As Netas do Padre Eterno Romance original

Part 3

Chapter 33,806 wordsPublic domain

Ás sete horas da manhã, já o conselheiro Antunes andava no velho mercado da praça do Sapal, comprando as melhores fructas que pôde encontrar. Tambem comprou algumas flôres para offerecer a D. Estanislada e a Soledad. Seguiam-n’o dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, onde não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado do peixe, onde comprou o melhor e o mais caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram a rôdos. A caldeirada devia ficar famosa.

Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer lhe appareceu todo açodado.

—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, ao vêl-o, o conselheiro.

—Ha caso! respondeu o estudante.

—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. Querem vêr que a D. Estanislada tornou a apanhar uma indigestão, e que já não vamos a Troia! Pois ha de perder-se tudo isto!

E com um olhar desalentado, em que se liam poemas d’angustia, relanceou os olhos ás flores, ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si mesmo, o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, significando a magua que lhe causava o perder-se tambem elle proprio, o seu raro talento culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, perante D. Estanislada, e os outros.

—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!

Aquietou-se o semblante do conselheiro, que entretanto se havia lembrado de que se perderia tambem o excellente azeite, que finalmente podéra descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se tudo, incluindo o azeite magnifico e o talento culinario.

Julio de Lemos, rapidamente, explicou:

—Chegaram hontem á tarde as _netas do Padre Eterno_!

O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, e desconfiança: cara de quem não percebia nada.

—Como! exclamou. As _netas do Padre Eterno_! Então vossa senhoria, sr. Julio de Lemos, propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e comigo!

E, de repente, reconquistou toda a plenitude do seu bello ar conselheiratico, muito emproado.

—Pois vossa excellencia imagina que estou brincando! respondeu o estudante. As _netas do Padre Eterno_ são tres lindas meninas da Messejana, que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram toda a gente encantada.

—Mas o que têm essas tres lindas meninas com o Padre Eterno? perguntou auctoritariamente o conselheiro.

—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes a alcunha de netas do Padre Eterno, porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes barbas brancas, que faz lembrar as imagens do Padre Eterno. Não ha ninguem mais estimavel do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, e que mette as cartas pelos olhos dentro, porque é muito myope. Mas as netas, as netas, sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!

—Bem! Bom é que a praia se vá animando cada vez mais! Mas não percebo a razão por que o sr. Julio de Lemos classifica de _caso_ esse acontecimento, aliás vulgar!

—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a contar o que ia por cá, o que nos temos divertido com a familia de D. Enrique, e a caldeirada que hoje vamos fazer, graças ao talento culinario de vossa excellencia.

—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o conselheiro, lisongeado nas suas prosapias de Vatel amador.

—E, como ellas mostrassem pena de perder a caldeirada, julguei que não era decente deixar de convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto vossa excellencia, na sua qualidade de nosso amavel amphitryão, e pedir-lhe desculpa da minha ousadia, que aliás as circumstancias justificam.

—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre com as damas... Nada tenho que objectar. Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria ter sido prevenida primeiro...

—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. De mais a mais D. Estanislada e Soledad são muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, e a prova está em que apreciam sempre a presença de vossa excellencia...

—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... Bem! bem! Eu vou reforçar um pouco o contingente dos salmonetes, visto que os ha com abundancia no mercado, felizmente! Só peço a vossa senhoria que tenha a bondade de explicar a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo a não me poder ser imputada a iniciativa d’elle.

—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a que horas é a partida? Preciso ir prevenir as Rodartes.

—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.

—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, e terá vossa excellencia occasião de conhecer as tres lindas netas...

—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.

E foi d’ali _reforçar_, como elle disse, _o contingente dos salmonetes_.

O estudante andára com certa finura em todo este negocio.

Quando viu as Rodartes, que eram realmente tres lindas mulheres, ficou contentissimo por se lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de que ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad o premio da belleza. D’este modo conseguir-se-ia abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza. E elle, namorando alguma das tres, a Hilda, principalmente, a quem já havia, dois annos antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens com que Soledad acolhia por vezes, sempre caprichosa e indefinida, os seus galanteios.

Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um dos promotores da caldeirada, tendo portanto auctoridade para fazer o convite, que, n’essa fé, foi acceito.

Depois correu a procurar o conselheiro, mudando as guardas á fechadura: desculpando-se do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão da caldeirada.

E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, flôres que eram certamente destinadas a D. Estanislada e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar dois ramos de flôres, que uma palmelôa lhe vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar tres ramos, mas, para isso, não lhe chegava o dinheiro. Cortou o nó gordio, desfazendo em casa os dois ramos, e compondo tres, que sahiram mais geitosos do que estavam os dois.

Olhando, contente da sua obra, para elles, teve Julio de Lemos esta observação sensatissima:

—Para saber economia, não é preciso ser economista: basta não ter dinheiro.

Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás duas horas em ponto partiriam todos do caes do Livramento.

Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa estreia que a sua estação balnear ia ter.

Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o avô que tinham sido creadas. Baboso por ellas, o velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não tinha vontade propria. Extremamente myope, como o estudante d’Alcacer dissera, ia para toda a parte comboyado pelo braço de alguma das netas, quasi sempre Salomé, que era a mais velha, e das tres a menos formosa. Tinha vinte e tres annos.

Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. Vinte e um annos adoraveis. Mulheres fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços _potelés_, cobertos de um frouxel que reluzia ao sol como uma pennugem de ouro.

Salomé era menos forte e menos bella. Mas havia na sua physionomia uma graça peninsular, que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação, os seus ditos de espirito, partiam da sua bocca graciosa e sã como settas que brilhavam mais do que feriam.

Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela mãe. No districto de Beja não havia casa melhor do que a sua, cujas herdades e montados se espalhavam para o oriente até ao Chança e para o sul até Almodovar.

O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem pressa de casar, porque não poderiam encontrar noivos que as estimassem mais do que elle.

E enterradas na Messejana, lonje das tentações do mundo, ellas pareciam, realmente, não ter pressa de casar.

No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, que era uma semsaboria pouco melhor que a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram arrastar o avô até Setubal, onde fizeram sensação, e ficaram sendo conhecidas pelas _netas do Padre Eterno_. Mas o avô fatigara-se com a jornada, e no anno seguinte voltaram para Sines. Agora fôra elle que voluntariamente, conhecendo que as suas tres graças preferiam naturalmente Setubal a Sines, se offerecera de motu proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal bonhomia de avô baboso.

Julio de Lemos, que encontrára na Physica da Escola Polytechnica um barranco ainda não vencido, resignava-se, durante as ferias, do desgosto que no fim de todos os annos lectivos recebia em Lisboa. Namorando e perpetrando o seu verso, preparava-se para no anno seguinte investir novamente com a Physica.

Fôra um dos mais dedicados satellytes das _Netas do Padre Eterno_, quando ellas pela primeira vez appareceram em Setubal. Versejára em honra de todas tres, mas não era um namorado que ninguem tomasse a serio. Todos os galanteios que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, não podiam auctorisar-se com a esperança de casamento. Mas, em compensação, ellas haviam atravessado triumphantemente Setubal, durante toda uma epocha balnear, sob uma chuva de flores.

Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam ainda Julio de Lemos escravisado pela Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto a divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o passado, como para aligeirar o presente, e, sobretudo, para vingar-se da altivez castelhana de Soledad.

Orientado por este complexo programma, não podendo disfarçar a alegria com que se propunha realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, no caes do Livramento, acompanhando as formosas _Netas do Padre Eterno_, á frente Hilda e Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz Salomé dando o braço ao avô myope, como Antigone a Œdipo.

V

Estava já no caes a bella Soledad com toda a sua côrte.

O conselheiro Antunes dava ordens, fazia recommendações aos barqueiros: que não esquecessem isto, que não deixassem ficar em terra os cabazes com as loiças, e as celhas com o peixe.

D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido n’essa manhã, e de momento a momento commentava a leitura monologando: _Qué broma!_

D. Estalisnada mostrava-se encantada com a solicitude cavalheirosa do conselheiro Antunes, e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado de Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: «N’isto do azeite anda marosca; é linguagem combinada.»

Quando o grupo das Rodartes chegou, houve sensação no grupo de Soledad. Foi como se duas côrtes se chocassem.

O morgado de Reguengos, o proprietario das Alcaçovas, os dois officiaes de caçadores 1 e o Vianninha já as conheciam. Correram a cumprimental-as, a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao avô.

Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a familia Rodarte aos que pela primeira vez a viam.

Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão amável como ironica:

—Ficará eternamente na memoria do rio Sado este encontro da belleza de Portugal com a belleza de Hespanha.

Uma explosão de riso saudou esta apresentação original. As tres Rodartes sorriram, mas coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu que n’esse momento lhe vacillava na cabeça a corôa de rainha da belleza, até ahi indisputada.

A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por parte do estudante, muito respeitosa:

—Apresento a vossas excellencias um dos mais illustres e respeitaveis cavalheiros que tenho tido a honra de conhecer: o abastado proprietario de Santarem, dr. Antonio José Antunes, do conselho de sua magestade fidelissima, e presidente da junta geral d’aquelle districto. A vossa excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado proprietario da Messejana, o sr. Araujo Rodarte, e suas encantadoras netas.

Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro o amphitryão da festa, carregou a mão nos elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar da despeza que elle fizera _reforçando um pouco o contingente dos salmonetes_.

D. Enrique, na primeira occasião que teve, perguntou a Julio de Lemos se o velho Rodarte era bom conversador. Ficou contente de obter uma resposta affirmativa, porque encontrava mais uma victima para as suas estopadas sobre a politica hespanhola.

E, para estreitar desde logo as relações com a sua victima, dirigiu-se a ella dizendo-lhe:

—_És usted un imponente anciano, de mi mayor respeto._

_Imponente anciano!_ Esta só podia lembrar a um hespanhol! Mas as barbas brancas do velho Rodarte eram dignas da hespanholada.

Embarcaram todos, não sem a hilaridade que o embarque de senhoras produz sempre. D. Estanislada precisou que o conselheiro Antunes, muito cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, largando do caes, aproáram a Troia.

Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não citarei emquanto o não souber escrever correctamente, o que aliás não é facil, se sentasse a seu lado. Era a resposta ao cartel de desafio, que o estudante lhe trouxera com a presença das Rodartes. O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei Portugal.» E sobre o Sado, como na vespera, era a Suecia que triumphava.

Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar de montar o arsenal culinario.

O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se como Vatel amador. Muito methodico, elle mesmo dispunha os utensilios, procurava os tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o lume. Dir-se-ia que elle desejava imprimir o cunho da sua individualidade não só á caldeirada, que ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que estava organisando com o maior esmero.

Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha e os officiaes de caçadores 1 fossem explicando que em Troia existira uma cidade romana, chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda ruinas e outros vestigios, taes como amphoras e medalhas, toda a caravana, com excepção de duas pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente as medalhas, pois que o Vianninha affirmava que se encontravam com facilidade, e que elle mesmo possuia uma de bronze do tempo de Trajano.

As duas pessoas, que não acompanharam as outras, eram o conselheiro Antunes e D. Estanislada, que se offereceu para auxilial-o no mister de cosinheiro.

D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas disseram entre si, commentando: «_Azeite_ não falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»

Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre a area, enfiou o braço no do sueco, pendurando-se d’elle com abandono. Continuava, portanto, a sustentar o seu plano de combate. Em Troia, como no Sado, era a Suecia que triumphava.

Os outros perceberam a intenção de Soledad, e rodeavam, em despique, as tres Rodartes, acompanhando-as n’uma especie de cortejo triumphal e de certamen galante. O proprio hespanholito D. Ramon, julgando-se vencido pela Scandinavia, vingava a Iberia masculina arrastando a aza a Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o marialva do Chiado pareciam propender mais para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o morgado de Reguengos entabolaram conversação com Salomé sobre assumptos graves do Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores 1 e o Vianninha iam adiante dos grupos em exploração archeologica. Julio de Lemos, já despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente de Aurelio Goes, que não respeitava os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava a conquista de Hilda, principiava a lamentar-se de ter perdido a occasião do duello para lhe atravessar o coração com uma bala.

«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas mãos lhe morre.»

D. Enrique apossara-se do _imponente anciano_, levava-o a reboque pelo braço, e descrevia-lhe os horrores da insurreição cantonal, parando a cada momento, exclamando:

—_Que barbaridad!... que atentado!_

O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o Vianninha indicaram alguns vestigios da antiguidade romana de Cetóbriga, a que ninguem deu grande importancia.

Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha o Vianninha por causa da grande abundancia de moedas, que segundo elle, se encontravam em Troia, o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, ainda quiz justificar-se, excavando no areal.

Soledad, conversando com o sueco, cuja face irradiava como uma aurora polar, olhava desdenhosamente para tudo aquillo.

Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava da areia humida, offereceu-a a Hilda Rodarte.

Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança abrangia agora duas pessoas: Soledad e o redactor da _Trombeta Ullyssiponense_.

Mastigava represalias... em sêcco.

Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar das affirmações categoricas do Vianninha, e do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, que, occupando-se do assumpto, havia chamado a Troia—_terreno fertilissimo d’estes achados_.

Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido em pelotões, retrocedeu, a fim de procurar o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam ter armado, para sob elle ser servida a caldeirada.

Com effeito, estava quasi prompto o improvisado pavilhão, feito de vélas de barco.

O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados do rosto, debruçados sobre a caldeira, provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, e annunciavam que estava divina.

Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra do toldo, deixando ficar a descoberto metade do sapato enfitado. O sueco, embasbacado, bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo muito abstracto ao que ella lhe dizia.

Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, com os outros. Havia risinhos. Soledad percebia, e de vez em quando ella mesma, com uma audacia castelhana, olhava para a ponta do sapato, como a encaminhar para esse alvo, que aliás era preto, o olhar do sueco.

Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera a ousadia de sentar-se na areia perto de Hilda, perdeu a tramontana e começou a escancarar umas gargalhadas alvares. Resolveu logo embebedar-se para tirar a desforra.

O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo do pavilhão, annunciou que ia ser posta a toalha, porque a caldeirada estava prompta, e que por isso cada um devia tratar de occupar logar em volta do recinto destinado á toalha.

Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio de Lemos sentou-se na areia entre Hilda e Soledad, ganhando uma excellente posição. O sueco poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o Goes á esquerda de Hilda. Mas o estudante de Alcacer ficou ardendo entre dois fogos, tinha á direita a Hespanha e á esquerda a Messejana: ficou no meio da Peninsula.

Quando D. Estanislada appareceu, notou-se que ella vinha um pouco mascarrada n’uma das faces.

—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito solicito, o conselheiro Antunes.

Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam entre si olhares intelligentes: o conselheiro Antunes pintava o bigode.

VI

A caldeirada estava deliciosa: até os anjos a poderiam comer.

O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.

A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões, referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda, quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem.

O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor da _Trombeta_, muito habituado a _lunchs_, comia como uma frieira, mettendo a colherada em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista.

Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes.

Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam.

O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal a que o tinha subido.

D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher, acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete.

O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco, contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso para elle.

O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro, dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe soubesse melhor.

Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de uma vez a deixa do Rodarte, e, pondo-se de joelhos, caneca em punho, declamou:

Eu saúdo o illustre conselheiro, Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro

Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo o improviso.

—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, para o ver, por deante de Hilda.

E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, deitou agua na fervura:

—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa amisade. Queira continuar, sr. Lemos.

—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça melhores, se é capaz, insistiu o estudante.

—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira continuar o seu improviso.

—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... Acho que era isto:

Mas unico talvez na caldeirada: Que é comêl-a e morrer...

Julio de Lemos engasgou-se.

—Não diz mais nada?! exclamou o tenente Epaminondas completando o verso em que o estudante se pegára.

Uma explosão de gargalhadas saudou este comico episodio, e o estudante, que não tinha espinha com o tenente, antes era seu amigo, riu tambem, aproveitando a tangente para fugir á difficuldade do verso.

Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as palmas, e recitou:

Eu, n’esta agradavel festa, Tão grata e tão jovial, Brindo, honrando o bello sexo, Por Hespanha e Portugal.

—São de cravo da Praça da Figueira! berrou o estudante.

—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo com applausos a inconveniente apostrophe do estudante.

E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de Salomé, levantou-se pausadamente.

—Tambem eu quero fazer o meu brinde.

Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.

—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, me pareço um pouco com S. Pedro, permittam-me que feche a porta dos brindes. Bebo em honra do illustre conselheiro, dignissimo presidente da junta geral do districto de Santarem.

Beberam todos. E levantaram-se a pouco e pouco, alguns com difficuldade.

O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, e, emquanto se abraçavam, cochicharam ao ouvido.

Os barqueiros trataram de recolher as loiças, e os cabazes.

E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria melhor que o barco fosse primeiro a Setubal levar as senhoras, e que voltasse depois. Que elle, pela sua idade avançada, desde já se considerava senhora; que o sr. conselheiro, que devia estar fatigado, iria tambem com as senhoras, bem como D. Enrique, para acompanhar a esposa e a filha. Era a combinação que tinham feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho Rodarte.

Os outros ficaram com cara de parvos, mas o Rodarte, chamando de parte o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:

—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. Que desculpassem. E que lhes pedia o favor de olharem por elles.

Um e outro concordaram:

—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.

Largou de Troia o barco com as senhoras, D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro.

Os rapazes ficaram por longo tempo acenando com os lenços, dizendo adeus.

Desembarcaram as damas no caes do Livramento, e o barco voltou a buscar os que tinham ficado.

Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam a descer sobre o Sado, a envolvel-o n’um veo que a pouco foi perdendo a transparencia. Apenas um ponto luminoso brilhava ao longe na areial de Troia.

Deram oito horas, e o barco não tinha voltado ainda.

No café _Esperança_, do Zé Lapido, esperava-se o regresso dos rapazes.

Uns commentavam:

—Que tal foi a bebedeira!

Outros, mais timoratos, diziam:

—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma semsaboria!

Deram nove horas, e o barco não voltava.