Ás Mulheres Portuguêsas

Part 3

Chapter 33,935 wordsPublic domain

Conserva-se a mulher portuguêsa numa entorpecida indiferença pelas questões da actualidade, mesmo por aquellas que mais de perto a deviam interessar.

Alem dos cuidados, mais ou menos caseiros, deveria a mulher interessar-se pelas questões de civismo, como pelos varios problemas sociaes, que tambem de perto e profundamente a tocam, não só na sua vida individual como na sua influencia na familia.

O individuo pertence á familia, a familia á sociedade, e o que interessa esta por força hade interessar aquelle, numa sociedade bem organisada e equilibrada.

Não póde pois a mulher, principalmente quando é mãe, conservar-se na abstenção culposa em que tem vivido até aqui a mulher portuguêsa.

Ao seu espirito desocupado passa tão despercebido que um pedaço das colonias seja retalhado á patria, como um novo emprestimo ou uma sobrecarga de impostos--que venham agravar as condições geraes da vida, já de si tão dolorosas--sejam votados e postos em execução.

Qual a alma de mulher que vibra de enthusiasmo ao lêr uma pagina vehemente de patriotismo? Qual a que se desespera e indigna vendo a derrocada de caracteres que nos arrasta para um fim vergonhoso?!

Convenceram-na--e ella acreditou!--de que não deve pensar em _politica_, porque isso lhe tira toda a modestia e ductil graça tornando-a uma desagradavel _Maria da Fonte_; e, no entanto, não sendo ouvida quando se trata de novos emprestimos, despesas extraordinarias e desequilibrios orçamentaes, mais do que ninguem os sente e sofre ella, na sua qualidade de reguladora das despesas da familia.

A mulher, e, o que é mais, a mãe, não se interessa pelos trabalhos intelectuais que o filho tem a seguir, não estuda as questões pedagogicas, não impõe a sua vontade, só se fôr para lamentar a criança, que tem de se maçar com tantos livros... Não pensa nem dá importancia á educação dos rapazes, isto é, dos homens que hão-de ser os maridos das suas filhas, os pais educadores dos seus netos; não se indignam nem protestam contra as injustiças e prepotencias que a seu lado se praticam, como não se enthusiasmam por uma manifestação da arte nacional ou por um acto de coragem e hombridade que levante, ao menos por instantes, o nome português.

A mulher, a mãe, recebe com o mesmo sorriso carinhoso o filho que passou num exame por empenhos, como se elle fosse um consciencioso estudante; o que compra o emprego, sabendo que comete uma ilegalidade; o marido que por comodismo ou por interesse aceita todas as imposições dos superiores, sem um protesto de consciencia; o noivo que apresente mais valiosos titulos de renda, seja qual fôr a sua procedencia.

A mulher, que hade no futuro ser acusada por todas as faltas civicas do seu tempo, julga-se desobrigada porque delegou no homem todas as responsabilidades e todos os encargos da governança publica.

Ora isto não é assim, porque, de todos os crimes civicos do homem, é a mulher a verdadeira culpada.--«_Deante da esposa e talvez ainda mais das filhas, quando civicamente educadas_--diz o sr. dr. Bernardino Machado--_ninguem se atreveria a aparecer depois duma má ação na sua vida publica._»

Grande é pois a responsabilidade da mulher no estado de depressão moral, que é a caracteristica da sociedade portuguêsa dos nossos dias.

Não posso crêr que seja isto falta de sentimento, essa flôr delicada que dizem ser apanagio do coração feminino e que é a ultima que nelle fenece; não posso crêr que a generosidade, o altruismo, a coragem, que em todos os tempos nimbaram de luz o espirito da mulher portuguêsa, a tenham abandonado de todo, para sómente se manifestarem em algumas almas masculinas.

Não, não é isso possivel, que seria contrariar todas as leis da natureza, falsear todas as tradições, duvidar de tantissimos factos que nobilitam a mulher do nosso paiz.

É que hoje, desinteressadas por educação e por habito das questões que tanto preocupam o espirito masculino, não pensam que--em todos os actos da vida nacional em que os seus nomes entrassem, protestando pelo direito e pelo dever contra a injustiça, a força e a intriga politica, seria uma afirmação dos seus sentimentos civicos e a próva de que comprehendiam as questões de que depende a felicidade da sua Patria, o futuro honrado dos seus filhos.

Com esse simples acto espontaneo da vontade, provariam que o seu sexo, embora afastada das luctas que se dirimem dia a dia no jornalismo e na politica de _dize tu direi eu_, que é a politica portuguêsa dos ultimos tempos, acompanha e apoia os homens, quando justa e nobre é a sua causa.

Mostrariam conhecer os deveres e os direitos que assistem a todo o cidadão livre, seja homem ou mulher, de protestar contra os actos que a sua consciencia repudía, embora praticados á sombra das leis.

Tendo dado essa prova de individualidade mostrarieis ser, senhoras, as mulheres que deveis ser para que os vossos filhos, no futuro proximo que os espera--quem sabe de que vergonhas e miserias tecido!--tenham a nobre coragem de se sacrificarem pelo resurgimento da Patria Portuguêsa.

Mas sabeis porventura o que é _sêr português_, vós que falais a lingua que tem todas as energias do mar bravo e todas as doçuras dum poente entre pinhaes rumorejantes?...

Sabeis o que é _sêr português_, vós que pizais indiferentes uma terra tantas vezes embebida em sangue dos que luctaram até á morte para a tornar uma Patria livre?...

Sabeis o que é _sêr português_, vós que respirais o aroma das flôres que por toda a parte desabrocham em hilariantes coloridos, neste abençoado canto do universo?!...

Sabeis o que é _sêr? português_, vós que recebeis a dulcida caricia dum céo limpido, que passeais os vossos olhos sobre as aguas movediças que levaram os nossos antepassados á aventura gloriosa de descobrir novos caminhos e novos mundos maravilhosos, essas aguas que trouxeram, em paga de tanto esforço e tanta heroicidade, o oiro, as pedrarias, a riquêsa que deslumbrou o mundo e--ai de nós!--pela vaidade nos perdeu!?

Sabeis o que é _sêr português_, senhoras!?...

Pesa-me dizer-vos que, salvo algumas excepções, não o sabeis.

Que isto vos não cause enôjo, e que sobre a minha cabeça não cáiam as vossas ironias e odios!

Se vós o não sabeis, pouca ou nenhuma culpa tendes, que de longe vem o despreso pela vossa educação, que de bem longe vem o mal que nos está ligando como cadaver embalsamado prompto a entrar para o tumulo historico das nações que só vivem do passado.

Mas podeis ainda resistir. É tempo ainda de sacudir a apathia egoista em que vos conservaes ante todas as angustias colectivas do paiz, e mostrar ao mundo que o povo português não morreu ainda, porque as suas mulheres, as mães, têm sempre no coração a imagem estremecida da Patria, e ensinam os filhos a respeita-la, a ama-la mais do que á sua noiva, mais do que aos seus proprios pais.

A nação amada pelas mulheres não morre nunca na historia.

Martirisada, dividida, conquistada, não morre emquanto as mães transmitirem aos filhos, com o leite dos seus peitos, o sangue das suas veias, o fogo das suas palavras, o despreso aos vencedores e o amôr á terra que foi de seus avós, á terra onde existe a sua casa, que é o seu lar.

Começam por ensinar-lhes no berço, acalentando-os com ellas, as lendas e cantares da sua patria; acabam por lhes indicar o caminho por onde enveredaram os que sofreram e morreram contentes pela sua gloria.

Falo-vos ao sentimento, eu sei, mais do que á razão, mas prouvéra a Deus que fôsse o sentimento que guiasse ainda o nosso paiz! Quando uma patria é nova, crente, esperançada e forte, firmando-se no amôr e no enthusiasmo dos seus filhos, não se prende por conveniencias, não recúa ante o perigo, não sabe contar os inimigos que a atacam, para os vencer. Por isso avança, torna-se inolvidavel na historia, como nós o fômos!

Só na decadencia se aprende a transigir, decadencia que tanto póde ser material como moral, decadencia que é, a maior parte das vezes, filha só do egoismo, do desejo inferior de gosar sem que o gôso dos outros nos seja preciso para a felicidade propria.

E no nosso paiz transige-se para se estar bem com todos, transige-se por preguiça de discutir, transige-se por uma emaranhada teia de preconceitos, de pequeninas considerações que amolecem o ânimo, quebrantam as vontades, e fazem das oposições uma coisa ridicula, porque não têm éco nas almas, ou são, quando muito, um brado louco e desacompanhado de quem vê uma grande multidão correr para um abismo e nada póde fazer para a sustêr e salvar.

Mas não ensineis a vossos filhos essa excessiva transigencia, senhoras! Deixai aos moços o enthusiasmo e a fé; não estanqueis a fonte de coragem e energia e justiça que existe em toda a alma joven!

Levantai o espirito para mais nobres ideais, não vos amesquinheis numa abstenção que não é modestia mas ignorancia, indiferença, covardia das vossas almas que assim querem fugir á dôr forte e nobre do sêr que aspira--a ascender, na escala zoologica, de simples animal de instinctos para criatura de espirito e de vontade.

Não tenhais mêdo da dôr intelectual que retorce febrilmente os nervos em convulsões de agonia e aperta a garganta inchada de soluços num estrangulamento de desespero, vós, as mães, que sofresteis corajosamente a dôr fisica de ter um filho! Tornai-vos conscias da grande missão que é de vosso dever desempenhar, com a firme certeza de que não ha paiz grande onde a mulher seja inferior.

Vós, mães e educadoras, que tendes a vosso cargo pequenas almas em embrião a despertar para a luz, ensinai-lhes primeiro do que tudo, e antes de tudo,--a serem portuguêses.

E ser português é amar a sua terra entranhadamente, religiosamente, esta terra de que somos filhos e não podemos despresar sem nos despresarmos a nós mesmos.

Ser português é aprender a sua lingua antes de nenhuma outra; é lêr os livros que portuguêses têm escripto; é conhecer os seus artistas; não despresar as suas industrias; comer o producto da sua terra; amar as paisagens, ora recortadas em fundo grandioso de montanhas, ora espraiando-se em campinas onde as searas ondulam em marés verdes de esperança e os gados pastam com fartura; cantar as suas canções; folgar com as festas do seu povo; amar a sua flóra tão simples e graciosa; estudar a sua arte em todas as manifestações, desde a bilha de barro abrindo-se em duas azas, recordando a amfora romana, tão gentilmente posta sobre a cabeça da rapariga de Coimbra, até á magnificente fabrica do mosteiro da Batalha, sem esquecer o mobiliario severo e nobre dos nossos avós, a ourivesaria subtilmente trabalhada, os tecidos, a ceramica, as rendas, que, em tudo, houve tempo em que fomos _alguem_.

Se o não somos hôje, cuidais que os artistas e a patria é que são os responsaveis de tão grandes decadencias?

Não; uma, não póde nada, prisioneira do oiro nas mãos dos usurarios; os outros, sem estímulo nem público que lhes pague as fadigas e os empurre para o exito, ou lhes mostre pelo despreso a inferioridade do trabalho, retiram-se do campo onde a mediocridade dá leis. São poucos os que á força de vontade e coragem conseguem não esmorecer, trabalhando mais para satisfação propria do que pelos lucros materiais.

Que a Arte não dá hôje gloria em Portugal, e muito menos riqueza.

Se não sômos o que já fômos é que uma educação fundamentalmente portuguêsa falta por completo no nosso paiz.

A criança começa por interessar os olhos ingenuos nas estampas dos livros estrangeiros--ou vindas do estrangeiro para adaptar a coisas portuguêsas, o que é peor ainda!--por lêr traduções das historias que nos outros paizes se fazem para os pequeninos; por vestirem luxuosos vestidos cujos modelos vieram de fóra; por só apreciarem as flôres exoticas cultivadas com mimos de estufa, despresando a simples e honesta flora portuguêsa, tão espontanea e bella; por vêr as habitações dum tão duvidoso gosto de importação, os brinquedos, a loiça, os navios, os carros, os velocipedes, que tudo nos vem do estrangeiro e nos dá o aspecto banal e miseravel de povo sem nacionalidade.

Só vós, senhoras, podereis levantar-nos desta situação por demais incaracteristica e infamante!

Só vós podereis insuflar na alma dos moços o respeito pelo passado, o horror da situação presente, e a esperança consoladora num futuro melhor!

Num futuro que não está nos cursos complicados, nas repartições da burocracia, nos feitos das vanglorias militares com _sobados_ africanos, mas nas oficinas, nas fabricas que nos poderão criar industrias exportadoras, no cultivo da terra que nos dá o pão do nosso sustento, o linho da nossa roupa, as fructas mais delicadas, o arroz, a cortiça, o vinho, as conservas, e tantissimas coisas que já hôje se exportam a mêdo e que poderão ser outras tantas fontes de riqueza, se a ellas se dedicarem inteligencias e dinheiro que mal parados andam umas e outro.

E nós, as mulheres, que temos nas nossas mãos a alma dos nossos filhos, que é como quem diz o futuro e a esperança, ensinêmos-lhes a despresarem o caminho das transigencias acomodaticias e a fugir do fatalismo musulmano com que temos acolhido, de braços cruzados, todos os desastres e toda a decadencia da nossa nacionalidade.

Preparêmo-los para que entrem na vida cheios de coragem e energia para o trabalho, renegando as miserias e as vergonhas de agora, e façam resurgir das ruinas duma sociedade que se anulou a si mesma, um Portugal novo, conscio de si, altivo e digno.

Nas vossas mãos, senhoras, está a rehabilitação das humilhações e vergonhas que ha dois seculos formam o triste fundo da nossa vida pública.

Nas vossas mãos está a morte definitiva da Patria Portuguêsa ou o seu resurgimento para o trabalho e para a vida.

Ponhâmos de parte as frivolidades que nos ensinaram a crêr que são a maior graça do nosso sexo, e sejâmos _mulheres_ como o devemos ser:--criaturas conscientes e autónomas, companheiras e aliadas do homem, as verdadeiras educadoras de seus filhos.

Como a dama romana que mostrava os filhos como as unicas joias de preço que possuia, tiremos nós mais gloria em mostrar os nossos como cidadãos livres, sobrios e honestos, em vez de lhes darmos exemplos de ostentação e grandêsa que se não coadunam com a modestia da nossa terra e só provam a decadencia moral da sociedade em que vivemos.

Pensai nisto, senhoras, e ensinai-o a pensar a vossas filhas, porque tem mais interesse para o seu futuro e para o dos seus noivos do que o ultimo figurino, ou a ultima valsa tocada de ouvido ao piano.

Fazei de vossos filhos homens saudaveis de corpo e de alma, e das vossas filhas as companheiras dignas desses homens, capazes de os auxiliar no trabalho, alegres nas privações como modestas na grandêsa, e tereis cumprido a mais bella missão da mulher, dado a mais alta lição de verdadeiro e salutar patriotismo.

NO ANNIVERSARIO DUMA ESCOLA

Pela descripção da festa realisada este anno[3] na «_Escola 31 de janeiro_» deveis saber que alguns homens dos mais notaveis pelos seus talentos e caracteres se referiram a nós, mulheres, em varias passagens das suas orações eloquentes. E para frisar essas passagens vos escrevo, porque é do vosso interesse, do interesse de nós todas que se trata,--e todas deveis saber o que valeis e quanto a sociedade espera e tem direito a esperar da vossa cultura e ação inteligente.

Foi-me grato encontrar nas palavras da luminosa e bondosa alma que é o dr. Manuel de Arriaga, um apêlo á mulher portuguêsa--_que tem sido até hôje_, no seu proprio dizer, _o maior auxiliar da tirania_.

Mas um auxiliar inconsciente, dizemos por desculpa, se a inconsciencia a póde ser, não o sendo a _ignorancia das leis_ perante o delicto a punir.

Apraz-me conhecer a opinião do infatigavel batalhador sr. Heliodoro Salgado, porque essa opinião coincide com a minha, expressa em muitas paginas destas mesmas cartas, espalhada por artigos e correspondencia particular que sobre o assumpto ha muito tenho escripto.

Comoveu-me o pedido do sr. dr. Teixeira de Carvalho, o energico e brilhante espirito, feito _ás Mães Portuguêsas_.

Não fômos esquecidas, nessa manifestação de quanto póde a inteligencia e a vontade aliadas no bem--exercicio de força que não tem por campo de manobras os montes e as encostas duma região, mas o espaço infinito do pensamento. Não tem horizontes que se fechem em recorte de montanhas agrestes, é campo aberto a todas as energias e vontades, esplendente de luz que não queima em fantasmagorias dolorosas de febre, mas que ilumina as almas e aclara os espiritos, fazendo-os ascender ás regiões superiores da verdadeira e pura Consciencia.

Se pudessemos ter assistido a essa reunião em que festejou a criança--a pobre criança portuguêsa, tão tristemente educada, tão despresada mesmo!--o amoravel apostolo da educação dr. Bernardino Machado, mortificar-nos-ia o sentimento da propria inferioridade, que não nos deixaria responder com a confissão das nossas culpas, mas tambem com o nosso libello acusatorio aos homens livres, que têm consentido em que as mulheres sejam as mais ardentes adversarias dos seus ideais, o auxiliar passivo e inconsciente da tirania e do retrocesso.

É justa, se bem que implicada de censura amarga aos homens, a frase do sr. Heliodoro Salgado:--_resgatêmos a mulher da ignorancia a que a temos condenado e ella será a nossa cooperadora na revolução_.

Educar a mulher; torná-la util a si e aos seus, pelo trabalho remunerado; escolher cada homem livre esposa que o seja, não só do corpo mas tambem do espirito, não só humilde e paciente dôna de casa, mas nobre e inteligente educadora, fóco de luz e de bondade superior, irradiando na familia, como sol por onde se norteia a alma caminhando para o futuro.

Se assim fosse, a revolução deixaria de ser um facto brutal e rude para ser tão sómente uma evolução triumfante para a humanidade que marcha e se resgata...

Não ha homem que se possa dizer livre, e que afoitamente possa responder pela sua propria consciencia, em todas as horas de desfalecimento e de dôr, quando a seu lado tenha--ignorante, mas teimosa na crença; sem brilho na palavra, mas cheia de convicção no olhar; sem convencer pela razão, mas abalando pelo comentario de cada hora--a mulher que é a sua companheira, que foi talvez a sua paixão, que é a mãe dos seus proprios filhos.

A mulher, sempre atrazada, por mingua de educação, no evolucionar das aspirações e das novas crenças sociaes é o agente mais importante do retrocesso e da rotina.

É ella que em politica, como em sciencia, como em tudo mais, é sempre pelos velhos preconceitos, pelo estatuído, pelo comodismo egoistico e enervante do _seguro_, pelo que ouviu tradicionalmente e não discute nem quer ouvir julgar nem discutir...

Ora a tradição e o respeito pelo passado, se é uma virtude e um estudo indispensavel para o conhecimento perfeito dos costumes e reconstituição historica de uma época, como norma de vida e como crédo intangivel é a negação de todo o progresso e de toda a civilisação.

Conversando ha dias com um pobre barqueiro, de rio acima, ouvimos-lhe, no limitado e pitoresco vocabulario do seu chão estilo, esta observação que é curiosa, pelo que nos revela mais do que pelo que nos diz:--agora--dizia--está tudo mais _esperto_. O que antigamente só podia fazer um homem velho no oficio e cheio de experiencia, fa-lo hôje, quasi sem custo, um rapaz de dezeseis annos. Os senhores haviam de vêr como rapazinhos governam ahi barcos, rio acima, conhecendo todos os esteiros e manobrando dentro dos canaes das marinhas, como os velhos só o faziam dantes ao cabo de muitos annos lidarem por aquelles sitios. _É que está agora tudo mais esperto!_--Repetia, concluindo, a frase que era o seu bordão.

Não é porque esteja tudo mais _esperto_, como queria o homensinho, comprehendem muito bem, mas é porque está tudo um pouco mais instruido. Um rapaz de dezeseis annos que sabe lêr o seu roteiro é incomparavelmente superior ao velho ignorante que só na memoria póde armazenar conhecimentos e esses mesmos com lentidão e insuficiencia adquiridos pela prática.

A mulher portuguêsa tem vivacidade de espirito e assimilação facil; não lhe falta o enthusiasmo nem a paixão; bastaria pois que a educassem e a orientassem.

Mas de quem póde esperar esse forte impulso libertador, unico capaz ainda de levantar a alma portuguêsa a toda a altura da exigente vida moderna? Dos pais que não educam as filhas como criaturas humanas e sim como bonecas de corda, de que é preciso vigiar o maquinismo, e que em vez de lhes fornecerem educação que lhes garanta o futuro pensam com afinco em lhes amoedar o dóte, que mais facil lhes torne o casamento? Das mães, que não comprehendem o que hôje se chama educação feminina e ainda se surprehendem e assustam com inovações de que ouvem falar vagamente? Do homem, já amezendado na vida, comodista, defendendo por egoismo o que lhe satisfaz as aspirações de senhor; querendo a esposa muito sua humilde companheira, hôje prompta a servi-lo, ámanhã a ser a criada dos seus filhos?...

De nenhum desses póde receber o salutar influxo que a torne a companheira condigna do homem civilisado, que a sociedade prepara no seio revoltoso das luctas e desesperos de hôje para um ámanhã mais justo.

É dos rapazes novos--não daquelles que entraram na vida tarados para o ramerrão comodista dos empenhos e empregos públicos, numa covardia mórbida para a revolta e para a lucta--mas duma pleiade de moços a sair das escolas, cuja alma sentimos palpitar numa _aspiração perfeita das suas responsabilidades_, como disse o Snr. Teixeira de Carvalho. São esses os que as podem encaminhar para a emancipação intelectual, esses os que devem colocar-se ao lado das suas irmãs e, tornando-as as suas verdadeiras companheiras, prepararem o seu proprio futuro de serenidade e confiança no lar.

Então o homem póde entrar com segurança na vida e ferir as batalhas mais sangrentas sem o receio de ver atraiçoada a sua obra na propria casa, na sua familia, pela companheira da sua vida, e pelos filhos educados no despreso e no odio ás suas ideias.

O que em Portugal se tem feito pela mulher é pouco e máu, mas o que se tem feito pela criança é ainda menos e peor, se é possivel.

Por isso nos consola uma festa como a da _Escola 31 de Janeiro_, iniciativa de rapases das escolas, sustentadas em annos consecutivos de lucta pela esforçada coragem de dois ou três que não debandaram nem desanimaram, passado o primeiro momento do arrebatado enthusiasmo da alma meridional.

Era isto, que fizeram alguns rapases das escolas, isto que fazem hôje e sempre os snrs. Luiz Derouet, Santos Franco e outros, não afrouxando nunca na propaganda, não esmorecendo na campanha contra a indiferença do público; era isto o que eu desejava que as mulheres fizessem. Não as casadas, que têm a sua vida, os seus filhos, os seus encargos, mas as raparigas que estudam e pensam; senhoras novas e inteligentes que do pouco fizessem muito á força de energia e amôr pelas crianças, raparigas modestas que desejassem fazer obra de honestidade e proveito e não especulação caridosa para arranjar noivo mais depresa.

Seriam essas, as futuras mães e educadoras, quem desejariamos á frente de escolas e institutos infantis, criados pela sua iniciativa, vivendo do seu benefico influxo.

Ahi, no convivio da alma da infancia, tão obscura e complexa, aprenderiam o seu papel de mulheres na familia.

Na _créche_, ellas aprenderiam a enfachar um pequenino corpo leitoso e mole, que mais tarde a natureza lhe porá ao seio e que as suas mãos inhabeis mal poderão tocar com mêdo de que se despedace. Aprenderiam quais as doenças que mais adquire a primeira infancia; qual a maneira de as evitar e combater, o que se chama a hygiene propriamente infantil.

Na _escola maternal_, aprenderiam, ensinando, como é facil educar e instruir crianças de menos de seis annos, conservando-as sempre na atmosfera alta da curiosidade e da aprendisagem.

Na _escola primaria_ comprehenderiam quanto é agradavel e facil ensinar crianças, quando a familia ou a primeira escola as enviarem já com o raciocinio desabrochado e com certas noções da vida e da natureza que as rodeia.