Part 9
É repugnante a lucta de egoismos, e, quando se exerce com a ferocidade do esfomeado que defende o seu alimento, dá-nos a sugestão desoladora de que a criatura humana no fundo da sua alma, apesar de tantos seculos de civilisação, é bem semelhante ao troglodita que defendia a presa ensanguentada a unhas e dentes contra o seu irmão ou a sua companheira, devorando o adversario se ficava vencedor.
A mulher tem direito a viver como o homem, e, mais, tem o direito a trabalhar e a ser respeitada no seu trabalho, só devendo temer a concorrencia leal.
Que fóros especiaes tem o homem português para exigir que a mulher, professora, não concorra ás cadeiras primarias de rapases ou ás cadeiras mixtas, se ella tiver competencia para o fazer, quando em tantos outros paizes são ellas que se encarregam de quasi toda a educação primaria?
Que direito lhe assiste em não consentir que a mulher telegrafista passe aos cargos superiores, se ella--excepcionalmente ou não--fôr um empregado mais consciencioso e inteligente do que os seus colegas, e tiver os mesmos annos de serviço?
Que direito tem o homem em manifestar repugnancia em ser dirigido por uma mulher se ella tiver mais aptidões do que os dirigidos? Em ser ensinado por ella se mostrar em suas provas e cursos e concursos publicos que podia proficientemente desempenhar-se da sua missão?
É abominavel de egoismo o argumento do homem que diz:--nós já somos muitos e se a mulher entra definitivamente na lucta pelo trabalho, mais sofreremos nós. Mas então para o homem não sofrer é preciso que a mulher sofra a fome e a nudez?
Repito--não me refiro já á mulher casada, que tem o homem que a sustenta; refiro-me á solteira, que tem direito á vida e ao trabalho para a sustentar com nobrêsa.
O caixeiro sobresalta-se porque a mulher começa--só agora em Portugal!--a ser caixeira. E não é isso justo?!
Não é esse trabalho sedentario o mais proprio para o sexo que dizem fraco? Mal lhes fica até o reparo, porque ha muita profissão que elles poderiam exercer sem se sujeitar a um trabalho que, por muito feminil, deve ser deprimente para a dignidade masculina.
Quantas vezes não ouvimos dizer:--que tal ou tal oficio não serve para a mulher, porque é pesado para a sua força, demasiado violento para a sua fraquêsa organica?...
E, no entanto, percorrendo as provincias do norte ao sul de Portugal, visitando as oficinas e as fabricas, não vemos que a seleção se dê pela _força_ mas sim pelo _salario_.
Vimos no Porto, não ha muitos mêses, as mulheres carregarem com pesadissimos materiais numa fabrica de ceramica, emquanto ao lado, numa oficina alegre e arejada, alguns homens, muito comodamente sentados, ganhavam o seu jornal pincelando pratos no trabalho leve e material da _estampilha_, que sem duvida caberia melhor ás mãos delicadas da mulher. E á discreta manifestação da nossa invencivel estranhêsa, percebemos que alguns murmuravam, num entre-dentes invejoso:--era o que faltava, mais essa concorrencia!...
Logo, o homem não afasta a mulher da lucta e do trabalho para a poupar a fadigas com que não possa, visto que a deixa carregar fardos, esfregar casas, trabalhar a qualquer hora da noite em que chegam os barcos de pesca, nas fabricas de conserva de peixe, quer de verão quer de inverno, molhada em salmoiras, com as mãos geladas, de pé, horas e horas consecutivas; que a deixa mondar, ceifar, fazer muitos outros serviços do campo, qualquer que seja o tempo, de ardente calôr ou de frigido inverno... A mulher desempenha, em muitas terras das nossas provincias do norte, o serviço de _estafeta_, percorrendo a pé muitas leguas, carregada com pêsos que o homem, certamente, não aguentaria sobre a cabeça.
A mulher, como criada, anda um dia inteiro de pé no fatigante serviço de casa, deitando-se tarde e levantando-se cedo.
Aguenta uma criança nos braços durante horas consecutivas.
Passa dias com um ferro de engomar e de brunir; cose á máquina horas sem conta...
E muitos outros serviços _pesados_, que seria longo enumerar.
O homem vê isso e não se sobresalta nem indigna, porque são trabalhos que elle não quer para si, por mal remunerados.
Se, por acaso, qualquer destes serviços viesse a ser bem pago, não ha duvida que acorreriam logo a pugnar _pela fraquêsa da mulher_.
Na lucta pela vida o homem é impiedoso para a mulher, que não é a sua. A operaria raro tem no operario um colega e um amigo; tem apenas um homem que a desmoralisa e que a despresa se os trabalhos são diferentes, que a odeia, se é o mesmo, valendo-se de tudo, até das leis protecionistas, como os tipografos francêses--que apelaram para a lei que prohibe o trabalho da mulher feito de noite, para as expulsar das tipografias em que se compõem os jornaes matutinos.
Quando se aventam estas e outras opiniões e estranhêsas, é de uso o homem responder:--mas se a mulher vem concorrer comnosco nas profissões em que hôje nos ocupâmos, o que faremos nós?
O que farão?!... O que fazem os inglêses, muito mais numerosos do que nós e que percorrem o mundo inteiro para ganhar a sua vida; o que fazem os suissos, levantando a sua pequena patria a toda a altura duma grande nação; o que fazem os americanos, os alemães, os suecos e tantos outros, em paizes onde a mulher é equiparada ao homem pelo trabalho.
A riquêsa dum paiz não é espontanea, adquire-se com o trabalho, e o português, que não tem, como o francês, repugnancia pela emigração, tem nas nossas colonias campo vasto para a sua actividade e engenho, alem do muito que ainda tem a fazer na metropole, e sem receio de concorrencias.
ERRATAS
Além de alguns insignificantes erros tipograficos que no sentido da leitura facilmente se corrigem, nóta-se a pagina 95:--_cimo da bóta_, por _cano da bóta_.
Mesma pagina:--lhes _traga_, por lhes _tragam_.
Pagina 106:--_campo_ que lhes sobre, por _tempo_ que lhes sobre.
Mesma pagina:--Vida _desgarrada_, por _vida dispersada_.
Pagina 114:--caminhando _revoltoso_ e _tumultuosamente_ por, _revoltósa_ e _tumultuariamente_.
Mesma pagina:--_pensar_, por _passar_.
Pagina 125:--_delicadas_ amas, por _dedicada_ ama.
Pagina 142:--entretecida, por entrétecida?!
Pagina 144:--_recorrer_, por _socorrer_.
Pagina 145:--_puzeram_, por _puzessem_.
Pagina 149:--_E_ realmente, por _É_ realmente.
Pagina 167:--_E_ certo, por _É_ certo.
Pagina 209:--_usufruirá_, por _usufrúe_.
Pagina 218:--_lhas_, por _lha_ exija.
INDICE
PAG.
PROLOGO 5
FEMINISMO: I--Ser feminista 11 II--Uma resposta 27 III--A Instrução 43
As mulheres e a politica 57
Sêr português 67
No anniversario duma escola 85
A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje 101
As pobres mães 113
A miseria do povo 133
A ignorancia do povo 149
Mulheres desnaturadas, mães desnaturadas 161
A proposito duma gréve 177
A MULHER EM PORTUGAL: I--A mulher e o casamento 193 II--A mulher casada perante o codigo civil 207 III--A mulher solteira perante o codigo civil 223 IV--O trabalho da mulher 241
Livraria Editora da VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Camões, 6--LISBOA
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NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Á carta que me dirigiu o Sr. Gomes Pereira, na _Revista Amarella_, criticando o artigo precedente.
[2] Maio de 1903.
[3] 1904.
[4] Em Gouveia, no inverno de 1903.
* * * * *
Nota do Transcritor:
Erros tipográficos óbvios foram corrigidos; quaisquer outros erros ou inconsistências foram mantidos como no original.
Foram removidas aspas angulares desnecessárias (utilizadas seguindo um travessão: "--«") e não fechadas que eram utilizadas inconsistentemente.
Os erros indicados nas Erratas foram corrigidos, exceto o sexto e oitavo (o primeiro por não ser encontrado na página indicada e o último por não ser claro o que deve ser corrigido).
Texto rodeado de caracteres de igual representa texto em negrito (=negrito=).
Texto rodeado de carateres de "underscore" representa texto em itálico (_itálico_).
Texto em versalete foi substituído por texto em maiúsculas.
End of Project Gutenberg's Ás Mulheres Portuguêsas, by Ana de Castro Osório