As Netas do Padre Eterno Romance original
Part 2
D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. O cirurgião ajudante de caçadores 1 fôra felicissimo na prompta applicação de um copinho de genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os impetos do peixe-espada no estomago da afflicta senhora. _Es usted un doctor completo!_ dizia ao outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando com elle na praia, e impingindo-lhe a centessima edição da historia oral dos acontecimentos de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente em dizer que andava fazendo estudos sobre a historia da poesia revolucionaria na peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe, com uma facundia verdadeiramente hespanhola, varias quadras _callejeras_, como elle dizia, taes como estas:
Ay qué risa, qué risa, qué risa Que Amadeo lo he visto en camisa! Ay salero, ay salero, ay salero, Que á Amadeo lo he visto yo en cuero!
Si nos cumplen la palabra Zorrilla, Rivéro y Martos, Le pondrémes á Amadeo El passaporte en la mano.
Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo dos admiradores da bella andaluza haviam-se encaminhado para o Passeio da praia de Troino. Era convidativo o local, e a grande serenidade do Sado punha no horisonte da paizagem uma vaga doçura inexplicavel.
O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso das aguas do rio, e do mar que se avistava ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse momento, um homem do norte, habituado a vêr os grandes rios e os grandes lagos, sem se arripiar de frio, graças ao habito do clima septentrional e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao pé do lago para lhe atirar uma pedrinha, que desappareceu descrevendo á superficie da agua ondulações concentricas, o sueco disse-lhe, na sua linguagem arrevesada, que se ella visse o lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas ilhas, ficaria verdadeiramente encantada, e baixo, ao ouvido, acrescentou: _Senhora poderr irr comiga, se querr casa mim._
Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia ter adiantado terreno, os outros iam despeitados, e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam chasqueando das suas calças curtas, das suas grandes botas rugosas, do seu passo de pachiderme, e da sua _gaucherie_ amorosa. O conselheiro Antunes, fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe que para a outra vez se abstivesse do peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.
Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, poz os olhos na corrente plácida do Sado, e tirou da sua alma de andaluza um suspiro que mandou ao Guadalquivir. Explicou ao sueco que a cidade de Sevilha ficava á margem do Guadalquivir, um bello rio, o mais formoso de todo o mundo! exclamou ella n’uma arrojada hyperbole hespanhola. O sueco sentiu-se ferido na corda do patriotismo, e replicou: _Nó! nó!_ E procurou justificar a negativa citando os principaes rios da Scandinavia, enumerando o _Tornea_, o _Lulea_, o _Pitea_ e o _Umea_. E o estudante, troçando, acrescentou do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, e com a rapidez de quem está declinando nomes latinos: E o _Gelea_, o _Gouvea_, o _Obrea_, e o _Lamprea_.
O sueco fez-se encarnado como uma cereja, sem perceber ao certo senão que estavam rindo d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora como um tinido de crystaes, que se houvessem encontrado na sua garganta.
Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente desesperado. N’esse mesmo dia em que havia ido comprar um _bouquet_ a uma quinta, a cuja porta um grande cão arremettêra contra elle ladrando encolerisado, n’esse mesmo dia em que com varia fortuna tivera a vantagem de só elle offerecer flores e a contrariedade das iras do cão, via-se preterido pelo sueco.
O estudante procurou desesperadamente no seu espirito uma idéa salvadora, que pudesse restituir-lhe a importancia que visivelmente ia perdendo. Queria a todo o custo deslocar o sueco da bella posição em que se encontrava, e pretendeu despertar na alma de Soledad as tendencias devaneadoras que por vezes se caracterisavam n’uma intermittencia de romanticismo. Propoz um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi á beira-mar. Com effeito, o espirito da bella andaluza exaltou-se promptamente. Ella não sabia o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza d’esse local. Mas o seu delicado instincto de mulher e de andaluza adivinhou que se tratava de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, e abraçou o alvitre.
O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.
D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria o oratorio. Indicou-lhe a direcção o Vianninha, o rapaz de Setubal, aquelle por quem a Sequeira estava bebendo anti-hysterico todas as noites. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada o preceito da eschola de Salerno:
_Post prandium sta, post cœnam ambula_,
e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria companhia, _com muito gosto e muita honra_—palavras suas—, _minha senhora_. D. Estanislada acceitou a advertencia—por causa do estomago e de outros orgãos.
Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o alegre rancho da bella andaluza e dos seus cavalleiros _servientes_. O caminho, á beira-mar, é em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão de luz, lançava sobre o mar uma chuva de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á Rubens, punham no horisonte uns tons de purpura, que davam ao sol uma magestade olympica, como as cortinas de um throno asiatico. Chegaram com effeito ao local da antiga ermida de S. Braz, onde em outro tempo um soldado portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo trocado a espada pelo habito.
Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga poesia que se respirava ali, e pediu ao estudante a lenda do sitio.
Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber como havia de tirar-se d’aquelle mau passo. Concluiu por dizer que o sitio não tinha lenda. Foi um golpe de espada de Alexandre. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas foram da mesma opinião: que o sitio não tinha historia. O proprietario das Alcaçovas acrescentou com uma rudeza brutal que não podia ser assim: que _Mendoliva_ havia por força de dizer alguma coisa. O morgado de Reguengos acudiu em auxilio do patricio, pela honra do Alemtejo: que _Mendoliva_ havia de ter uma significação qualquer. Então o jornalista Aurelio Goes, que se havia conservado calado, com um sorriso de ironia nos labios, poz-se em evidencia: disse que o chronista Ruy de Pina contava que Mendo Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo de D. João I, que, mais tarde, já depois do desastre de Tanger, se apartára do mundo ermando ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro de Alferrara.
Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, observou que o jornalista estava confundindo Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares Pereira, que fôra quem depois de ter militado nos exercitos de D. João I resolvêra vestir o habito monastico, e que provavelmente o povo setubalense confundiu os dois individuos na mesma lenda.
Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante se elle já havia feito exame de historia portugueza. O Lemos respondeu insolentemente: que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido lendo os jornaes. O jornalista perguntou se se referia ao jornal de que elle era redactor. E o Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid campeador perante a bella andaluza, respondeu que não podia referir-se a outro jornal, visto que o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares Pereira. Aurelio Goes ainda avançou para o estudante, mas o proprietario das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, como na vespera havia deitado as mãos ás guelas do sueco.
Soledad acompanhou com os seus bellos olhos penetrantes todos os episodios d’este conflicto. Comprehendeu perfeitamente tudo o que se havia passado, e quiz dissipar a nuvem negra que subitamente se formára. Lembrou que o sitio era encantador, que convidava á poesia, e pediu ao estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos desculpou-se, que estava indisposto, que se não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu, com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, tornou o estudante. Soledad redobrou de instancias. O estudante, com as faces rubras como papoulas e os olhos congestionados, teve que ceder e começou a recitar, com uma precipitação colerica:
As flores d’alma que se alteiam bellas, Puras, singelas, orvalhadas, vivas, Têm mais aromas, e são mais formosas, Que as pobres rosas, n’um jardim captivas.
Completamente fóra de si, fez uma longa pausa, procurando visivelmente lembrar-se da segunda quadra. Depois ia continuar com igual precipitação:
Sol bemfazejo lhes aquece a chamma
e, olhando n’este momento para Aurelio Goes, viu que elle sorrira. Sem mesmo perceber que se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad levantou-se e disse com uma gravidade que ninguem podia decerto esperar: _Caballeros, hagan usteds favor de acompañarme_.
Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso. Mas, poucos passos andados, Soledad desfechou uma gargalhada crystallina, e, voltando-se para D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos, com uma graça verdadeiramente andaluza:
...á fé mia, Que estoy resuelto á mataros Y no alcanzara á libraros La misma virgen Maria.
As gargalhadas eram estrondosas, resoantes; o estudante, tendo dado o braço ao alferes Ruivo, dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que elle não sabe é que tem de se bater comigo! Por força!»
Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o conselheiro Antunes, aos quaes se haviam juntado D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante de caçadores 1.
—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha, em hespanhol, ainda a certa distancia.
—Formosissimo! respondeu Soledad.
—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui um insigne cosinheiro, e indicou o conselheiro Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande caldeirada... aonde?... como se chama aquillo? e apontou para a outra margem do rio.
—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade de um Páris de cincoenta annos.
—Excellente! commentou o morgado de Reguengos. As laranjas, essas, ficam por minha conta.
—Havemos de bater-nos, por força, tornou o estudante a dizer a meia voz ao alferes de caçadores.
III
N’essa noite, foi no _Club Setubalense_ que se improvisou a _tertulia_. Soledad e mais tres senhoras hespanholas constituiam todo o feminino da sala; mas por muitos que fossem os satellites, e por mais brilhante que palpitasse o lume de seus olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da praia, a todos offuscaria com a graça picante dos seus sorrisos, dos seus olhares, e do seu desembaraço andaluz. Não havia, portanto, necessidade de mais senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava a encher de torrentes de vida a sala e os corações. A irradiação da sua belleza era como a da lua, nas formosas noites de verão.
No elemento masculino notava-se, porém, uma certa agitação n’essa noite. Os admiradores de Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala, cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O proprio conselheiro Antunes desapparecêra. Algumas pessoas envenenavam este facto, fazendo notar que Dona Estanislada não estava presente. Mas bem podia ser que o conselheiro Antunes, entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse a cidade em todas as direcções, procedendo aos preparativos indispensaveis para a caldeirada do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente que todos os conselheiros portuguezes ficariam compromettidos na sua respeitabilidade de classe, se o _pic-nic_ disparasse n’um enorme _fiasco_ culinario. De mais a mais, a sua reputação individual de Vatel amador, affirmada por muitas vezes nas patuscadas aristocraticas de Santarem, encontraria nas areias de Troia um verdadeiro Waterloo, uma deploravel ruina.
Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto aos outros, a causa da sua preoccupação era diversa. Sentia-se effectivamente que andava no ar um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante. N’um gabinete interior conferenciava-se em tom discreto; entravam uns, sahiam outros, e o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade por um pequeno buraco do tabique, chegou a suspeitar de que estivessem bebendo á socapa,—julgando-se até certo ponto desconsiderado por lhe não haverem distribuido o papel de Ganimedes do festim.
O marcador era um tolo, um guloso, para não dizer um borracho. Ali, no gabinete, não se tratava de beber vinho; se havia sêde, era de sangue. O estudante de Alcacer queria sugar as veias do jornalista de Lisboa, escorropichar-lhe as arterias, mastigar-lhe o coração. Uma carnificina! O alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e dizia facetamente que, _coisas d’esta natureza_, em que elle entrasse, haviam de acabar por força em sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que tinha uma farda, que devia honral-a, e que estava n’essa firme convicção. Que o duello havia de ser de morte, a poucos passos de distancia, á pistola, pelo menos; por não estar em costume bater-se ninguem a canhão, porque seria esse o meio mais racional de dois sujeitos se metralharem.
No botequim da praia contava-se, commentava-se o _escandalo_ d’aquelle dia. Que o Lemos e o Goes não só se haviam insultado de palavras, na presença de Soledad e por causa d’ella, mas que tinham mesmo chegado a vias de facto, arrancando os cabellos, e não sei se os olhos, um ao outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto para verificar se havia no chão nodoas de sangue, e algum olho perdido. Não encontraram nada. Acrescentava-se que o administrador do concelho já tinha tomado conhecimento do facto, que o poder judicial receberia participação, e todo este _escandalosinho_ era saboreado a pequenos goles, como um vinho generoso. Em Setubal, quando algum acontecimento extraordinario occorre, põem-n’o de escabeche para durar mais tempo. Sabem tratar muito bem do peixe e do escandalo de conserva. Depois, os commentarios saltavam. Uns velhos sacudiam o seu caruncho em phrases desdenhosas: «Que tolos! são uns asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola que os anda a comer!» E outros, mais philosophos: «Todas as mulheres são da mesma massa, tanto faz que sejam hespanholas como portuguezas.» E um bregeirote, do lado: «Se ella fosse de massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo é para lavar e durar!» commentava um capitão de navios, vermelho e grosso, já entrado na genebra de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um só sorvo.
No gabinete do _Club_ resolveram que era melhor o estudante apparecer na sala da dança, para _dissipar suspeitas_. Quando o marcador o apanhou na casa do bilhar, depois de haver sabido por um frequentador do botequim, que ali entrara a historia exagerada do conflicto na praia, chegou-se-lhe ao ouvido, e disse com os ares de superioridade de quem está de posse de um segredo: «Então o senhor tira a desforra, hein?» «Chut! respondeu Julio de Lemos. Eu cá sou assim, ha de ser duello de morte!» O marcador ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como o estudante lhe voltasse as costas, saboreando a sua reputação de duellista, o marcador foi vêr ao livro dos _fiados_ a quanto montava a divida do estudante. E sommou: Cinco partidas de bilhar, dois charutos, um copo de vinho do Porto: total, 360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala, apparentando uma serenidade heroica, a serenidade fria de um Cassagnac; julgava-se circumdado de um resplendor glorioso. Mas Soledad parecia não o haver comprehendido, mostrava-se uma digna representante de um paiz de antigos brigões de capa e espada, e de modernos toureiros audaciosos. Não fez caso do heroe. Estava apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo extrahir d’elle, do _Stradivarius_ que todo o homem tem no coração, notas de uma melifluidade assombrosa nas raças do norte. Ella tinha-o embriagado com o _Kirsch-Wasser_ dos seus olhos. Estava tonto de amor o sueco, bebado de _salero_, e, no _grand’-chaine_ dos _Lanceiros_, as suas mãos enormes, duras e grossas, pareciam ter uma delicadesa de sensitiva, as contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo, ao colherem os dedos avelludados e finos de Soledad.
Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O estudante, que estava sempre na vanguarda dos recitadores, menos do que nunca se fez rogar n’essa noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo, o mais genial, o mais nacional dos poetas brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas do homem que vae expôr-se heroicamente á morte, estando psychologicamente mais vivo do que nunca, declamou:
Se eu morresse ámanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã: Minha mãe de saudades morreria, Se eu morresse ámanhã.
Quanta gloria presinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdêra chorando essas corôas, Se eu morresse ámanhã.
Que sol! que ceu azul! que doce n’alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batêra tanto amor no peito, Se eu morresse ámanhã.
Mas essa dôr da vida, que devora A ancia de gloria, o dolorido afan... A dôr no peito emmudecêra ao menos, Se eu morresse ámanhã...
Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente poderia ter escolhido outra poesia, que melhor traduzisse as grandes luctas intimas da sua alma. É certo que nos pormenores da composição não havia inteira identidade de circumstancias entre o recitador e o poeta. O estudante nunca tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe de que a piedade fraterna tomasse sobre si o encargo de lhe fechar os olhos. E ainda que caisse ferido no campo da honra, de pistola em punho, sua mãe não morreria de saudade, pela simples rasão de já ter morrido, alguns annos antes, com as febres de Alcacer. Quanto ás _corôas_, que elle perderia morrendo, a dessimilhança era profunda. O pae, com quanto fosse um bom proprietario de marinhas, estava cançado com as prodigalidades do filho,—isto pelo que toca ás corôas de... dez tostões; quanto ás de loiro, colhidas nas lides de Minerva, as _raposas_ encarregavam-se de lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo o mais, essa triste prophecia de Alvares de Azevedo parecia quadrar á situação do estudante.
Soledad deu mediana importancia aos versos e ao recitador... N’essa noite parecia deliciada em conhecer como um homem forte do norte póde estontear de amor sob a influencia de uma mulher do sul. Quando o estudante sahiu da sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, depois de ter matado o jornalista, o marcador chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe _aquella continha de dezoito vintens, visto que ha viver e morrer, e elle haver dito que o duello havia de ser de morte_...
O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu nas algibeiras, e poude, ao cabo de muitas pesquizas, encontrar 150 réis.
—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu morrer, mandem-me penhorar pelo resto no inferno. O cobrador que pergunte ao Cerbéro por Julio de Lemos. Cerbéro é um cão...
—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de 210! Corja de pulhas!...
No gabinete as negociações haviam caminhado rapidamente durante a breve ausencia do estudante. Os _padrinhos_ conferenciaram, o alferes Ruivo declarou muitas vezes, piscando o olho para o lado, que o duello havia de ser de morte, que o seu committente queria matar ou morrer, que a offensa tinha sido grave, mas foi redigindo a seguinte acta, que já estava prompta quando o estudante entrou:
«Nós abaixo assignados fomos encarregados pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, a fim de lhe pedirmos explicações sobre algumas phrases violentas que na tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, suburbio de Setubal, dirigira ao nosso digno e brioso committente. Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes encarregou os dois cavalheiros, que comnosco assignam, de nos procurarem para deliberarmos sobre o que á honra de ambos mais conviesse, fazendo-se reciprocas declarações de que tanto um como o outro estavam dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria honra, caso se reconhecesse que havia sido offendida. Examinada por nós maduramente a causa do conflicto, e a maneira por que elle se deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade que as phrases tidas por violentas, apenas continham allusões litterarias, que de nenhum modo podiam susceptibilisar (_sic_) os brios pessoaes d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi por nós quatro reconhecido que não havia motivo rasoavel para que esta pendencia proseguisse, devendo outrosim declararmos que os nossos committentes se comportaram de modo a affirmar louvavelmente o seu pundonor e a sua coragem, como pessoas que nobremente antepõem o respeito pela honra individual a todas e quaesquer conveniencias materiaes.
Setubal, etc., etc.
Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos, _Fuão_ e _Fuão_.
Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, _Fuão_ e _Fuão_.
O alferes Ruivo achou prudente não levar mais longe a brincadeira do duello, receiando que o coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio, se elles chegassem a ir ao campo.
O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente com o jornalista, declarou que effectivamente lhe parecia que os factos estavam correctamente apreciados, mas que muito o contrariava não poder experimentar no campo da honra a sua coragem; por sua parte, o jornalista disse que os factos haviam sido fielmente interpretados, mas que lamentava que ainda d’aquella vez elle não podesse provar que pertencia ao numero dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade das suas acções e das suas palavras em qualquer campo aonde sejam chamados.
Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente selladas com um abraço, e que uma copia authentica da acta apparecesse no proximo domingo nas columnas da _Gazeta Setubalense_, e na _Trombeta Ulyssiponense_, de que Aurelio Goes era redactor effectivo.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas riram a bandeiras despregadas quando ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente que, se os duellistas houvessem tentado bater-se, teriam ido separal-os a murro e a ponta-pé.
Havia tal energia alemtejana n’esta declaração dos dois, que toda a gente os acreditou, incluindo os padrinhos e os proprios duellistas.
Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais tranquillos, porque a verdade é que ninguem sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro lado foi obrigado a reconhecer que lhe faltava o prestigio da heroicidade, que lhe tinha fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a reputação de duellista.
D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas de pôr têrmo á _tertulia_, quando na egreja de S. Julião bateram as dez. Que sua mulher estava só em casa... e além d’isso o banho... que a maré era cedo: respondia elle ás instancias com que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao menos. Mas a verdade era que D. Enrique estava aborrecido por lhe faltar o cirurgião ajudante, para fallar com elle sobre a politica do Hespanha, e que, por causa do duello, não apanhára ninguem a quem podesse massar.
Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia para casa, acompanhada por todos aquelles que constituiam o seu sequito habitual, um vulto passava em direcção opposta, e, sendo reconhecido, chegára-se a D. Enrique e dissera-lhe a meia voz, com alguma atrapalhação:
—Sabe _usted_ que ainda não pude até agora arranjar azeite bom para a caldeirada de amanha?! Com mau azeite não ha caldeirada que preste...
IV
Amanheceu glorioso o dia seguinte.