As Netas do Padre Eterno Romance original
Part 5
Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar, dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores.
A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão.
—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o.
Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos tres pés cumplices.
D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso:
—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada.
Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união iberica dos tres pés.
O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D. Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do Bomfim.
Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada, exclamou:
—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas.
—_Muchas gracias_, respondeu ella encostando-se á porta da saleta.
Quando batiam em S. Julião as onze horas da noite, um embuçado, cosendo-se muito com a sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente para casa de D. Enrique. Era o _azeite_: o conselheiro. Mas teve de fazer torcicollos porque reconheceu o sueco, que estava contemplando as janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, mal que viu aproximar-se um vulto, deitou a fugir.
O presidente da junta geral do districto de Santarem, lembrando-se da _rifa_, e, portanto, de que D. Estanislada havia sahido em premio ao sueco, teve uma forte commoção de ciume.
—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha ido para Cintra e apparece mysteriosamente em Setubal ás onze horas da noite!
E, como um Othello furioso, empurrou a porta de Desdémona e entrou.
Por dentro dos vidros da sua janella, a menina Ricardina, muito matreira, tendo apanhado no ar a phrase do _azeite_, estava á côca, e vira tudo o que se passára.
IX
O conselheiro Antunes, subindo a escada, deixou-se guiar mansamente, na treva, pela mão da hespanhola. Parecia um borrego amoroso comboyado pela respectiva cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de D. Estanislada e a luz da lamparina lhe aclarou a situação, o borrego transformou-se em lobo cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.
Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, foi pouco mais ou menos a famosa fabula do lobo e do cordeiro.
Othello accusou violentamente Desdémona: era o lobo que fallava.
Não alludiu á _rifa_, mas affirmou saber de boa origem que o sueco disfarçava com a filha as suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre lisonjeada e surprehendida, tomou o logar do cordeiro do apólogo, salvo o sexo. Procurou tranquillisar o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco não a pretendia a ella, mas á filha, _que era mais nova_. O lobo pediu provas, visto que só com provas importantes poderia desfazer a impressão que lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, ás onze horas da noite, sendo certo constar em toda a cidade que Soledad tinha ido para Lisboa com o pae.
D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de uma prova. Era uma carta que n’aquella mesma tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a Soledad Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, estrangeirada: naturalmente seria do sueco.
—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia a carta e, se effectivamente fosse do sueco, talvez a questão podesse ficar esclarecida.
Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com denodo. Era effectivamente do sueco.
Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos.
Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta.
Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no _pic-nic_ de Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás onze horas da noite.
Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor.
Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos, esperava que a janella de Soledad se abrisse.
Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta de um _rez-de-chaussée_.
Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um _psiu_, tres vezes repetido, um _psiu_ que não podia ser senão para elle, porque na rua não havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.
Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher, mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher? Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava dizendo cautelosamente:
—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.
O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe soube tão bem como um copo de _Kirsch-Vasser_.
—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que está ali minha mãe a dormir.
—Ó encantadorra menina! exclamou elle.
—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, o sr. estrangeiro anda aqui por causa da mãe ou da filha?
—Que dizerr menina?
—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro no grupo da hespanhola, mas não sei ao certo se anda arrastando a aza á _señorita_ Soledad ou a D. Estanislada...
—Linda menina desfrructarr-me a mim?
—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe agradavel. Posso dar-lhe informações tanto a respeito da _señorita_ como da mãe. Se é por causa da filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a perder o seu tempo...
—Porque dizerr linda menina isso?
—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa com o pae, e só volta depois d’amanhã.
—Mas quem serr então uma pessoa homem que andava esprreitando inda bocadinho?
—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que lhe vou contar?
—Oh! nó!
—Era o conselheiro Antunes.
—E onde estarr elle?
—Lá dentro.
—Aqui?
—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.
—Mas estarr só?
—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... O sr. desculpe...
—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.
—É uma pouca vergonha como nunca se viu! Minha mãe tem alugado aquella casa a muitas familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão levantada da cabeça como esta! Entre mãe e filha venha o diabo e escolha!
—Mãe menina serr senhorria casa?
—Sim, senhor.
—Então menina terr visto tudo?
—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. Ainda esta noite...
—Que terr visto menina esta noite?
—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada por imaginarmos que, estando o marido e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro Antunes. Ó sr. estrangeiro, aquillo foi mesmo uma pouca vergonha!
—Como serr?
—Debaixo da mesa...
—Como debaixo de mesa?!
—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada e o conselheiro! Estiveram toda a santa noite n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que ás onze horas vinha o azeite...
—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação entrre ambos!
—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam o ninho atraz da orelha, fiquei aqui á espreita por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro e pasmar-se para a casa de D. Enrique. Vi chegar depois o conselheiro Antunes. O sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.
—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr lá?
—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...
—Pouca verrgonha!
—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a mesma loiça! A filha, quando não anda pela rua com todos os namorados, está á janella a catrapiscar a um e a outro, a todos os que vão chegando! O sr. estrangeiro tambem tem feito bem bonitos papelinhos!
—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?
—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, elle é o tal das gazetas de Lisboa, elle é o hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha que tem a pobre da Sequeira a morrer por causa d’elle; elle são os officiaes de caçadores; elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva que andou ahi um tempo. E elle é tambem o sr. estrangeiro... disse Ricardina sorrindo.
—Eu serr brrincadeirra.
—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque quando o sr. voltava costas, a _señorita_ e a mãe desatavam a rir pelas casas dentro.
—Pouca verrgonha!
—Pois olhe que é a pura da verdade!
—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr virr amanha á mesm’horra fallarr com menina aqui?
—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? É porque está apaixonado pela _señorita_ e deseja saber noticias...
—Nó! É por gostarr de menina.
—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma pobre rapariga!...
—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. Linda menina, fazerr favorr esperrar mim?
E o sueco, apertando na sua manápula a mão de Ricardina, sentiu-se deliciosamente agitado por esse contacto, que era um triumpho amoroso cahido do céo.
Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de casa de D. Estanislada, sentia-se bem, feliz, por ter podido até certo ponto descarregar a electricidade que de lá trouxera.
O sueco era um homem sadio, de boas côres, e devia ter dinheiro, porque estava ali como commissario de uma importante casa da Suecia, importadora de sal.
De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, lisonjeava-se de ter arrancado um vassallo ao coração da _señorita_, que estava absorvendo todas as attenções de Setubal.
O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi passear audaciosamente para a praia, como se já não temesse os ridiculos da troça.
Dados alguns passos, encontrou o estudante de Alcacer, que, muito noctivago, recolhia do café _Esperança_.
—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você não tinha ido para Cintra?!
O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha estado em Cintra, por passeio, e não porque se houvesse importado com a historia do _pic-nic_; que se estava rindo da _señorita_, que era uma tola, e até de D. Estanislada, que era a amante do conselheiro Antunes.
E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos que Soledad e D. Enrique tinham ido para Lisboa e que o conselheiro estava áquella hora em casa de D. Enrique.
—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.
O sueco affirmou positivamente que estava; que tinha entrado ás onze horas.
—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos pregar uma _partida_ a essa marafona da D. Estanislada.
E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando comsigo a reboque.
Depois que passára a tempestade do ciume, D. Estanislada e o conselheiro reconciliaram-se n’um longo idillio de amor. Tinham adormecido nos braços um do outro, e D. Estanislada sonhava afflictivamente que D. Enrique, voltando de Lisboa, estava batendo á porta.
Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, olhando para o conselheiro que dormia tranquillamente e assobiava por um dos cantos da bôcca.
Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, isto é, entre a imagem de D. Enrique e a pessoa do conselheiro, estava limpando o suor da testa, quando ouviu resoar tres pancadas na porta e uma voz roufenha dizer:
—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, accordou-o, e elle, despertando aturdido, ouviu tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:
—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado de pregar aos dois esta _partida_.
X
Tarde de domingo, lucida e serena como um crystal da Bohemia. O Sado dorme n’um azul tranquillo, n’um leito de saphira, que a menor aragem não agita, o que poucas vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se n’uma grande quietação bucolica, e os arvoredos circumjacentes recortam-se n’um fundo de stereoscópo longamente pittoresco...
As Rodartes foram passeiar a Brancannes: Hilda e Maria Ignez, de braço dado; Salomé guiando, como sempre, o avô,—Antigone que vae conduzindo Œdipo.
Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se bem na solidão dos campos, mais convidativos ali do que na sua arida provincia do Alemtejo.
O velho _Padre Eterno_ não queria outra felicidade que a de vêr-se rodeado pelo grupo encantador das suas tres Graças: onde ellas estivessem, estava o céo.
Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido ainda, e não faziam falta a ninguem, nem mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde pareciam ter esquecido.
Salomé e o avô conversavam sobre negocios da administração da casa, porque aquella neta era o secretario particular do velho Rodarte: toda a correspondencia com os feitores e caseiros corria pela sua mão.
Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, assumptos de Setubal, que lhes serviam para ir matando o tempo.
—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia Maria Ignez.
—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.
—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.
—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda viu nenhum dos seus pagens! Ou foram tambem para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar de saudade...
E riram ambas, sem despeito, apenas com a alegre ironia, que é uma feição caracteristica dos espiritos moços e despreoccupados.
—O sueco é que desappareceu da circulação!
—E o Lemos tambem!
—Não. O Lemos estava outro dia sentado á porta do café quando nós passamos.
—Parece que não está bem comnosco!
—Porquê?
—Eu sei lá! Deixal-o estar.
—E o jornalista?
O avô e Salomé haviam-se calado momentos antes.
—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me hoje a sua _Trombeta_.
—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria Ignez.
—Não, a d’elle, a _Trombeta Ullyssiponense_.
—Por signal, accrescentou Salomé, que vem lá uns versos d’elle, que não são feios.
—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens boa memoria, dize lá como são.
—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se _Noites ao norte_.
Noite fria, noite branca, Noite da Russia polar, És como a imagem da morte, Ó longa noite do norte, Feita de neve e luar.
—Dize lá o resto.
—Não sei. Tive de escrever para a Messejana uma carta que o avôsinho queria, e puz logo o jornal de parte.
—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.
—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.
—Se elle faz d’esses versos á _señorita_, constipa-a, disse Maria Ignez.
O avô e as duas outras meninas riram muito da phrase.
—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser comico esse cortejo da hespanhola! Tirados os nossos dois patricios, que são alegres, mas excellentes pessoas e proprietarios abastados, tudo o mais não vale um caracol.
—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.
—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, que me não parece um forte sustentaculo da monarchia, nem um inimigo poderoso da republica.
—E o Vianninha? perguntou Hilda.
—O Vianninha é um pobre escripturario de fazenda, respondeu Araujo Rodarte, que anda a estudar o modo de não morrer de fome.
—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a estudar o meio de conquistar a _señorita_.
—Está ella feliz com esse pretendente!
—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, está apaixonada por elle a Sequeira. Dizem até que tem deitado sangue pela bôcca.
—Pobre rapariga! que tão mal empregou o seu coração! ponderou o Rodarte. E elle é um tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa de seu, possue duas marinhas em Alcacer, e é um homem que trabalha muito. De mais a mais, boa gente.
E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:
—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.
—Antes elles do que os outros, disse o avô.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas vinham effectivamente subindo para Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as tres lindas patricias.
A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.
—Então que vae lá por esse mundo da praia? perguntou o velho Rodarte.
—Algumas novidades ha.
—Novidades! Quaes?
—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse o morgado de Reguengos.
—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.
O morgado fez-se purpurino.
—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como este meu companheiro estamos aqui a banhos e queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto como se estivessemos no theatro. A andaluza tem sido a peça que está em scena: assistimos ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.
—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.
—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo Rodarte. E mais?
—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. Já nos foi deixar bilhete.
—Mas elle contava ainda demorar-se! observou Araujo Rodarte.
—Lá estão commentando no Lapido a resolução do conselheiro.
—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o morgado de Reguengos.
—Digam sempre.
—O Lemos planeou agora um espectaculo de curiosos em favor do Asylo. Parece que querem representar uma comedia escripta pelo Goes.
—Mas quem representa? perguntou Maria Ignez.
—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.
—Nós! conclamaram as tres meninas.
—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.
—Mas a mim consta-me por linhas travessas, disse o proprietario das Alcaçovas, que o pae do Lemos está furioso com a demora d’elle em Setubal, e que mais dia menos dia o virá buscar para o acompanhar a Lisboa, visto que se vae aproximando a época da abertura das aulas.
—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz está aqui está a tomar capêllo em Physica.
—Tempo tem elle já para isso!
—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma cabeça desconcertada!
—Outra novidade! exclamou o morgado de Reguengos.
—Qual?
—Appareceu o sueco!
—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo Rodarte.
—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar cavaco á gente.
Os dois alemtejanos foram a Brancannes com o proposito astucioso de evitar que as Rodartes tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre o assumpto o animo do velho Rodarte. Mas logo ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como as netas pensavam do mesmo modo: ellas não entrariam na récita.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas continuaram a não dar importancia á concorrencia amorosa do estudante e dos outros, que _não tinham onde cahir mortos_. Mas o galanteio de ambos com as duas Rodartes ia-se accentuando com um caracter de seriedade, que abrangia já a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.
Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem n’um espectaculo de rapazes as duas senhoras, Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade de que ellas lhes acceitassem a côrte.
Não sabiam elles ao certo o numero de personagens femininos que a peça exigiria; mas preveniam a hypothese de uma annuencia ao convite do estudante.
Combinado o espectaculo no café _Esperança_, e compromettido Aurelio Goes a escrever a peça, o estudante, o jornalista e o Vianninha foram em grupo ao encontro das Rodartes.
Vinham ellas já descendo de Brancannes com o avô e os dois alemtejanos, quando os tres as avistaram.
N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia uma flôr e offerecia-a a Hilda. O estudante viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.
—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, o que aquelle pedaço de bruto lhe está dizendo decerto agora?
—O que é?
—Aposto que ha de ser isto:
Aqui tem este raminho, Que da minha mão se offerece. Não é como eu queria, Nem como a senhora D. Hilda merece.
E riram todos tres.
—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o estudante.
—Tambem a mim me parece! respondeu o Vianninha, muito timido.
—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.
E o estudante foi o primeiro a desandar pelo mesmo caminho, sendo logo seguido pelos seus dois companheiros.
XI
O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram inquietos com o que tinham ouvido.
O seu segredo estava descoberto: o _azeite_ havia-se entornado, enodoando ambos.
Não era D. Enrique que batera á porta, porque D. Enrique estava em Lisboa, mas devia ser uma pessoa que soubesse _tudo_.
Quem seria essa pessoa?
D. Estanislada propendia a crêr que fosse a senhoria.
—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.
—_Porque es beata, y las beatas lo saben todo: lo que Dios no les dice, lo saben ellas por el Diablo._
Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia:
—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco, que andava por aqui. É verdade que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça.
—_Nada!_ teimava D. Estanislada. _La voz no era la del sueco!_
—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio. O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua ausencia.
—_D. Enrique nada sabrá_, dizia a hespanhola, muito menos timida que o conselheiro.
—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei depois.
—_Que fatalidad!_ exclamava ella.
O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D. Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava ninguem na rua.
—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas, para não alimentar suspeitas, para mostrar que _parto_ mas não _fujo_, e por aqui me sirvo até mais vêr.
E, apos uma pausa, muito sentencioso:
—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem.
Effectivamente, no comboio de segunda-feira pela manhã o conselheiro partiu para Lisboa e de Lisboa para Santarem.
Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo pensamento sentencioso acudiu ao espirito do conselheiro:
—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem!
O estudante de Alcacer havia divulgado a _peça_ que pregára ao conselheiro e a D. Estanislada. Era já do dominio publico á hora em que o conselheiro andava fazendo as suas despedidas.
Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente quando se encontraram com as Rodartes, no domingo, em Brancannes, mas limitaram-se, por conveniencia devida ás damas, a dizer que no café _Esperança_ estavam discutindo os motivos da retirada do conselheiro.
E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola mãe foi ali tão discutida quanto a hespanhola filha o havia sido quando era a unica belleza dominadora de Setubal, isto é, antes da chegada das tres netas do _Padre Eterno_.