Part 5
Quantas vezes, indo encontrá-lo a cabecear sobre o livro que não comprehende, a mãe não teria desejo de tirar-lh'o das mãos e, numa clara leitura e uma inteligente explicação, fazê-lo aprehender o sentido que lhe foge?!... mas... a _pobre mãe_ não o poderá fazer, porque não sabe tambem! E quantas vezes a sua revolta de ignorante não se torna uma defesa para a criança mandriona, que repetirá o que lhe ouve:--_Para que serve saber isto ou aquillo? Sem estudar tambem se come e bebe!..._
Se a criança é estudiosa e inteligente, em vez de pensar com leviandade sobre o assumpto, com a aprovação da mãe, concentrará todo o seu espirito no estudo e irá perguntar aos estranhos o que em casa não poude saber.
A _pobre mãe_ será, aos olhos de seu proprio filho, uma _ignorante_, uma _inferior_.
De dia para dia esta convicção se irá radicando no ânimo da criança, á medida que fôr adquirindo conhecimentos, desenvolvendo a inteligencia.
O trabalho que se faz no seu espirito é lento, mas é seguro. Homens e mulheres feitos, não deixarão de amar as mães--quem o duvída?--Mas com esse amôr protector que se tem a uma bôa e dedicada ama que nos acalentou e amimalhou na infancia, o amôr deprimente que se tem pelos inferiores; não o sagrado afecto do filho, que o é, triplicemente, pelo sangue, pela amamentação e pela inteligencia desabrochada ao calôr do ensinamento materno.
O convencionalismo, a mentira social, encobre com falsos sentimentos verdades que julga crimes, mas que a natureza, na sua rudesa primitiva, não considera tais. Assim, quando a uma criatura em evidencia, pela sua nova posição social, se descobre uma quasi vergonha que as faz esconder a inferioridade dos pais, todos se indignam e lh'o lançam em cara como sangrento insulto.
Parece-nos um _crime contra a natureza_, mas na realidade é um sentimento bem humano e desculpavel nessas criaturas roídas de ambições, na ânsia de fruir gosos inéditos para os nados e criados na pobresa.
Quanta superioridade de ânimo lhes seria precisa para fugir ao mesquinho ponto de vista duma sociedade, que, se por um lado exproba esses sentimentos como um crime, por outro lado ri impiedosa dos ridiculos familiares de que o individuo não é culpado. Quanta vaidade, quanto orgulho amachucado, curtirão esses que querem aparentar grandesa e se vêem acorrentados á ironia dos seus inimigos por uma longa série de criaturas inferiores que irremediavelmente os prendem á mediocridade!... É das mais tragicas e ao mesmo tempo das mais comicas situações que a civilisação democratica dos nossos dias trouxe á babugem das suas ondas, de envolta com os _parvenus_, tão invejados por uns como despresados por outros...
Podemos considerar uma inferioridade de espirito esse sentimento de _vergonha_ pelos seus? Certamente.
Mas não é nobre e alto do coração quem o quer ser. Nós todos, com os nossos assomos de independencia, não somos mais do que o producto do meio em que vivemos e nos criámos, os productos duma bem ou mal orientada educação, um conjuncto de convenções e mentiras numa sociedade construida sobre aparencias e falsidades.
Não condemnemos pois o filho que no seu intimo despresa intelectualmente a mãe, que no entanto estima e até julga respeitar.
A mulher tem bastante intuição, mesmo quando é ignorante, para comprehender o sentimento que inspira aos filhos. Embora se resigne dôcemente, no seu apático papel de tutelada, essa convicção deve-lhe ser amargurosa.
Para seu bem, e, mais ainda, para bem da sociedade que não póde já dispensar-lhe o concurso, preciso se torna que a mulher sáia desta situação que a inferiorisa, e a inutilisa como factor importante da civilisação.
Comprehendendo a vida pelo estudo da grande mestra Natureza, é preciso que a mulher se convença de que se não é _bôa mãe_ só porque se deu vida a uma criança, que no seu seio se gerou e completou e com o proprio leite se nutriu, rodeada de mimos e cuidados durante a infancia.
É preciso que a essa maternidade puramente material se alie a nobre maternidade do espirito e da educação--unica que lhe dará a garantia de possuir o respeito e o afecto confiado dos filhos, que sempre encontrarão nella avisado conselho.
Procurando nos animais o exemplo que nos oriente, vemos que todos elles desconhecem a mãe (porque o pai lhe é quasi sempre um estranho) desde que a criança se tornou forte e dispensou o ensinamento e a guia que nos primeiros passos lhe eram indispensaveis.
O mesmo succede ao homem, que se vai distanciando intelectualmente da mãe desde que deixa de lhe ser conselho e auxilio dos tenros annos.
Todo o falado amôr poetico pela mãe, é apenas o producto duma convenção sentimental adquirido pelo homem á medida que se foi civilisando.
Talvez até uma simples questão de moda trazida pelo romantismo, como os _nefelibatas_ e _simbolistas_ nos déram ultimamente nos seus lirismos as velhas criadas e as boas amas...
Durante o naturalismo forte da Renascença, a _mãe_ é completamente esquecida pelos poetas e prosadores. Nas proprias telas a _mãe_ glorificada pelo pincel dos mestres é a _Virgem_, a mãe fóra da humanidade!
Como reação ao culto da mulher amante, soberba da sua belleza e da sua força, veio o culto, bem mais postiço, da mulher, só porque o acaso a fez mãe.
A mulher póde e deve obstar, pelo esforço da sua energica vontade, á grande amargura que a espera quando a alminha radiosa do seu filho vai fugindo ao convivio do seu pobre espirito inculto para se lhe tornar quasi um estranho.
A mulher, na classe a que me tenho referido nestas paginas, pode educar-se a si mesma, que não lhe faltam meios para o fazer.
Se o não fizer abdica dos seus direitos, exactamente quando mais alegrias compensadoras lhe trariam.
Agora que o homem começa a olhá-la como sua igual e companheira, toda a responsabilidade lhe cabe no despreso intimo, embora inconfessado, que a sua ignorancia lhe merece.
A MISERIA DO POVO
É incontestavel que um certo movimento altruista se propaga pelo paiz--secundando, ainda que frouxamente, o que nos outros se faz--em favôr dos _pobres_, principalmente da mulher e da criança.
Uma grande revolução se está preparando, e, como todas as grandes revoluções que têm transformado as sociedades, começa por revolucionar almas, formando um núcleo de espiritos que pelo bem dos outros se sacrificam sem esperar pagas nem incentivos de grosseiros interesses.
O mundo antigo, cheio de preconceitos e de injustiças, sente-se derruir, sem bases seguras onde se apoiar--esfacela-se lentamente até uma derrocada ingloria e completa.
A pouco e pouco, aqui e ali, algumas bôas obras de solidariedade humana têm surgido da iniciativa particular, sem que os governos tenham sequer suspeitado da sua existencia.
E bom é que assim seja, porque só a iniciativa particular, persistente, honesta nos seus processos, sem charlatanismos oficiaes nem interesses politicos a desprestigiá-la, póde fazer mais em poucos mezes do que cincoenta annos dos embaraçantes processos de todos os governos.
É della que tudo ha a esperar, é da acção especial dos governados que confiâmos, pois que dos governantes pouco ou nada póde vir neste sentido, nem é justo, verdade seja, que delles se espere tudo, como se um povo não fosse mais do que ingenuo e eterno bébé sugando a mamadeira que lhe apresenta a criadora.
Tudo esperar do poder central é mostrar que nada podemos individualmente, ou que estamos satisfeitos com o pouco que nos concedem.
Ora a verdade é que ninguem está satisfeito, porque nunca se viu situação mais desoladora, vida mais atropelada e miseravel.
É o nosso paiz aquelle em que mais caro se come, se veste, se viaja, e se tem morada; e aquelle em que menos se ganha, salvo pequenas excepções, que é facil apontar. De dia para dia os generos de primeira necessidade duplicam e triplicam de custo.
Não ha nada, desde o pão até á luz, que se não compre por alto preço; nada que não custe ao pobre incomportaveis amarguras e suores.
É por isso que não ha paiz nenhum em que a tisica, a anemia e a escrofulose tenham mais lauto banquete.
Fez-se, é certo, uma liga contra a tuberculose, patrocinada pelos governos, auxiliada por contribuições obrigatorias na capital, reclamada pelas mil tubas sonoras do jornalismo palaciano.
Não houve penna de escriptor, consagrado pelas gazetas, que se não puzesse ao serviço da bôa causa; não houve paladino que não quizesse descer á liça a romper lanças pelo triumfo da ideia que, partindo modesta e util de baixo, serviu depois muito interesse, deu aso a muita turiferação.
E no fim de tanto afan, tanto barulho, tanto elogio, o que ganhou de positivo e imediato o povo português, na sua grande massa?!
--Come porventura mais barato?
--Tem casas higienicas, onde se abrigue por módicos preços?
--Tem hospitais para todos os seus doentes?
--Asilos para todos os seus velhos?
--Sanatorios para todos os seus escrofulosos e tisicos?
--Escolas para todos os seus filhos?
Nada disso tem, nada disso lhe deram ainda, apesar de tanto que se tem apregoado os beneficios duma _liga_, que póde ser simpatica como esmola particular e arbitraria duma ou mais pessoas, fazendo pouco porque mesquinhos são os seus recursos, mas que se não deve querer fazer passar por medida de salvação publica...
Todos reconhecem ser pouco o que se tem feito, tão pouco que se torna inutil, para debelar um mal que vem da ruina dum povo e duma sociedade sem orientação; dum mal que está no sangue e no espirito e que ameaça assoberbar tudo e todos.
São incontaveis os escrofulosos, tisicos, anémicos e depauperados na classe pobre. As mulheres definham e morrem como flôres criadas em terra magra, sem ar nem luz; as crianças arqueiam os pobres arcaboiços, onde mal se desenvolvem pulmões predispostos á receptividade do microbio hostil; os homens avelhentam-se e enlividecem, numa aparente senilidade aos vinte ou trinta annos. E tudo porquê?!
Porque a vida é terrivelmente cara em Portugal, e a maior parte da gente não come o que necessita, vive em verdadeiras possilgas, não é preservada devidamente do contagio das molestias que a rodeia, não é iniciada nas mais rudimentares regras de higiene, não é educada de modo a preferir a alimentação e o conforto das casas ao luxo do trajar e demais exteriorisações vistosas.
O caminho a seguir por quem quizesse e pudesse remediar tanto mal, não se limitaria a fundar sanatorios onde se gastam muitos contos de reis e se abrigam, por empenhos, umas desenas de crianças--umas _predispostas_ apenas.
Para essas, mesmo, o bem não é grande e, principalmente, não é duradoiro. Melhoradas pela higiene, pela alimentação e pelos simples remedios reconstituintes, voltam desse conforto e abundancia para a antiga e triste miseria das suas casas, tendo por destino a fatal renovação da doença, logo que deixe de ser combatida, e será agravada com o desespero de se vêrem privadas do bem a que já se haviam gostosamente e metodicamente habituado.
O primeiro passo a dar, para melhorar esta situação angustiosa, seria:--fazer baratear os generos alimenticios de primeira necessidade; estabelecer e auxiliar cooperativas; reduzir os impostos de consumo, que incidem principalmente sobre o pobre que compra a retalho, de modo a que todos pudessem comer quanto é necessario para alimentar uma vida saudavel.
Seria iniciar o sistema de cooperativas edificadoras, tão usado lá fóra; auxiliar grandes companhias que se propozessem dar casas higienicas e espaçosas por módico preço, aos pobres que não podem continuar a viver como hôje vivem em antros infectos e caros.
É mais do que tudo urgente acabar com a exploração dos senhorios que exigem por casas pessimas, loucas exorbitancias extorquidas asperamente á economia da familia pobre.
Ter o seu lar, a sua casa, onde cada prego representa um esforço de vontade e uma consolação de posse; a casa para onde entram os noivos com a alma florida de esperanças, onde nascem os filhos e se podem abrigar os velhos pais doentes; a casa onde põe todo o seu amôr o operario laborioso, que nas horas vagas cultiva no jardim os cravos e as rosas singelas, planta as hortaliças e levanta a parreira amiga que lhe dá a sombra e o vinho; a casa que a mulher limpa e adorna com esmero, porque é a _sua_, a companheira e amiga de todas as horas; a _casa familiar_, que deixa de ser uma coisa inanimada e indiferente para se tornar no grande sonho abençoado dos que vão para longe, e dos que ficam abrigados á sua dôce sombra; é para o trabalhador português uma ambição tão desmedida, que poucos a chegam a realisar.
É desta indiferença do povo que não vive _comsigo_ nem se sabe recolher ao interior da sua habitação, ao seu lar, tornado o seu pequeno e querido universo, que não se identifica com as suas coisas e não lhes toma amôr, é deste viver disperso de povo meridional, que vive do ar e do sol, e num dia de passeata alegre pelos campos encontra compensação para todas as suas miserias; que o senhorio tem abusado elevando disfarçadamente, cada semestre um pouco, as rendas--que são hôje um verdadeiro crime social.
Se fossem precisos exemplos para afirmar uma coisa que toda a gente sabe, Setubal seria, para tudo quanto dizemos, um dos mais flagrantes.
Dotada com um luxuoso sanatorio, nem por isso a doença e a miseria a poupam mais.
A grande miseria da população (de vinte e três mil habitantes) é composta por operarios, dum e doutro sexo, que trabalham nas fabricas de conservas de peixe, de pescadores, e de gente de medianos recursos.
Com a afluencia de trabalhadores de fóra, as moradias têm subido a tal preço que uma só familia não tem recursos para as pagar, acumulando-se duas e três em antigos predios insalubres, dentro de ruas estreitas e nauseabundas, onde mal entram o ar e o sol--os grandes purificadores. Ha casas, se tal nome merecem, onde se não póde andar de cabeça erguida, sob pena de a partir no tecto, e onde a escuridão é quasi absoluta. Casinhotos terreos, ahi pelos suburbios, em que as divisorias são feitas com cortinas de chita, e pelos quais um mísero cavador paga por mês, _dois mil réis_, isto ganhando--quando ganha--quatrocentos réis diarios.
Ha miseraveis velhinhas pedindo pelas portas para pagarem _dez tostões_ mensais pelo abrigo duma barraca forrada de folha de flandres ferrugenta, despresada pelo fabrico de conservas.
Não ha muitos invernos que numa barraca alugada pelo mesmo preço exorbitante a uma familia de pescadores, choveu tanto, em noite de temporal, que o marido e a mulher tiveram de abrigar-se sob um chapéo de chuva, metendo os filhos debaixo da cama para não ficarem completamente encharcados.
Chega a dar vontade de rir, mas do riso que é de lagrimas e de amarguradas censuras tecido; o mesmo riso que se nos esboça numa lástima vendo uma criança deslocar-se em acrobatices de circo.
Quantas gerações de miseria e servidão produziram a indiferença resignada com que se sofre uma existencia de _tais alegrias_ entrétecida?!
Depois, se numa destas habitações se dá um caso de doença contagiosa, vem a policia, a pretexto de desinfeção, rouba aos pobres a sua unica cobertura, queima-lhe a unica enxerga, despedaça-lhe a pouca loiça, borrifando paredes, sobrados e moveis com sublimado corrosivo!...
Urgente seria organisar a fiscalisação sanitaria, de modo que a desinfeção fosse uma coisa séria e prática e não um vexame ou um ridiculo como é,--méra providencia policial quando se tóca a rebate numa ameaça de epidemia.
O que faz então o pobre, victima destas _providencias_ policiaes? Para não ficar mais desnudado do que dantes, arrecada, esconde tudo quanto serviu aos doentes, não sabendo--na sua extrema ignorancia e desoladora miseria--que arrecada sôfregamente a morte, que não pára nem descança de trabalhar nesse fertil campo.
Não seria prático, simples, justo, e até quasi nada dispendioso, que nos proprios hospitaes se montassem estufas de desinfeção para as roupas de todos os doentes e de todos os que morrem de molestias contagiosas; e que a policia se encarregaria de fazer conduzir ali, para essas roupas serem reentregues quando já não constituissem um perigo para os seus possuidores?!
E se ainda os males fossem só estes! Mas a juntar a tantas desgraças que podemos chamar materiaes, ha outras e outras que se prendem de perto com as obrigações moraes dos dirigentes e dos educadores.
Ha, por exemplo, quem fiscalise as condições em que se realisa o trabalho das mulheres e dos menores? A lei que o regularisa é letra morta, e uns e outros trabalham nas peores condições higienicas e em todos os tempos e horas, inferiorisando-se fisicamente, deformando e afeando cada vez mais a nossa raça, que foi bella e fórte.
A mulher não tem quem a eduque e oriente, quem a ensine a respeitar-se e a respeitar em si mesma o futuro dos filhos; e ou não trabalha nada, porque o homem a sustenta e veste, ou se sujeita a tudo, desempenha os mais penosos serviços, quer livre quer em vesperas de ser mãe.
Filhos nascidos, quem pensou em lhes abrir as créches, as escolas-infantis ou maternaes, os asilos-oficinas?... Quem pensou em juntar essas mulheres, irmãs na desgraça, para lhes ensinar como, agremiadas, se poderiam socorrer e fugir á extrema miseria, á doença sem conforto, á fóme dos dias sem-trabalho?
Quem fez sentir aos operarios, a muitos que ganham bastante, mais do que qualquer empregado publico, que a sua grande força estaria na modestia do viver, no cuidado que puzessem em criar higienicamente e em educar os seus filhos?
Quem lhes faz sentir, sem azedume, o ridiculo do luxo que ostentam, nas mulheres e nos filhos, imitando as burguêsas que dizem despresar? Quem lhes incutiu, com as preocupações mais altas do espirito, o horror a essas festas em que a saúde e o dinheiro por igual sofrem um forte abalo?
Como quasi todos os portuguêses, não pensam quanto melhor seria possuirem a casa onde habitam e nasceram os filhos, que os viu sorrir e crescer, que lhes conhece as lagrimas e as alegrias. Quanto seria preferivel, á taverna que os envenena e fére toda a sua geração, o theatro que educa e diverte, criando uma atmosfera mais pura para o espirito. Quanto mais proveitoso lhes seria fundar e frequentar bibliothecas, serem emfim os iguais ou superiores aos que hôje imitam, não pelo trajar que é vaidade de pouca monta, mas pela educação e pela consciencia dos seus direitos e deveres!?
Cigarras imprevidentes e tagarelas, nos dias quentes de bôa féria, quem entre nós os póde criticar?
Defeito de educação, defeito endemico na nossa terra, que vem descendo do alto, num turbilhão de vaidades insatisfeitas, numa aspiração desenfreada de ser mais do que efectivamente se póde ser, pelas exteriorisações da vida faustosa, com vestidos ricos, numa inveja que faz imitar sempre os que julgam acima, na escala social...
Mais do que uma liga contra a tuberculose, tal como se tem manifestado, seria proveitosa á nossa raça devastada pela doença, uma liga contra a fóme e contra a ignorancia que tudo obscurece e preverte.
A IGNORANCIA DO POVO
Não ha ninguem que não tenha ouvido, pensado, ou dito centenas de vezes--que o maior mal do nosso paiz é a ignorancia, que o analfabetismo é a causa mais flagrante da nossa decadencia moral.
É realmente a verdade, a triste verdade que nos envergonha e inferiorisa aos nossos proprios olhos.
Mas são _sómente_ os governos os grandes responsaveis d'este atraso vexatorio do nosso paiz?
Não corresponde o desleixo em que os governantes têm deixado cahir a instrução publica, á criminosa indiferença individual dos governados por essa instrução geral, que é o orgulho dos paizes cultos?!
Não são os governos que fazem os povos, mas os povos que fazem os governos; e estes, forçosamente, hão de promulgar e cumprir as leis que a consciencia colectiva e fórte duma sociedade reclama, porque correspondem a uma necessidade ou a uma aspiração nitida da alma popular.
Assim o prova o pouco mais de interesse que a instrução do povo vae despertando entre nós, mercê das reclamações e lamentações que de ha poucos annos a esta parte se vem ouvindo, numa propaganda lenta, mas fructuosa, de alguns espiritos dedicados.
O governo deve auxiliar a iniciativa individual, deve, por assim dizer, sancioná-la e impulsioná-la; mas ser elle sómente o encarregado de nos dar todos os progressos e todos os melhoramentos, é inadmissivel para espiritos que aspiram a ser livres e desejam uma patria livre.
Nos paizes cultos, sob os governos mais inteligentes e progressivos, o que vêmos? A iniciativa particular realisar tudo ou quasi tudo, e os governos adoptarem os melhoramentos, auxiliarem-nos, serem como que o vigia dos actos individuaes, não o _tutôr_, a _Providencia_, que nós pretendemos que seja, por preguiça de pensar e trabalhar.
Depois duma senhora fundar em Paris a _Maternidade_, a instituição que mais eleva o espirito altruista do nosso tempo, é que a municipalidade resolveu imitá-la, criando por seu turno outra casa similar.
Foi depois de miss Nightingale educar e apresentar as suas enfermeiras modelos, livres de todo o espirito de sectarismo e instruidas segundo todas as regras da higiene moderna, que o governo inglês as enviou á Crimeia, onde déram as suas primeiras e brilhantissimas provas, e as adoptou nos seus magnificos hospitaes, onde são exemplo para todo o mundo.
Por toda a parte se fundam institutos, se realisam obras de solidariedade, protectoras e pedagogicas, que os governos sancionam depois, que ajudam a manter e a espalhar, se o resultado corresponde aos sacrificios exigidos.
Decretar no papel sem que a prática mostre que a inovação está de harmonia com o caracter etnico do povo, corresponde a uma necessidade colectiva ou foi precedida duma propaganda inteligente e conscienciosa, dá o triste resultado que produzem no nosso paiz as reformas, em geral, e a da instrução em particular.
Senão, vejâmos. Como todos sabemos, estão criadas escolas e decretada a instrução obrigatoria ha tempo bastante para que a actual geração fosse filha, e até neta, de gente sabendo lêr.
E o que sucede?
O numero de analfabetos é enorme, e os que sabem alguma coisa é tão pouco, e tão mal aprendido, que mais se póde dizer que igualmente nada sabem.
Isto porque o professor é, em geral, uma pessoa que arranja esse oficio como podia arranjar outro qualquer, sem vocação, sem comprehensão do que seja o ensino e da responsabilidade com que vai arcar, tomando sobre si o encargo de iniciar pequenos cerebros obscuros no luminoso cultivo intelectual.
É muito grave e delicado o oficio, e não sei de quem o possa tomar de ânimo leve, só com mira nos magros proventos.
O verdadeiro professor é o sacerdote das ideias, que levantam e comovem hôje a humanidade.
Por elle, a criança deveria ter do estudo a ideia prática e util que é a base de toda a educação moderna, mórmente se é dada a pobres, sem tempo para perderem em inutilidades e bonitos. Por elle, a criança deverá receber uma noção simples, mas geral, de tantissimas descobertas com que dia a dia se augmentam os conhecimentos humanos, e saberem a maneira de utilisarem pràticamente o que aprenderam.
Mas não sucede assim. Os professores, miseravelmente remunerados como são, sem coragem nem iniciativa para luctar, alguns educados por processos archaicos, sem uma feição prática e utilitaria no seu método; como hão-de ensinar o que não lhes foi ensinado e não podem aprender por si, pela carestia da vida, e até pela falta de pequenas bibliotécas de vulgarisação e ensino? Por isso elles se não interessam senão por um ou outro dos seus discipulos mais inteligentes, que irá a exame e lhe dará honra e lucro, se a familia é abastada.
Os outros, a turba-multa, quando o trabalho os reclama para fóra da escola, mal sabem soletrar, escrevem a custo os seus pobres nomes obscuros, e não chegam a comprehender que vantagem lhes pode advir d'esse _favôr_ da _sociedade_.
E estes são ainda os que vão á escola, que a grande maioria, principalmente nos campos, nem sequer se incomoda a frequentá-la.