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett_.

Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa. Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á brutalidade do proprietario da _Trombeta_.

Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que fosse dizer ao «tyranno da _Trombeta_», expressão sua, que dentro de quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria, que faria subir os fundos da _Trombeta_.

E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se que a récita se realisasse dentro de dez dias.

Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios, e tratava de arranjar dinheiro para os louros.

Julio de Lemos, muito contente com o seu papel de baroneza de Piães, em que obteria uma ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, nas horas livres de ensaios, em preparar a sua _toilette_.

Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer o guarda-roupa, mas lembrou-se obrigado pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos declarára categoricamente em alguma parte que, por seu conselho, as Rodartes não contribuiriam para a récita senão com o preço do seu camarote.

E o estudante, quando soube isto, dissera:

—Essa grande bêsta imagina talvez que terei de apparecer em scena como Eva no Paraizo Terreal! Pois engana-se redondamente.

E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse n’aquella afflicção.

Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas D. Estanislada recebeu-o amavelmente, prometteu-lhe pôr á sua disposição o guarda-roupa de que precisasse.

Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe a amabilidade e, para lisonjeal-a na sua formosura, contou-lhe a scena que se seguira ao _pic-nic_ de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas a que se procedêra, ella tinha cahido em sorte ao sueco.

D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, e explicou então a si mesma os ciumes do conselheiro, e a presença do sueco, de noite, na sua rua.

Esta revelação não cahiu em cesto rôto.

Vencida a difficuldade da _toilette_ para o estudante, tudo estava prompto, e a noite da recita chegou finalmente.

XII

Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com outras. Ouvia-se um _sol-e-dó_, com pretensões a orchestra de salão. Devia ser um baile.

SCENA I

D. MENDO e D. DIOGO (_entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme._)

D. MENDO

Mas se conhecem?

D. DIOGO

Sim! sim! Agora, que estás no baile, Emancipa-te de mim. Passeia, namora, primo, Faze a côrte, dize graças, Pódes até, se quizeres, Tu, morgado de Boaças, Ser um rei entre as mulheres!

D. MENDO

Um rei com manto emprestado! Julgo ouvir, a cada passo, Dizer a voz de um palhaço: «Largue a casaca, morgado!» Que entre a fôrma e entre o fato Deve a união ser tamanha Como entre a casca e a lagosta, Entre o ouriço e a castanha. Mas eu com esta casaca Cheiro a D. Miguel I. Suppõe que eu sou a castanha: Ella é o ouriço... cacheiro.

D. DIOGO

Ora adeus! Em Braga serve...

D. MENDO

Essa ironia é cruel! Onde ella faria vista Seria em Penafiel, Que lá as casacas todas São ainda mais pesadas E têm as abas dobradas, Dizem...

D. DIOGO

Pensei que sabias!

D. MENDO

Não. Eu já lá estive uns dias, Mas nunca mudei de fato. Ora eu com esta casaca A que Bocage decerto Fez no seu tempo uma quadra, Devo par’cer um retrato D’estes da Feira da Ladra! E depois que desconcerto Entre a casaca e o chapeu! Percebem todos á legua Que trago o que não é meu. Um chapeu moderno, _claque_, Fôrro preto, lettra de ouro, Armado com boas molas, Dando ao abrir-se um estouro. (_E abriu a claque com estrondo._) A casaca... um monumento De remota fundação! Faz lembrar a sé de Braga Com abas e cabeção; A guerra de Troia em panno; Affonso Henriques cosido. Affonso Henriques decerto É que eu trago em mim vestido!

D. DIOGO

Pateta! Mais te valia Talvez deitar-te ao sol-posto Com as gallinhas! (_ironico._)

D. MENDO

Que ouvi?! Pôr as gallinhas, entendo, Mas pôr o sol, nunca vi!

D. DIOGO

Ahi vem a dona da casa!

D. MENDO

Agora, que vou ter publico, Sinto-me arder n’uma braza!

SCENA II

_Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena produz hilaridade no publico._

BARONEZA

Ó morgado! que surpreza! Que prazer! quanto eu estimo! Beijo-lhe as mãos, D. Diogo, Pois que nos trouxe seu primo.

D. MENDO

Baroneza! Eu folgo muito... O meu peito rejubila... (_Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o cabeção da casaca._) (_á parte_) Não posso dár á cabeça, Que me não suba a mochilla!

D. DIOGO (_apertando a mão á baroneza_)

E tem que me agradecer, Porque o primo não queria Vir ao baile!

BARONEZA

Póde ser!

D. DIOGO

Só questão de _toilette_. Mas emfim...

D. MENDO

(_á parte_) Vim de casaca, E ainda cabiam mais sete!

BARONEZA

O barão, quando soubér, Ha de ficar encantado Co’a surpreza do morgado. Eu mesma lh’o vou dizer. E agora, morgado, goze, Que entre a fina flôr do Minho Não ha quem lhe leve a palma, Quem tenha mais gentil alma, Melhor sangue em pergaminho, Além do que nós sabemos... Pois por cá todos lhe dão Umas cem pipas de vinho E oitenta carros de pão.

D. MENDO

Ai! baroneza! Foi tempo!... Já não sou quem d’antes era. Sinto-me triste, sou mono. Matou-me o phylloxera! Deu nas vinhas... e no dono!

BARONEZA

Não se chore... pobresinho! Que não é occasião. Se quizer... compro-lhe o vinho, Seu primo... compra-lhe o pão.

D. DIOGO

Está dito, baroneza. Quer o meu braço?

BARONEZA

Pois não! Morgado, goze, namore, Que eu vou dizer ao barão. (_A baroneza e D. Diogo saem de braço dado por uma das portas lateraes._)

SCENA III

D. MENDO (_só_)

Goze! Namore! Tem graça! Póde alguem ser tão audaz, Que vá mostrar-se n’um baile Assim, por deante e (_volta-se_) por traz! Vim de rastos, constrangido, Estou aqui compromettido! Não saio d’aqui, não saio. Fallar ás damas? Dançar? N’essa tolice não caio. Não me hão de lá apanhar! (_Sentando-se._) Chego a Braga d’esta vez Por uns dois dias ou trez. Trago um fato de viagem: Eis toda a minha bagagem. Entro em casa de meu primo. —Como vaes tu?—Que surpreza! Ó diabo! adivinhaste! Mas tu sabes que apanhaste Um baile da baroneza?! —Um baile?—Um baile!—E depois? —Um baile d’estes que valem, Dados em Braga, por dois. —Não vou.—Has de ir.—Mas não posso! —Não pódes! porque?—Por tudo! Ou melhor, talvez, por nada! Pensas que eu visto casaca P’ra fazer uma jornada?! Que é da casaca? Não tenho! Gosto de andar á ligeira, Cheio de sol e poeira, Assim mesmo,—como venho. —Mas, primo, talvez se arranje Algum meio... deixa vêr. —Só o capote de um conego Me póde agora valer! —Não rias! Que ideia! Espera! Se me não falha a memoria, A casaca do papá, Que Deus tenha em santa gloria, No guarda-roupa ainda está. —Santo Deus! quero lá isso! Ó primo! que reinação! Uma casaca, talvez, Com que o tio outr’ora fez De valido papa-fina Quando a Carlota Joaquina Burlou a Constituição! —Vae-se vêr. Tem paciencia... Vem a casaca. Medonha! Isto que eu trago vestido E em que me sinto mettido Como dentro d’uma fronha! —Primo, não vou.—Qual historia! Verás lá muitas assim. N’esta Braga, que é fiel, O tempo de D. Miguel Dura ainda, e não tem fim! Vaes á moda.—Á moda... antiga! —Talvez que alguma morgada, Camapheu como o seu broche, Se sinta lisonjeada D’esse aspecto _vieille-roche_. —E entre no meu coração, Por engano, e por seu pé, Julgando, por ser em Braga, Que vae ouvir missa á Sé! —Ora adeus! Calças, collete, Gravata, lenço, chapeu, O resto da _toilette_, Tudo isso, empresto-te eu. E zás, põe me na tortura, Despe-me, veste-me, entala-me, Puxa, repuxa, estrebucha, Desaperta, aperta, empala-me! Traz-me ajoujado, arrastado, Acho-me, sem saber como, Preso dentro de uma sacca! Vim a pé... n’esta casaca, E o primo veio a meu lado!

SCENA IV

(_D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar._)

D. FAFES e D. GUALTER (_simultaneamente_)

Ó que surpreza! Um abraço! Que noite nem estreiada! (_abraçam-n’o de um e outro lado._)

D. MENDO (_á parte_)

Fica tão longe a casaca, Que não senti mesmo nada! (_Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça._) Ó D. Gualter, ó D. Fafes, Ser apresentado estimo Ao distincto cavalheiro, Que tendes por companheiro. Será elle nosso primo?

D. GUALTER

Não é. Mas outra valia Este senhor recommenda. Isto já de fidalguia!...

D. FAFES

É o escrivão de fazenda. (_apresentando D. Mendo_) Meu primo Mendo de Sousa Noronha Alvim e Lambaças... Aqui falta alguma cousa! Emfim: senhor de Boaças.

D. MENDO

Falta o Tinoco materno. De meu pae falta o Rolim.

D. FAFES (_emendando_)

Mendo de Sousa Noronha Alvim Tinoco Rolim, Senhor do Brejo e Boaças.

D. MENDO

Agora falta o Lambaças!

D. FAFES (_rindo_)

Nenhum de nossos avós Faz falta onde estamos nós!

D. MENDO (_ao escrivão_)

Muito emfim me lisonjea Conhecer este senhor. Faça de conta, de ideia Que me tem ao seu dispôr. Estendo-lhe a minha mão, Senhor... senhor escrivão De fazenda... propria ou alheia?

D. GUALTER (_precipitado_)

Não faças troça do homem. N’estes bons tempos felizes De liberdade e igualdade Nós andamos nas mãos d’elle P’ra que não nos tire a pelle Esticando-a nas matrizes.

D. MENDO

Então cá vocês não pagam?

(_D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda_)

D. GUALTER

Pagamos pouco. Bem vês Que ninguem faz em colheitas O que antigamente fez.

D. MENDO

E então recorrem ás peitas!

N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não parecia que fosse rubrica da peça.

D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou para dentro: Calem-se, seus burros!

D. GUALTER (_levantando a voz para poder ser ouvido_)

Finge a gente que o estima, Trata-o de Santo Antoninho, Mão por baixo, mão por cima. Se não ha nem pão nem vinho!

D. MENDO (_descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua_)

Mão por cima... é bom criterio. Mas mão por baixo... é mais serio!

D. GUALTER (_explicando com o gesto correspondente_)

Mão por cima e mão por baixo.

Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, altercar. Da platêa rompem alguns scius.

D. MENDO

Isso então tinha outro nome Quando não havia fome. Chamava-se: ser capacho!

D. FAFES (_em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco_)

Muito alegre este D. Mendo!

D. GUALTER (_berrando para poder ser ouvido_)

Parece rapaz, e é velho!

D. FAFES (_gritando cada vez mais_)

Tem uma casa soberba!

D. MENDO (_com voz de estentor, para o escrivão de fazenda_)

Tenho. Mas n’outro concelho.

N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de Lemos, em _travesti_ de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo, atarracado, ardendo em colera.

Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos camarotes.

Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por entre os bastidores.

O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.

Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.

Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os guinchos.

Vozes explicavam da platêa para os camarotes:

—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!

—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.

Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.

D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:

—_Que broma! que broma!_

Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:

—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.

O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes, para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:

—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!

XIII

Imagine-se quanto deu que fallar este caso estupendamente comico!

Pela manhã dizia-se na praia que o pae do estudante havia corrido atraz d’elle pela rua da Conceição, e que um popular, vendo uma mulher a fugir e um homem a gritar que a prendessem, deitara a mão á supposta mulher; que Julio de Lemos apanhára n’esse momento nova roda de pontapés, e que o pae, agarrando-lhe por um braço, o levára para a hospedaria, tendo embarcado ambos no comboio da manhã para Lisboa.

Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: soube-se então que o jornalista havia mandado vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de louros, a qual coroa de louros ficára no theatro pendurada de um prego. Fazia-se _calembour_ com a palavra _prego_, porque se soube logo tambem a quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro para pagar a coroa. Accrescentava-se que o estudante se esquecêra, na atrapalhação em que ficára, de restituir a _toilette_ a D. Estanislada, mas averiguou-se depois que o pae de Julio de Lemos havia mandado entregar tudo.

Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado e furioso: envergonhado pelo _fiasco_ e furioso por vêr perdida a occasião de trepar para o pedestal de Garrett.

Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio Goes havia partido no comboio da tarde para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, nem mesmo á pessoa que lhe havia emprestado o dinheiro para a coroa de louros.

Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a ninguem, haviam tirado algum proveito d’essa mallograda récita.

A primeira era D. Estanislada que, graças ao estudante, ficára sabendo que, no sorteio de Troia, havia cahido em sorte ao sueco.

A segunda era o sueco que, na noite da récita, tinha offerecido um camarote de segunda ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.

Pois que! A menina Ricardina soubera tecer a sua rede, e apanhou nas malhas o sueco. Foi com esse fim que ella o chamára para lhe fazer as confidencias que sabemos. Elle, encantado com tão boa fortuna, porque era essa a primeira portugueza que se lhe tornava accessivel, voltára na noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido o galanteio.

A menina Ricardina contou á mãe que o sueco lhe tinha dito que queria desposal-a, e a sr.ª Magdalena, depois da filha lhe prometter que _teria muito juizo_, prometteu ao Senhor do Bomfim um sueco de cêra, se o namoro viesse a disparar em casamento.

Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada um camarote de segunda ordem, camarote de industria escolhido para dar pouco nas vistas: era de bôcca.

E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram no camarote offerecido, o sueco, a proposito de saber se ellas queriam alguma coisa, foi visital-as, e ficou.

Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, encantado com a mobilidade gracil com que Ricardina mexia a cabeça, olhando para um e outro lado como um passaro na gaiola.

Ella estava delirante de alegria por se vêr no theatro, coisa que já lhe não acontecia havia dois annos, desde que um rapaz, que tinha ido a banhos, lhe offerecera duas cadeiras no barracão dos Dallots para ella assistir com a mãe á representação da _Mão do finado_.

Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido pelas melhores familias da terra e de fóra, estonteava-a d’alegria e de orgulho.

Quando principou a desencadear-se no palco a tempestade, que fez gorar o espectaculo, a menina Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a gente, e aproveitou a occasião para ir sentar-se, ao fundo do camarote, perto do sueco.

A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo do palco, sem dar a menor attenção ao escandalo do camarote. O sueco e a menina Ricardina, de mãos entrelaçadas, muito ternos, já se não importavam senão comsigo mesmos, indifferentes ao tumulto que de repente se havia levantado.

Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr o sueco, porque, depois que o estudante lhe contára a historia do sorteio, ella havia architectado um romance de amor internacional.

O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, o sueco amava-a, e por isso o conselheiro. Antunes o tinha encontrado perto da casa de D. Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.

Havia, é verdade, uma carta do sueco para Soledad, carta que D. Estanislada e o conselheiro abriram e leram, mas essa carta bem podia ser um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese de qualquer escandalo futuro.

Não fingira a principio o conselheiro, tambem habilmente, namorar Soledad para afastar suspeitas do seu galanteio com D. Estanislada? Pois muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava namorar Soledad para se aproximar, sem dar nas vistas, do coração de D. Estanislada.

A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada pela segunda vez em Setubal.

O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava n’umas paschoas desde que possuia o coração da menina Ricardina. Já se não importava de Soledad, que seria mais bella, não o negava, mas não era tão accessivel, tão meiga, tão carinhosa para elle.

O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, foi-se esvaziando, os espectadores sahiam fazendo commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram ficar para ser os ultimos a sahir.