Part 4
Nos _hospitaes_ adiquiririam aquella prática de tratar os pequeninos doentes, que tão custosamente obtêm as mães quando a alma lhes sangra pelo soffrimento dos seus filhitos.
Nas _escolas-oficinas_, nas escolas práticas de cosinha, de costura e de governo de casa, em toda a parte onde se trabalhasse pela criança, a mulher solteira poderia formar o seu caracter, conhecer e fortalecer as suas aptidões, fazer a si mesmo a educação que a tornasse util a todos e lhe desse para o futuro a certeza de poder contar comsigo para provêr á propria subsistencia.
A menina solteira no nosso paiz tem uma vida sem responsabilidades sociaes e a maior parte das vezes sem utilidade nenhuma.
Anda na escola ou no collegio--as que não vão para os internatos--até a saia lhe descer do joelho e roçar no cano da bóta. Aos primeiros signaes da puberdade, os pais atarantam-se, num pánico de grandes perigos a recear, e a pequena recolhe a casa.
Depois, se a fortuna o comporta, vem o professor particular ensinar o que póde a quem não estuda nem deseja saber, desde a pintura sem desenho até á musica sem rudimentos. As que não pódem ter professores ficam em casa com o pouco que aprenderam, a esperar que os annos, na sua fugitiva carreira, lhes tragam o noivo correspondente.
Vestem com elegancia, mas não sabem fazer os seus vestidos; sabem pôr sobre os seus cabellos frisados o mais disforme e complicado chapéo, mas não o sabem enfeitar por suas proprias mãos; não costuram nem bordam a roupa da casa; não talham as suas camisas; não cosinham ou sabem dirigir o jantar da familia; não tomam a si o encargo de criar e educar os irmãosinhos mais novos. As mães poupam-nas o mais possivel. _É o seu bom tempo_--dizem. _Deixá-las, lá virá época em que tudo aprendem á sua custa!..._
Pobres dellas! Não viram, no seu exemplo, quantas amarguras representa essa _aprendizagem á propria custa_, desde o mau humor do marido que vê tudo feito por mãos inexperientes até ao desrespeito das criadas por quem não as sabe mandar nem ensinar.
A rapariga portuguêsa não é um sêr util e respeitavel, de que os rapazes sejam fraternaes companheiros, lendo os mesmos livros, interessando-se pelos mesmos assumptos, conversando naturalmente em qualquer ocasião e com qualquer pessôa que se encontrem.
Não, ella é uma criatura no papel passivo de pretendente, esperando vagamente o numero da loteria--que lhe _dê o premio_.
Depois, conforme este seja, grande ou pequeno, isto é, marido rico ou pobre, terá então que adaptar a trouxe-mouxe as suas qualidades assimiladoras e resignar-se ao trabalho ou pavonear-se soberbamente no luxo e na inactividade.
Para tudo está preparada, não estando habilitada para coisa alguma.
A rapariga portuguêsa é, em resumo, uma criatura encantadora, que veste com garridice, que passeia nas horas de musica, que vai ás praias, aos theatros e ás reuniões, que ás vezes lê os folhetins dos jornaes e tem ataques de nervos, de quem os rapazes desdenham e troçam--mas que, por fim, virão a ser as suas mulheres.
Quantas não têm o desejo de se tornar uteis, de ganhar _para os seus alfinetes_, de terem uma ocupação que as enobreça aos seus proprios olhos e as habilite a serem mais tarde livres pelo seu trabalho?!
Mas, entorpecidas pela educação, deprimidas pelos estreitos habitos da vida portuguêsa, resignam-se a não serem mais do que as outras--umas eternas aspirantes ao casamento.
Inteligente e dedicada como é, em geral, a mulher portuguêsa, que grande e bella obra social não faria, quem a pudesse interessar pelas duas questões capitaes de que depende o resurgimento da nossa patria e o futuro da nossa raça:--o trabalho livre e remunerado para a mulher, a educação, fisica e intelectual, da mísera criança portuguêsa.
A MULHER DE HA TRINTA ANNOS E A MULHER DE HÔJE
Se perguntarmos aos que ora entram com desplante na vida, julgando que nada devem ao passado, que o presente é obra sua, e o futuro lhes pertence, o que era a ilustração da mulher portuguêsa de ha trinta annos, não haverá ahi rapaz ou rapariga de mediana educação que não solte uma gargalhada escarninha, ou que, ao menos, não franza a bôca num tregeitar de troça.
É que essa época de romantismo agudo avulta a nossos olhos a turba desgrenhada das jovens que recitavam ao piano, com os olhos no infinito; que dormiam de colete para adelgaçarem a cinta, defumavam o rosto para obterem a palidez interessante que a moda reclamava ás heroinas tisicas, que sonhavam com o menestrel choroso que por noites luarentas as viria buscar para um eterno _duo_ de amôr, na _cabana_ ideal onde se vivia... do ar.
Essas eram as exageradas de todas as escolas, as desvairadas de todos os tempos. Mas ao lado dellas, as sãs, as ajuisadas, que liam os mesmos livros e conheciam as mesmas poesias, não se deixavam levar em excessos de romantismos piegas, mas amavam os seus poetas e comprehendiam a literatura do seu tempo.
Não ha por ahi senhora da geração de nossas mães, rudimentarmente educada que fosse, que não tenha chorado com os romances de Camillo, que não tenha discutido e amado Julio Diniz, que não conheça Garrett e Herculano, que se não lembre com saudade da _Lua de Londres_, que não tenha recitado Soares de Passos, Castilho, Palmeirim e Thomaz Ribeiro, que não tenha cantado essas poesias, que entraram no ouvido de todos em modilhas e cantatas, compostas por musicos ignorados.
Isto numa época em que a mulher não tinha, como a de hôje, facilidade em se instruir, em que a instrução por essas provincias fóra era um caso esporadico, em que os liceus lhe não eram franqueados e nas escolas superiores se falava do exemplo de Publia Hortensia de Castro, que cursou a Universidade vestida de homem, como dum caso fabuloso, porventura menos provavel do que a sabedoria de Minerva, a deusa mitologica da sciencia.
O que significa que a mulher joven ha trinta ou quarenta annos, sem ter a alta cultura duma grande dama da côrte brilhante de D. Manuel, era, sem dúvida, muito superior á de hôje, que não conhece os seus escriptores nem comprehende os seus poetas.
Se bem que a Arte, embora na sua fórma mais intelectual,--a literatura--não possa dar á mulher o grau de conhecimentos, a soma enorme de noções exatas da sciencia que são necessarias para constituir hôje a educação de qualquer criatura regularmente culta, é bem certo que eleva as almas e constitue um dos mais nobres ideais da existencia humana.
«A mulher desconhece os escriptores do seu tempo e deixou de se preocupar pela literatura, porque não temos romancistas que a interessem e os poetas deixaram de lhe falar ao coração...--costuma dizer-se para desculpar uma falta que todos reconhecem e da qual ninguem se confessa culpado.
Seguramente que a maior, se não a unica responsavel, é a mulher que assiste, sem comprehender, ao avançar victorioso da civilisação, que hade expulsar os ignorantes como párias inuteis numa sociedade que se encaminha para a luz.
Poetas e prosadores deixaram, é certo, a azinhaga florida do romantismo para seguirem pela estrada arejada de um novo ideal estético, para uma fórma mais verdadeira e humana. Mas porque os não seguem as mulheres? Porque se quedam numa indiferença que as distanceia do seu tempo, que as torna tão alheias a tudo quanto interessa o homem do seu paiz, da sua sociedade, do seu proprio lar?
Não lêr porque não ha quem escreva a seu gosto no nosso paiz é... apenas uma desculpa. Temos hôje, como sempre tivémos, quem escreva bem. Todos os annos, a par da grande alluvião de livros sem valôr que ficam nos depositos das casas editoras para serem vendidos ao peso do papel, ou dados como brinde a quem compra outros livros, publicam-se os bastantes para saciar a curiosidade vulgar em quem tem o habito da leitura.
O que falta não são os escriptores nem as suas obras.
Falta o público que dê no seu aplauso ou no seu desagrado o incitamento de que precisa todo o artista para fazer obra em que pônha toda a alma, toda a energia do seu espirito, na inspiração de progredir e vencer a concorrencia, que então se dá material e áspera, mas compensadora para os triunfantes.
Quem lê no nosso paiz? Uma minoria de intelectuaes, que preferem a literatura estrangeira, e que a maior parte das vezes não compram sequer os livros portuguêses, que poderão ler de emprestimo ou oferecidos.
Lê o povo bastante, mas o povo das cidades, e principalmente os operarios, os livros dos propagandistas, as brochuras que os chamam á consciencia da sua grande miseria; ou lê os romances sensacionaes, ultimamente, e por felicidade, substituidos pelos grandes romances historicos ás cadernetas, ilustrados, que têm a enorme vantagem--quando não tenham outra--de ser portuguêses e não habituar o povo a dizer nomes disparatados e ridiculos que lhe servem nas traduções.
Não lê no nosso paiz, a grande maioria dos homens, porque não encontram para isso tempo que lhes sobre dos seus afazeres ou da vida dispersada por cafés e clubs, na conversa de conhecidos e amigos encontrados sempre nas horas de sobejo.
Não lêem as mulheres, o que é muito peor. Porque é em toda a parte o grande publico feminino quem lê os poetas e os romancistas, quem assigna os _magasines_ e revistas, quem conhece as mais interessantes brochuras de viagens, quem discute os seus autores, quem faz, emfim, uma reputação literaria.
Entre nós, a não ser nos centros intelectuais de que as mulheres só raramente fazem parte, não se fala em literatura, não se conhecem os escriptores e não ha--o que é significativo--o menor desejo de os conhecer.
Para muitas senhoras que lêem e gostam de lêr é um facto desconsolador o pensarem que serão ridicularisadas e que os ignorantes as alcunharão de _sabichonas_ e _doutoras_, se por acaso entram em conversa que transponha os limites literarios dos folhetins dos jornaes ou da secção das modas.
Mas será isto motivo bastante para se desinteressarem tão completamente pela literatura do seu paiz?
Fugindo do ridiculo com que fôram tão cruelmente perseguidas as romanticas de ha vinte annos, as mulheres deixaram de lêr com receio de que as chamassem _literatas_--o epiteto mais desagradavel que podia ser dito a uma senhora que era vista com um livro na mão.
Pararam, indecisas, isto é retrogradaram, porque em civilisação não ha paragens que não sejam retrocessos.
E foi este o motivo porque se deu o afastamento cada vez mais pronunciado da mulher portuguêsa pela arte e pelos artistas do seu paiz e do seu tempo. É desolador este simptoma porque nos mostra como é feita sem elevação moral, nem intellectual, a educação das mulheres que hão de ser as educadoras das futuras gerações. Numas, as que se dizem educadas, os seus conhecimentos são apenas um mostruario vistoso de habilidades e conhecimentos superficiaes, que não iludem ninguem. Outras, conservam-se na mais boçal ignorancia, na mais completa indiferença pelas coisas do espirito.
Mas dando de barato que, por uma estranha repugnancia de espirito, os escriptores de hôje não agradem ás mulheres, porque despresam tudo quanto de grande e bello tinha a do tempo de nossas mães?
Por acaso deixaram os livros de Camillo de ser os mais humanos, os mais portuguêses, de quantos tem escripto e sentido um grande talento português? Por acaso já secaram, como fonte despresada em campo maninho, os lindos olhos das mulheres do nosso paiz, que já não se arrasam de lagrimas na partida de Simão Botelho para o desterro e na morte da linda Thereza e da tragica e simples Marianna?!
Tão perdido vai o seu gosto artistico, que já os seus labios se não abrem jocundos sobre as paginas de eterna graça, que o incomparavel escriptor espalhou por toda a sua grande obra?!
Tão adversas a preocupações de espirito, que se não familiarisem com todo esse mundo amoravel e risonho que nos deixou o romancista que deveria ser, por excellencia, o preferido das mulheres, Julio Diniz?!
Tão esquecida que já não leia toda essa pleiade brilhantissima de poetas e prosadores que foi a de Garrett e Herculano, até João de Deus, Anthero, Crespo, Eça, e tantos outros que a morte levou; sem falar nos que, por graça de Deus, ainda vivem e trabalham nesta Patria que devia ser o nosso orgulho e é o tormento de quem a ama e a vê tão outra do que devia ser?
Não, a falta não é dos escriptores, a falta é só da mulher que não está educada bastantemente (apesar de certos criticos acharem que o está já demais!...) para discernir e escolher o bom caminho que o mais vulgar senso commum lhe indica: uma educação séria e fundamentada, começando nas coisas práticas e uteis da vida, acabando na literatura e na arte em geral, que é por assim dizer a alma falante d'um povo.
É urgente que se convençam de que a mulher ignorante é o mais triste e aborrecido verbo de encher que a sociedade agasalha. Se é bonita, elegante, e veste bem, começa por ser um prazer para os olhos e acaba por se tornar um desprazer maior para o espirito, quando responde com o mutismo da ignorancia convicta, ou com a tagarelice da ignorancia atrevida, a uma simples conversa em que pessôas cultas jogam com ideias e conhecimentos como as crianças com as irisadas bolas de sabão que tanto as alegram.
Isto olhando-a pelo lado social, que na vida familiar os efeitos da ignorancia feminina são ainda de mais tristes e deleterias consequencias.
AS POBRES MÃES
Porventura evocará este titulo míseras mulheres desgrenhadas, arrepanhando-se de dôr, ante a morte que lhes arranca dos braços os filhos estremecidos...
Ou a visão dolorosa das que os vêm partir, na força da vida, frementes de esperanças e ambições, chamados pela lei para a guerra odiosa...
Ou, ainda, pobres mulheres vagabundas, arrastando os seus farrapos pelas ruas e caminhos, mendigando baixinho, numa vergonha ou num pavôr, para os sêres informes que levam nos braços e pendurados ás saias, culturas para a dôr e para a doença, crimes e loucuras em fermentação...
E, entanto, não são essas as que merecem a epigrafe que encima estas palavras.
É mais dôce o seu viver, mais calma a sua existencia...
É ao recolhimento da vida burguêsa que iremos buscar essas _pobres mães_, que a sociedade moderna, no impulso avassalador e tiranico de necessidades e exigencias novas, vai fazendo martires pelo sentimento e pelo coração.
São essas mulheres naturalmente inteligentes, mas fundamentalmente ignorantes, que sofrem pelo afastamento progressivo dos filhos do seu amôr e do seu encanto, a par e passo que os vêm crescer em inteligencia e saber.
É á _classe média_, a mais numerosa e _nacionalisada_, a mais apegada a preconceitos e tradições, que vamos buscar o nosso exemplo, porque:--o povo operario, caminhando revoltósa e tumultuariamente para o futuro; o dos campos, muito perto ainda do primitivismo animal; a alta burguesia e os restos desmantelados das velhas aristocracias, despaízadas pela educação e pela existencia só de luxo e egoismo--não podem fornecer os elementos comprovativos para a nossa these.
Um dos muitos axiomas fabricados para satisfação da nossa vaidade, e que transmitimos gostosos pelo prazer de nos iludirmos e pela preguiça em nos emendarmos, é a conhecida frase--que faz comover sentimentalmente os mais áridos corações--_a mulher portuguêsa é uma bôa mãe_.
Ora se olharmos a maternidade apenas como a funcção animal de conceber, ter o filho, amamentá-lo e cuidá-lo materialmente, nos primeiros três ou quatro mêses da sua existencia, a mulher portuguêsa é, realmente, uma bôa mãe.
Tudo a predispõe para isso. A bondade natural da nossa raça, essa bondade passiva feita da indolencia atavica de sangue oriental que nos anda nas veias; a belleza efemera, quasi toda feita da frescura dos poucos annos e da delicadeza das linhas que a maternidade ainda não engrossou; o esmagamento duma longa série de gerações em que viveu no recolhimento freiratico da antiga vida portuguêsa, e ainda hôje sem os cuidados rudes de procurar a subsistencia, encargo exclusivo do homem...
Tudo predispõe a mulher, na doçura amolecedôra do nosso clima, para ser uma cuidadosa mãe: cheia de mimos para os seus pequenos; temendo vê-los chorar, como quem teme uma trovoada; muito ciosa das suas prerogativas, quando se trata do enxoval de bébé, da moda dos vestidos, dos chapéos e das bótas; sacrificando-se, em caso de doenças; tendo, emfim, todos os carinhos e todos os merecimentos duma bôa _aia_.
Mais tarde, procurará dar ás filhas uma educação primorosa, segundo o seu ponto de vista, não se poupando ainda a sacrificios para que toquem no seu piano, saibam prendas de mãos, e um bocadinho de francês para não se envergonharem numa sala...
Emquanto aos rapazes, cedo entregues aos professores que os levam a exame, ficam--graças a Deus--livres de toda a responsabilidade de educadora.
Para com as filhas é mais longa a sua missão, que não é desagradavel a espiritos que ficaram ignorantes das mais singelas regras de alta moral.
Quando as raparigas chegam á idade de procurar marido, ahi dos dezeseis para os dezoito, começa para a mulher o desempenho do papel, annos atrás a cargo da sua propria mãe, quando a acompanhou a todos os divertimentos, aguentou calôres e frios nos passeios da móda, cabeceou pelas reuniões dançantes, fez sacrificios para lhe comprar vestidos vistosos, despojou-se dos seus adornos para enfeitar as filhas, porque--e esta frase é bem caracteristicamente portuguêsa e lança toda a luz no módo de ser e nas aspirações da nossa pobre mulher--_já agradou a quem tinha de agradar_.
Agora é a vez da filha ir para _a amostra_, até encontrar _senhor_. Sujeitam-se a tudo: trabalham, quando não têm criadas, nos mesteres mais humildes, para que as filhas desempenhem o seu papel de princesinhas de contos á espera do principe encantado que as fará soberanas de deslumbrantes reinos imaginarios...
A rapariga, assim preparada, casa emfim, realisa a sua ambição, está finalmente _arrumada_--como é vulgarissimo dizer-se quando uma noiva passa, sorridente e confiada, dos mimos da casa paterna para os braços de um homem que na maior parte das vezes é quasi um desconhecido.
Pobres dellas!... O que julgam o _fim_ é apenas o _principio_--da sua árdua missão de mãe de familia.
Deixou de ser uma criatura sem deveres nem responsabilidades, a quem tudo se perdôa e desculpa, para ser a pedra basilar desse sagrado templo que se chama o lar.
Vai sêr _a mãe_! Vai pertencer-lhe, só a ella, por longos e dolorosos mêses, viver da sua vida, alimentar-se com o seu sangue, sentir pelos seus nervos, um pequenino ser informe que é o seu filho, que será para o futuro um homem ou uma mulher, que poderão ser uns criminosos ou uns santos, doentes ou sãos, devido, em muito, aos cuidados, preocupações e higiene moral e material da mãe.
Nascido para a vida, é ainda o objecto dos seus cuidados e amôr. Treme pela sua fragil existencia, alimenta-o com o seu leite, acalenta-o no seu regaço,--continúa a viver da sua existencia, póde assim dizer-se.
A mãe sente-se satisfeita com esses cuidados que dispensa aos pequeninos seres, que lhe enchem de ternura e de encanto o coração; e, cuida, justamente, que ninguem será capaz de os tratar e amar como ella...
Mas esta mulher tão cuidadosa e carinhosa não é, não pode ser, uma bôa mãe! Só o instincto a guia, e o homem de hôje é por tal fórma o producto de costumes e civilisações sobrepostas, que deixou ha muito de ser o _animal de instinctos_, segundo a natureza, para ser um producto de arte e de trabalho e de paciente cultura.
Educar uma criança de hôje, não é manda-la para a escola para que saiba lêr e escrever; é muito mais do que isso!
Ainda antes de nascer, já a criança deverá ser respeitada e amada, cohibindo-se a mãe de muita coisa que a póde prejudicar, cuidando do seu proprio somno, da sua alimentação, e da sua higiene, para que a delicada planta humana desabroche vigorosa e possa resistir e desenvolver-se propiciamente.
Conhecem, por acaso, a maior parte das mães, a responsabilidade duma gravidez?
Sabe a mulher que casou com a educação que descrevemos, que do conhecimento e da prática de simples noções de hygiene póde evitar aos seus filhos terriveis males, quasi todo o estendal das doenças infantis, que levam para a terra centenares de corpinhos inermes: desde a enterite, que faz das mais lindas creanças pequenos cadaveres ambulantes, até á atrepsía que, sob as côres rosadas da saude, disforma o esqueleto, dobrando as pernas em arco, dando ás criancitas o andar grotesco de _marrequinhos_ fóra da agua?
A propria tisica, a escrofulose, a anemia, como as inúmeras nevróses que desvairam a raça humana, são quasi sempre evitaveis se uma vida infantil regular e higienica tonificar o organismo e o preparar com a resistencia precisa para o triumfo dos principios vitaes.
Partindo do cuidado, quasi só material, dos primeiros dois ou três annos, a missão da mãe redobra a cada passo de dificuldades e requer toda a inteligencia e a tenacidade duma grande obra.
É então que todos os desvelos serão poucos para vigiar a consciencia que vai despertando, e que é necessario começar cedo a ser educada e dirigida para o bem.
Não faltará quem se ria ouvindo falar em educação duma criança de três ou quatro annos; e, no entanto, nada mais sério e nada mais util do que saber aproveitar a franquêsa dessa idade, que ainda não sabe mentir, para conhecer na criança o homem ou a mulher que será no futuro. É a ocasião de poder aproveitar todas as qualidades de um caracter e até os seus defeitos, e convertê-los em virtudes, sem torcer a vontade nem o temperamento individual.
E a mãe, a _pobre mãe_, que é a mulher da qual descrevemos o casamento, começa então a sentir que o seu filho se lhe escapa dos braços, arredando-se-lhe do coração, alheando-se-lhe do espirito.
Dahi em diante, a criança, pela vida e pela alegria da qual ella sacrificaria gostosamente a sua propria vida, dá cada dia um passo que a tornará uma estranha para aquella que lhe devia ser a mais certa e mais respeitada guia.
É quando, cheia de curiosidade, começa a abrir os olhos do espirito, que se não fartam de luz, e pergunta tudo quanto existe, tudo quanto lhe fere a atenção, sempre desperta e voluvel.
As coisas mais simples, como as coisas mais complexas, tudo procura saber e tudo é preciso que se lhe explique duma maneira comprehensivel. É o momento unico de lhe dar noções que nunca mais esquecem e que pela fórma estejam ao alcance dos seus poucos annos e rudimentar inteligencia, mas pela substancia resumem os conhecimentos e verdades que lhe serão uteis pela existencia fóra.
Se a mãe não responde, a criança desinteressa-se de coisas sérias e torna-se futil, ou vae fazer as suas perguntas ao pai, quasi sempre mais culto, e que por esse motivo passará a ser considerado superior á _mãe ignorante_. Se a mãe, não querendo passar aos olhos da criança por inferior, diz uma coisa ao acaso, que não é precisamente a verdade, o mal é ainda peor porque não tardará que a criança saiba, por estranhos, o contrario do que lhe disseram.
E não imaginem que ella esquecerá, não! Na primeira ocasião saberá mostrar a sua estranhesa.
Cresce: da escola _para sujeição_, onde a mãe a meteu por ser impossivel tê-la em casa desde os três annos, passa a frequentar as aulas públicas. Tem os seus compendios, que lhe falam de coisas de que não tinha a menor noção; cada passo é uma dificuldade, cada palavra um barranco, cada materia uma novidade, que o professor, entre tantos discipulos a reclamar-lhe a atenção, não tem tempo de aclarar-lhe o sentido. De lagrimas nos olhos, o livro na mão, a criança irá procurar aquella que mais estima, e que mais tem tido chegada ao coração desde que existe, para que lhe explique o que não comprehende. E a _pobre mãe_ não saberá auxilia-la, terá de confessar a sua impotencia, a sua ignorancia, diante do filho que se desespera!