As Netas do Padre Eterno Romance original

Part 1

Chapter 13,725 wordsPublic domain

N.º 32—COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

AS NETAS DO PADRE ETERNO

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

AS NETAS DO PADRE ETERNO

ROMANCE ORIGINAL

POR Alberto Pimentel

LISBOA LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR 50, 52—Rua Augusta—52, 54 1895

LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º

I

Desde a primavera até ao inverno de 1873, decorre, na historia da moderna Hespanha, um periodo de rubra agitação demagogica, em que tanto a abandonada coroa da velha Monarchia de S. Fernando como o recente barrete phrygio da Republica fluctuam n’um mar de sangue, golphado do proprio coração d’esse bello paiz meridional, e sinistramente illuminado pelos reflexos coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o facho tristemente glorioso da insurreição cantonal.

Nação essencialmente catholica, a Hespanha viu profanados os seus templos, principalmente em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, entoando cantares obscenos, e derramando por sobre os altares o vinho que trasbordava das taças.

Nas ruas, as allucinações da musa popular, terrivelmente revolucionaria, alternavam-se com as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos entoados á beira dos altares correspondiam, fóra dos templos, trovas sacrilegas, dissolventes, anarchicas:

Yá se le acabó á los curas El comer á dos carrillos, Y el ir de noche al café Con el ama y los chiquillos.

Abajo las estrellas, Abajo los galones, Que no quiere mandones La santa federal.

É certo que na alma popular da Hespanha não estavam de todo pervertidos os sentimentos cavalheirescos da raça castelhana, mas a revolução ia alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha era incendiada a _calle de las Sierpes_, em Cadiz punha-se em almoeda a custodia do _Corpus Christi_, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam em horrores de barbarie, em Granada os desenfreamentos do vandalismo desmoronavam as instituições e os templos, como acontecia em Barcelona, em cujos campos os bosques incendiados chammejavam como enorme fornalha: por isso só timidamente a musa das ruas ousava contrapôr um grito de justa indignação aos desvarios da demagogia que golpeava o coração da patria, enodoando de sangue as mais bellas paginas da historia nacional.

D’esses timidos gritos de reacção popular não se perdeu comtudo a nota caracteristica, que ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação imparcial d’esse periodo demagogico:

La republica en Guarena La cantan los taberneros, Y en D. Benito la cantan Los sastres y zapateros.

El candido de Figueras, Y el radical Figuerola, Nos ha dejado em cuerines Sin calzon ni camisola.

Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente Barrantes, emigrando n’essa epocha para Portugal, escreveu sob o titulo de _Dias sin sol_, um livro interessante, em que estão consignadas as dolorosas impressões que as desgraças da Hespanha punham no coração dos seus angustiados filhos. Uma pagina d’esse livro diz:

«Com mão debil e porventura timida empunhou o tribuno Emilio Castellar as redeas da dictadura, ao tempo que a fronteira portugueza, onde eu me achava, offerecia um lancinante espectaculo. Cerrada a do norte pelos carlistas, era aquella a unica porta para escapar d’este inferno de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro iberico parecia barcada de Acheronte, como aquellas que rangendo os dentes e blasphemando até dos paes de seus paes viu passar o grande poeta da Edade-Média pelo lodoso lago que ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de Jerez chegavam por centenas familias dispersas, como quem foge de uma peste; e isto um dia e outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas de inoffensivos lavradores, de pacificos artistas, de laboriosos industriaes desembocavam simultaneamente por todas as povoções da fronteira, desde Barrancos a Setubal, desde Elvas a Lisboa, desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto: misero formigueiro de emigrantes de todas as classes e condições, com os olhos voltados para Hespanha, mas receiando, a cada hora que o horror os convertesse em estatuas, como á mulher da Biblia.»

Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela belleza dos seus campos, hospedou uma importante colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei algumas vezes os meus ocios de _touriste_. Principalmente no verão, em julho, que foi a epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia de emigrados era numerosissima ali. E o que é verdadeiramente notavel é que os havia de todas as côres politicas, porque o perigo era egual para todos. A revolução não curava de perscrutar as opiniões de cada um. Perseguia, roubava, incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era pequena felicidade poder fugir á morte, salvar a vida. Dos emigrados, conheci alguns ricos, poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar a tempo os seus haveres, antes que a _santa federal_ se encarregasse da liquidação. D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha, que tem de figurar n’esta historia. Tres pessoas apenas: pae, mãe e filha.

O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado uma somma importante n’um Banco inglez. Era um industrial acreditado, e teve o bom senso de fechar as suas fabricas mal que soaram os primeiros rugidos da insurreição cantonal. Se não tivesse procedido assim, haveria decerto succumbido ás mãos dos seus proprios operarios. Em politica, era francamente monarchico; principalmente, partidario dos Bourbons. «Qué broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. Mas ou a revolução aniquila de vez a Hespanha, ou a Hespanha ainda chamará a rainha». Com effeito, em pouco se enganou D. Enrique: um filho de Isabel II occupou o throno de S. Fernando. Os Bourbons voltaram.

Quem se não importava grandemente com os acontecimentos politicos de Hespanha, era sua filha, Soledad, a mais _salerosa_ individualidade de mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação de uma noite de serenata.

Bocage, quando do alto do seu monumento a viu, estremeceu.

Setubal ficou encantada, não obstante ter-se iberisado então pelas relações commerciaes que mantinha com a colonia dos emigrados. E digo commerciaes, porque os hespanhoes eram os primeiros a queixar-se que só tratassem com elles os setubalenses nas transacções ordinarias da vida: dá cá, toma lá. De resto os emigrados entretinham-se uns com os outros, com duas ou tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.

O ideal de Soledad era uma _tertulia_ ou, como hoje dizemos á franceza, uma _soirée_. Por muito tempo procurou desesperadamente uma _tertulia_, e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de subito, attentava o ouvido e, com uma graça vivaz, picante, exclamava: _Qué! És una tertulia?_ Era apenas um piano que tertuliava uma valsa... platonicamente.

Chegára o verão, começaram a apparecer os banhistas, muita gente do Alemtejo. Ao fim da tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar, e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, ou descahiam em somnolencia mazomba. Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen enxundioso, e instinctos retemperados pela bella fibra suina tinham exclamações carnaes quando a hespanhola passava, e digo a hespanhola, porque era assim que toda a gente fallava d’ella, sem embargo de que n’esse momento outras muitas estivessem em Setubal. Era, porém, como se se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por excellencia.

Das pessoas da terra foram poucas as que romperam com a tradição local de retraimento bisonho, arrastadas pela fascinação. E essas poucas, eram homens. As senhoras visitavam-se então em Setubal difficilmente, e esta difficuldade augmentava para com os estrangeiros, cuja procedencia era quasi impossivel esquadrinhar, a não se fazer obra pelas informações dos seus patricios, suspeitas para o caso.

Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os seus olhos podiam, elles mesmos, em toda a parte, improvisar uma _tertulia_; que no seu sorriso alegre e resplendente de andaluza havia encantos de sobra para fazer conhecidos e namorados, e desde esse momento ella zombou poderosamente da semsaboria setubalense, trazendo comsigo, a toda a hora, de manhã ou á noite, uma _tertulia_ completa, attrahida pelo iman da sua formosura, rebocada pela sua fascinação iberica. Era a sua côrte, a sua _coterie_, o seu séquito. Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro das Hespanhas, que a princeza de la Cisterna havia deposto. Vassalos enthusiastas rodeavam-n’a como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. Cada dia que passava trazia um novo alliado. Alguem que vinha a Lisboa, dizia: «Que bella hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» perguntavam no Chiado.—«Unica! incomparavel! sublime!» era a replica. Os curiosos iam, e ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram a encarecer em Setubal. Mas o que embarateceu foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o verso era o vehiculo do amor, e com razão se julgava que para uma mulher de um paiz ardente não havia para inflammar-lhe a phantasia como uma metralha de alexandrinos.

Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol mascavado, que ás vezes parecia ser-lhe ainda de mais difficil comprehensão do que o vasconço o é para o commum dos hespanhoes. Mas que se importava Soledad com as palavras? Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, e respondia com os olhos, augmentando a fascinação, sem se comprometter: este segredo que só os olhos das hespanholas possuem. As portuguezas, com habitarem a mesma peninsula e serem da mesma raça, affirmam ou negam com os olhos, compromettem-se pelo olhar. Os olhos das hespanholas fallam sempre, mas raras vezes para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, e ella espalhava a duvida com o olhar. Não era bem prometter, não era bem recusar, seria tudo isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria. Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao acaso, emquanto o pae fallava dos assassinatos de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos sacrilegios de Barcelona, e emquanto a mãe, que se morria por peixe, e era ainda arrebitada, ia por ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes alvissimos, marchando com um desembaraço verdadeiramente hespanhol, em direcção á Ribeira, para comprar um safio ou uma corvina. Assim mesmo é que era; sem _ficelles_ realistas, pela minha parte.—Ah! ditoso safio! ah! venturosa corvina! diziam muitos, que não podendo occupar o coração de Soledad, se contentariam com achar logar no seu estomago. Eu nunca fui d’esta opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas consequencias. Todavia ha paladares para tudo...

Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar a filha era captivar a mãe—pela bocca. Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes de salmonetes, cabazes de laranjas—e então aquellas laranjas, as de Setubal! Um adorador setubalense mandou-lhe de uma vez um presente de sal, que chegava bem para salgar uma geração inteira. Outro _attaché_, lisboeta, riu do caso, fazendo notar que quem possuia uma filha assim tinha mais sal do que todas as marinhas do Sado.

Para brindar Soledad, os seus admiradores iam colhêr as melhores flores das quintas de Brancannes, que dispunham em graciosos _bouquets_ e lindas _corbeilles_, recorrendo ao velho estratagema amoroso de esconder entre as flores uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse ás vezes gostar muito mais de laranjas que de flores.

O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas de excellente moscatel, e seja dito em abono da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter o condão de lhe aligeirar os desgostos causados pelas desgraças da patria.

De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa e obsequiadora a côrte em que a bella andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, a duvida ao mesmo passo cruel e deleitosa, que traz suspensos os namorados entre a esperança e o desalento. Não se deixava comprehender: esse era o seu grande segredo. A maior desgraça que póde acontecer a uma mulher é o ser comprehendida por todos. Umas vezes, parecia enlevada em extasis romanticos, tinha vagas abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso da noite. _Que bella es la luna!_ dizia. Dos seus labios adejava um suspiro, que era impossivel interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar a belleza da lua, ria com desdem petulante, replicando que já estava enfastiada de ouvir fallar da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.

Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando na ondulação das suas esperanças, ora afagadas, ora combatidas, D. Estanislada, a mãe, discorria a proposito do peixe-espada que tinha comido ao jantar com salada de alface e azeitonas, e D. Enrique discursava sobre a queda dos Bourbons ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.

Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os satellites de Soledad a esse tempo. Eram muitos. Citarei apenas os que me forem lembrando. Um jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava mais versos do que laranjas, e um morgado de Reguengos, que mandava mais laranjas do que versos. Um proprietario das Alcaçovas que se atirava ao coração de Soledad com sorrisos e presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, que recorria ao auxilio das flôres, e que deixára pela bella hespanhola uma menina da terra, a Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos por se vêr abandonada. O conselheiro Antunes, de Santarem, pessoa grave e dinheirosa, que se dirigia principalmente á mãe, não se sabia se para ficar por ahi, se como ponto de partida para se aproximar da filha. Um morrinhento hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon Mendoza, que recitava versos como quem está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, que estava ali a negocio: alto, louro, rosado e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra a uma corrida de touros, e não se demorára menos de quinze dias. Um estudante de Alcacer, Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não chegára a casa. Mas, francamente, é-me completamente impossivel enumerar todos os cortezãos da bella andaluza, tanto mais que todos os dias pareciam multiplicar-se como as cabeças da hydra de Lerna e os algarismos da divida fluctuante.

Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto perguntado já o leitor a si proprio como é que elles podiam conviver uns com os outros, sem desatar á descompostura e ao murro. A todos os trazia illudidos a esperança, como a duzentos candidatos que requerem o mesmo emprego. Fallavam-se, como os pretendentes se fallam debaixo da Arcada. Cada um tratava de metter memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia _hotel_, o _Escoveiro_ por exemplo, onde dormiam dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes intrigavam-se. Finalmente, estavam em Setubal a amar a bella hespanhola como podiam estar em Lisboa a amar o deputado do circulo.

Todos elles possuiam o retrato de Soledad, reproduzido do _cliché_ que um photographo ambulante, temporariamente estabelecido no largo das Almas, durante a estação de banhos, punha ao serviço do amor, na razão de 1$500 réis por photographia. O retratista estava fazendo um grande negocio; parecia ter fome, quando ali chegou, mas, passados dias, ia todas as manhãs á praça do Sapal comprar uma bella posta de carne de vacca e um chouriço, levando tudo para casa n’uma folha de couve.

Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs do que a rosa de Malherbe. Quando muito, ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, apagava-se. Os enamorados iam fornecer-se de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da qual o photographo ambulante desentranhava chouriços no dia seguinte.

Á hora da ceia, na longa meza dos _hoteis_, um grupo de amorosos, n’uma orgia de moscatel, brindava pelo amor e pela esperança, havendo cada um encostado á garrafa ou á compoteira o retrato de Soledad. Então extasiavam-se, soltando _hurrahs_ perante o seu talhe _mignon_, o seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, caprichosamente amontoados sob as rendas brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes como punhaes de Toledo e vivos como carvões accesos, o seu gracioso ar petulante, illuminado por essa luz mysteriosa, que se projecta sobre as mulheres hespanholas, e que se chama—o _salero_.

O conselheiro Antunes, que tambem estava n’um _hotel_, não tomava parte n’estas bacchanaes amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe o somno, quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. No dia seguinte queixava-se de persevejos.

O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e tornava-se inintelligivelmente gárrulo. Punha os olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes estrophes da Scandinavia, ao passo que os portuguezes choravam de riso ao vel-o arroubado, e perguntavam entre si: «_Que diabo estará a dizer este pedaço de bruto!_»

Uma noite, havia dado uma hora na egreja de S. Julião, e no _Hotel Escoveiro_ o grupo dos enamorados abordava a setima garrafa de moscatel, tendo cada um o retrato de Soledad em frente do seu prato, quando de repente, á porta da sala, uma figura inesperada apparece.

Era D. Enrique Saavedra.

O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia de colera paterna em cinco actos e outras tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro.

Fez-se um silencio profundo, que o sueco, alheio ao que se passava, e grandemente enkirschado, interrompeu começando a declamar palavras de quinze syllabas, longas e sibilantes como um comboyo.

De repente, a voz de D. Enrique troveja:

—_Hombres, por Dios, atencion!_

O estudante foi tacteando a meza, ás escuras, para esconder os retratos, e aconteceu-lhe metter uma das mãos dentro de uma chicara de café.

O sueco calou-se, porque o proprietario das Alcaçovas lhe deitou as mãos ás guelas.

O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir.

Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar o cirurgião ajudante de caçadores 1, para acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima com uma indigestão de peixe-espada e salada d’alface.

II

No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante de Alcacer do Sal, passeiava a sua paixão escholastica sob as arvores do largo das Almas, quando de repente lhe apparece, de physionomia completamente transtornada, o photographo ambulante. Que se encontrava n’uma situação afflictissima, disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a quem devia cem mil réis, sabendo que estava fazendo interesses em Setubal, cahira sobre elle de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã, para exigir-lhe o prompto reembolso de uma parte da divida. Que elle photographo se havia esquecido realmente de satisfazer as prestações estipuladas, que a mulher e os filhos gostavam muito de bifes, e que elle gostava não só de bifes mas tambem de moscatel de Azeitão. Que não tinha dinheiro algum de que podesse dispôr, e que o agiota queria retirar-se para Lisboa no comboyo da tarde, levando algum dinheiro. Sou um homem muito desgraçado! exclamava o photographo. E acrescentava: Portugal é um paiz perdido para os artistas! São todos como eu. (Referia-se certamente á pobreza, não ao moscatel e aos bifes).

O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso de extranha superioridade, com as mãos nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard. E perguntou ao retratista:

—O senhor viu alguma vez a _Cora_ em D. Maria II?

—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo. E acrescentou:—Uma só vez, sabe Deus com que sacrificio! para vêr o panorama do Mississipi, que me tinham gabado muito,—por amor da arte!

—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima fechava um acto?...

—_O senhor já viu alguma vez a Providencia? Pois a Providencia sou eu!_ Parece-me que era isto.

—Exactamente. É essa a phrase, observou Julio de Lemos. Em Lisboa a Providencia é o Cesar de Lima; em Setubal, sou eu.

—O senhor!

—Eu mesmo, _me adsum_.

E tirou do bolso do frak todos os retratos que na vespera á noite havia podido encontrar sobre a mesa do _Hotel Escoveiro_, para que D. Enrique Saavedra os não visse. Mostrou-os ao photographo dizendo-lhe:

—Vê isto?

—Vejo. São os retratos da _senhorita Soledad_, como o photographo, no seu calão de circo, costumava chamar sempre á bella andaluza. Mas não comprehendo!

—Pois não comprehende! extranhou o estudante. Vai comprehender. Hontem á noite, estando nós a ceiar no _Hotel Escoveiro_ e tendo os retratos de Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente D. Enrique Saavedra.

—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle soube que sou eu quem os tiro?!

—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive a idéa luminosa de apagar o candeeiro...

—Então não foi luminosa, exclamou o photographo já tranquillo, e contente de si, por ter feito um dito gracioso.

—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente, e dando dois piparotes no estomago do photographo. Apanhou-a bem!...

—É que d’estas coisas de luz, um photographo entende sempre.

E riram de novo.

—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu tive a escura idéa de apagar o candeeiro, e de procurar em cima da mesa os retratos de Soledad. Durante a viagem das minhas mãos por sobre a toalha, introduzi uma d’ellas dentro de uma chicara de café, e estive para partir uma garrafa. Mas, felizmente, pude apanhar todos os retratos. São estes.

O photographo começou a comprehender; sorria velhacamente.

—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes do _Hotel Escoveiro_ irão a sua casa procurar retratos de Soledad, e o sr. venderá estes mesmos, exceptuando o meu, se quizer acceitar as condições que lhe vou propôr.

O photographo ouvia attentamente, com uma curiosidade cheia de pontos de interrogação.

—As condições são dar-me a commissão de vinte por cento em cada um d’esses retratos...

Nos labios do photographo passou rapidamente um movimento de despeito. Litteralmente traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! maroto, que me comeste!

Mas em voz alta:

—Vá feito.

—Espere lá,—continuou o estudante, que havia tres dias estava sem dinheiro—o meu amigo ainda não pensou na possibilidade de ir alguem a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, de modo a poder-se reproduzir um _cliché_ por um preço muito inferior a 1$500 réis o cartão?

—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho de ferro?... e o incommodo?... e sobretudo... o ter que ausentar-se da senhorita Soledad, deixando o campo livre ao inimigo!

Esta ultima advertencia do photographo tinha visivelmente por fim ferir a corda sensivel do coração do estudante, que se deu pressa em responder:

—Ora o meu amigo excede na arte de não saber photographar o proprio Marcel das _Scenas da vida da bohemia_ (o livro predilecto do estudante) que tirava retratos aos granadeiros de Pariz com a similhança garantida por um anno. A imagem das suas photographias só pode ser garantida por quinze dias, o maximo. Portanto, d’aqui a oito dias, estes retratos estarão completamente apagados, o meu amigo terá novas encommendas, e eu continuarei a receber a commissão de vinte por cento, com direito a um retrato gratuito.

O photographo transigiu, pactuou. O estudante entregou-lhe os retratos de Soledad, que n’esse mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela segunda vez.

No dia seguinte, o photographo ia, com o producto d’esta receita inesperada, fazer uma patuscada a Azeitão, levando comsigo a mulher, a sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha sido uma fabula inventada pelo desejo com que o photographo accordára de dar um rega-bofes a toda a familia. E o estudante habilitava-se a comprar ao feitor de uma quinta de Brancannes um bello ramo de flores com que corrêra a presentear Soledad, por isso que, _inopia pecuniae_, se havia deixado preterir n’este genero de galanteria idyllica.